{"id":6042,"date":"2025-11-01T21:48:00","date_gmt":"2025-11-02T00:48:00","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6042"},"modified":"2025-11-01T21:48:00","modified_gmt":"2025-11-02T00:48:00","slug":"a-cidade-dos-anjos-que-caem-o-olhar-de-john-berendt-revela-a-veneza-decadente-charmosa-e-feita-de-atuacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6042","title":{"rendered":"A Cidade dos Anjos que Caem &#8211; O olhar de John Berendt revela a Veneza decadente, charmosa e feita de atua\u00e7\u00f5es."},"content":{"rendered":"<p>Veneza \u00e9 uma cidade em que a maioria dos habitantes se conhece, j\u00e1 que <strong>n\u00e3o circulam carros e todos andam a p\u00e9<\/strong> na maior parte do tempo. <strong>Isso, somado \u00e0<\/strong> enorme quantidade de pontes (muitas delas com escadas), faz com que idosos ou pessoas com problemas de locomo\u00e7\u00e3o tenham <strong>dificuldade de viver<\/strong> por l\u00e1. A aus\u00eancia de autom\u00f3veis tamb\u00e9m faz com que a cidade italiana seja bem mais silenciosa do que outras de seu porte.<\/p>\n<p>Veneza tem uma grande quantidade de ruelas, o que faz com que at\u00e9 seus moradores \u00e0s vezes se percam no meio do verdadeiro labirinto formado por elas. Com seus canais, pontes, hist\u00f3ria e charme, a cidade atraiu para si muitos escritores de primeira linha, como Ezra Pound, Henry James e Robert Browning, que l\u00e1 moraram durante longos per\u00edodos de suas vidas.<\/p>\n<p>Os venezianos pensam em si pr\u00f3prios primeiro como venezianos e depois como italianos. Segundo um de seus nobres mais importantes, o conde Girolamo Marcello, \u201cem Veneza est\u00e3o todos encenando, todos representam pap\u00e9is, e os pap\u00e9is mudam. O segredo para se entender os venezianos \u00e9 o ritmo \u2013 o ritmo da lagoa, das mar\u00e9s, das ondas\u2026 O ritmo de Veneza \u00e9 como a respira\u00e7\u00e3o. Mar\u00e9 alta, press\u00e3o alta: tenso. Mar\u00e9 baixa, press\u00e3o baixa: descontra\u00eddo. Os venezianos n\u00e3o est\u00e3o sintonizados ao ritmo da roda. Isso \u00e9 para outros locais, locais com ve\u00edculos motorizados. Nosso ritmo \u00e9 o do Adri\u00e1tico. O ritmo do mar\u201d.<\/p>\n<p>Ainda segundo o conde, para os habitantes da cidade, as pontes n\u00e3o s\u00e3o vistas como obst\u00e1culos, e sim como transi\u00e7\u00f5es: \u201cpassamos por elas bem devagar. Fazem parte do ritmo. S\u00e3o jun\u00e7\u00f5es entre dois atos no teatro, como mudan\u00e7as de cen\u00e1rio, ou como a evolu\u00e7\u00e3o do primeiro para o segundo ato em uma pe\u00e7a teatral\u201d. Para Marcello, \u201cos venezianos jamais falam a verdade. O verdadeiro sentido das nossas palavras \u00e9, precisamente, o oposto do que dizem\u201d.<\/p>\n<p>Estas e muitas outras informa\u00e7\u00f5es sobre a lend\u00e1ria cidade italiana s\u00e3o mostradas em <strong>&#8220;Cidade dos Anjos Caindo&#8221;<\/strong> (Objetiva, 380 p\u00e1ginas), de John Berendt, escritor americano na linha do <em>new journalism<\/em>, a mesma de, por exemplo, Truman Capote e Gay Talese. Como o pr\u00f3prio autor explica, \u201c\u00e9 um livro de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, mas escrito do ponto de vista de um romancista, usando t\u00e9cnicas liter\u00e1rias que um romancista utilizaria. Voc\u00ea n\u00e3o diz, como um jornalista diria, simplesmente: \u2018O homem disse isso e isso\u2019. Voc\u00ea descreve o tipo de olhar, a rea\u00e7\u00e3o das pessoas no quarto. Ent\u00e3o, l\u00ea-se o livro como se fosse um romance, mas \u00e9 tudo verdade\u201d \u2013 <strong>realmente, se n\u00e3o fosse a advert\u00eancia inicial de que o livro \u00e9 de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, seria muito dif\u00edcil para o leitor desavisado saber que a obra<\/strong> \u00e9 uma esp\u00e9cie de reportagem.<\/p>\n<p>A obra anterior de Berendt, <em>Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal<\/em>, foi um <em>best-seller<\/em> de enorme sucesso que tratava de uma cidade no sul dos Estados Unidos, Savannah, de maneira similar \u00e0quela que foi utilizada para descrever Veneza em <em>Cidade dos Anjos Caindo<\/em>, com uma diferen\u00e7a fundamental: neste, ao contr\u00e1rio do que foi feito na obra anterior, todos os nomes utilizados s\u00e3o reais. Nas palavras de Berendt, \u201cquando escrevi <em>Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal<\/em>, pensei que estaria fazendo um favor a algumas pessoas ao mudar os nomes delas para preservar sua privacidade. Mas quando o livro foi lan\u00e7ado, muitos dos personagens que haviam recebido pseud\u00f4nimos me disseram que desejavam que eu tivesse usado seus verdadeiros nomes. Ent\u00e3o, desta vez, decidi: nada de pseud\u00f4nimos\u201d.<\/p>\n<p>Em Veneza, o afluxo tur\u00edstico \u00e9 t\u00e3o intenso que em certas \u00e9pocas do ano os turistas est\u00e3o na cidade em n\u00famero muito maior do que os habitantes locais \u2013 mas o interesse principal de Berendt est\u00e1 nas pessoas que moram l\u00e1. Para escrever <strong>&#8220;Cidade dos Anjos Caindo&#8221;<\/strong> (cujo nome \u00e9 baseado em uma obra de restaura\u00e7\u00e3o em uma igreja veneziana em que anjos do teto come\u00e7aram a cair, o que fez com que os restauradores colocassem uma placa no local com os dizeres: \u201cCuidado, anjos caindo!\u201d), o autor viveu em Veneza durante per\u00edodos de dois a tr\u00eas meses ao longo de nove anos, entrevistando habitantes e pesquisando locais e fatos.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os personagens e fatos reais que aparecem na obra. Um rico poeta e radialista homossexual deixa todos os seus bens para uma fam\u00edlia de feirantes, cujos membros muito provavelmente n\u00e3o eram muito \u00edntimos dele. Dois dirigentes de uma funda\u00e7\u00e3o americana de ajuda \u00e0 cidade veem-se numa acirrada disputa de egos. Um casal faz amizade com a amante do falecido poeta Ezra Pound, possivelmente para roubar-lhe documentos de grande valor. O mais importante vidreiro da cidade, um homem s\u00e9rio e calado, v\u00ea um de seus filhos tra\u00ed-lo nos neg\u00f3cios. Em um jantar, todos ficam fascinados com a conversa sobre venenos para ratos de um grande fabricante do produto, que nunca conseguiu vend\u00ea-lo para a prefeitura local. Um grande pal\u00e1cio tem uma sala principal t\u00e3o ricamente decorada que acaba dificultando a sua manuten\u00e7\u00e3o, o que faz os seus donos (um dos quais \u00e9 um homem totalmente man\u00edaco por viagens espaciais) quererem vend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Mas a principal hist\u00f3ria do livro trata do inc\u00eandio de um dos principais s\u00edmbolos da cidade, o Teatro Fenice: o autor descreve o que ocorreu <strong>no dia da<\/strong> trag\u00e9dia, as investiga\u00e7\u00f5es para apurar os respons\u00e1veis e a reconstru\u00e7\u00e3o do local com grande precis\u00e3o de detalhes \u2013 sem esconder as in\u00fameras suspeitas de corrup\u00e7\u00e3o que foram aparecendo no processo.<\/p>\n<p>Extremamente bem escrito, <strong>&#8220;Cidade dos Anjos Caindo&#8221;<\/strong> \u00e9 um livro de leitura agrad\u00e1vel e fluida, que mostra uma Veneza meio decadente, com muitos habitantes cheios de manias \u2013 mas inegavelmente charmosa, claro.<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gemini_Generated_Image_864tjw864tjw864t-1.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-6045\" src=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gemini_Generated_Image_864tjw864tjw864t-1-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gemini_Generated_Image_864tjw864tjw864t-1-300x300.png 300w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gemini_Generated_Image_864tjw864tjw864t-1-150x150.png 150w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gemini_Generated_Image_864tjw864tjw864t-1-768x768.png 768w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Gemini_Generated_Image_864tjw864tjw864t-1.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>(O texto acima foi publicado na Revista Dominical do Jornal O Estado do Paran\u00e1, em 08 de outubro de 2006.<\/em><\/p>\n<p><em>Se voc\u00ea estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/o-faroeste-sem-lei-de-elmore-leonard?r=2m0pd\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail. <\/em><\/p>\n<p><em>As imagens acima foram obtidas no Gemini, do Google.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Veneza \u00e9 uma cidade em que a maioria dos habitantes se conhece, j\u00e1 que n\u00e3o circulam carros e todos andam a p\u00e9 na maior parte do tempo. Isso, somado \u00e0 enorme quantidade de pontes (muitas delas com escadas), faz com que idosos ou pessoas com problemas de locomo\u00e7\u00e3o tenham dificuldade de viver por l\u00e1. A aus\u00eancia de autom\u00f3veis tamb\u00e9m faz com que a cidade italiana seja bem mais silenciosa do que outras de seu porte. Veneza tem uma grande quantidade de ruelas, o que faz com que at\u00e9 seus moradores \u00e0s vezes se percam no meio do verdadeiro labirinto formado por elas. Com seus canais, pontes, hist\u00f3ria e charme, a cidade atraiu para si muitos escritores de primeira linha, como Ezra Pound, Henry James e Robert Browning, que l\u00e1 moraram durante longos per\u00edodos de suas vidas. Os venezianos pensam em si pr\u00f3prios primeiro como venezianos e depois como italianos. Segundo um de seus nobres mais importantes, o conde Girolamo Marcello, \u201cem Veneza est\u00e3o todos encenando, todos representam pap\u00e9is, e os pap\u00e9is mudam. O segredo para se entender os venezianos \u00e9 o ritmo \u2013 o ritmo da lagoa, das mar\u00e9s, das ondas\u2026 O ritmo de Veneza \u00e9 como a respira\u00e7\u00e3o. Mar\u00e9 alta, press\u00e3o alta: tenso. Mar\u00e9 baixa, press\u00e3o baixa: descontra\u00eddo. Os venezianos n\u00e3o est\u00e3o sintonizados ao ritmo da roda. Isso \u00e9 para outros locais, locais com ve\u00edculos motorizados. Nosso ritmo \u00e9 o do Adri\u00e1tico. O ritmo do mar\u201d. Ainda segundo o conde, para os habitantes da cidade, as pontes n\u00e3o s\u00e3o vistas como obst\u00e1culos, e sim como transi\u00e7\u00f5es: \u201cpassamos por elas bem devagar. Fazem parte do ritmo. S\u00e3o jun\u00e7\u00f5es entre dois atos no teatro, como mudan\u00e7as de cen\u00e1rio, ou como a evolu\u00e7\u00e3o do primeiro para o segundo ato em uma pe\u00e7a teatral\u201d. Para Marcello, \u201cos venezianos jamais falam a verdade. O verdadeiro sentido das nossas palavras \u00e9, precisamente, o oposto do que dizem\u201d. Estas e muitas outras informa\u00e7\u00f5es sobre a lend\u00e1ria cidade italiana s\u00e3o mostradas em &#8220;Cidade dos Anjos Caindo&#8221; (Objetiva, 380 p\u00e1ginas), de John Berendt, escritor americano na linha do new journalism, a mesma de, por exemplo, Truman Capote e Gay Talese. Como o pr\u00f3prio autor explica, \u201c\u00e9 um livro de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, mas escrito do ponto de vista de um romancista, usando t\u00e9cnicas liter\u00e1rias que um romancista utilizaria. Voc\u00ea n\u00e3o diz, como um jornalista diria, simplesmente: \u2018O homem disse isso e isso\u2019. Voc\u00ea descreve o tipo de olhar, a rea\u00e7\u00e3o das pessoas no quarto. Ent\u00e3o, l\u00ea-se o livro como se fosse um romance, mas \u00e9 tudo verdade\u201d \u2013 realmente, se n\u00e3o fosse a advert\u00eancia inicial de que o livro \u00e9 de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, seria muito dif\u00edcil para o leitor desavisado saber que a obra \u00e9 uma esp\u00e9cie de reportagem. A obra anterior de Berendt, Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, foi um best-seller de enorme sucesso que tratava de uma cidade no sul dos Estados Unidos, Savannah, de maneira similar \u00e0quela que foi utilizada para descrever Veneza em Cidade dos Anjos Caindo, com uma diferen\u00e7a fundamental: neste, ao contr\u00e1rio do que foi feito na obra anterior, todos os nomes utilizados s\u00e3o reais. Nas palavras de Berendt, \u201cquando escrevi Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, pensei que estaria fazendo um favor a algumas pessoas ao mudar os nomes delas para preservar sua privacidade. Mas quando o livro foi lan\u00e7ado, muitos dos personagens que haviam recebido pseud\u00f4nimos me disseram que desejavam que eu tivesse usado seus verdadeiros nomes. Ent\u00e3o, desta vez, decidi: nada de pseud\u00f4nimos\u201d. Em Veneza, o afluxo tur\u00edstico \u00e9 t\u00e3o intenso que em certas \u00e9pocas do ano os turistas est\u00e3o na cidade em n\u00famero muito maior do que os habitantes locais \u2013 mas o interesse principal de Berendt est\u00e1 nas pessoas que moram l\u00e1. Para escrever &#8220;Cidade dos Anjos Caindo&#8221; (cujo nome \u00e9 baseado em uma obra de restaura\u00e7\u00e3o em uma igreja veneziana em que anjos do teto come\u00e7aram a cair, o que fez com que os restauradores colocassem uma placa no local com os dizeres: \u201cCuidado, anjos caindo!\u201d), o autor viveu em Veneza durante per\u00edodos de dois a tr\u00eas meses ao longo de nove anos, entrevistando habitantes e pesquisando locais e fatos. S\u00e3o muitos os personagens e fatos reais que aparecem na obra. Um rico poeta e radialista homossexual deixa todos os seus bens para uma fam\u00edlia de feirantes, cujos membros muito provavelmente n\u00e3o eram muito \u00edntimos dele. Dois dirigentes de uma funda\u00e7\u00e3o americana de ajuda \u00e0 cidade veem-se numa acirrada disputa de egos. Um casal faz amizade com a amante do falecido poeta Ezra Pound, possivelmente para roubar-lhe documentos de grande valor. O mais importante vidreiro da cidade, um homem s\u00e9rio e calado, v\u00ea um de seus filhos tra\u00ed-lo nos neg\u00f3cios. Em um jantar, todos ficam fascinados com a conversa sobre venenos para ratos de um grande fabricante do produto, que nunca conseguiu vend\u00ea-lo para a prefeitura local. Um grande pal\u00e1cio tem uma sala principal t\u00e3o ricamente decorada que acaba dificultando a sua manuten\u00e7\u00e3o, o que faz os seus donos (um dos quais \u00e9 um homem totalmente man\u00edaco por viagens espaciais) quererem vend\u00ea-lo. Mas a principal hist\u00f3ria do livro trata do inc\u00eandio de um dos principais s\u00edmbolos da cidade, o Teatro Fenice: o autor descreve o que ocorreu no dia da trag\u00e9dia, as investiga\u00e7\u00f5es para apurar os respons\u00e1veis e a reconstru\u00e7\u00e3o do local com grande precis\u00e3o de detalhes \u2013 sem esconder as in\u00fameras suspeitas de corrup\u00e7\u00e3o que foram aparecendo no processo. Extremamente bem escrito, &#8220;Cidade dos Anjos Caindo&#8221; \u00e9 um livro de leitura agrad\u00e1vel e fluida, que mostra uma Veneza meio decadente, com muitos habitantes cheios de manias \u2013 mas inegavelmente charmosa, claro. (O texto acima foi publicado na Revista Dominical do Jornal O Estado do Paran\u00e1, em 08 de outubro de 2006. Se voc\u00ea estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. 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