{"id":6351,"date":"2026-07-19T01:53:37","date_gmt":"2026-07-19T04:53:37","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6351"},"modified":"2026-07-19T01:53:37","modified_gmt":"2026-07-19T04:53:37","slug":"herancas-caoticas-e-paginas-dobradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6351","title":{"rendered":"Heran\u00e7as Ca\u00f3ticas e P\u00e1ginas Dobradas"},"content":{"rendered":"<p>L\u00e1 em casa t\u00ednhamos algumas estantes de livros. A mais bonita, envidra\u00e7ada, era minha. Eu passava horas arrumando minhas obras por prefer\u00eancia, autor, tem\u00e1tica. Ali havia algumas enciclop\u00e9dias e cole\u00e7\u00f5es bonitas, e os meus livros: Thomas Mann, William Faulkner, Virginia Woolf, muitos livros que eu lia e entendia e tantos outros que eu lia e n\u00e3o entendia.<\/p>\n<p>As estantes da minha m\u00e3e eram bem mais ca\u00f3ticas (como \u00e9, ali\u00e1s, a minha atualmente): livros desordenados, quase todos lidos e deixados de lado. Minha m\u00e3e n\u00e3o fazia muito diferente do que eu fa\u00e7o hoje em dia: eu leio e guardo o livro, sem me preocupar onde armazenar na estante, e se \u00e9 f\u00e1cil encontr\u00e1-lo ou n\u00e3o. A diferen\u00e7a \u00e9 que minha m\u00e3e nunca se desfazia dos livros dela \u2013 dizia que ficariam para mim \u2013, ao contr\u00e1rio de mim, que passo para frente quando n\u00e3o pretendo reler.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante de m\u00e3e e filho fan\u00e1ticos por leitura, como \u00e9ramos n\u00f3s, era o C\u00edrculo do Livro: mensalmente receb\u00edamos o cat\u00e1logo da editora, em forma de revista, e bastava fazer o pedido do livro e esperar por ele. Uma esp\u00e9cie de Amazon dos anos 1980. A qualidade das edi\u00e7\u00f5es \u2013 sempre em capa dura \u2013 era espetacular, e at\u00e9 hoje tenho muitos livros do C\u00edrculo do Livro na minha estante (muitos, \u00e9 preciso que se diga, foram comprados bem mais recentemente, na Estante Virtual <a href=\"https:\/\/www.estantevirtual.com.br\/\">https:\/\/www.estantevirtual.com.br<\/a>).<\/p>\n<p>Quando olhava os livros da minha estante, dois livros estavam sempre juntos e chamavam minha aten\u00e7\u00e3o, porque eu n\u00e3o conhecia os autores, nunca tinha ouvido falar das obras fora dali, e mesmo assim estavam entre os meus livros: minha m\u00e3e os tinha escolhidos no cat\u00e1logo do C\u00edrculo do Livro, e foram parar na minha estante, quem sabe porque eu achei as edi\u00e7\u00f5es bonitas, mas n\u00e3o lembro direito. Um deles, com uma sofisticada capa apresentando uma lebre, era &#8220;A longa jornada&#8221;, de Richard Adams, um estranho cl\u00e1ssico sobre uma sociedade de coelhos que eu li at\u00e9 a metade uns dez anos atr\u00e1s; o outro \u00e9 o tema deste texto: &#8220;Quando os Adams sa\u00edram de f\u00e9rias&#8221;, de Mendal W. Johnson (C\u00edrculo do Livro, 277 p\u00e1ginas, traduzido por Carmen Ballot, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1974). A capa j\u00e1 entregava tudo: cinco crian\u00e7as no umbral de uma porta, e uma garota amarrada se contorcendo no ch\u00e3o. Lembro de minha m\u00e3e dizendo, com desgosto, que no livro \u201cas crian\u00e7as ficavam torturando a bab\u00e1 sem parar\u201d. Provavelmente minha m\u00e3e n\u00e3o terminou de ler o romance: a \u00faltima dobra do papel est\u00e1 na p\u00e1gina 126, e d\u00e1 perfeitamente para entender por que ela parou ali. J\u00e1 eu fui at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>No livro, Barbara, 20 anos, \u00e9 a bab\u00e1 contratada para cuidar de Bobby (14 anos) e Cindy (10 anos), filhos dos Adams, que se unem aos irm\u00e3os vizinhos Dianne (17 anos) e Paul McVeigh, e ao amigo John (17 anos), para aprision\u00e1-la. No pr\u00f3logo, a bab\u00e1 est\u00e1 em paz levando as crian\u00e7as para a igreja e para um banho no rio, mas logo em seguida ela se v\u00ea dopada e amarrada \u2013 e o sofrimento dela s\u00f3 est\u00e1 come\u00e7ando. O livro \u00e9 bastante criticado pelo sofrimento gratuito, mas, em \u00e9pocas de zoossadismo na internet perpetrado por crian\u00e7as, nem sei se o livro \u00e9 t\u00e3o exagerado assim.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do autor, Mendal W. Johnson, \u00e9 tr\u00e1gica. Tendo lan\u00e7ado o livro em 1974, faleceu dois anos depois, v\u00edtima de alcoolismo, sem conseguir terminar os tr\u00eas romances que estava escrevendo. O livro tamb\u00e9m tem uma hist\u00f3ria esquisita: lan\u00e7ado com grande sucesso (a Abril Cultural tamb\u00e9m lan\u00e7ou \u201cQuando os Adams sa\u00edram de f\u00e9rias\u201d em bancas de jornais na \u00e9poca), ficou posteriormente d\u00e9cadas fora de cat\u00e1logo, tendo sido relan\u00e7ado no exterior pela Valancourt Books em 2020, e no Brasil pela DarkSide Books\/Macabra Filmes em 2022. Hoje \u00e9 uma obra cultuada por amantes de literatura de terror. E merece o status que tem: \u201cQuando os Adams sa\u00edram de f\u00e9rias\u201d \u00e9 extremamente bem escrito, e Mendal W. Johnson consegue descrever com profundidade os pensamentos e motiva\u00e7\u00f5es \u2013 mesmo os de cunho mais psicopata \u2013 de seus personagens.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><em>Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.<\/em><\/p>\n<p><em>Se voc\u00ea estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/quando-os-adams-sairam-de-ferias\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 em casa t\u00ednhamos algumas estantes de livros. A mais bonita, envidra\u00e7ada, era minha. Eu passava horas arrumando minhas obras por prefer\u00eancia, autor, tem\u00e1tica. Ali havia algumas enciclop\u00e9dias e cole\u00e7\u00f5es bonitas, e os meus livros: Thomas Mann, William Faulkner, Virginia Woolf, muitos livros que eu lia e entendia e tantos outros que eu lia e n\u00e3o entendia. As estantes da minha m\u00e3e eram bem mais ca\u00f3ticas (como \u00e9, ali\u00e1s, a minha atualmente): livros desordenados, quase todos lidos e deixados de lado. Minha m\u00e3e n\u00e3o fazia muito diferente do que eu fa\u00e7o hoje em dia: eu leio e guardo o livro, sem me preocupar onde armazenar na estante, e se \u00e9 f\u00e1cil encontr\u00e1-lo ou n\u00e3o. A diferen\u00e7a \u00e9 que minha m\u00e3e nunca se desfazia dos livros dela \u2013 dizia que ficariam para mim \u2013, ao contr\u00e1rio de mim, que passo para frente quando n\u00e3o pretendo reler. Outro aspecto importante de m\u00e3e e filho fan\u00e1ticos por leitura, como \u00e9ramos n\u00f3s, era o C\u00edrculo do Livro: mensalmente receb\u00edamos o cat\u00e1logo da editora, em forma de revista, e bastava fazer o pedido do livro e esperar por ele. Uma esp\u00e9cie de Amazon dos anos 1980. A qualidade das edi\u00e7\u00f5es \u2013 sempre em capa dura \u2013 era espetacular, e at\u00e9 hoje tenho muitos livros do C\u00edrculo do Livro na minha estante (muitos, \u00e9 preciso que se diga, foram comprados bem mais recentemente, na Estante Virtual https:\/\/www.estantevirtual.com.br). Quando olhava os livros da minha estante, dois livros estavam sempre juntos e chamavam minha aten\u00e7\u00e3o, porque eu n\u00e3o conhecia os autores, nunca tinha ouvido falar das obras fora dali, e mesmo assim estavam entre os meus livros: minha m\u00e3e os tinha escolhidos no cat\u00e1logo do C\u00edrculo do Livro, e foram parar na minha estante, quem sabe porque eu achei as edi\u00e7\u00f5es bonitas, mas n\u00e3o lembro direito. Um deles, com uma sofisticada capa apresentando uma lebre, era &#8220;A longa jornada&#8221;, de Richard Adams, um estranho cl\u00e1ssico sobre uma sociedade de coelhos que eu li at\u00e9 a metade uns dez anos atr\u00e1s; o outro \u00e9 o tema deste texto: &#8220;Quando os Adams sa\u00edram de f\u00e9rias&#8221;, de Mendal W. Johnson (C\u00edrculo do Livro, 277 p\u00e1ginas, traduzido por Carmen Ballot, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1974). A capa j\u00e1 entregava tudo: cinco crian\u00e7as no umbral de uma porta, e uma garota amarrada se contorcendo no ch\u00e3o. Lembro de minha m\u00e3e dizendo, com desgosto, que no livro \u201cas crian\u00e7as ficavam torturando a bab\u00e1 sem parar\u201d. Provavelmente minha m\u00e3e n\u00e3o terminou de ler o romance: a \u00faltima dobra do papel est\u00e1 na p\u00e1gina 126, e d\u00e1 perfeitamente para entender por que ela parou ali. J\u00e1 eu fui at\u00e9 o fim. No livro, Barbara, 20 anos, \u00e9 a bab\u00e1 contratada para cuidar de Bobby (14 anos) e Cindy (10 anos), filhos dos Adams, que se unem aos irm\u00e3os vizinhos Dianne (17 anos) e Paul McVeigh, e ao amigo John (17 anos), para aprision\u00e1-la. No pr\u00f3logo, a bab\u00e1 est\u00e1 em paz levando as crian\u00e7as para a igreja e para um banho no rio, mas logo em seguida ela se v\u00ea dopada e amarrada \u2013 e o sofrimento dela s\u00f3 est\u00e1 come\u00e7ando. O livro \u00e9 bastante criticado pelo sofrimento gratuito, mas, em \u00e9pocas de zoossadismo na internet perpetrado por crian\u00e7as, nem sei se o livro \u00e9 t\u00e3o exagerado assim. A hist\u00f3ria do autor, Mendal W. Johnson, \u00e9 tr\u00e1gica. Tendo lan\u00e7ado o livro em 1974, faleceu dois anos depois, v\u00edtima de alcoolismo, sem conseguir terminar os tr\u00eas romances que estava escrevendo. 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