{"id":627,"date":"2015-04-12T03:58:29","date_gmt":"2015-04-12T03:58:29","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=627"},"modified":"2015-04-07T04:02:53","modified_gmt":"2015-04-07T04:02:53","slug":"limite-de-mario-peixoto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=627","title":{"rendered":"Limite, de M\u00e1rio Peixoto"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 nem lembro direito h\u00e1 quanto tempo assisti Limite, de M\u00e1rio Peixoto, pela primeira vez. Mas lembro que sa\u00ed de l\u00e1 com cara de trouxa. Assim como tinha sa\u00eddo da Cinemateca tantas vezes com cara de trouxa, sa\u00ed da sess\u00e3o, mais uma vez, com cara de trouxa. Eu acho que tinha assistido uma document\u00e1rio sobre este filme muitos anos antes ainda, muitos mesmo. Parece que o document\u00e1rio falava maravilhas do filme, e do ritmo do filme. Ritmo? Que ritmo? Em Limite n\u00e3o acontecia nada!<\/p>\n<p><!--more-->Bem, hoje Limite \u00e9 meu filme preferido (ou quase isso), certamente o filme que vi mais vezes. S\u00f3 para escrever este texto vi mais uma, com grande prazer. Aquela introdu\u00e7\u00e3o foi s\u00f3 pra desanimar mesmo. Assim como outras coisas na vida, assistir Limite \u00e9 dif\u00edcil na primeira vez.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vamos ao lado bom do filme: j\u00e1 na primeira vez que assisti eu ficara impressionado com a sua cena inicial. Eu sabia que era um filme mudo brasileiro, aquela coisa toda (na verdade, M\u00e1rio Peixoto tinha 22 anos em 1931, quando realizou Limite, e faleceu em 1992 sem ter completado mais nenhum filme), mas nada tinha me preparado para aquilo. Uma mulher olhando fixamente para a c\u00e2mera, com duas m\u00e3os algemadas bem em frente ao rosto. A imagem me impressiona at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Bem, antes de ver Limite pela segunda vez, eu li num prospecto um papelzinho que explicava o filme, mais ou menos como segue. Depois daquela cena inicial impressionante, aparecem os tr\u00eas personagens (Mulher n. 1, Mulher n. 2, e Homem n. 1) num barco \u00e0 deriva. O filme \u00e9 a hist\u00f3ria contada por cada um deles. S\u00e3o tr\u00eas hist\u00f3rias de fugas (a fugitiva da pris\u00e3o, a mulher que fugiu do marido b\u00eabado, o homem que foge da mulher tuberculosa) e que se encontram, sabe-se l\u00e1 como, neste barco. No final, novamente no barco, os tr\u00eas est\u00e3o completamente sem mantimentos, e o Homem n.1 tenta pegar um barril que eles veem no mar, mas n\u00e3o consegue. Vem uma tempestade, e o barco afunda &#8211; apenas a Mulher n.1 sobrevive, agarrada a um destro\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>O que \u00e9 not\u00e1vel no filme, al\u00e9m da beleza, melancolia e poesia das imagens (o filme \u00e9 todo filmado na Angra dos Reis do come\u00e7o do s\u00e9culo, uma mistura de natureza exuberante e constru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas &#8211; isto sem falar na maravilha que \u00e9 o mar filmado por Edgar Brazil) e como a hist\u00f3ria \u00e9 contada. Para mostrar que a personagem quer se suicidar, a c\u00e2mera roda como se fosse louca; para contar um encontro amoroso, s\u00f3 mostradas paisagens id\u00edlicas; l\u00e1 pelas tantas, a c\u00e2mera, que seguia uma personagem, a perde e come\u00e7a a procur\u00e1-la, e a acha &#8211; ela estava sentada, pois tinha desistido temporariamente de caminhar, abatida pelo cansa\u00e7o e des\u00e2nimo. A cada vez que vejo o filme eu saco uma nova met\u00e1fora, um novo detalhezinho legal.<\/p>\n<p>\u00c9 pena que o M\u00e1rio Peixoto fosse t\u00e3o esquisito. Depois de Limite, praticamente fechou as portas para a cria\u00e7\u00e3o de novos filmes, dado o seu temperamento dif\u00edcil e as exig\u00eancias descabidas que fazia para come\u00e7ar novas filmagens. Com o seu enorme romance \u201cO In\u00fatil de Cada Um\u201d, que at\u00e9 hoje n\u00e3o sei se foi todo publicado ou mesmo terminado, ele pretendia fazer nas letras a mesma revolu\u00e7\u00e3o que fez no cinema&#8230; e n\u00e3o conseguiu. \u00c9 imposs\u00edvel ler mais do que tr\u00eas p\u00e1ginas daquele romance (eu comprei o primeiro volume, publicado pela Record). Gra\u00e7as ao inestim\u00e1vel aux\u00edlio humano e financeiro do grande cineasta Walter Salles Jr., M\u00e1rio Peixoto, que estava falido ap\u00f3s gastar toda a fortuna da fam\u00edlia (ele nunca teve um emprego \u201cde verdade\u201d), acabou tendo um final de vida com um pouco de dignidade. Al\u00e9m de tudo isto, ele era, quase que com certeza, um homossexual reprimido, o que provavelmente aumentou sua complica\u00e7\u00e3o interior.<\/p>\n<p>Limite \u00e9 um filme profundamente melanc\u00f3lico (M\u00e1rio Peixoto costumava dizer que o filme era sobre as limita\u00e7\u00f5es humanas &#8211; ele dizia que a gente ouve errado o rel\u00f3gio: \u201co rel\u00f3gio n\u00e3o diz \u201cmais um, mais um\u201d e sim \u201cmenos um, menos um\u201d) e sua vida tamb\u00e9m \u00e9 uma vida de fracassos. Mas pensando bem, imagina se o M\u00e1rio Peixoto termina a vida rico, envolvido em um esc\u00e2ndalo da Embrafilme?<\/p>\n<p><em>(Texto escrito em 2001)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 nem lembro direito h\u00e1 quanto tempo assisti Limite, de M\u00e1rio Peixoto, pela primeira vez. Mas lembro que sa\u00ed de l\u00e1 com cara de trouxa. Assim como tinha sa\u00eddo da Cinemateca tantas vezes com cara de trouxa, sa\u00ed da sess\u00e3o, mais uma vez, com cara de trouxa. Eu acho que tinha assistido uma document\u00e1rio sobre este filme muitos anos antes ainda, muitos mesmo. Parece que o document\u00e1rio falava maravilhas do filme, e do ritmo do filme. Ritmo? Que ritmo? 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