{"id":6374,"date":"2026-08-02T03:06:17","date_gmt":"2026-08-02T06:06:17","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6374"},"modified":"2026-08-02T03:06:17","modified_gmt":"2026-08-02T06:06:17","slug":"de-um-show-do-morrissey-ate-as-ruinas-de-machu-picchu-a-logica-torta-de-quem-ama-avioes-mas-treme-na-escada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6374","title":{"rendered":"De um show do Morrissey at\u00e9 as ru\u00ednas de Machu Picchu, a l\u00f3gica torta de quem ama avi\u00f5es, mas treme na escada."},"content":{"rendered":"<p>Tive dois ataques de p\u00e2nico na minha vida, os dois pelo mesmo motivo: medo de altura. Sempre tive este medo, mas depois que quebrei a perna esquerda em 2004 passei a ter menos confian\u00e7a nela, e o medo de cair sozinho de grandes alturas, que j\u00e1 era grande antes, passou a ser bem mais grave. Sou preciso quando digo que tenho medo de \u201ccair sozinho\u201d: se estou num lugar fechado e sem possibilidade de me precipitar de uma altura enorme, n\u00e3o tenho medo nenhum. Amo andar de avi\u00e3o, inclusive.<\/p>\n<p>O primeiro ataque de p\u00e2nico foi num show do Morrissey em 2012 no Espa\u00e7o das Am\u00e9ricas, atual Espa\u00e7o Unimed: foram lances de escada rolante cada vez mais altos at\u00e9 chegar na minha poltrona, no primeiro balc\u00e3o. Para chegar at\u00e9 meu lugar eu tinha que passar diante de um parapeito baix\u00edssimo, numa altura gigante \u2013 sei l\u00e1, uns trinta metros. Fiquei absolutamente paralisado na minha poltrona durante umas duas horas, com medo de fazer o mesmo percurso para voltar. Cheguei bem cedo, e o p\u00e2nico terminou subitamente no meio do show do meu cantor preferido (sim, o espet\u00e1culo estava perfeito).<\/p>\n<p>O segundo ataque de p\u00e2nico foi em Machu Picchu. A sequ\u00eancia do caminho entre a cidade de Cuzco e o local das antigas ru\u00ednas incas passava por uma estrada feita de van, um passeio de trem entre montanhas gigantescas e um caminho de \u00f4nibus que parece pertencer \u00e0 s\u00e9rie \u201cEstradas Mortais\u201d, do Discovery Channel. Chegando finalmente na entrada para entrar em Machu Picchu eu j\u00e1 estava com medo e enjoado (todo o caminho foi feito com janelas fechadas e sem vento no meu rosto, o que \u00e9 terr\u00edvel para mim).<\/p>\n<p>Mas nada tinha me preparado para o que eu senti nas ru\u00ednas incas: aqueles degraus de centenas de anos, desalinhados, alguns lugares com possibilidade de cair de cinco ou dez metros entre uma plataforma inca e outra, aquelas montanhas gigantescas em volta &#8211; tudo me fez ter o segundo ataque de p\u00e2nico da minha vida. Os turistas tinham que andar em fila, n\u00e3o tinha como voltar no meio da pequena multid\u00e3o, mas mesmo assim eu travei.<\/p>\n<p>E sim, comecei a falar palavras desconexas. Tenho testemunhas disso.<\/p>\n<p>Sim, foi um vexame hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Se tenho medo de cair de grandes alturas, filmes de terror n\u00e3o me d\u00e3o medo nenhum, muito pelo contr\u00e1rio. O grande cr\u00edtico de cinema Roberto Sadovsky comentou <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/splash\/noticias\/2026\/05\/28\/enquadrado-no-uol.htm\">aqui<\/a> que \u201cObsess\u00e3o\u201d \u00e9 um filme que, \u201cde fato, d\u00e1 medo\u201d. J\u00e1 eu, que tamb\u00e9m amei o filme, comentei <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6326\">aqui<\/a> que ele \u201c\u00e9 um prato cheio para f\u00e3s do estilo \u2014 mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e n\u00e3o se assustam muito com eles\u201d.<\/p>\n<p>E aqui estava eu, me achando muito corajoso para ver filmes em geral. At\u00e9 que ontem resolvi ter a feliz ideia de assistir a um filme chamado \u201cA queda\u201d, dirigido por Scott Mann (Estados Unidos, lan\u00e7ado originalmente em 2022, 107 min). O filme j\u00e1 come\u00e7a assustador: um casal e uma amiga escalando um pared\u00e3o praticamente vertical: eles est\u00e3o todos se divertindo at\u00e9 que o cara cai l\u00e1 de cima. A mulher entra em profunda depress\u00e3o e, um ano depois, a amiga que estava junto no pared\u00e3o, para anim\u00e1-la, sugere que as duas v\u00e3o escalar uma torre de r\u00e1dio no meio do deserto, a B67, um monstrengo esbelto, enferrujado e abandonado de 600 m de altura, prestes a ser desmontado. Elas sobem at\u00e9 o topo do neg\u00f3cio e l\u00e1 come\u00e7a o sofrimento, sobre o qual n\u00e3o vou comentar aqui para n\u00e3o estragar a surpresa.<\/p>\n<p>S\u00f3 o que eu posso dizer \u00e9 que elas mal tinham subido vinte degraus da escada de marinheiro at\u00e9 o topo e eu j\u00e1 estava, literalmente, tremendo com calafrios. E dali por diante a coisa s\u00f3 piorou.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei para que tanto sofrimento, minha gente.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Imagem que acompanha o texto obtida no Claude.<\/em><\/p>\n<p><em>Se voc\u00ea estiver interessado em receber este outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/meus-dois-ataques-de-panico-e-por\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tive dois ataques de p\u00e2nico na minha vida, os dois pelo mesmo motivo: medo de altura. Sempre tive este medo, mas depois que quebrei a perna esquerda em 2004 passei a ter menos confian\u00e7a nela, e o medo de cair sozinho de grandes alturas, que j\u00e1 era grande antes, passou a ser bem mais grave. Sou preciso quando digo que tenho medo de \u201ccair sozinho\u201d: se estou num lugar fechado e sem possibilidade de me precipitar de uma altura enorme, n\u00e3o tenho medo nenhum. Amo andar de avi\u00e3o, inclusive. O primeiro ataque de p\u00e2nico foi num show do Morrissey em 2012 no Espa\u00e7o das Am\u00e9ricas, atual Espa\u00e7o Unimed: foram lances de escada rolante cada vez mais altos at\u00e9 chegar na minha poltrona, no primeiro balc\u00e3o. Para chegar at\u00e9 meu lugar eu tinha que passar diante de um parapeito baix\u00edssimo, numa altura gigante \u2013 sei l\u00e1, uns trinta metros. Fiquei absolutamente paralisado na minha poltrona durante umas duas horas, com medo de fazer o mesmo percurso para voltar. Cheguei bem cedo, e o p\u00e2nico terminou subitamente no meio do show do meu cantor preferido (sim, o espet\u00e1culo estava perfeito). O segundo ataque de p\u00e2nico foi em Machu Picchu. A sequ\u00eancia do caminho entre a cidade de Cuzco e o local das antigas ru\u00ednas incas passava por uma estrada feita de van, um passeio de trem entre montanhas gigantescas e um caminho de \u00f4nibus que parece pertencer \u00e0 s\u00e9rie \u201cEstradas Mortais\u201d, do Discovery Channel. Chegando finalmente na entrada para entrar em Machu Picchu eu j\u00e1 estava com medo e enjoado (todo o caminho foi feito com janelas fechadas e sem vento no meu rosto, o que \u00e9 terr\u00edvel para mim). Mas nada tinha me preparado para o que eu senti nas ru\u00ednas incas: aqueles degraus de centenas de anos, desalinhados, alguns lugares com possibilidade de cair de cinco ou dez metros entre uma plataforma inca e outra, aquelas montanhas gigantescas em volta &#8211; tudo me fez ter o segundo ataque de p\u00e2nico da minha vida. Os turistas tinham que andar em fila, n\u00e3o tinha como voltar no meio da pequena multid\u00e3o, mas mesmo assim eu travei. E sim, comecei a falar palavras desconexas. Tenho testemunhas disso. Sim, foi um vexame hist\u00f3rico. Se tenho medo de cair de grandes alturas, filmes de terror n\u00e3o me d\u00e3o medo nenhum, muito pelo contr\u00e1rio. O grande cr\u00edtico de cinema Roberto Sadovsky comentou aqui que \u201cObsess\u00e3o\u201d \u00e9 um filme que, \u201cde fato, d\u00e1 medo\u201d. J\u00e1 eu, que tamb\u00e9m amei o filme, comentei aqui que ele \u201c\u00e9 um prato cheio para f\u00e3s do estilo \u2014 mesmo aqueles que, como eu, gostam de filmes de terror para se divertir e n\u00e3o se assustam muito com eles\u201d. E aqui estava eu, me achando muito corajoso para ver filmes em geral. At\u00e9 que ontem resolvi ter a feliz ideia de assistir a um filme chamado \u201cA queda\u201d, dirigido por Scott Mann (Estados Unidos, lan\u00e7ado originalmente em 2022, 107 min). O filme j\u00e1 come\u00e7a assustador: um casal e uma amiga escalando um pared\u00e3o praticamente vertical: eles est\u00e3o todos se divertindo at\u00e9 que o cara cai l\u00e1 de cima. A mulher entra em profunda depress\u00e3o e, um ano depois, a amiga que estava junto no pared\u00e3o, para anim\u00e1-la, sugere que as duas v\u00e3o escalar uma torre de r\u00e1dio no meio do deserto, a B67, um monstrengo esbelto, enferrujado e abandonado de 600 m de altura, prestes a ser desmontado. Elas sobem at\u00e9 o topo do neg\u00f3cio e l\u00e1 come\u00e7a o sofrimento, sobre o qual n\u00e3o vou comentar aqui para n\u00e3o estragar a surpresa. S\u00f3 o que eu posso dizer \u00e9 que elas mal tinham subido vinte degraus da escada de marinheiro at\u00e9 o topo e eu j\u00e1 estava, literalmente, tremendo com calafrios. E dali por diante a coisa s\u00f3 piorou. N\u00e3o sei para que tanto sofrimento, minha gente. Imagem que acompanha o texto obtida no Claude. 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