{"id":6402,"date":"2026-08-16T01:32:09","date_gmt":"2026-08-16T04:32:09","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6402"},"modified":"2026-08-16T01:32:09","modified_gmt":"2026-08-16T04:32:09","slug":"quando-o-cerebro-reescreve-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6402","title":{"rendered":"Quando o C\u00e9rebro Reescreve o Mundo"},"content":{"rendered":"<p>Em janeiro de 1999, o Dr. Oliver Sacks recebeu a seguinte carta:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cMeu problema (muito incomum), em uma frase e em termos leigos, \u00e9: n\u00e3o consigo ler. N\u00e3o consigo ler m\u00fasica nem qualquer outra coisa. No consult\u00f3rio do oftalmologista, posso ler individualmente todas as letras da tabela optom\u00e9trica at\u00e9 a \u00faltima linha. Mas n\u00e3o sou capaz de ler palavras, e para ler m\u00fasica tenho o mesmo problema. Venho lutando com isso h\u00e1 anos, procurei os melhores m\u00e9dicos e nenhum foi capaz de ajudar. Eu ficaria imensamente feliz e grata se o senhor pudesse marcar-me uma consulta.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A autora da carta, Lilian Kallir, era uma pianista profissional que simplesmente n\u00e3o conseguia mais ler, fossem letras ou partituras. Continuou se apresentando com as m\u00fasicas que sabia de cor.<\/p>\n<p>J\u00e1 Patricia H. era a dona de uma galeria de arte que perdeu a capacidade de se comunicar com palavras depois de um acidente vascular cerebral:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPat (&#8230;) reconhecia as filhas, tinha no\u00e7\u00e3o de seu problema e de onde ela estava. Tinha seus apetites e desejos, sua personalidade, mas estava paralisada do lado direito e, o que era mais grave, n\u00e3o conseguia mais expressar seus pensamentos e sentimentos em palavras. Podia apenas olhar e fazer m\u00edmica, apontar ou gesticular. Sua compreens\u00e3o da fala tamb\u00e9m estava muito prejudicada. Em resumo: estava af\u00e1sica. \u2018Afasia\u2019 significa etimologicamente perda da fala, mas n\u00e3o \u00e9 a fala propriamente dita que se perde, e sim a linguagem: sua express\u00e3o ou sua compreens\u00e3o, total ou parcialmente.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>J\u00e1 em janeiro de 2002, o Dr. Oliver Sacks recebeu uma carta de Howard Engel, escritor canadense conhecido pela s\u00e9rie de hist\u00f3rias do detetive Benny Cooperman, em que descrevia um estranho problema. Contou que alguns meses antes acordou certa manh\u00e3 sentindo-se bem, vestiu-se, preparou o desjejum e foi at\u00e9 a varanda pegar o jornal. Mas o jornal ao p\u00e9 da porta parecia ter sofrido uma transforma\u00e7\u00e3o impressionante:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO <em>Globe and Mail<\/em> de 31 de julho de 2001 parecia o mesmo de sempre, na composi\u00e7\u00e3o, nas ilustra\u00e7\u00f5es, nos cabe\u00e7alhos e nas legendas menores. A \u00fanica diferen\u00e7a era que eu n\u00e3o conseguia mais ler o que estava escrito ali. Eu podia ver que as letras que o compunham eram as 26 letras do alfabeto ingl\u00eas com as quais eu estava habituado. S\u00f3 que agora, quando eu as focalizava, ora pareciam cir\u00edlico, ora coreano. Seria uma vers\u00e3o servo-croata do meu jornal, feita para exporta\u00e7\u00e3o? (&#8230;) \u2018J\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m fazendo uma brincadeira, s\u00f3 posso ter sofrido um derrame\u2019.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O mesmo Dr. Oliver Sacks tinha seus problemas neurol\u00f3gicos:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cDesde que me conhe\u00e7o por gente, tenho dificuldade para reconhecer rostos. Quando crian\u00e7a n\u00e3o me preocupava muito com isso, mas na adolesc\u00eancia, em um col\u00e9gio novo, sofri muitos constrangimentos. Minha frequente incapacidade de reconhecer os colegas deixava-os pasmos, \u00e0s vezes indignados. N\u00e3o lhes ocorria (e por que deveria?) que eu tinha uma defici\u00eancia perceptual.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>O caso de Oliver Sacks nem era t\u00e3o grave comparado com o de um engenheiro de mina de carv\u00e3o galesa, que passou a ter os seguintes sintomas depois de um derrame:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o consigo reconhecer pessoas em fotografias, nem a mim mesmo. No clube, vi um estranho me encarando e perguntei a um funcion\u00e1rio quem era. Voc\u00ea vai rir de mim: era eu mesmo, olhando no espelho. [&#8230;] Tempos depois fui a Londres e estive em v\u00e1rios cinemas e teatros. N\u00e3o entendi coisa alguma dos enredos. Nunca sabia quem era quem. [&#8230;] Comprei alguns exemplares [das revistas] <em>Men Only<\/em> e <em>London Opinion<\/em>. N\u00e3o pude apreciar as fotografias, como antes. Eu era capaz de decifrar os assuntos pelos detalhes, mas assim n\u00e3o tinha gra\u00e7a. \u00c9 preciso entender tudo de relance.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Os trechos acima foram retirados de <em>O Olhar da Mente<\/em>, de Oliver Sacks (Companhia das Letras, 264 p\u00e1ginas, traduzido por Laura Teixeira Motta, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 2010), livro do famoso m\u00e9dico e neurologista brit\u00e2nico que se popularizou contando casos cl\u00ednicos de seus pacientes.<\/p>\n<p>Outros assuntos englobados no livro s\u00e3o a falta de vis\u00e3o estereosc\u00f3pica (vis\u00e3o que permite ao c\u00e9rebro enxergar em tr\u00eas dimens\u00f5es) e como o c\u00e9rebro de uma pessoa cega \u201cv\u00ea\u201d, mentalmente, objetos e ambientes reais.<\/p>\n<p>O meu interesse maior na leitura deste livro foi a pesquisa para o romance que estou escrevendo, <em>\u201cN\u00e3o tenho medo do escuro\u201d<\/em>, que trata de um programador de computadores que perde a vis\u00e3o. Mas, a princ\u00edpio, a leitura n\u00e3o me ajudou muito: tanto cegos de nascen\u00e7a quanto aqueles que perderam a vis\u00e3o ao longo da vida imaginam o mundo de maneiras muito distintas. Existem desde aqueles que n\u00e3o conseguem \u201cver mentalmente\u201d nada \u2014 com o c\u00e9rebro basicamente processando apenas a linguagem \u2014, at\u00e9 aqueles que \u201cenxergam\u201d com enorme precis\u00e3o objetos, propor\u00e7\u00f5es, pessoas e cores.<\/p>\n<p>Mas, pensando bem, o livro at\u00e9 que me ajudou bastante: meu personagem pode estar em qualquer ponto entre esses dois extremos!<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Imagem obtida no Google Gemini.\u00a0<\/em><em>Se voc\u00ea estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/quando-o-cerebro-reescreve-o-mundo?r=2m0pd&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=true\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em janeiro de 1999, o Dr. Oliver Sacks recebeu a seguinte carta: \u201cMeu problema (muito incomum), em uma frase e em termos leigos, \u00e9: n\u00e3o consigo ler. 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Mas o jornal ao p\u00e9 da porta parecia ter sofrido uma transforma\u00e7\u00e3o impressionante: \u201cO Globe and Mail de 31 de julho de 2001 parecia o mesmo de sempre, na composi\u00e7\u00e3o, nas ilustra\u00e7\u00f5es, nos cabe\u00e7alhos e nas legendas menores. A \u00fanica diferen\u00e7a era que eu n\u00e3o conseguia mais ler o que estava escrito ali. Eu podia ver que as letras que o compunham eram as 26 letras do alfabeto ingl\u00eas com as quais eu estava habituado. S\u00f3 que agora, quando eu as focalizava, ora pareciam cir\u00edlico, ora coreano. Seria uma vers\u00e3o servo-croata do meu jornal, feita para exporta\u00e7\u00e3o? (&#8230;) \u2018J\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m fazendo uma brincadeira, s\u00f3 posso ter sofrido um derrame\u2019.\u201d O mesmo Dr. Oliver Sacks tinha seus problemas neurol\u00f3gicos: \u201cDesde que me conhe\u00e7o por gente, tenho dificuldade para reconhecer rostos. 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