{"id":6285,"date":"2026-05-16T15:18:14","date_gmt":"2026-05-16T18:18:14","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6285"},"modified":"2026-05-16T15:25:07","modified_gmt":"2026-05-16T18:25:07","slug":"alem-dos-melhores-discos-meus-livros-essenciais-de-nao-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6285","title":{"rendered":"Al\u00e9m dos melhores discos: meus livros essenciais de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Fa\u00e7o listas basicamente desde que tive acesso \u00e0 internet: melhores filmes, melhores m\u00fasicas, melhores discos etc. Acho que \u00e9 um bom e divertido exerc\u00edcio de lembrar de experi\u00eancias agrad\u00e1veis em v\u00e1rios aspectos.<\/p>\n<p>A lista do texto de hoje \u00e9 uma que penso em fazer h\u00e1 tempos: quais os livros de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o-religiosos que mais me marcaram?<\/p>\n<p>A lista segue abaixo, sem ordem de prefer\u00eancia. Alguns deles eu li h\u00e1 muitos anos j\u00e1 e nem tenho mais comigo, ent\u00e3o eu coloco as informa\u00e7\u00f5es de alguma edi\u00e7\u00e3o recente.<\/p>\n<ul>\n<li><em>A Interpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos<\/em>, de Sigmund Freud (Folha de S. Paulo, 704 p\u00e1ginas, traduzido por Renato Zwick, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1900)<\/li>\n<\/ul>\n<p>A cada nova revela\u00e7\u00e3o deste longo, did\u00e1tico e extremamente bem-escrito livro eu ficava pensando comigo: \u201cNossa, isso faz tanto sentido\u201d. Minha terapeuta n\u00e3o \u00e9 freudiana, mas frequentemente rimos que alguma hist\u00f3ria pessoal minha bate com o que Freud dizia no come\u00e7o do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<ul>\n<li><em>Os Carrascos Volunt\u00e1rios de Hitler<\/em>, de Daniel Jonah Goldhagen (Companhia das Letras, 680 p\u00e1ginas, traduzido por Luiz Paulo Rouanet, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1996)<\/li>\n<\/ul>\n<p>Muitos estudiosos reclamam da conclus\u00e3o principal de Goldhagen, de que os <em>alem\u00e3es realmente queriam matar judeus<\/em>, dizendo que havia, sim, alem\u00e3es contra o homic\u00eddio de judeus. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil ler os cap\u00edtulos sobre os <em>Einsatzgruppen<\/em> (esquadr\u00f5es m\u00f3veis que realizaram fuzilamentos em massa no in\u00edcio da invas\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) e as Marchas da Morte (evacua\u00e7\u00f5es for\u00e7adas e brutais de prisioneiros dos campos de concentra\u00e7\u00e3o no final da guerra para evitar que fossem libertados pelos Aliados) e n\u00e3o achar que Goldhagen estava certo, pelo menos em parte. O livro \u00e9 t\u00e3o perturbador que me atrapalhou o sono por semanas \u2013 e, em \u00faltima an\u00e1lise, me impede at\u00e9 hoje de ter muito medo de filmes de terror, por mais que eu ame o estilo: a realidade retratada em <em>Os Carrascos Volunt\u00e1rios de Hitler<\/em> \u00e9 pior do que qualquer terror cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n<ul>\n<li><em>O Povo Brasileiro<\/em>, de Darcy Ribeiro (Companhia das Letras, 480 p\u00e1ginas, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1995)<\/li>\n<\/ul>\n<p>Quem, como eu, acompanhava muita pol\u00edtica nos anos 1980 pela televis\u00e3o certamente se lembra bem de como o <em>pol\u00edtico <\/em>Darcy Ribeiro era exuberante e espalhafatoso: falava muito e r\u00e1pido, e tinha uma obsess\u00e3o enorme em fazer com que todas as crian\u00e7as passassem o dia na escola. Quando, no in\u00edcio dos anos 2000, resolvi ter contato com esta obra-prima, fiquei ao mesmo tempo surpreso com a qualidade do livro (j\u00e1 que o <em>pol\u00edtico <\/em>Darcy Ribeiro n\u00e3o me impressionava muito) e como <em>O Povo Brasileiro<\/em> realmente tem a cara do seu autor: exuberante, intenso, apaixonado. O livro conta a hist\u00f3ria da miscigena\u00e7\u00e3o dos povos que formaram o Brasil \u2013 brancos, negros e \u00edndios \u2013 de uma maneira como voc\u00ea nunca imaginou naquelas aulas chatas de hist\u00f3ria na escola.<\/p>\n<ul>\n<li><em>Ra\u00edzes do Brasil<\/em>, de S\u00e9rgio Buarque de Holanda (Companhia das Letras, 232 p\u00e1ginas, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1936)<\/li>\n<\/ul>\n<p>Eu odeio a express\u00e3o \u201cobrigat\u00f3rio\u201d para se referir a livros, filmes, m\u00fasicas: ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a nada, afinal, quanto mais a consumir o produto cultural que seja. Mas se tivesse que apontar apenas um livro para entender o Brasil, este certamente seria <em>Ra\u00edzes do Brasil<\/em>, do pai do Chico Buarque. A teoria principal do livro \u00e9 que, ao contr\u00e1rio dos europeus do norte, que prezam a \u201cfria\u201d compet\u00eancia no trabalho, os brasileiros &#8211; assim como eram os portugueses colonizadores &#8211; se importam muito mais com rela\u00e7\u00f5es pessoais. A famosa frase de que o \u201cbrasileiro \u00e9 um povo cordial\u201d tem a ver com rela\u00e7\u00f5es \u201ccordiais\u201d (do cora\u00e7\u00e3o) e n\u00e3o com uma suposta afetividade. Bem, \u00e9 s\u00f3 ver o notici\u00e1rio para saber de onde vem esse nosso \u201cjeitinho\u201d t\u00e3o prejudicial para o pa\u00eds como um todo.<\/p>\n<ul>\n<li><em>A Ci\u00eancia Tem Todas as Respostas?<\/em>, de Sabine Hossenfelder (Editora Cultrix, 272 p\u00e1ginas, traduzido por Mayara Ismael, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 2022)<\/li>\n<\/ul>\n<p><a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/a-ciencia-tem-todas-as-respostas\">Aqui<\/a> eu tinha escrito um texto sobre este que \u00e9 a obra de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que mais gostei de ter lido, e seguem alguns trechos deste livro maravilhoso:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cN\u00e3o me leve a mal. Eu n\u00e3o tenho nada contra pessoas que perseguem essas ideias em si. Se algu\u00e9m achar que isso tem valor por alguma raz\u00e3o, tudo bem para mim \u2013 todos devem ser livres para praticar sua religi\u00e3o. Mas eu quero que cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. \u00c0s vezes, a \u00fanica resposta cient\u00edfica que pode ser dada \u00e9 \u2018n\u00f3s n\u00e3o sabemos\u2019. (&#8230;) N\u00e3o \u00e9 que eu queira ser simp\u00e1tica com pessoas religiosas pela \u00fanica raz\u00e3o de ser agrad\u00e1vel. Para come\u00e7o de conversa, eu n\u00e3o sou exatamente conhecida como uma pessoa agrad\u00e1vel. Mais importante do que isso, cientistas que afirmam, como fez Stephen Hawking, que \u2018n\u00e3o existe a possibilidade de um criador\u2019, ou como Victor Stenger, que Deus \u00e9 uma \u2018hip\u00f3tese falseada\u2019, demonstram que n\u00e3o entendem o limite de seu pr\u00f3prio conhecimento. Eu sinto arrepios quando cientistas fazem essas declara\u00e7\u00f5es presun\u00e7osas.\u201d <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Chamar o ate\u00edsmo de \u201cteologia\u201d \u2013 isso vindo de uma agn\u00f3stica ferrenha \u2013 meio que lava a minha alma.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.<\/em><\/p>\n<p><em>Se voc\u00ea estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/o-universo-de-gilead-nao-cabe-no\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fa\u00e7o listas basicamente desde que tive acesso \u00e0 internet: melhores filmes, melhores m\u00fasicas, melhores discos etc. Acho que \u00e9 um bom e divertido exerc\u00edcio de lembrar de experi\u00eancias agrad\u00e1veis em v\u00e1rios aspectos. A lista do texto de hoje \u00e9 uma que penso em fazer h\u00e1 tempos: quais os livros de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o-religiosos que mais me marcaram? A lista segue abaixo, sem ordem de prefer\u00eancia. Alguns deles eu li h\u00e1 muitos anos j\u00e1 e nem tenho mais comigo, ent\u00e3o eu coloco as informa\u00e7\u00f5es de alguma edi\u00e7\u00e3o recente. A Interpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos, de Sigmund Freud (Folha de S. Paulo, 704 p\u00e1ginas, traduzido por Renato Zwick, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1900) A cada nova revela\u00e7\u00e3o deste longo, did\u00e1tico e extremamente bem-escrito livro eu ficava pensando comigo: \u201cNossa, isso faz tanto sentido\u201d. Minha terapeuta n\u00e3o \u00e9 freudiana, mas frequentemente rimos que alguma hist\u00f3ria pessoal minha bate com o que Freud dizia no come\u00e7o do s\u00e9culo XX. Os Carrascos Volunt\u00e1rios de Hitler, de Daniel Jonah Goldhagen (Companhia das Letras, 680 p\u00e1ginas, traduzido por Luiz Paulo Rouanet, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1996) Muitos estudiosos reclamam da conclus\u00e3o principal de Goldhagen, de que os alem\u00e3es realmente queriam matar judeus, dizendo que havia, sim, alem\u00e3es contra o homic\u00eddio de judeus. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil ler os cap\u00edtulos sobre os Einsatzgruppen (esquadr\u00f5es m\u00f3veis que realizaram fuzilamentos em massa no in\u00edcio da invas\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) e as Marchas da Morte (evacua\u00e7\u00f5es for\u00e7adas e brutais de prisioneiros dos campos de concentra\u00e7\u00e3o no final da guerra para evitar que fossem libertados pelos Aliados) e n\u00e3o achar que Goldhagen estava certo, pelo menos em parte. O livro \u00e9 t\u00e3o perturbador que me atrapalhou o sono por semanas \u2013 e, em \u00faltima an\u00e1lise, me impede at\u00e9 hoje de ter muito medo de filmes de terror, por mais que eu ame o estilo: a realidade retratada em Os Carrascos Volunt\u00e1rios de Hitler \u00e9 pior do que qualquer terror cinematogr\u00e1fico. O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro (Companhia das Letras, 480 p\u00e1ginas, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1995) Quem, como eu, acompanhava muita pol\u00edtica nos anos 1980 pela televis\u00e3o certamente se lembra bem de como o pol\u00edtico Darcy Ribeiro era exuberante e espalhafatoso: falava muito e r\u00e1pido, e tinha uma obsess\u00e3o enorme em fazer com que todas as crian\u00e7as passassem o dia na escola. Quando, no in\u00edcio dos anos 2000, resolvi ter contato com esta obra-prima, fiquei ao mesmo tempo surpreso com a qualidade do livro (j\u00e1 que o pol\u00edtico Darcy Ribeiro n\u00e3o me impressionava muito) e como O Povo Brasileiro realmente tem a cara do seu autor: exuberante, intenso, apaixonado. O livro conta a hist\u00f3ria da miscigena\u00e7\u00e3o dos povos que formaram o Brasil \u2013 brancos, negros e \u00edndios \u2013 de uma maneira como voc\u00ea nunca imaginou naquelas aulas chatas de hist\u00f3ria na escola. Ra\u00edzes do Brasil, de S\u00e9rgio Buarque de Holanda (Companhia das Letras, 232 p\u00e1ginas, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1936) Eu odeio a express\u00e3o \u201cobrigat\u00f3rio\u201d para se referir a livros, filmes, m\u00fasicas: ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a nada, afinal, quanto mais a consumir o produto cultural que seja. Mas se tivesse que apontar apenas um livro para entender o Brasil, este certamente seria Ra\u00edzes do Brasil, do pai do Chico Buarque. A teoria principal do livro \u00e9 que, ao contr\u00e1rio dos europeus do norte, que prezam a \u201cfria\u201d compet\u00eancia no trabalho, os brasileiros &#8211; assim como eram os portugueses colonizadores &#8211; se importam muito mais com rela\u00e7\u00f5es pessoais. A famosa frase de que o \u201cbrasileiro \u00e9 um povo cordial\u201d tem a ver com rela\u00e7\u00f5es \u201ccordiais\u201d (do cora\u00e7\u00e3o) e n\u00e3o com uma suposta afetividade. Bem, \u00e9 s\u00f3 ver o notici\u00e1rio para saber de onde vem esse nosso \u201cjeitinho\u201d t\u00e3o prejudicial para o pa\u00eds como um todo. A Ci\u00eancia Tem Todas as Respostas?, de Sabine Hossenfelder (Editora Cultrix, 272 p\u00e1ginas, traduzido por Mayara Ismael, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 2022) Aqui eu tinha escrito um texto sobre este que \u00e9 a obra de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que mais gostei de ter lido, e seguem alguns trechos deste livro maravilhoso: \u201cN\u00e3o me leve a mal. Eu n\u00e3o tenho nada contra pessoas que perseguem essas ideias em si. Se algu\u00e9m achar que isso tem valor por alguma raz\u00e3o, tudo bem para mim \u2013 todos devem ser livres para praticar sua religi\u00e3o. Mas eu quero que cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. \u00c0s vezes, a \u00fanica resposta cient\u00edfica que pode ser dada \u00e9 \u2018n\u00f3s n\u00e3o sabemos\u2019. (&#8230;) N\u00e3o \u00e9 que eu queira ser simp\u00e1tica com pessoas religiosas pela \u00fanica raz\u00e3o de ser agrad\u00e1vel. Para come\u00e7o de conversa, eu n\u00e3o sou exatamente conhecida como uma pessoa agrad\u00e1vel. Mais importante do que isso, cientistas que afirmam, como fez Stephen Hawking, que \u2018n\u00e3o existe a possibilidade de um criador\u2019, ou como Victor Stenger, que Deus \u00e9 uma \u2018hip\u00f3tese falseada\u2019, demonstram que n\u00e3o entendem o limite de seu pr\u00f3prio conhecimento. Eu sinto arrepios quando cientistas fazem essas declara\u00e7\u00f5es presun\u00e7osas.\u201d Chamar o ate\u00edsmo de \u201cteologia\u201d \u2013 isso vindo de uma agn\u00f3stica ferrenha \u2013 meio que lava a minha alma. Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. 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