{"id":6185,"date":"2026-03-01T12:45:42","date_gmt":"2026-03-01T15:45:42","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6185"},"modified":"2026-03-01T12:45:42","modified_gmt":"2026-03-01T15:45:42","slug":"relato-de-um-engenheiro-que-buscou-o-infinito-em-borges-mas-encontrou-a-vida-no-livro-branco-de-han-kang","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6185","title":{"rendered":"Relato de um engenheiro que buscou o infinito em Borges, mas encontrou a vida no &#8220;Livro Branco&#8221; de Han Kang"},"content":{"rendered":"<p>Eu era um menino pretensioso. Bastava o pessoal mais velho falar bem de algum escritor que l\u00e1 ia eu tentar ler tamb\u00e9m. Com Borges e Cort\u00e1zar, a experi\u00eancia era ainda mais instigante: em um conto de Cort\u00e1zar, as pessoas vomitam coelhinhos; em outro, uma casa \u00e9 tomada aos poucos, e ningu\u00e9m sabe por quem. Borges era bem mais dif\u00edcil de ler, mas havia uma hist\u00f3ria em que algu\u00e9m sonhava um homem num labirinto, e outra em que todo o universo estava contido em um \u00fanico ponto \u2014 hist\u00f3rias fascinantes para aquela crian\u00e7a pretensiosa que eu era.<\/p>\n<p>Desde a inf\u00e2ncia, li bastante a obra do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). O que mais me vem \u00e0 mem\u00f3ria s\u00e3o alguns ensaios excelentes sobre temas como suas leituras de Dante e Kafka, sua cegueira, a biblioteca e o tempo. Suas obras mais conhecidas,\u00a0<em>Fic\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0e\u00a0<em>O Aleph<\/em>, s\u00e3o colet\u00e2neas de contos que reli algumas vezes, mas que nunca me impressionaram tanto quanto seus ensaios.<\/p>\n<p>Dia desses,\u00a0<a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/do-monstro-de-tully-ao-deserto-de\" rel=\"nofollow ugc noopener\">na mesma livraria que citei em um texto recente<\/a>, encontrei uma edi\u00e7\u00e3o maravilhosa em espanhol de\u00a0<em>Borges esencial<\/em>, publicada pela Real Academia Espa\u00f1ola \u2014 uma bela colet\u00e2nea de 800 p\u00e1ginas. Ap\u00f3s alguma hesita\u00e7\u00e3o, resolvi compr\u00e1-la (a foto acompanha este texto). A edi\u00e7\u00e3o conta com v\u00e1rios textos cr\u00edticos, ensaios e poemas selecionados; em termos de contos, traz as colet\u00e2neas\u00a0<em>Fic\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0e\u00a0<em>O Aleph<\/em>\u00a0na \u00edntegra. Resolvi reler o primeiro deles.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se por eu mesmo ser um engenheiro \u2014 e no meu trabalho utilizo o pensamento l\u00f3gico \u2014 ou por j\u00e1 ter lido o livro repetidas vezes, a leitura me decepcionou. Vamos l\u00e1: \u201cA Biblioteca de Babel\u201d me pareceu simplesmente uma an\u00e1lise combinat\u00f3ria recheada; \u201cPierre Menard, autor do Quixote\u201d, em que um autor recria cap\u00edtulos de Cervantes, nunca fez sentido para mim, e continua n\u00e3o fazendo; \u201cTr\u00eas vers\u00f5es de Judas\u201d soou como uma discuss\u00e3o teol\u00f3gica datada, t\u00edpica do in\u00edcio do cristianismo.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u201cO milagre secreto\u201d, em que o tempo estaca, pareceu-me uma releitura da Surata 18, \u201cA Caverna\u201d, do Alcor\u00e3o \u2014 e a influ\u00eancia \u00e9 t\u00e3o direta que Borges utiliza a obra sagrada como ep\u00edgrafe. \u201cAs ru\u00ednas circulares\u201d, sobre um homem que sonha outro, lembrou-me demais os relatos on\u00edricos de\u00a0<em><a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4734\" rel=\"nofollow ugc noopener\">Os Andarilhos do Bem<\/a><\/em><a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4734\" rel=\"nofollow ugc noopener\">, de Carlo Ginzburg<\/a>; j\u00e1 \u201cUm Exame da Obra de Herbert Quain\u201d pareceu-me, em muitos momentos, pura an\u00e1lise matem\u00e1tica. Alguns contos, como \u201cA morte e a b\u00fassola\u201d, \u201cA Aproxima\u00e7\u00e3o a Almot\u00e1sim\u201d e \u201cA loteria em Babil\u00f4nia\u201d, impressionaram-me bem mais, e consigo notar a influ\u00eancia deles em obras policiais e de terror posteriores.<\/p>\n<p>Por outro lado,\u00a0<em>O Livro Branco<\/em>, da sul-coreana Han Kang (vencedora do Nobel de 2024), agradou-me muito mais. O livro, composto de textos curtos e elusivos quase sempre relacionados \u00e0 cor branca (segundo a autora: cueiro, neve, sal, gelo, p\u00e1ssaro, c\u00e3o), \u00e9 uma esp\u00e9cie de elegia \u00e0 irm\u00e3 mais velha que faleceu duas horas ap\u00f3s o nascimento. Segundo Han Kang, se aquela menina tivesse sobrevivido, a pr\u00f3pria escritora provavelmente n\u00e3o teria vindo \u00e0 luz. Os textos s\u00e3o sens\u00edveis, estranhos e lancinantes. Como este trecho:<\/p>\n<blockquote><p><em>A vida n\u00e3o \u00e9 particularmente gentil com ningu\u00e9m. O granizo cai enquanto ela caminha sabendo desse fato. Granizo que molha a testa, as sobrancelhas e as bochechas. Tudo passa. Ao andar, ela se lembra de que, no fim, tudo que voc\u00ea agarra usando todas as for\u00e7as vai desaparecer.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Han Kang imagina a vida dessa irm\u00e3, pensa no que ela poderia estar fazendo e retorna \u00e0 sua pr\u00f3pria realidade. Li\u00a0<em>O Livro Branco<\/em>\u00a0com um travo agridoce, impressionado com tamanha melancolia e beleza. \u00c9 at\u00e9 um tanto desconfort\u00e1vel terminar este texto assim, mas a diferen\u00e7a de impacto entre as duas obras foi t\u00e3o gigantesca \u2014 Han Kang me pareceu grande literatura, enquanto o outro me pareceu um exerc\u00edcio de outra ordem \u2014 que prefiro parar por aqui, antes que me arrependa de confessar meu estranhamento com o famoso escritor argentino.<\/p>\n<p><em>(Se voc\u00ea estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/open.substack.com\/pub\/fabriciomuller\/p\/a-literatura-alem-da-analise-combinatoria?r=2m0pd&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=true\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu era um menino pretensioso. Bastava o pessoal mais velho falar bem de algum escritor que l\u00e1 ia eu tentar ler tamb\u00e9m. Com Borges e Cort\u00e1zar, a experi\u00eancia era ainda mais instigante: em um conto de Cort\u00e1zar, as pessoas vomitam coelhinhos; em outro, uma casa \u00e9 tomada aos poucos, e ningu\u00e9m sabe por quem. Borges era bem mais dif\u00edcil de ler, mas havia uma hist\u00f3ria em que algu\u00e9m sonhava um homem num labirinto, e outra em que todo o universo estava contido em um \u00fanico ponto \u2014 hist\u00f3rias fascinantes para aquela crian\u00e7a pretensiosa que eu era. Desde a inf\u00e2ncia, li bastante a obra do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). O que mais me vem \u00e0 mem\u00f3ria s\u00e3o alguns ensaios excelentes sobre temas como suas leituras de Dante e Kafka, sua cegueira, a biblioteca e o tempo. Suas obras mais conhecidas,\u00a0Fic\u00e7\u00f5es\u00a0e\u00a0O Aleph, s\u00e3o colet\u00e2neas de contos que reli algumas vezes, mas que nunca me impressionaram tanto quanto seus ensaios. Dia desses,\u00a0na mesma livraria que citei em um texto recente, encontrei uma edi\u00e7\u00e3o maravilhosa em espanhol de\u00a0Borges esencial, publicada pela Real Academia Espa\u00f1ola \u2014 uma bela colet\u00e2nea de 800 p\u00e1ginas. Ap\u00f3s alguma hesita\u00e7\u00e3o, resolvi compr\u00e1-la (a foto acompanha este texto). A edi\u00e7\u00e3o conta com v\u00e1rios textos cr\u00edticos, ensaios e poemas selecionados; em termos de contos, traz as colet\u00e2neas\u00a0Fic\u00e7\u00f5es\u00a0e\u00a0O Aleph\u00a0na \u00edntegra. Resolvi reler o primeiro deles. N\u00e3o sei se por eu mesmo ser um engenheiro \u2014 e no meu trabalho utilizo o pensamento l\u00f3gico \u2014 ou por j\u00e1 ter lido o livro repetidas vezes, a leitura me decepcionou. Vamos l\u00e1: \u201cA Biblioteca de Babel\u201d me pareceu simplesmente uma an\u00e1lise combinat\u00f3ria recheada; \u201cPierre Menard, autor do Quixote\u201d, em que um autor recria cap\u00edtulos de Cervantes, nunca fez sentido para mim, e continua n\u00e3o fazendo; \u201cTr\u00eas vers\u00f5es de Judas\u201d soou como uma discuss\u00e3o teol\u00f3gica datada, t\u00edpica do in\u00edcio do cristianismo. J\u00e1 \u201cO milagre secreto\u201d, em que o tempo estaca, pareceu-me uma releitura da Surata 18, \u201cA Caverna\u201d, do Alcor\u00e3o \u2014 e a influ\u00eancia \u00e9 t\u00e3o direta que Borges utiliza a obra sagrada como ep\u00edgrafe. \u201cAs ru\u00ednas circulares\u201d, sobre um homem que sonha outro, lembrou-me demais os relatos on\u00edricos de\u00a0Os Andarilhos do Bem, de Carlo Ginzburg; j\u00e1 \u201cUm Exame da Obra de Herbert Quain\u201d pareceu-me, em muitos momentos, pura an\u00e1lise matem\u00e1tica. Alguns contos, como \u201cA morte e a b\u00fassola\u201d, \u201cA Aproxima\u00e7\u00e3o a Almot\u00e1sim\u201d e \u201cA loteria em Babil\u00f4nia\u201d, impressionaram-me bem mais, e consigo notar a influ\u00eancia deles em obras policiais e de terror posteriores. Por outro lado,\u00a0O Livro Branco, da sul-coreana Han Kang (vencedora do Nobel de 2024), agradou-me muito mais. O livro, composto de textos curtos e elusivos quase sempre relacionados \u00e0 cor branca (segundo a autora: cueiro, neve, sal, gelo, p\u00e1ssaro, c\u00e3o), \u00e9 uma esp\u00e9cie de elegia \u00e0 irm\u00e3 mais velha que faleceu duas horas ap\u00f3s o nascimento. Segundo Han Kang, se aquela menina tivesse sobrevivido, a pr\u00f3pria escritora provavelmente n\u00e3o teria vindo \u00e0 luz. Os textos s\u00e3o sens\u00edveis, estranhos e lancinantes. Como este trecho: A vida n\u00e3o \u00e9 particularmente gentil com ningu\u00e9m. O granizo cai enquanto ela caminha sabendo desse fato. Granizo que molha a testa, as sobrancelhas e as bochechas. Tudo passa. Ao andar, ela se lembra de que, no fim, tudo que voc\u00ea agarra usando todas as for\u00e7as vai desaparecer. Han Kang imagina a vida dessa irm\u00e3, pensa no que ela poderia estar fazendo e retorna \u00e0 sua pr\u00f3pria realidade. Li\u00a0O Livro Branco\u00a0com um travo agridoce, impressionado com tamanha melancolia e beleza. \u00c9 at\u00e9 um tanto desconfort\u00e1vel terminar este texto assim, mas a diferen\u00e7a de impacto entre as duas obras foi t\u00e3o gigantesca \u2014 Han Kang me pareceu grande literatura, enquanto o outro me pareceu um exerc\u00edcio de outra ordem \u2014 que prefiro parar por aqui, antes que me arrependa de confessar meu estranhamento com o famoso escritor argentino. (Se voc\u00ea estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6187,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[1176,1156,1177,937,44,1179,1178],"class_list":["post-6185","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-borges","tag-critica-literaria","tag-ficcoes","tag-han-kang","tag-literatura","tag-nobel-de-literatura","tag-o-livro-branco","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6185","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6185"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6185\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6189,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6185\/revisions\/6189"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6187"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6185"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6185"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6185"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}