{"id":6270,"date":"2026-05-05T16:13:35","date_gmt":"2026-05-05T19:13:35","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6270"},"modified":"2026-05-05T16:19:25","modified_gmt":"2026-05-05T19:19:25","slug":"o-leitor-descuidado-revisitando-as-sombras-de-virginia-woolf-e-descobrindo-os-labirintos-de-manuel-puig-e-lygia-fagundes-telles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6270","title":{"rendered":"O Leitor Descuidado &#8211; Revisitando as sombras de Virginia Woolf e descobrindo os labirintos de Manuel Puig e Lygia Fagundes Telles"},"content":{"rendered":"<p>Eu era um adolescente pretensioso e lia romances de vanguarda que n\u00e3o tinha a menor condi\u00e7\u00e3o de entender \u2013 os tr\u00eas principais nesta categoria eram William Faulkner, James Joyce e Virginia Woolf. Na idade adulta, j\u00e1 reli boa parte destes livros e, quem sabe, acabe lendo todos eles at\u00e9 o final da minha vida. N\u00e3o importa muito, na verdade.<\/p>\n<p>O engra\u00e7ado nesta hist\u00f3ria \u00e9 que eu tinha certeza de que tinha amado, mas n\u00e3o lembrava de quase nada de <strong>Passeio ao Farol<\/strong>, de Virginia Woolf (Nova Fronteira, 208 p\u00e1ginas, traduzido por Lya Luft, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1927). Eu sei l\u00e1, eu achava que era um romance melanc\u00f3lico e bonito sobre um relacionamento amoroso pr\u00f3ximo de uma praia e de um farol, na Inglaterra.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era bem assim: o livro conta a hist\u00f3ria do casal Ramsay \u2014 um fil\u00f3sofo arrogante e sua esposa, uma dona de casa bel\u00edssima \u2014, que passa o ver\u00e3o em uma casa diante do mar na Ilha de Skye, na Esc\u00f3cia. Com eles, est\u00e3o seus oito filhos e as pessoas que orbitam ao redor deles como sat\u00e9lites: um estudante acad\u00eamico grosseiro, uma pintora solteira, o filho matem\u00e1tico, um velho poeta e outro casal de convidados, os Rayley, cujo noivado \u00e9 um dos fios condutores da primeira parte.<\/p>\n<p>No m\u00ednimo, \u00e9 um livro de dif\u00edcil leitura: apesar de ser todo escrito em terceira pessoa, os pensamentos dos personagens s\u00e3o descritos em detalhes, e nem sempre se tem certeza de quem est\u00e1 pensando sobre o qu\u00ea e quem. A passagem do tempo \u00e9 contada de maneira genial: o livro \u00e9 dividido em tr\u00eas partes, sendo que a primeira e a \u00faltima focam em dias espec\u00edficos, separadas por um intervalo de dez anos que \u00e9 narrado de forma acelerada e po\u00e9tica na parte central. O tom geral \u00e9 muito melanc\u00f3lico e os personagens normalmente t\u00eam frustra\u00e7\u00f5es enormes e reprimidas \u2013 nada a ver com a lembran\u00e7a que eu tinha, de uma hist\u00f3ria rom\u00e2ntica e de beleza natural. Mas <strong>Passeio ao Farol<\/strong> \u00e9 uma obra-prima, sob qualquer aspecto que se olhe. Quem sabe eu ainda releia, tantos s\u00e3o os detalhes que eu gostaria de rever por outro \u00e2ngulo.<\/p>\n<p>Diferente dessa minha jornada de releituras, cheguei recentemente a dois outros livros que tamb\u00e9m brincam com a linguagem e a t\u00e9cnica liter\u00e1ria, <strong>mas que eu nunca havia lido antes<\/strong>: a edi\u00e7\u00e3o em espanhol <strong>Boquitas pintadas<\/strong>, de Manuel Puig (Booket, 224 p\u00e1ginas, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1969) e <strong>As meninas<\/strong>, de Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras, 304 p\u00e1ginas, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1973).<\/p>\n<p>Se \u201cPasseio ao Farol\u201d se concentra em an\u00e1lises de personagens cultos e reprimidos, \u201cBoquitas pintadas\u201d \u00e9 um melodrama rasgado, contando a hist\u00f3ria do gal\u00e3 da cidade argentina de Valle Jos, Juan Carlos Etchepare, um homem bel\u00edssimo, mas tuberculoso. Um bom n\u00famero de mulheres se apaixona e briga por ele. Outro amor marcante \u00e9 o de uma empregada dom\u00e9stica, \u201cLa Raba\u201d, que se apaixona por um oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o que se torna policial, Pancho (amigo do gal\u00e3 supracitado).<\/p>\n<p>Cada cap\u00edtulo \u00e9 uma \u201centrega\u201d, uma esp\u00e9cie de ba\u00fa com diferentes documentos cada um: cartas, relat\u00f3rios de pol\u00edcia, di\u00e1logos, fofocas. A leitura de \u201cBoquitas Pintadas\u201d \u00e9 frequentemente dif\u00edcil, pela quantidade de personagens que entram e saem sem serem \u201capresentados\u201d, e pelos muitos di\u00e1logos cujos participantes nem sempre s\u00e3o nomeados de imediato. Mas \u00e9 uma leitura divertida e autoir\u00f4nica.<\/p>\n<p>Finalmente, \u201cAs Meninas\u201d, de Lygia Fagundes Telles, narra a hist\u00f3ria de tr\u00eas estudantes universit\u00e1rias que vivem em um pensionato em S\u00e3o Paulo. Lorena \u00e9 rica, apaixonada por um homem casado e costuma apoiar as amigas, especialmente Lia, uma jovem de origem humilde e militante da luta armada. J\u00e1 Ana Clara \u00e9 uma jovem bel\u00edssima, que enfrenta crises existenciais e problemas com drogas.<\/p>\n<p>Recomendo a todos que pretendem ler \u201cAs Meninas\u201d que se informem sobre essas tr\u00eas personagens antes de come\u00e7ar! O romance \u00e9 constru\u00eddo em primeira e terceira pessoas, e as transi\u00e7\u00f5es entre os fluxos de pensamento de cada uma nunca s\u00e3o expl\u00edcitas \u2014 \u00e9 pelo estilo e pelo tipo de ideia que descobrimos quem est\u00e1 com a voz. Mas n\u00e3o se preocupem: depois de pegar o jeito, a leitura de \u201cAs Meninas\u201d flui maravilhosamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Imagem obtida no Gemini<\/em><\/p>\n<p><em>Se voc\u00ea tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/o-leitor-descuidado\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu era um adolescente pretensioso e lia romances de vanguarda que n\u00e3o tinha a menor condi\u00e7\u00e3o de entender \u2013 os tr\u00eas principais nesta categoria eram William Faulkner, James Joyce e Virginia Woolf. Na idade adulta, j\u00e1 reli boa parte destes livros e, quem sabe, acabe lendo todos eles at\u00e9 o final da minha vida. N\u00e3o importa muito, na verdade. O engra\u00e7ado nesta hist\u00f3ria \u00e9 que eu tinha certeza de que tinha amado, mas n\u00e3o lembrava de quase nada de Passeio ao Farol, de Virginia Woolf (Nova Fronteira, 208 p\u00e1ginas, traduzido por Lya Luft, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1927). Eu sei l\u00e1, eu achava que era um romance melanc\u00f3lico e bonito sobre um relacionamento amoroso pr\u00f3ximo de uma praia e de um farol, na Inglaterra. Mas n\u00e3o era bem assim: o livro conta a hist\u00f3ria do casal Ramsay \u2014 um fil\u00f3sofo arrogante e sua esposa, uma dona de casa bel\u00edssima \u2014, que passa o ver\u00e3o em uma casa diante do mar na Ilha de Skye, na Esc\u00f3cia. Com eles, est\u00e3o seus oito filhos e as pessoas que orbitam ao redor deles como sat\u00e9lites: um estudante acad\u00eamico grosseiro, uma pintora solteira, o filho matem\u00e1tico, um velho poeta e outro casal de convidados, os Rayley, cujo noivado \u00e9 um dos fios condutores da primeira parte. No m\u00ednimo, \u00e9 um livro de dif\u00edcil leitura: apesar de ser todo escrito em terceira pessoa, os pensamentos dos personagens s\u00e3o descritos em detalhes, e nem sempre se tem certeza de quem est\u00e1 pensando sobre o qu\u00ea e quem. A passagem do tempo \u00e9 contada de maneira genial: o livro \u00e9 dividido em tr\u00eas partes, sendo que a primeira e a \u00faltima focam em dias espec\u00edficos, separadas por um intervalo de dez anos que \u00e9 narrado de forma acelerada e po\u00e9tica na parte central. O tom geral \u00e9 muito melanc\u00f3lico e os personagens normalmente t\u00eam frustra\u00e7\u00f5es enormes e reprimidas \u2013 nada a ver com a lembran\u00e7a que eu tinha, de uma hist\u00f3ria rom\u00e2ntica e de beleza natural. Mas Passeio ao Farol \u00e9 uma obra-prima, sob qualquer aspecto que se olhe. Quem sabe eu ainda releia, tantos s\u00e3o os detalhes que eu gostaria de rever por outro \u00e2ngulo. Diferente dessa minha jornada de releituras, cheguei recentemente a dois outros livros que tamb\u00e9m brincam com a linguagem e a t\u00e9cnica liter\u00e1ria, mas que eu nunca havia lido antes: a edi\u00e7\u00e3o em espanhol Boquitas pintadas, de Manuel Puig (Booket, 224 p\u00e1ginas, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1969) e As meninas, de Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras, 304 p\u00e1ginas, ano de publica\u00e7\u00e3o original: 1973). Se \u201cPasseio ao Farol\u201d se concentra em an\u00e1lises de personagens cultos e reprimidos, \u201cBoquitas pintadas\u201d \u00e9 um melodrama rasgado, contando a hist\u00f3ria do gal\u00e3 da cidade argentina de Valle Jos, Juan Carlos Etchepare, um homem bel\u00edssimo, mas tuberculoso. Um bom n\u00famero de mulheres se apaixona e briga por ele. Outro amor marcante \u00e9 o de uma empregada dom\u00e9stica, \u201cLa Raba\u201d, que se apaixona por um oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o que se torna policial, Pancho (amigo do gal\u00e3 supracitado). Cada cap\u00edtulo \u00e9 uma \u201centrega\u201d, uma esp\u00e9cie de ba\u00fa com diferentes documentos cada um: cartas, relat\u00f3rios de pol\u00edcia, di\u00e1logos, fofocas. A leitura de \u201cBoquitas Pintadas\u201d \u00e9 frequentemente dif\u00edcil, pela quantidade de personagens que entram e saem sem serem \u201capresentados\u201d, e pelos muitos di\u00e1logos cujos participantes nem sempre s\u00e3o nomeados de imediato. Mas \u00e9 uma leitura divertida e autoir\u00f4nica. Finalmente, \u201cAs Meninas\u201d, de Lygia Fagundes Telles, narra a hist\u00f3ria de tr\u00eas estudantes universit\u00e1rias que vivem em um pensionato em S\u00e3o Paulo. 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