{"id":6235,"date":"2026-03-29T10:04:00","date_gmt":"2026-03-29T13:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6235"},"modified":"2026-03-22T20:13:36","modified_gmt":"2026-03-22T23:13:36","slug":"por-que-ainda-precisamos-do-misterio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6235","title":{"rendered":"Por que ainda precisamos do mist\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p data-pm-slice=\"1 1 []\">Leitura sugerida por amigos, <em>Sapiens: Uma Breve Hist\u00f3ria da Humanidade<\/em>, de Yuval Noah Harari (Companhia das Letras, 464 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de Jana\u00edna Marcoantonio), \u00e9 uma obra de narrativa \u00e1gil e fascinante. Nela, o autor busca sintetizar a trajet\u00f3ria da esp\u00e9cie humana, desde as origens na \u00c1frica at\u00e9 a contemporaneidade, arriscando, inclusive, previs\u00f5es audaciosas para o futuro.<\/p>\n<p>Algumas teses defendidas por Harari s\u00e3o not\u00e1veis e explicam o sucesso estrondoso do livro. Para o autor, por exemplo, a Companhia Peugeot n\u00e3o \u201cexiste\u201d no mundo f\u00edsico; seria uma abstra\u00e7\u00e3o, um mito jur\u00eddico em que as pessoas concordaram em acreditar. Para ilustrar o ponto, ele argumenta que, se as f\u00e1bricas mudassem de nome e o registro legal fosse alterado, as estruturas f\u00edsicas permaneceriam, mas a \u201cPeugeot\u201d desapareceria. Nessa linha, Harari estende o conceito de \u201cordens imaginadas\u201d aos pa\u00edses, ao dinheiro e ao pr\u00f3prio capitalismo: seriam constru\u00e7\u00f5es intersubjetivas aceitas coletivamente.<\/p>\n<p data-pm-slice=\"1 1 []\">Outros pontos s\u00e3o igualmente instigantes, como a an\u00e1lise de como o cr\u00e9dito moderno viabilizou a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e o progresso t\u00e9cnico, ou como as religi\u00f5es permitiram a coopera\u00e7\u00e3o de grupos humanos em escalas muito superiores \u00e0s comunidades primitivas.<\/p>\n<p>Contudo, compartilho do inc\u00f4modo de muitos cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra, especialmente em um ponto central. A <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?tag=sabine-hossenfelder\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">cientista alem\u00e3 Sabine Hossenfelder defende<\/a> que, quando um cientista afirma categoricamente que Deus n\u00e3o existe ou que n\u00e3o h\u00e1 vida ap\u00f3s a morte, ele deixa de fazer ci\u00eancia para praticar teologia. De forma ir\u00f4nica, ela comenta que aqueles que usam o m\u00e9todo cient\u00edfico para \u201cprovar\u201d a inexist\u00eancia do divino deveriam ser livres para \u201cpraticar sua religi\u00e3o\u201d, mas ressalta: \u201cQuero que os cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. \u00c0s vezes, a \u00fanica resposta cient\u00edfica poss\u00edvel \u00e9 \u2018n\u00f3s n\u00e3o sabemos\u2019\u201d. Para Hossenfelder \u2014 que \u00e9 agn\u00f3stica \u2014, a ci\u00eancia carece de elementos para refutar o que est\u00e1 al\u00e9m do plano emp\u00edrico.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente essa postura que me incomoda em <em>Sapiens<\/em>. Apesar de apreciar a leitura, percebe-se que Harari raramente admite a d\u00favida; ele faz afirma\u00e7\u00f5es perempt\u00f3rias em temas que exigem o contradit\u00f3rio. Enquanto cientistas como Marcelo Gleiser e Carlo Rovelli falam com rever\u00eancia sobre o \u201cmist\u00e9rio\u201d da exist\u00eancia e do Universo, Harari frequentemente reduz o inexplic\u00e1vel \u2014 como a improv\u00e1vel ascens\u00e3o de religi\u00f5es como o Cristianismo e o Isl\u00e3 \u2014 ao mero acaso. Nada parece misterioso em sua vis\u00e3o, uma postura que, embora sedutora para as vendas, soa reducionista.<\/p>\n<p>Em contrapartida \u00e0 aus\u00eancia de mist\u00e9rios em Harari, a escritora polonesa Olga Tokarczuk (Nobel de Literatura de 2018), nos ensaios e palestras de <em>Escrever \u00e9 muito perigoso<\/em> (Todavia, 2019), descreve a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria como um processo misterioso. Para ela, as palavras e hist\u00f3rias parecem surgir \u201cdo nada\u201d, como se os livros j\u00e1 estivessem prontos em algum lugar, aguardando para serem acessados. Sinto-me inclinado a concordar com a Nobel: frequentemente, n\u00e3o sei a origem exata das hist\u00f3rias que escrevo. A sensa\u00e7\u00e3o de que a obra preexiste ao ato de escrever \u00e9 um mist\u00e9rio que a frieza dos acasos de Harari n\u00e3o consegue alcan\u00e7ar.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini, do Google.<\/em><\/p>\n<p><em>Se voc\u00ea tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/open.substack.com\/pub\/fabriciomuller\/p\/a-ciencia-o-acaso-e-o-inexplicavel?r=2m0pd&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=true\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leitura sugerida por amigos, Sapiens: Uma Breve Hist\u00f3ria da Humanidade, de Yuval Noah Harari (Companhia das Letras, 464 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de Jana\u00edna Marcoantonio), \u00e9 uma obra de narrativa \u00e1gil e fascinante. Nela, o autor busca sintetizar a trajet\u00f3ria da esp\u00e9cie humana, desde as origens na \u00c1frica at\u00e9 a contemporaneidade, arriscando, inclusive, previs\u00f5es audaciosas para o futuro. Algumas teses defendidas por Harari s\u00e3o not\u00e1veis e explicam o sucesso estrondoso do livro. Para o autor, por exemplo, a Companhia Peugeot n\u00e3o \u201cexiste\u201d no mundo f\u00edsico; seria uma abstra\u00e7\u00e3o, um mito jur\u00eddico em que as pessoas concordaram em acreditar. Para ilustrar o ponto, ele argumenta que, se as f\u00e1bricas mudassem de nome e o registro legal fosse alterado, as estruturas f\u00edsicas permaneceriam, mas a \u201cPeugeot\u201d desapareceria. Nessa linha, Harari estende o conceito de \u201cordens imaginadas\u201d aos pa\u00edses, ao dinheiro e ao pr\u00f3prio capitalismo: seriam constru\u00e7\u00f5es intersubjetivas aceitas coletivamente. Outros pontos s\u00e3o igualmente instigantes, como a an\u00e1lise de como o cr\u00e9dito moderno viabilizou a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e o progresso t\u00e9cnico, ou como as religi\u00f5es permitiram a coopera\u00e7\u00e3o de grupos humanos em escalas muito superiores \u00e0s comunidades primitivas. Contudo, compartilho do inc\u00f4modo de muitos cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra, especialmente em um ponto central. A cientista alem\u00e3 Sabine Hossenfelder defende que, quando um cientista afirma categoricamente que Deus n\u00e3o existe ou que n\u00e3o h\u00e1 vida ap\u00f3s a morte, ele deixa de fazer ci\u00eancia para praticar teologia. De forma ir\u00f4nica, ela comenta que aqueles que usam o m\u00e9todo cient\u00edfico para \u201cprovar\u201d a inexist\u00eancia do divino deveriam ser livres para \u201cpraticar sua religi\u00e3o\u201d, mas ressalta: \u201cQuero que os cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. \u00c0s vezes, a \u00fanica resposta cient\u00edfica poss\u00edvel \u00e9 \u2018n\u00f3s n\u00e3o sabemos\u2019\u201d. Para Hossenfelder \u2014 que \u00e9 agn\u00f3stica \u2014, a ci\u00eancia carece de elementos para refutar o que est\u00e1 al\u00e9m do plano emp\u00edrico. \u00c9 precisamente essa postura que me incomoda em Sapiens. Apesar de apreciar a leitura, percebe-se que Harari raramente admite a d\u00favida; ele faz afirma\u00e7\u00f5es perempt\u00f3rias em temas que exigem o contradit\u00f3rio. Enquanto cientistas como Marcelo Gleiser e Carlo Rovelli falam com rever\u00eancia sobre o \u201cmist\u00e9rio\u201d da exist\u00eancia e do Universo, Harari frequentemente reduz o inexplic\u00e1vel \u2014 como a improv\u00e1vel ascens\u00e3o de religi\u00f5es como o Cristianismo e o Isl\u00e3 \u2014 ao mero acaso. Nada parece misterioso em sua vis\u00e3o, uma postura que, embora sedutora para as vendas, soa reducionista. Em contrapartida \u00e0 aus\u00eancia de mist\u00e9rios em Harari, a escritora polonesa Olga Tokarczuk (Nobel de Literatura de 2018), nos ensaios e palestras de Escrever \u00e9 muito perigoso (Todavia, 2019), descreve a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria como um processo misterioso. Para ela, as palavras e hist\u00f3rias parecem surgir \u201cdo nada\u201d, como se os livros j\u00e1 estivessem prontos em algum lugar, aguardando para serem acessados. Sinto-me inclinado a concordar com a Nobel: frequentemente, n\u00e3o sei a origem exata das hist\u00f3rias que escrevo. A sensa\u00e7\u00e3o de que a obra preexiste ao ato de escrever \u00e9 um mist\u00e9rio que a frieza dos acasos de Harari n\u00e3o consegue alcan\u00e7ar. Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini, do Google. 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