{"id":6465,"date":"2026-11-08T00:33:56","date_gmt":"2026-11-08T03:33:56","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6465"},"modified":"2026-11-08T00:33:56","modified_gmt":"2026-11-08T03:33:56","slug":"o-livro-que-minha-mae-carregou-sobre-o-habito-da-leitura-a-memoria-que-falha-e-os-rastros-que-deixamos-nas-paginas-dos-livros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6465","title":{"rendered":"O livro que minha m\u00e3e carregou &#8211; Sobre o h\u00e1bito da leitura, a mem\u00f3ria que falha e os rastros que deixamos nas p\u00e1ginas dos livros."},"content":{"rendered":"<p>Um dos motivos que fazem com que eu escreva sobre os livros que leio \u00e9 para n\u00e3o me esquecer se li ou n\u00e3o determinada obra \u2013 uma preocupa\u00e7\u00e3o pertinente para algu\u00e9m como eu, que l\u00ea muito desde crian\u00e7a. Minha m\u00e3e era uma leitora ainda mais voraz que eu, e frequentemente esquecia se tinha ou n\u00e3o lido determinada obra.<\/p>\n<p>No caso de \u201cAmor sem fim\u201d, romance do escritor ingl\u00eas Ian McEwan (Companhia das Letras, traduzido por Jorio Dauster, lan\u00e7ado originalmente em 1997, 296 p\u00e1ginas) aconteceu uma coisa rara: eu achava que tinha lido o livro, mas n\u00e3o tinha certeza. O que aconteceu foi o seguinte: certo de que o romance era espetacular, como todos os do autor que li, dei de presente para a minha m\u00e3e sem nem saber sobre o que se tratava. Ainda mais com este nome, \u201cAmor sem fim\u201d, devia ser lindo e rom\u00e2ntico.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se a minha m\u00e3e leu, mas a edi\u00e7\u00e3o que eu tenho ela certamente carregou por muito tempo, porque tem uma foto com dedicat\u00f3ria que ela tirou, um origami que ela fez, e um santinho de Nossa Senhora Aparecida. De todo modo, nunca conversamos sobre o livro.<\/p>\n<p>\u201cAmor sem fim\u201d come\u00e7a com um acidente: o personagem que narra em primeira pessoa o romance, Joe Rose, f\u00edsico e jornalista de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, est\u00e1 com sua companheira, Clarissa Mellon, uma acad\u00eamica especialista em Keats, num piquenique no campo. L\u00e1 eles ouvem gritos e Joe e outras pessoas v\u00e3o ver o que estava acontecendo: um menino estava num bal\u00e3o, e era dif\u00edcil controlar o aparelho, porque o vento estava muito forte. Ali acontece uma trag\u00e9dia, quando uma das pessoas que tentava segurar o bal\u00e3o fica pendurado nele e acaba caindo.<\/p>\n<p>Isto acontece logo no in\u00edcio do romance. Poucos dias depois da trag\u00e9dia, Jed Parry, que tamb\u00e9m tentou segurar o bal\u00e3o, procura Joe. O sujeito se convence de que Joe compartilha de um amor divino e rec\u00edproco com ele, dando in\u00edcio a uma persegui\u00e7\u00e3o obsessiva, cartas perturbadoras e amea\u00e7as veladas que destroem a sanidade e a seguran\u00e7a de Joe, enquanto as pessoas ao seu redor come\u00e7am a duvidar de sua vers\u00e3o dos fatos.<\/p>\n<p>O \u201camor sem fim\u201d, portanto, \u00e9 um t\u00edtulo sarc\u00e1stico neste romance perturbador \u2013 e espetacular, como todos os de Ian McEwan &#8211; que nada tem de rom\u00e2ntico. Sei l\u00e1 se minha m\u00e3e gostou \u2013 se leu, provavelmente sim, porque afinal de contas ela tinha bom gosto e, ao contr\u00e1rio de mim, n\u00e3o se deixava iludir por t\u00edtulos ir\u00f4nicos.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/o-livro-que-minha-mae-carregou?r=2m0pd&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=true\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos motivos que fazem com que eu escreva sobre os livros que leio \u00e9 para n\u00e3o me esquecer se li ou n\u00e3o determinada obra \u2013 uma preocupa\u00e7\u00e3o pertinente para algu\u00e9m como eu, que l\u00ea muito desde crian\u00e7a. Minha m\u00e3e era uma leitora ainda mais voraz que eu, e frequentemente esquecia se tinha ou n\u00e3o lido determinada obra. No caso de \u201cAmor sem fim\u201d, romance do escritor ingl\u00eas Ian McEwan (Companhia das Letras, traduzido por Jorio Dauster, lan\u00e7ado originalmente em 1997, 296 p\u00e1ginas) aconteceu uma coisa rara: eu achava que tinha lido o livro, mas n\u00e3o tinha certeza. O que aconteceu foi o seguinte: certo de que o romance era espetacular, como todos os do autor que li, dei de presente para a minha m\u00e3e sem nem saber sobre o que se tratava. Ainda mais com este nome, \u201cAmor sem fim\u201d, devia ser lindo e rom\u00e2ntico. N\u00e3o sei se a minha m\u00e3e leu, mas a edi\u00e7\u00e3o que eu tenho ela certamente carregou por muito tempo, porque tem uma foto com dedicat\u00f3ria que ela tirou, um origami que ela fez, e um santinho de Nossa Senhora Aparecida. De todo modo, nunca conversamos sobre o livro. \u201cAmor sem fim\u201d come\u00e7a com um acidente: o personagem que narra em primeira pessoa o romance, Joe Rose, f\u00edsico e jornalista de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, est\u00e1 com sua companheira, Clarissa Mellon, uma acad\u00eamica especialista em Keats, num piquenique no campo. L\u00e1 eles ouvem gritos e Joe e outras pessoas v\u00e3o ver o que estava acontecendo: um menino estava num bal\u00e3o, e era dif\u00edcil controlar o aparelho, porque o vento estava muito forte. Ali acontece uma trag\u00e9dia, quando uma das pessoas que tentava segurar o bal\u00e3o fica pendurado nele e acaba caindo. Isto acontece logo no in\u00edcio do romance. Poucos dias depois da trag\u00e9dia, Jed Parry, que tamb\u00e9m tentou segurar o bal\u00e3o, procura Joe. O sujeito se convence de que Joe compartilha de um amor divino e rec\u00edproco com ele, dando in\u00edcio a uma persegui\u00e7\u00e3o obsessiva, cartas perturbadoras e amea\u00e7as veladas que destroem a sanidade e a seguran\u00e7a de Joe, enquanto as pessoas ao seu redor come\u00e7am a duvidar de sua vers\u00e3o dos fatos. O \u201camor sem fim\u201d, portanto, \u00e9 um t\u00edtulo sarc\u00e1stico neste romance perturbador \u2013 e espetacular, como todos os de Ian McEwan &#8211; que nada tem de rom\u00e2ntico. Sei l\u00e1 se minha m\u00e3e gostou \u2013 se leu, provavelmente sim, porque afinal de contas ela tinha bom gosto e, ao contr\u00e1rio de mim, n\u00e3o se deixava iludir por t\u00edtulos ir\u00f4nicos. *** Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se voc\u00ea estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6466,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[83,36],"tags":[1554,1298,1555,164,1397,44,51,1557,1556,1150,1430,1166],"class_list":["post-6465","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-impressoes","category-literatura","tag-amor-sem-fim","tag-cronica","tag-habitos-de-leitura","tag-ian-mcewan","tag-leitura","tag-literatura","tag-livros","tag-livros-fisicos","tag-maternidade","tag-memoria-afetiva","tag-reflexao","tag-resenha-literaria","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6465","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6465"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6465\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6468,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6465\/revisions\/6468"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6466"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}