{"id":695,"date":"2015-04-22T02:09:10","date_gmt":"2015-04-22T02:09:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=695"},"modified":"2015-04-16T02:12:55","modified_gmt":"2015-04-16T02:12:55","slug":"dez-na-area-um-na-banheira-e-ninguem-no-gol-volume-1-de-varios-autores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=695","title":{"rendered":"Dez na \u00c1rea, um na Banheira e Ningu\u00e9m no Gol \u2013 Volume 1, de v\u00e1rios autores"},"content":{"rendered":"<p>Segundo o ex-jogador e atual comentarista Tost\u00e3o, &#8220;o grande craque \u00e9 o que simplifica, define logo a jogada. Antes da bola chegar, j\u00e1 sabe o que vai fazer com ela. N\u00e3o perde tempo com detalhes in\u00fateis. Assim \u00e9 tamb\u00e9m o cartunista, desenhista e contador de hist\u00f3rias em quadrinhos. O desenho e as poucas palavras &#8211; ou nenhuma \u2013 informam, analisam e nos divertem&#8221;.<!--more--><\/p>\n<p>O trecho acima foi retirado do pref\u00e1cio da colet\u00e2nea de quadrinhos, de v\u00e1rios autores, &#8220;Dez na \u00c1rea, um na Banheira e Ningu\u00e9m no Gol \u2013 Volume 1&#8221; (Via Lettera, 112 p\u00e1ginas, R$ 42,00 em m\u00e9dia). Todas as dez pequenas hist\u00f3rias, boa parte delas sem t\u00edtulo, contidas no livro t\u00eam como assunto principal o futebol \u2013 tema, obviamente, mais do que em voga nestes tempos de Copa do Mundo.<\/p>\n<p>O tipo de enfoque dos quadrinistas para com o mais popular esporte do mundo varia bastante de um caso para outro. Num cartum ufanista e sem gra\u00e7a, assinada por Osvaldo Pavanelli e Em\u00edlio Damiani, e dedicada ao Mestre Ziza (apelido de Zizinho, famoso craque que jogou nas d\u00e9cadas de 40 e 50), os jogadores de 1982 aparecem flutuando acima do ch\u00e3o, enquanto que aqueles da Copa de 1994 s\u00e3o desenhados como jogadores de pebolim: \u00e9 a velha e desgastada apologia do futebol arte se fazendo presente \u2013 como se poderia esperar, os jogadores de 58, 62 e 70 aparecem quase como super-her\u00f3is. Mas esta \u00e9 a \u00fanica hist\u00f3ria em que jogadores famosos aparecem: nas outras nove, a cr\u00edtica, as recorda\u00e7\u00f5es dos autores ou a fantasia d\u00e3o o tom.<\/p>\n<p>Lelis comp\u00f4s uma \u00f3tima, debochada e corrosiva HQ em que o futebol dos pres\u00eddios de seguran\u00e7a m\u00e1xima \u00e9 narrado como se fosse realizado fora das grades, ou de modo profissional: por exemplo, enquanto a narra\u00e7\u00e3o fala em torcida soltando &#8220;fogos de artif\u00edcio&#8221;, o desenho mostra presidi\u00e1rios atirando com seus rev\u00f3lveres para o alto; quando o coment\u00e1rio \u00e9 a respeito da &#8220;comovente&#8221; capacidade de improvisa\u00e7\u00e3o do brasileiro, que usa &#8220;qualquer coisa&#8221; como bola, o desenho mostra os jogadores disputando uma partida chutando um cr\u00e2nio humano; quando a narra\u00e7\u00e3o fala de um centroavante &#8220;matador&#8221;, o leitor j\u00e1 pode imaginar o tipo de meliante que ele \u00e9&#8230; Outra hist\u00f3ria diretamente ligada com a viol\u00eancia, mas de tom bem mais s\u00e9rio, \u00e9 a de Samuel Casal, que mostra os sonhos e desilus\u00f5es de um garoto, relacionados ao futebol e \u00e0 sua sobreviv\u00eancia na favela onde mora.<\/p>\n<p>Outros cartuns contam a p\u00e9ssima rela\u00e7\u00e3o de pessoas com o mundo da bola. Em &#8220;Tudo o que \u00e9 redondo me \u00e9 estranho&#8221;, Maringoni mostra como foi dif\u00edcil, para o personagem principal (seria o pr\u00f3prio autor?), come\u00e7ar a ter costumes essencialmente masculinos para conseguir amigos homens: com este objetivo ele aprendeu a olhar e a tratar as mulheres como simples objetos sexuais, a falar com conhecimento de causa sobre carros modernos e partidas de futebol importantes e insignificantes, al\u00e9m de passar ter modos grosseiros. J\u00e1 a declaradamente autobiogr\u00e1fica hist\u00f3ria de Allan Sieber mostra as aproxima\u00e7\u00f5es e distanciamentos do autor com o mundo da bola.<\/p>\n<p>Boa parte dos cartuns tem a fantasia como caracter\u00edstica principal. Em &#8220;Harmonia das Esferas&#8221;, de Spacca, o tom \u00e9 on\u00edrico, numa hist\u00f3ria esquisita e n\u00e3o muito bem realizada, que relaciona uma partida de futebol com astrologia. J\u00e1 Cust\u00f3dio mistura humor com sobrenatural, contando o caso de um excelente goleiro, Juv\u00eancio, que toma um frango inacredit\u00e1vel numa final, e que faz sua equipe perder um t\u00edtulo h\u00e1 muito. &#8220;Jogada&#8221;, de F\u00e1bio Moon e Gabriel B\u00e1, apresenta um craque absoluto da bola \u2013 mas que \u00e9 apenas fruto da imagina\u00e7\u00e3o de um gari. &#8220;Mesa redonda sexo-futebol debate!&#8221;, de Caco Galhardo, como o pr\u00f3prio nome diz, apresenta um esquisit\u00edssimo debate futebol\u00edstico em que as perguntas s\u00e3o sobre sexo, e as respostas s\u00e3o as t\u00edpicas de jogadores de futebol quando falam de suas partidas. O delirante &#8220;Deu-se o diabo na terra do futebol&#8221;, de Leonardo, mostra a estranha partida de futebol que o dirigente &#8220;Eununco Meganha&#8221; (baseado, obviamente, no presidente do Vasco, Eurico Miranda) marcou com o dono de uma equipe de quinta categoria para ganhar votos: corrup\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, e del\u00edrios de todos os tipos s\u00e3o os principais aspectos da HQ.<\/p>\n<p>Mas a melhor de todas as hist\u00f3rias \u00e9 &#8220;Yukio Miura&#8221;, de Zimbres, que utiliza com brilhantismo a terminologia da cr\u00edtica de artes visuais para analisar a carreira de um jogador e te\u00f3rico do futebol, cujo nome d\u00e1 o t\u00edtulo ao cartum, durante uma estranha d\u00e9cada de 2050. Para que se tenha uma id\u00e9ia, seguem alguns exemplos da magistral \u2013 e engra\u00e7ad\u00edssima &#8211; prosa de Zimbres: &#8220;Essa jogada est\u00e1 muito dura. Falta organicidade. Ningu\u00e9m est\u00e1 pensando na superf\u00edcie como um todo.&#8221; &#8220;Ah, o Garrincha, outro g\u00eanio! Ser como ele! Ser futebol, flutuar no gramado como um santo, imolado pelo pensamento cartesiano, se oferecendo em sacrif\u00edcio \u00e0 torcida e \u00e0 arte.&#8221; &#8220;E, com esta jogada, Rom\u00e1rio rompe definitivamente com o neo-realismo e inaugura sua fase situacionista.&#8221; &#8220;N\u00e3o \u00e9 isso que importa. A face feia da ordem mec\u00e2nica n\u00e3o nos assusta. O 4-5-1 do (time de futebol) Apolo S.A. \u00e9 o desenho do medo humano frente \u00e0s for\u00e7as incontrol\u00e1veis da luz&#8221;.<\/p>\n<p><em>(texto publicado no suplemento dominical do jornal O Estado Do Paran\u00e1 em meados de 2006)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo o ex-jogador e atual comentarista Tost\u00e3o, &#8220;o grande craque \u00e9 o que simplifica, define logo a jogada. Antes da bola chegar, j\u00e1 sabe o que vai fazer com ela. 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