{"id":701,"date":"2015-04-23T13:31:00","date_gmt":"2015-04-23T13:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=701"},"modified":"2015-04-17T13:37:47","modified_gmt":"2015-04-17T13:37:47","slug":"rapidos-comentarios-sobre-livros-lidos-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=701","title":{"rendered":"R\u00e1pidos coment\u00e1rios sobre livros lidos &#8211; 1"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que <strong>Os detetives selvagens<\/strong>, de <strong>Roberto Bola\u00f1o<\/strong> (Companhia das Letras), seja um romance bem executado, como quer S\u00e9rgio Rodrigues\u00a0<a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/todoprosa\/vida-literaria\/franzen-bolano-e-o-%E2%80%98hype%E2%80%99-literario\/\">aqui<\/a>. A primeira e a terceira partes deste extenso romance (624 p\u00e1ginas) s\u00e3o os di\u00e1rios do personagem Garc\u00eda Madero, que tratam, entre outros temas, de dois poetas, Ulises Lima e Arturo Belano, e sobre a procura deles pela poetisa Ces\u00e1rea Tinajero. Na segunda \u2013 e maior \u2013 parte um enorme n\u00famero de pessoas conta suas hist\u00f3rias e d\u00e1 depoimentos sobre os mesmos Ulises Lima e Arturo Belano. <!--more-->\u00c9 extremamente bem bolada a maneira com a qual a vida destes dois parece sempre ser uma parte secund\u00e1ria das hist\u00f3rias que est\u00e3o sendo contadas. Mas, ao contr\u00e1rio de S\u00e9rgio Rodrigues, n\u00e3o posso absolutamente concordar que \u201cOs detetives selvagens\u201d seja superior, em qualquer aspecto, ao cl\u00e1ssico \u201c2666\u201d, j\u00e1 comentado aqui (Rodrigues parece mais preocupado em ser do contra do que qualquer outra coisa, haha). A longa rela\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias de pobres, intelectuais ou simplesmente desajustados de \u201cOs detetives selvagens\u201d apresenta momentos sublimes \u2013 mas muitos outros do mais puro t\u00e9dio. Bem diferente de \u201c2666\u201d, em que sentimos estar num mundo j\u00e1 conhecido &#8211; mas ao mesmo tempo estranho, fascinante e maravilhoso.<strong>(8\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">De <strong>Roberto Bola\u00f1o<\/strong>, gostei bem mais de <strong>Noturno do Chile<\/strong> (Companhia das Letras), uma curta novela em que o padre Sebasti\u00e1n Urrutia \u2013 que \u00e9 tamb\u00e9m um excelente cr\u00edtico liter\u00e1rio \u2013 desfia coment\u00e1rios sobre a cultura chilena no tempo de Pinochet. Ao mesmo tempo em que demonstra ter uma profunda e vasta cultura, o padre \u00e9 um tanto pusil\u00e2nime em momentos-chave da hist\u00f3ria. Fascinante. <strong>(9\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">Os pequenos contos de <strong>Cenas da vida na aldeia<\/strong>, do escritor israelense <strong>Am\u00f3s Oz<\/strong> (Companhia das Letras), s\u00e3o interligados como os romances de Balzac: os personagens principais numa narrativa aparecem de passagem em outras. Em r\u00e1pidas pinceladas, Am\u00f3s Oz apresenta com maestria dramas quase insignificantes \u00e0 primeira vista, mas de grande for\u00e7a dram\u00e1tica. <strong>(10\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">Em <strong>A caixa preta <\/strong>(Companhia das Letras), o mesmo <strong>Am\u00f3s Oz<\/strong> utiliza a t\u00e9cnica epistolar para contar sua hist\u00f3ria. Esta t\u00e9cnica \u2013 que consiste em fazer todo o romance ser contado por meio de cartas \u2013 j\u00e1 possibilitou a cria\u00e7\u00e3o de obras-primas, como \u201cAs liga\u00e7\u00f5es perigosas\u201d, de Choderlos de Lacos, ou de livros francamente chatos, como \u201cM\u00e9moires de deux jeunes mari\u00e9es\u201d, de Honor\u00e9 de Balzac. \u201cA caixa preta\u201d pertence ao primeiro caso. O livro conta a hist\u00f3ria de uma mulher, Ilana, seu primeiro marido, Alex Gideon &#8211; um sujeito violento que tamb\u00e9m \u00e9 um pesquisador brilhante -, seu segundo marido, Michel Sommo &#8211; um quase fan\u00e1tico religioso &#8211; e seu filho Boaz, revoltado e sem estudo por iniciativa pr\u00f3pria. \u201cA caixa preta\u201d \u00e9 forte, profundo, e apresenta personagens extremamente bem constru\u00eddos (me lembrou os melhores momentos de Philip Roth). <strong>(10\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\"><strong>Onitscha<\/strong> (Gallimard), de <strong>J.M.G. Le Cl\u00e9zio<\/strong>, conta a hist\u00f3ria do garoto Fintan e apresenta muitos dos temas caros ao pr\u00eamio Nobel de 2008: o in\u00edcio de vida id\u00edlico junto \u00e0 natureza e a posterior perda do para\u00edso devido a problemas financeiros, a pobreza africana, a a\u00e7\u00e3o muitas vezes perversa do colonizador europeu. H\u00e1 quem pense que Le Cl\u00e9zio seja apenas um escritor de boas inten\u00e7\u00f5es \u2013 mas est\u00e3o enganados, profundamente enganados. Ele \u00e9 um gigante da literatura, n\u00e3o h\u00e1 por que deixar de repetir isto. <strong>(10\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\"><strong>Las edades de Lul\u00fa <\/strong>(Tusquets), de <strong>Almudena Grandes<\/strong>, conta em primeira pessoa a hist\u00f3ria de uma mulher que teve pouca aten\u00e7\u00e3o dos pais na inf\u00e2ncia e na juventude, e que mais tarde procura todo o tipo de experi\u00eancia er\u00f3tica \u2013 seria para preencher um vazio na alma? Filmado por Bigas Luna, o romance \u00e9 extremamente forte e er\u00f3tico, mas seus personagens n\u00e3o chegam a despertar a simpatia do leitor. <strong>(7\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">Muitos dos poemas que <strong>Tom\u00e1s Antonio Gonzaga<\/strong> faz para sua musa em <strong>Mar\u00edlia de Dirceu<\/strong> (L&amp;PM), necessitam de conhecimento das mitologias grega e romana para sua compreens\u00e3o \u2013 e as notas da edi\u00e7\u00e3o da L&amp;PM ajudam muito neste sentido. Mas os poemas mais tocantes s\u00e3o aqueles escritos antes e depois de seu ex\u00edlio, ao que o poeta foi condenado (ao que tudo indica injustamente) por participar da Inconfid\u00eancia Mineira. <strong>(8\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">Jo\u00e3o Barrento, que selecionou e traduziu para o portugu\u00eas os poemas de <strong>Outono Transfigurado <\/strong>(Ass\u00edrio &amp; Alvim), de <strong>Georg Trakl<\/strong>, selecionou os poemas &#8220;c\u00edclicos&#8221; e em prosa do poeta austr\u00edaco. No livro voc\u00ea encontra trechos como \u201c<em>Um lobo vermelho a ser estrangulado por um anjo. As tuas pernas tilintam, a andar, como gelo azul, e um sorriso cheio de tristeza e arrog\u00e2ncia empederniu-te o rosto, e a fronte empalidece com a vol\u00fapia da geada<\/em>\u201d. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Trakl \u00e9 um dos favoritos da casa. <strong>(10\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\"><strong>Tolst\u00f3i<\/strong>, em <strong>Sonata a Kreutzer<\/strong> (Planeta DeAgostini), defende que o sexo \u00e9 um dos grandes males da humanidade: perverte os homens e destr\u00f3i a autoestima e o corpo das mulheres. A interpreta\u00e7\u00e3o do grande escritor russo sobre o Evangelho de Cristo (ele chegou a ser excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa) diz que o objetivo da humanidade deveria ser o de viver pura e castamente &#8211; e, para exemplificar o mal que o sexo faz \u00e0 humanidade, ele conta uma hist\u00f3ria impressionante de viol\u00eancia causada pelo ci\u00fame. N\u00e3o \u00e9 preciso concordar com Tolst\u00f3i para reconhecer que esta \u00e9 mais uma das muitas obras-primas do autor. <strong>(10\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio concordar com o pessimismo de\u00a0<strong>Jonathan Swift <\/strong>para se deliciar com <strong>As viagens de Gulliver <\/strong>\u2013 esta, ali\u00e1s, \u00e9 tese de George Orwell no \u00f3timo pref\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o da Penguin\/Companhia das Letras. Em poucas palavras, Swift acha que a humanidade n\u00e3o presta: a quantidade de v\u00edcios humanos que o autor relaciona no livro \u00e9 imensa \u2013 al\u00e9m do fato reconhecido de que Swift se sentia extremamente mal com a apar\u00eancia e com os fluidos humanos, o que transparece a toda hora neste brilhante romance sat\u00edrico. Depois de passar em terras de pessoas do tamanho de polegares, em terras de gigantes e em uma regi\u00e3o governada desde uma ilha voadora, Gulliver encontra o para\u00edso junto aos Houyhnhms, uma esp\u00e9cie de cavalos extremamente racionais e sem os v\u00edcios humanos. Sensacional. <strong>(10\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\"><strong>Inf\u00e2ncia<\/strong>, de <strong>Maksim G\u00f3rki <\/strong>(Abril Cole\u00e7\u00f5es), conta, com grande vivacidade e express\u00e3o liter\u00e1ria, os primeiros anos do grande escritor russo. O livro \u00e9 muitas vezes doloroso: ap\u00f3s a morte do pai, o autor saiu de um lar feliz e foi morar com o av\u00f4, homem irasc\u00edvel e violento \u2013 mas capaz de momentos de ternura. Na casa, o carinho da av\u00f3 \u00e9 praticamente o \u00fanico contraponto \u00e0 viol\u00eancia reinante. Por outro lado, em nenhum momento o escritor se faz de v\u00edtima e a esperan\u00e7a parece sempre presente. Uma obra-prima.<strong>(10\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\"><strong>As teorias selvagens<\/strong>, da argentina <strong>Pola Oloixarac<\/strong> (Companhia das Letras), conta duas hist\u00f3rias paralelas: a primeira \u00e9 a de um casal de namorados cultos e feios, e a segunda \u00e9 sobre uma estudante que tenta ressuscitar uma antiga teoria esquecida de ci\u00eancias humanas. Cultura pop, pol\u00edtica (o livro foi muito criticado pela esquerda argentina), filosofia, sociologia, humor e sexo est\u00e3o entre os muitos elementos que entram neste livro explosivo. Se por um lado o ponto alto do romance s\u00e3o os engra\u00e7ad\u00edssimos trechos em que temas banais s\u00e3o descritos com terminologia de ensaio de ci\u00eancias humanas, por outro leitores como eu podem se queixar da falta de profundidade psicol\u00f3gica dos personagens &#8211; caracter\u00edstica comum de romances de fundo sat\u00edrico. <strong>(9\/10)<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\"><em>(texto publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/blogs\/livros-lidos-recentemente-9.html\">blog do Mondo Bacana<\/a> em 10 de setembro de 2011)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que Os detetives selvagens, de Roberto Bola\u00f1o (Companhia das Letras), seja um romance bem executado, como quer S\u00e9rgio Rodrigues\u00a0aqui. 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