{"id":6164,"date":"2026-02-08T14:26:44","date_gmt":"2026-02-08T17:26:44","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6164"},"modified":"2026-02-08T14:35:06","modified_gmt":"2026-02-08T17:35:06","slug":"do-vinil-ao-vhs-uma-jornada-pelos-duetos-inesqueciveis-um-ensaio-sobre-a-elegancia-de-armstrong-a-parceria-de-sinatra-e-a-estetica-sombria-do-rap-contemporaneo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6164","title":{"rendered":"Do Vinil ao VHS: Uma Jornada pelos Duetos Inesquec\u00edveis: Um ensaio sobre a eleg\u00e2ncia de Armstrong, a parceria de Sinatra e a est\u00e9tica sombria do rap contempor\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<p data-pm-slice=\"1 1 []\">L\u00e1 em casa s\u00f3 se ouvia MPB. Minha m\u00e3e, confessa e praticamente sem ouvido para m\u00fasica, era ligada apenas \u00e0s letras; por isso, creio eu, quase tudo o que ouvia era em portugu\u00eas. De esquerda, ela tamb\u00e9m n\u00e3o nutria grande apre\u00e7o pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Foi, portanto, uma surpresa quando, por volta de 1980, senti vontade de comprar o primeiro fasc\u00edculo de uma s\u00e9rie de LPs que a televis\u00e3o n\u00e3o parava de anunciar. A cole\u00e7\u00e3o se chamava \u201cGigantes do Jazz\u201d, da Editora Abril, e o exemplar de estreia era sobre o grande cantor e trompetista Louis Armstrong.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e n\u00e3o se op\u00f4s \u00e0 compra; pelo contr\u00e1rio, chancelou a escolha dizendo que \u201cjazz era cl\u00e1ssico\u201d. Com o exemplar em m\u00e3os, a primeira coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi o visual: o fasc\u00edculo era colorido, beirando o brega \u2014 um contraste enorme com as cole\u00e7\u00f5es de MPB e m\u00fasica erudita da Abril, que eram bem mais s\u00f3brias.<\/p>\n<p>A segunda surpresa foi notar que todos os textos eram assinados por cr\u00edticos franceses. Como eu estudava franc\u00eas na \u00e9poca, achava a l\u00edngua bem mais chique que o ingl\u00eas. O que eu n\u00e3o sabia era que os cr\u00edticos franceses foram os grandes respons\u00e1veis por elevar o jazz ao status de m\u00fasica erudita. Os textos eram \u00e1cidos: lembro-me de ler que, ap\u00f3s o show cujas grava\u00e7\u00f5es estavam naquele LP, a carreira de Armstrong teria entrado em uma \u201cdecad\u00eancia inexor\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Embora tenha gostado das m\u00fasicas, o jazz nunca se tornou meu estilo musical preferido. No entanto, guardei para sempre uma frase daquele fasc\u00edculo: dizia-se que\u00a0\u201cRockin\u2019 Chair\u201d, em que Louis Armstrong canta com\u00a0Jack Teagarden, era \u201co dueto mais delicioso da hist\u00f3ria do jazz\u201d. De fato, tornou-se minha faixa favorita do \u00e1lbum.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, escrevi um\u00a0<a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5191\" rel=\"nofollow ugc noopener\">texto<\/a>\u00a0sobre os meus cinco duetos preferidos entre cantores e cantoras. Agora, decidi fazer o mesmo com os\u00a0melhores duetos exclusivamente entre cantores, homenageando algumas composi\u00e7\u00f5es memor\u00e1veis, aquele lindo dueto citado e, claro, minha querida m\u00e3e.<\/p>\n<p>Segue a lista, por ordem de prefer\u00eancia (links para o YouTube no texto):<\/p>\n<ol>\n<li>\u201cRockin\u2019 Chair\u201d (Louis Armstrong &amp; Jack Teagarden):\u00a0Se ouvir a can\u00e7\u00e3o \u00e9 delicioso, ver a performance dos dois m\u00fasicos juntos \u00e9 simplesmente maravilhoso. Um detalhe importante: Jack Teagarden, que tocava trombone e cantava, era branco \u2014 algo que eu n\u00e3o tinha ideia em 1980! H\u00e1 duas vers\u00f5es fant\u00e1sticas:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=eOxx1-LIAWA&amp;list=PLmMOLSNsXgZvcWPmpkbNes7vrKqkNaCLF&amp;index=6\" rel=\"nofollow ugc noopener\">uma mais antiga, em preto e branco<\/a>, impag\u00e1vel pelas express\u00f5es faciais da dupla, e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gJFgKfuy1oM&amp;list=PLmMOLSNsXgZvcWPmpkbNes7vrKqkNaCLF&amp;index=5\" rel=\"nofollow ugc noopener\">outra mais recente e colorida<\/a>, que provavelmente \u00e9 a que eu conhecia do LP da Abril.<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7sYdUGoIqUM&amp;list=PLmMOLSNsXgZvcWPmpkbNes7vrKqkNaCLF&amp;index=4\" rel=\"nofollow ugc noopener\">\u201cBirth of Blues\u201d (Louis Armstrong &amp; Frank Sinatra)<\/a>:\u00a0Descobri este v\u00eddeo totalmente por acaso. Assim como no dueto anterior, os dois gigantes se divertem sem limites cantando este cl\u00e1ssico do cancioneiro americano, que \u00e9 uma bel\u00edssima homenagem \u00e0 alma do jazz e do blues.<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=R0ykLlhg0AQ&amp;list=PLmMOLSNsXgZvcWPmpkbNes7vrKqkNaCLF&amp;index=2\" rel=\"nofollow ugc noopener\">\u201cMoney in the Grave\u201d (Drake &amp; Rick Ross)<\/a>:\u00a0Enquanto a can\u00e7\u00e3o anterior trata da origem humilde do jazz, aqui os dois rappers celebram a opul\u00eancia, pedindo que sua fortuna seja enterrada com eles. A batida sombria \u00e9 fant\u00e1stica e os versos s\u00e3o espetaculares. O clipe, em preto e branco, \u00e9 altamente impactante. Drake lan\u00e7ou a faixa para celebrar o primeiro t\u00edtulo do Toronto Raptors na NBA, em 2019.<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WNW1xRqbt94&amp;list=PLmMOLSNsXgZvcWPmpkbNes7vrKqkNaCLF\" rel=\"nofollow ugc noopener\">\u201cSneakin\u2019\u201d (Drake &amp; 21 Savage)<\/a>:\u00a0Se Armstrong aparece duas vezes nesta lista, Drake tamb\u00e9m merece o bis. Nesta faixa hipn\u00f3tica, ele ostenta seu sucesso e responde aos rivais, enquanto 21 Savage utiliza um estilo ostensivamente repetitivo. O clipe apresenta uma filmagem de baixa qualidade (Lo-Fi) que evoca a est\u00e9tica de fitas VHS \u2014 uma poss\u00edvel influ\u00eancia do rapper Bones, o pr\u00f3ximo da lista.<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SFGfUOnsqEw\">\u201c\u920d\u3089\u5893\u5730\u201d (Cemetery Blunts) (Bones &amp; Xavier Wulf)<\/a>:\u00a0Comecei a ouvir Bones por volta de 2014. Vindo do metal, mergulhei no universo do rapper por anos; meu Last.fm confirma que, ainda em 2025, ele foi meu artista mais ouvido. O clipe \u00e9 o \u00e1pice da est\u00e9tica\u00a0Vaporwave\/Sad Boys\u00a0que dominava o Tumblr e o underground em 2013: gravado em VHS, com interfer\u00eancias visuais (<em>glitches<\/em>) e est\u00e1tuas cl\u00e1ssicas ao fundo. \u00c9 tudo maravilhoso at\u00e9 hoje.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>(Imagem obtida no Gemini)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 em casa s\u00f3 se ouvia MPB. Minha m\u00e3e, confessa e praticamente sem ouvido para m\u00fasica, era ligada apenas \u00e0s letras; por isso, creio eu, quase tudo o que ouvia era em portugu\u00eas. De esquerda, ela tamb\u00e9m n\u00e3o nutria grande apre\u00e7o pelos Estados Unidos. Foi, portanto, uma surpresa quando, por volta de 1980, senti vontade de comprar o primeiro fasc\u00edculo de uma s\u00e9rie de LPs que a televis\u00e3o n\u00e3o parava de anunciar. A cole\u00e7\u00e3o se chamava \u201cGigantes do Jazz\u201d, da Editora Abril, e o exemplar de estreia era sobre o grande cantor e trompetista Louis Armstrong. Minha m\u00e3e n\u00e3o se op\u00f4s \u00e0 compra; pelo contr\u00e1rio, chancelou a escolha dizendo que \u201cjazz era cl\u00e1ssico\u201d. Com o exemplar em m\u00e3os, a primeira coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi o visual: o fasc\u00edculo era colorido, beirando o brega \u2014 um contraste enorme com as cole\u00e7\u00f5es de MPB e m\u00fasica erudita da Abril, que eram bem mais s\u00f3brias. A segunda surpresa foi notar que todos os textos eram assinados por cr\u00edticos franceses. Como eu estudava franc\u00eas na \u00e9poca, achava a l\u00edngua bem mais chique que o ingl\u00eas. O que eu n\u00e3o sabia era que os cr\u00edticos franceses foram os grandes respons\u00e1veis por elevar o jazz ao status de m\u00fasica erudita. Os textos eram \u00e1cidos: lembro-me de ler que, ap\u00f3s o show cujas grava\u00e7\u00f5es estavam naquele LP, a carreira de Armstrong teria entrado em uma \u201cdecad\u00eancia inexor\u00e1vel\u201d. Embora tenha gostado das m\u00fasicas, o jazz nunca se tornou meu estilo musical preferido. No entanto, guardei para sempre uma frase daquele fasc\u00edculo: dizia-se que\u00a0\u201cRockin\u2019 Chair\u201d, em que Louis Armstrong canta com\u00a0Jack Teagarden, era \u201co dueto mais delicioso da hist\u00f3ria do jazz\u201d. De fato, tornou-se minha faixa favorita do \u00e1lbum. H\u00e1 alguns anos, escrevi um\u00a0texto\u00a0sobre os meus cinco duetos preferidos entre cantores e cantoras. Agora, decidi fazer o mesmo com os\u00a0melhores duetos exclusivamente entre cantores, homenageando algumas composi\u00e7\u00f5es memor\u00e1veis, aquele lindo dueto citado e, claro, minha querida m\u00e3e. Segue a lista, por ordem de prefer\u00eancia (links para o YouTube no texto): \u201cRockin\u2019 Chair\u201d (Louis Armstrong &amp; Jack Teagarden):\u00a0Se ouvir a can\u00e7\u00e3o \u00e9 delicioso, ver a performance dos dois m\u00fasicos juntos \u00e9 simplesmente maravilhoso. Um detalhe importante: Jack Teagarden, que tocava trombone e cantava, era branco \u2014 algo que eu n\u00e3o tinha ideia em 1980! H\u00e1 duas vers\u00f5es fant\u00e1sticas:\u00a0uma mais antiga, em preto e branco, impag\u00e1vel pelas express\u00f5es faciais da dupla, e\u00a0outra mais recente e colorida, que provavelmente \u00e9 a que eu conhecia do LP da Abril. \u201cBirth of Blues\u201d (Louis Armstrong &amp; Frank Sinatra):\u00a0Descobri este v\u00eddeo totalmente por acaso. Assim como no dueto anterior, os dois gigantes se divertem sem limites cantando este cl\u00e1ssico do cancioneiro americano, que \u00e9 uma bel\u00edssima homenagem \u00e0 alma do jazz e do blues. \u201cMoney in the Grave\u201d (Drake &amp; Rick Ross):\u00a0Enquanto a can\u00e7\u00e3o anterior trata da origem humilde do jazz, aqui os dois rappers celebram a opul\u00eancia, pedindo que sua fortuna seja enterrada com eles. A batida sombria \u00e9 fant\u00e1stica e os versos s\u00e3o espetaculares. O clipe, em preto e branco, \u00e9 altamente impactante. Drake lan\u00e7ou a faixa para celebrar o primeiro t\u00edtulo do Toronto Raptors na NBA, em 2019. \u201cSneakin\u2019\u201d (Drake &amp; 21 Savage):\u00a0Se Armstrong aparece duas vezes nesta lista, Drake tamb\u00e9m merece o bis. Nesta faixa hipn\u00f3tica, ele ostenta seu sucesso e responde aos rivais, enquanto 21 Savage utiliza um estilo ostensivamente repetitivo. O clipe apresenta uma filmagem de baixa qualidade (Lo-Fi) que evoca a est\u00e9tica de fitas VHS \u2014 uma poss\u00edvel influ\u00eancia do rapper Bones, o pr\u00f3ximo da lista. \u201c\u920d\u3089\u5893\u5730\u201d (Cemetery Blunts) (Bones &amp; Xavier Wulf):\u00a0Comecei a ouvir Bones por volta de 2014. Vindo do metal, mergulhei no universo do rapper por anos; meu Last.fm confirma que, ainda em 2025, ele foi meu artista mais ouvido. O clipe \u00e9 o \u00e1pice da est\u00e9tica\u00a0Vaporwave\/Sad Boys\u00a0que dominava o Tumblr e o underground em 2013: gravado em VHS, com interfer\u00eancias visuais (glitches) e est\u00e1tuas cl\u00e1ssicas ao fundo. \u00c9 tudo maravilhoso at\u00e9 hoje. &nbsp; (Imagem obtida no Gemini)<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6166,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[84,1152,617,1151,855,1149,1154,1147,1148,1150,40,807,1153],"class_list":["post-6164","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-musica","tag-bones","tag-critica-musical","tag-drake","tag-duetos","tag-editora-abril","tag-hip-hop","tag-historia-da-musica","tag-jazz","tag-louis-armstrong","tag-memoria-afetiva","tag-musica","tag-nedier","tag-vaporwave","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6164","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6164"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6164\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6170,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6164\/revisions\/6170"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6166"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6164"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6164"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6164"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}