{"id":6377,"date":"2026-08-09T02:34:18","date_gmt":"2026-08-09T05:34:18","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6377"},"modified":"2026-08-09T02:34:18","modified_gmt":"2026-08-09T05:34:18","slug":"um-defeito-de-cor-de-ana-maria-goncalves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6377","title":{"rendered":"&#8220;Um Defeito de Cor&#8221;, de Ana Maria Gon\u00e7alves"},"content":{"rendered":"<p>Escolhido pelo jornal Folha de S.Paulo <a href=\"https:\/\/fotografia.folha.uol.com.br\/galerias\/1833290780720737-veja-os-melhores-livros-brasileiros-de-literatura-do-seculo-21-segundo-juri-convidado-pela-folha\">como o melhor livro brasileiro de literatura do s\u00e9culo XXI numa vota\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica<\/a>, &#8220;Um defeito de cor&#8221;, de Ana Maria Gon\u00e7alves (Record, 952 p\u00e1ginas, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 2006), \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica longa e extremamente detalhista. O livro impactante foi decisivo para que a autora fosse eleita recentemente para a <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/cultura\/pt-br\/assuntos\/noticias\/ana-maria-goncalves-e-a-primeira-mulher-negra-a-se-tornar-imortal-da-academia-brasileira-de-letras\">Academia Brasileira de Letras<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cUm defeito de cor\u201d conta a hist\u00f3ria de Kehinde, uma mulher africana que \u00e9 capturada aos oito anos de idade no Reino do Daom\u00e9 (atual Benin) e trazida para a Bahia como escrava. A personagem seria inspirada na figura hist\u00f3rica de Lu\u00edsa Mahin, que teria sido m\u00e3e do poeta e abolicionista Lu\u00eds Gama (1830-1882), mas a pr\u00f3pria autora reconhece que, como pouco se sabe sobre ela, quase tudo no livro \u00e9 inven\u00e7\u00e3o \u2014 poss\u00edvel de ter ocorrido, mas fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Kehinde vivia com sua fam\u00edlia na \u00c1frica, onde tinha uma vida marcada por trag\u00e9dias \u2014 como a morte da m\u00e3e \u2014, e acaba sendo levada com sua irm\u00e3 como escrava para o Brasil quase que por acaso: elas estavam na rua, brincando, e foram pegas. N\u00e3o houve nenhum planejamento dos captores para captur\u00e1-la, o que traz um grau a mais de choque para uma hist\u00f3ria terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Inicialmente ela vem para a Bahia e, entre grandes sofrimentos, engravida por estupro pelas m\u00e3os de seu dono fazendeiro. Mas muita coisa ainda faria parte da extremamente movimentada vida de Kehinde: filhos, riqueza e pobreza, casamentos, liberdade, mudan\u00e7as (para o Rio de Janeiro e depois de volta para a \u00c1frica), revoltas \u2014 como a dos Mal\u00eas, que eram escravos mu\u00e7ulmanos \u2014, espiritualidade e amizades. O livro todo tem uma justificativa interna: Kehinde conta a hist\u00f3ria para algu\u00e9m, mas estragaria a surpresa contar quem \u00e9.<\/p>\n<p>Com \u201cUm defeito de cor\u201d, a autora quer contar uma hist\u00f3ria completa sobre o per\u00edodo da escravid\u00e3o no Brasil, tantos s\u00e3o os acontecimentos que perpassam a trajet\u00f3ria de Kehinde. Mais do que isso, ela apresenta todas as quest\u00f5es espirituais que podiam surgir para os escravos brasileiros, que tinham sua pr\u00f3pria religi\u00e3o nativa, mas que precisavam se adaptar ao catolicismo dominante. Fascinante tamb\u00e9m \u00e9 o contato dela com os escravos mu\u00e7ulmanos, normalmente alfabetizados e respeitosos com as mulheres.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma, \u201cUm defeito de cor\u201d \u00e9 uma obra fascinante e que merece o sucesso que fez. Por\u00e9m, o n\u00edvel de detalhe com que a autora descreve diversos acontecimentos, por mais que acrescente camadas de compreens\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria, acaba sendo frequentemente irritante \u2014 ela mesma parece confessar isso algumas vezes, no final do livro.<\/p>\n<p>Ou foi apenas uma impress\u00e3o minha, sei l\u00e1.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><em>Imagem criada pelo Claude<\/em><\/p>\n<p><em>Se voc\u00ea estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/entre-o-fascinio-e-a-exaustao-minha?r=2m0pd&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=true\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escolhido pelo jornal Folha de S.Paulo como o melhor livro brasileiro de literatura do s\u00e9culo XXI numa vota\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica, &#8220;Um defeito de cor&#8221;, de Ana Maria Gon\u00e7alves (Record, 952 p\u00e1ginas, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 2006), \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica longa e extremamente detalhista. O livro impactante foi decisivo para que a autora fosse eleita recentemente para a Academia Brasileira de Letras. \u201cUm defeito de cor\u201d conta a hist\u00f3ria de Kehinde, uma mulher africana que \u00e9 capturada aos oito anos de idade no Reino do Daom\u00e9 (atual Benin) e trazida para a Bahia como escrava. A personagem seria inspirada na figura hist\u00f3rica de Lu\u00edsa Mahin, que teria sido m\u00e3e do poeta e abolicionista Lu\u00eds Gama (1830-1882), mas a pr\u00f3pria autora reconhece que, como pouco se sabe sobre ela, quase tudo no livro \u00e9 inven\u00e7\u00e3o \u2014 poss\u00edvel de ter ocorrido, mas fic\u00e7\u00e3o. Kehinde vivia com sua fam\u00edlia na \u00c1frica, onde tinha uma vida marcada por trag\u00e9dias \u2014 como a morte da m\u00e3e \u2014, e acaba sendo levada com sua irm\u00e3 como escrava para o Brasil quase que por acaso: elas estavam na rua, brincando, e foram pegas. 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