{"id":6018,"date":"2025-10-11T16:15:22","date_gmt":"2025-10-11T19:15:22","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6018"},"modified":"2025-10-11T16:15:22","modified_gmt":"2025-10-11T19:15:22","slug":"pureza-palavra-horrivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=6018","title":{"rendered":"Pureza, palavra horr\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p>Francisca era uma garota de programa que trabalhava num apartamento ao lado do Passeio P\u00fablico. Passava o hor\u00e1rio comercial ali, e a casa tinha, normalmente, uma alta rotatividade de clientes. Alguns eram muito bondosos, davam gorjetas e chegavam a pedir por programas de cinco horas. Outros eram asquerosos, tratavam-na mal, eram grosseiros \u2014 pelo menos estes, normalmente, chegavam rapidamente ao orgasmo e o programa era curto.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, ela voltava para casa, um sobrado bem ajeitado no Umbar\u00e1, onde morava com o marido. Pegava dois \u00f4nibus para ir para casa, o primeiro na Pra\u00e7a Rui Barbosa e o segundo no Terminal do Pinheirinho. Quando chegava, o marido lhe perguntava como tinha sido o dia. Ela dizia que trabalhava como cuidadora de uma senhora senil perto das Merc\u00eas, e ele aceitava sem problemas. O marido, que se chamava Paulo, trabalhava com transporte de bebidas e era um homem s\u00e9rio e compenetrado. Nos fins de semana, ele, a mulher e os tr\u00eas filhos assistiam aos cultos na Igreja Universal do Reino de Deus, a tr\u00eas quadras da casa deles. Como ela trabalhava de segunda a sexta, podia ir aos cultos de s\u00e1bado e domingo sem maiores problemas. \u00c0s vezes a fam\u00edlia ia visitar o pai dela, que morava em Matinhos, e era s\u00f3 assim que perdiam as cerim\u00f4nias religiosas. Em algumas dessas ocasi\u00f5es, Paulo assistia a um culto da mesma denomina\u00e7\u00e3o l\u00e1 no litoral, mas o mais comum era avisar ao seu pastor na igreja do Umbar\u00e1 que \u201cnaquele fim de semana eles iriam fazer a obriga\u00e7\u00e3o de dar uma aten\u00e7\u00e3o para o sogro, um velhinho muito bom, mas, infelizmente, distante da igreja\u201d. O pastor ent\u00e3o orava junto com Paulo pela convers\u00e3o de Raul, o pai de Francisca.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode dizer que essa vida dupla n\u00e3o pesava na consci\u00eancia da pobre Francisca, que realmente tinha trabalhado durante algum tempo cuidando de idosas. Quase meia d\u00e9cada antes dos fatos narrados aqui, a \u00faltima mulher sob seus cuidados morrera de uma hora para outra e ela ficara desempregada. Seu marido tamb\u00e9m estava sem emprego, e o desespero do casal era imagin\u00e1vel: eles tinham tr\u00eas filhos, sendo que nenhum dos tr\u00eas trabalhava e o mais velho tinha apenas dezoito anos.<\/p>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o desoladora \u2014 o pouco dinheiro que tinham economizado j\u00e1 estava no fim \u2014, a irm\u00e3 de Francisca, uma cat\u00f3lica n\u00e3o praticante que n\u00e3o se importava com os chamados \u201cmoral e bons costumes\u201d, sugeriu que ela come\u00e7asse a vender seu corpo para ganhar dinheiro. Se Francisca quisesse, Raquel \u2014 a irm\u00e3 \u2014 poderia lhe passar o contato de uma amiga dona de um apartamento que estava precisando de meninas para esse tipo de trabalho. Depois de muita hesita\u00e7\u00e3o, Francisca acabou conversando com a mo\u00e7a, e as duas combinaram que na semana seguinte ela come\u00e7aria a trabalhar ali.<\/p>\n<p>Francisca acabou gostando muito mais de trabalhar com sexo do que tinha imaginado. Tinha muito mais desejo sexual que o marido \u2014 frequentemente ia dormir insatisfeita porque ele n\u00e3o queria nada com ela \u2014 e os clientes, em sua maioria, a tratavam bem. Percebeu que n\u00e3o precisava se esfor\u00e7ar muito para ganhar muito mais dinheiro que antes: na verdade, em grande parte do tempo, o trabalho lhe dava prazer. Era ass\u00eddua com os hor\u00e1rios \u2014 a dona exigia que ela chegasse \u00e0s sete da manh\u00e3 e ela n\u00e3o poderia sair antes das cinco da tarde \u2014, e n\u00e3o faltava nem quando estava muito resfriada. Para a fam\u00edlia, como se pode imaginar, ela tinha dito que arranjara outro trabalho como cuidadora de idosos.<\/p>\n<p>Sua consci\u00eancia pesou mais no in\u00edcio da vida dupla: ela se sentia mal nos cultos, dada a incoer\u00eancia entre o que era pregado e seu trabalho. Faltou a algumas cerim\u00f4nias religiosas, mas teve que voltar a participar delas quando o marido disse que n\u00e3o era bom que ela continuasse se ausentando da casa de Deus. Ent\u00e3o, recome\u00e7ou a frequentar as cerim\u00f4nias. Quanto a seu dia a dia em casa, percebeu que nada se modificara e que, de certa maneira, seu trabalho no apartamento era apenas mais um trabalho: continuava sendo a boa m\u00e3e e esposa de sempre, carinhosa e atenta \u00e0s necessidades da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos problemas de consci\u00eancia, que \u00e0s vezes eram maiores, \u00e0s vezes menores, Francisca se incomodava com o que ela chamava de \u201csombra\u201d. Sempre que estava sozinha \u00e0 noite andando na rua (que n\u00e3o precisava estar necessariamente deserta para que isso acontecesse), ela via um homem alto, com uma capa comprida e chap\u00e9u pretos. \u00c0s vezes ele estava na sua frente, normalmente a uns vinte metros de dist\u00e2ncia, mas \u00e0s vezes ela sentia que ele estava atr\u00e1s dela \u2014 e, quando se virava, l\u00e1 estava ele. O pior nem era isso: o mais comum era Francisca olhar para ele, se distrair e, quando olhava de novo, ele sumia \u2014 normalmente para aparecer em outro lugar da rua, frequentemente distante do anterior, alguns minutos depois.<\/p>\n<p>Ela sentia uma sensa\u00e7\u00e3o estranha, uma esp\u00e9cie de calafrio, quando o via. No in\u00edcio, ela sentia bastante medo do homem misterioso, de quem nunca conseguiu ver direito o rosto \u2014 ele sempre aparecia \u00e0 noite, e o chap\u00e9u aumentava a sua sombra, afinal de contas. S\u00f3 sabia que ele usava uma barba, muito escura, ali\u00e1s. Com o tempo, o medo diminuiu, mas n\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de desconforto que ele lhe trazia.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Grandes mudan\u00e7as na vida de Francisca tiveram in\u00edcio quando Paulo passou a chegar cada vez mais tarde em casa, devido a mudan\u00e7as em sua escala de trabalho. Logo ele se estabeleceu num hor\u00e1rio fixo na transportadora de bebidas: do meio-dia \u00e0s oito da noite, de ter\u00e7a a s\u00e1bado. Por isso, ele deixou de ir aos cultos do s\u00e1bado \u2014 mas Francisca e os filhos n\u00e3o. Continuaram os mesmos bons crentes de sempre. Para ela, a principal diferen\u00e7a era a falta que o marido lhe fazia entre a hora em que ela chegava em casa \u2014 normalmente perto das seis da tarde \u2014 e a hora de Paulo, entre nove e dez da noite. Nesses per\u00edodos um tanto solit\u00e1rios, ela fazia o jantar, lavava roupas e assistia televis\u00e3o. Os filhos raramente lhe faziam companhia: J\u00fanior, o mais velho, normalmente estava na casa da namorada, que era da igreja tamb\u00e9m, enquanto as outras duas, Ana e Adriane, ou faziam suas li\u00e7\u00f5es de casa ou estavam com os amigos do grupo de jovens da Igreja Universal do Umbar\u00e1.<\/p>\n<p>Com a mudan\u00e7a de hor\u00e1rio de Paulo, o jantar passou para as dez da noite, e todos os cinco \u2014 Paulo, Francisca, J\u00fanior, Ana e Adriana \u2014 participavam juntos da refei\u00e7\u00e3o, que sempre come\u00e7ava com uma ora\u00e7\u00e3o \u2014 normalmente a cargo do chefe da fam\u00edlia, mas que podia ser feita por J\u00fanior ou mesmo por Francisca.<\/p>\n<p>Com este novo dia a dia, a vida sexual do casal passou por um arrefecimento. Depois do jantar, Francisca normalmente estava muito cansada para o sexo e acabava dormindo assim que lavava a lou\u00e7a \u2014 acordava \u00e0s cinco e meia da manh\u00e3 para chegar \u00e0s sete no apartamento, afinal de contas. Paulo se queixava disso \u00e0s vezes, mas entendia o lado da esposa.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Outro acontecimento acabou ajudando um pouco a precipitar o drama desta hist\u00f3ria. Foi quando, em certa sexta-feira, os tr\u00eas filhos iriam para um retiro de jovens da Igreja Universal e Paulo e Francisca resolveram sair para jantar, s\u00f3 os dois \u2014 havia tempo que n\u00e3o faziam isso. Na volta, em uma pizzaria no Umbar\u00e1 mesmo, ainda no carro, Francisca, que estava extremamente excitada depois de ter tido uma sess\u00e3o de sexo de quatro horas com um de seus clientes preferidos, mas com quem n\u00e3o tinha conseguido gozar, resolveu pegar no p\u00eanis de Paulo por cima da cal\u00e7a. Com pouco tempo de car\u00edcias, ela percebeu que ele rapidamente ficou ereto \u2014 ent\u00e3o abriu o z\u00edper e come\u00e7ou a fazer sexo oral no carro mesmo. Ele parou o autom\u00f3vel numa rua deserta e ejaculou na boca de Francisca em pouco tempo. Ela percebeu que tinha adorado a experi\u00eancia \u2014 mas Paulo, ele estava chocado. Apesar de n\u00e3o ter resistido, disse-lhe que a lasc\u00edvia era um pecado e que eles n\u00e3o deveriam mais fazer isso. Ainda com um pouco de esperma na boca, Francisca, frustrada, respondeu-lhe que ele tinha raz\u00e3o e que esse tipo de coisa obscena n\u00e3o ocorreria mais.<\/p>\n<p>Mas aquilo n\u00e3o lhe saiu da cabe\u00e7a. Ela tinha descoberto ali que adorava \u201caventuras\u201d, como passou a chamar esse tipo de rela\u00e7\u00e3o sexual perigosa dali por diante, e o medo de ser pega lhe deu uma satisfa\u00e7\u00e3o sexual que nunca tinha conhecido antes.<\/p>\n<p>Passou, como se pode imaginar, a querer mais rela\u00e7\u00f5es desse tipo.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Possivelmente, nada de mais grave teria acontecido se ela n\u00e3o tivesse conhecido Rodolfo num encontro de estudos b\u00edblicos num s\u00e1bado \u00e0 tarde. Ela gostava desses encontros que ocorriam na igreja do Umbar\u00e1 logo depois do almo\u00e7o e antes do culto de s\u00e1bado, j\u00e1 que gostava de saber mais a respeito da religi\u00e3o. Conforme comentado anteriormente, seu marido ia com ela antes da sua mudan\u00e7a de hor\u00e1rio de trabalho, mas agora ela costumava ir sozinha, j\u00e1 que os filhos, nesse hor\u00e1rio, estavam quase sempre no grupo de jovens do Templo Maior da Igreja Universal do Reino de Deus, na Rua Jo\u00e3o Negr\u00e3o. O grupo de estudos em que Francisca ia tinha uma frequ\u00eancia vari\u00e1vel, entre quinze e vinte e cinco pessoas.<\/p>\n<p>Enfim, nesse dia espec\u00edfico, Rodolfo \u2014 membro da Igreja Universal da Fazenda Rio Grande, mestre de obras e ex-estudante de teologia \u2014 tinha sido convidado para guiar os estudos b\u00edblicos. Sua prega\u00e7\u00e3o no grupo tinha sido sobre a par\u00e1bola do rico e do pobre L\u00e1zaro, que \u00e9 apresentada somente em Lucas (16; 19:31). Francisca nunca mais esqueceu as palavras finais da apresenta\u00e7\u00e3o de Rodolfo:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas sabem o que Jesus quis dizer com esta palavra, igreja? Que, quando estivermos do outro lado, n\u00e3o vai adiantar a gente dizer para ningu\u00e9m que conhece algu\u00e9m que est\u00e1 bem. Sabem por qu\u00ea? Porque quem est\u00e1 no Para\u00edso n\u00e3o vai poder ouvir! Ningu\u00e9m vai ouvir quem estiver no inferno! Pensem nisso antes de ca\u00edrem no pecado!<\/p>\n<p>Francisca teve um estranho estremecimento com estas palavras. N\u00e3o pelo medo de ir para o inferno \u2014 isso, de alguma maneira, n\u00e3o a preocupava mais depois de tantos anos trabalhando no apartamento \u2014, mas pela for\u00e7a da palavra emanada por Rodolfo. Ele era um moreno alto, forte, com um pouco de barriga e com uma voz potente \u2014 bem diferente de Paulo, um polaco mirradinho, t\u00edmido e com um p\u00eanis um pouco menor do que a m\u00e9dia dos que ela conhecia.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Antes de terminar a prega\u00e7\u00e3o, Rodolfo passou o seu n\u00famero de WhatsApp para quem quisesse falar sobre a palavra de Deus. Naquele momento, Francisca sentiu que seu sexo ficou molhado.<\/p>\n<p>Estava com medo de falar com Rodolfo, mas sabia que n\u00e3o resistiria \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>J\u00e1 era come\u00e7o da noite quando Francisca estava andando de volta para casa depois de ter conhecido Rodolfo. Foi quando a \u201csombra\u201d, pela primeira vez, come\u00e7ou a andar ao seu lado. A rua estava completamente deserta, e na cal\u00e7ada estavam os dois, lado a lado, sem se falarem, Francisca e o homem misterioso todo de preto. Ela n\u00e3o sabia o que fazer e olhou para baixo \u2014 n\u00e3o queria ver o rosto dele, n\u00e3o mesmo.<\/p>\n<p>Depois de uma caminhada de uns poucos minutos, ele sumiu. N\u00e3o foi como das outras vezes, quando ele sumia quando ela estava distra\u00edda. Ele simplesmente desapareceu. Ela parou de ouvir seus passos, olhou para o lado e n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Se fosse a primeira vez que tivesse visto a \u201csombra\u201d, ela certamente ficaria apavorada, mas, como sempre o via, de certa forma j\u00e1 esperava por essa maior aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Na segunda-feira seguinte, Francisca esperou um momento com poucos clientes e entrou em contato com Rodolfo pelo WhatsApp:<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, Rodolfo, meu nome \u00e9 Francisca e gostei muito da sua prega\u00e7\u00e3o de s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Ele estava online e logo respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, Francisca, bom dia! Que bom que voc\u00ea gostou! Fico muito feliz quando consigo pregar a Palavra.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ficaram uns bons minutos sem se escreverem. Francisca percebeu que assim n\u00e3o iriam longe \u2014 ela esperava que ele puxasse assunto, na verdade \u2014, ent\u00e3o escreveu o que tinha preparado mentalmente caso a conversa n\u00e3o se desenrolasse a contento:<\/p>\n<p>\u2014 Rodolfo, voc\u00ea entende do livro de J\u00f3?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, que bom que voc\u00ea me perguntou isso! Foi o livro que eu mais estudei nos meus anos de teologia&#8230;<\/p>\n<p>Bingo, Francisca pensou. Perguntou-lhe ent\u00e3o se ele podia lhe explicar sobre o livro, sobre o qual ela tinha umas d\u00favidas muito grandes. Ele respondeu que \u00e9 claro que a ajudaria. Francisca ent\u00e3o lhe disse que preferia conversar pessoalmente, porque ela n\u00e3o era muito boa com essa coisa de WhatsApp. Ele demorou um pouco para responder, e Francisca pensou que tinha andado r\u00e1pido demais e que, quem sabe, tudo tivesse ido por \u00e1gua abaixo.<\/p>\n<p>Depois de mais uns bons minutos de espera angustiada \u2014 mais tensa ainda porque um cliente tinha acabado de chegar \u2014, ele respondeu que claro que poderia conversar pessoalmente com ela. Ela respondeu que teria que sair do celular dali a pouco, mas que para ela o melhor hor\u00e1rio era entre cinco e meia da tarde e sete da noite. Ele respondeu rapidamente que estava fazendo uma obra no centro e que poderiam se encontrar no dia seguinte num pequeno caf\u00e9 pr\u00f3ximo da Pra\u00e7a Zacarias, onde ele estava tocando uma obra. Combinaram tudo ent\u00e3o para as seis da tarde do dia seguinte. Ainda deu tempo de Francisca atender ao cliente, que j\u00e1 estava irritado com a demora.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Andando na rua no mesmo dia, quase chegando em casa, Francisca viu a \u201csombra\u201d encostada no muro da sua casa. Ficou em p\u00e2nico, pensou em desviar o caminho e ir para outro lugar, mas preferiu encarar essa apari\u00e7\u00e3o que a incomodava desde que come\u00e7ou a trabalhar como garota de programa.<\/p>\n<p>Chegando diante da \u201csombra\u201d, simplesmente lhe perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 O que o senhor quer comigo?<\/p>\n<p>Foi quando o olhou pela primeira vez. Embaixo do chap\u00e9u havia um rosto afilado, realmente lindo, com olhos verdes e penetrantes. Ele lhe falou assim:<\/p>\n<p>\u2014 Sou seu anjo da guarda, Francisca.<\/p>\n<p>Ela teve um estremecimento, n\u00e3o sabia o que responder. Olhou para baixo. O olhar da \u201csombra\u201d a deixava sem gra\u00e7a. Quando olhou para cima de novo, ele j\u00e1 tinha sumido, e ela teve outro estremecimento.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, ela nunca nem pensara em contar da \u201csombra\u201d para algu\u00e9m. Agora que a \u201csombra\u201d, ou seu anjo, vai saber, falou com ela, pensou seriamente em desabafar com algum conhecido ou conhecida. Quem sabe agora que ele se disse \u201canjo\u201d algu\u00e9m na igreja poderia ajud\u00e1-la, quem sabe n\u00e3o achassem que ela estava louca.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Enfim, tudo deu muito certo com Rodolfo no dia seguinte. Ela pensou muito antes de decidir qual roupa iria vestir, mas acabou se decidindo pelo seu \u201cuniforme\u201d de todos os dias: cal\u00e7a jeans e camiseta, branca naquele caso; quando estava frio ela tamb\u00e9m usava uma jaqueta jeans. Uma das coisas que ela gostava na Igreja Universal do Reino de Deus, ali\u00e1s, \u00e9 que n\u00e3o havia nenhuma orienta\u00e7\u00e3o para que os fi\u00e9is usassem roupas \u201cde crente\u201d, com vestidos pretos longos e camisas grandes e folgadas \u2014 como ocorria, por exemplo, com os fi\u00e9is da Assembleia de Deus.<\/p>\n<p>O \u00faltimo cliente saiu \u00e0s cinco e quinze, e ela ficou se maquiando at\u00e9 \u00e0s cinco e meia para falar com Rodolfo. As colegas estranharam o cuidado de Francisca, que nunca se pintava antes de sair e, brincando, lhe perguntaram se ela teria um encontro. Ela riu, respondeu que n\u00e3o, que estava s\u00f3 se ajeitando mesmo.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Ela chegou um pouco antes de Rodolfo, que logo se lembrou dela como aquela \u201cmo\u00e7a quieta\u201d na primeira fila do encontro do s\u00e1bado passado. Trocaram algumas poucas informa\u00e7\u00f5es sobre suas vidas \u2014 os dois casados, ela com tr\u00eas filhos, ele com dois, j\u00e1 casados tamb\u00e9m \u2014 e Francisca, que estava nervosa pelo inusitado da situa\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou a lhe fazer as perguntas que tinha preparado:<\/p>\n<p>\u2014 Por que J\u00f3, que era t\u00e3o bom, teve de sofrer tanto?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, eu duvido que algum ser humano, seja pastor, seja crente, seja ateu, consiga ter certeza na resposta! N\u00e3o podemos nos esquecer que Deus faz o que lhe d\u00e1 na telha! \u2014 respondeu Rodolfo.<\/p>\n<p>Essa express\u00e3o meio desabusada de Rodolfo surpreendeu um pouco Francisca que, \u00e0quela altura, estava excitada de verdade ao falar com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea acha certo dizer que Deus faz \u201co que lhe d\u00e1 na telha\u201d? \u2014 ela pergunta, gostando do rumo da conversa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 a pura verdade!<\/p>\n<p>E os dois come\u00e7aram a rir de um Deus que faz o que bem lhe entender.<\/p>\n<p>Um pouco mais s\u00e9ria, Francisca insiste:<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o h\u00e1 nenhuma dica sobre a raz\u00e3o de Deus ter feito o que fez com J\u00f3?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, claro que tem! Primeiro, J\u00f3 reclama demais. Depois, n\u00e3o entende por que Deus faz tudo aquilo com ele. Na verdade, n\u00e3o temos que entender Deus, temos que fazer o que temos de fazer, amando-o e obedecendo-o sempre.<\/p>\n<p>E assim Rodolfo continuou a falar sobre a bondade de Deus, sobre como Ele nos ama tanto que deu seu pr\u00f3prio filho como Holocausto, em como sua miseric\u00f3rdia \u00e9 infinita. \u00c0 medida que ele falava, Francisca ficava mais e mais entusiasmada. Ela tinha estudado pouco \u2014 sa\u00edra da escola na terceira s\u00e9rie do ensino fundamental \u2014 e lia com dificuldade. Frequentemente, inclusive, seus filhos, que eram todos estudantes j\u00e1 no ensino m\u00e9dio, corrigiam as palavras que ela escrevia errado no WhatsApp (do mesmo modo que o autor desta hist\u00f3ria). Deste modo, as palavras maravilhosas que Rodolfo ia despejando com facilidade eram um verdadeiro novo mundo para ela \u2014 n\u00e3o que ele falasse coisas muito diferentes do que os pastores falavam, mas eles eram muito distantes dela, muito s\u00e9rios, quase irreais. N\u00e3o eram pessoas que dessem muita aten\u00e7\u00e3o para ela, sempre quieta na igreja por medo de falar alguma bobagem.<\/p>\n<p>Rodolfo n\u00e3o, ele realmente estava interessado nela. Fazia-lhe perguntas, queria saber sua opini\u00e3o mesmo em assuntos mais complexos. Ela se sentiu inebriada pela aten\u00e7\u00e3o daquele moreno forte, alto, e que devia ter um p\u00eanis grande. N\u00e3o por nada, mas ela achava que ele devia ter.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Eram sete da noite quando Rodolfo lhe perguntou se precisava de uma carona at\u00e9 em casa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, Rodolfo, moro muito longe, no Umbar\u00e1, n\u00e3o precisa se incomodar.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa que eu te levo. \u00c9 caminho para a Fazenda Rio Grande. Voc\u00ea se lembra que eu moro l\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Ah sim \u2014 respondeu Francisca. Voc\u00ea falou mesmo na apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, vamos?<\/p>\n<p>Francisca n\u00e3o esperava por essa. Tinha pensado apenas em manter contato com ele, e saber aos poucos se ele seria o homem com quem teria as \u201caventuras\u201d que estava querendo tanto. Agora ela teria Rodolfo ali a seu lado, s\u00f3 os dois no carro. Ela achava que n\u00e3o conseguiria resistir.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>E n\u00e3o resistiu mesmo. Os dois j\u00e1 estavam no carro \u2014 um Logan vermelho, ano 2012 \u2014 e foi na altura do Viaduto do Colorado que ela resolveu colocar a m\u00e3o na coxa dele. Ele n\u00e3o teve nenhuma rea\u00e7\u00e3o, o que surpreendeu um pouco Francisca \u2014 eles j\u00e1 estavam em sil\u00eancio h\u00e1 uns cinco minutos: ela foi ficando quieta, ali\u00e1s, porque achava que poderia agir com mais facilidade nessa situa\u00e7\u00e3o. Eles j\u00e1 estavam na BR-116 quando ela abriu o z\u00edper da cal\u00e7a dele e tirou seu p\u00eanis de dentro da cal\u00e7a: como ela tinha bem desconfiado, ele era grande e grosso. Era circuncidado tamb\u00e9m, e ela ficou maravilhada com aquela cabe\u00e7a enorme. Abaixou-se para come\u00e7ar o sexo oral, quando com a m\u00e3o dele a parou. Ela ficou assustada, achando que ele iria denunci\u00e1-la na igreja, ou para seu marido, sabe-se l\u00e1. Mas n\u00e3o. Ele simplesmente falou, com calma:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea quer ir para algum lugar?<\/p>\n<p>\u2014 Pra onde voc\u00ea quiser.<\/p>\n<p>Ele dirigiu mais uns poucos minutos e logo entrou no primeiro motel que apareceu na BR. Entre excitada e assustada, Francisca teve seu primeiro caso extraconjugal fora do apartamento em que trabalhava. O primeiro caso extraconjugal de verdade, como ela pensou depois: sem envolver dinheiro.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Antes que Rodolfo fosse deix\u00e1-la em casa, no Umbar\u00e1, Francisca lhe pediu para ficar a umas duas ou tr\u00eas quadras de onde morava \u2014 n\u00e3o era por nada, mas ela n\u00e3o queria dar na vista. Ele aquiesceu. Eram nove da noite ainda e ningu\u00e9m tinha chegado, nem os filhos, nem o marido.<\/p>\n<p>E ela j\u00e1 tinha avisado no grupo de WhatsApp da fam\u00edlia que chegaria atrasada, porque a cuidadora noturna da Dona Roberta \u2014 a fict\u00edcia senhora de quem ela cuidava \u2014 chegaria atrasada.<\/p>\n<p>No curto trajeto para casa, ela viu a \u201csombra\u201d. Ele estava andando, uns dez metros diante dela, e sumiu pouco tempo depois.<\/p>\n<p>Pela primeira vez na vida, ela achou que aquela apari\u00e7\u00e3o poderia ser s\u00f3 uma loucura da cabe\u00e7a dela.<\/p>\n<p>E se fosse? Ela ficaria louca? J\u00e1 estava louca?<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Quarta-feira de manh\u00e3, Francisca acordou dividida entre a satisfa\u00e7\u00e3o pela lembran\u00e7a do prazer que tivera na v\u00e9spera e a consci\u00eancia pesada de agora ser uma ad\u00faltera de verdade, sem nenhuma justificativa devida ao trabalho \u2014 por sorte, o pensamento de que ela pudesse estar maluca j\u00e1 tinha ficado no passado.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m tinha medo da rea\u00e7\u00e3o de Rodolfo: ser\u00e1 que ele continuaria com o caso? Ser\u00e1 que simplesmente a esqueceria para sempre? Devido \u00e0 verdadeira bagun\u00e7a que sua vida poderia tornar-se, agora que, al\u00e9m de garota de programa, poderia estar come\u00e7ando um caso extraconjugal est\u00e1vel \u2014 pois era isso mesmo que ela estava querendo, naquele momento \u2014, ela tinha esperan\u00e7a, misturada com medo, de que Rodolfo n\u00e3o entrasse mais em contato com ela.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a quarta-feira se passou em brancas nuvens. E depois, a quinta. Na sexta, ela j\u00e1 estava quase esquecendo do assunto quando recebe uma mensagem pelo WhatsApp de Rodolfo:<\/p>\n<p>\u2014 Bom dia, irm\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Bom dia, Rodolfo \u2014 n\u00e3o respondeu mais nada, pois estava furiosa com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, vamos ter mais uma aula?<\/p>\n<p>Francisca ficou indignada. Que sujeito cafajeste.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos \u2014 ela respondeu. Afinal de contas, ele era inteligente, culto e com um p\u00eanis maravilhoso.<\/p>\n<p>Desta vez n\u00e3o houve caf\u00e9 antes, s\u00f3 motel.<\/p>\n<p>Francisca disse para a fam\u00edlia que teve problemas no trabalho, e quando chegou em casa, novamente ningu\u00e9m tinha chegado. Ela j\u00e1 estava pensando em dizer para todos que provavelmente seus hor\u00e1rios mudariam \u2014 os de Paulo j\u00e1 n\u00e3o tinham mudado?<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>No encontro de sexta-feira, Rodolfo contou por que n\u00e3o tinha entrado em contato com Francisca durante dois dias. \u00c9 que ele tinha medo de usar o WhatsApp, j\u00e1 que a mulher dele \u00e0s vezes mexia no seu celular \u2014 coisa que Paulo, marido de Francisca, jamais cogitara fazer. Ent\u00e3o, na sexta-feira, como estava na obra e sabia que a mulher n\u00e3o poderia mexer no seu aparelho, ele decidiu lhe mandar uma mensagem.<\/p>\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea n\u00e3o trabalhou na quarta e na quinta? \u2014 perguntou Francisca. Por que n\u00e3o me mandou nem um oi?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que eu tive que ficar em casa resolvendo um problema de esgoto l\u00e1 em casa.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, ok.<\/p>\n<p>Francisca n\u00e3o aceitou direito a desculpa, mas preferiu deixar o assunto de lado. Mas Rodolfo tinha outro plano e perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Algu\u00e9m na sua fam\u00edlia tem o Telegram?<\/p>\n<p>\u2014 Nem sei o que \u00e9 isso.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, \u00e9 um programa como o WhatsApp, s\u00f3 que \u00e9 menos conhecido, ent\u00e3o \u00e9 mais dif\u00edcil que a minha mulher descubra sobre a gente, se a gente se falar por l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, voc\u00ea que sabe.<\/p>\n<p>\u2014 E tem mais: o Telegram tem um dispositivo que permite que cada usu\u00e1rio apague todas as mensagens da conversa, das duas pessoas.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n<p>\u2014 Quem quiser apaga o hist\u00f3rico inteiro. Ningu\u00e9m v\u00ea mais nada. Quer testar? Deixa eu pegar o teu celular, e instalo o Telegram pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>Em poucos minutos o programa est\u00e1 instalado.<\/p>\n<p>Conversavam nus e deitados na cama do motel. Rodolfo se levanta, d\u00e1 a camisa \u2014 social cinza \u2014 que est\u00e1 usando para ela, que se levanta e a veste. Ele ent\u00e3o tira uma s\u00e9rie de fotos dela, s\u00f3 de camisa: em algumas ela mostra o sexo, em outras as n\u00e1degas, e em outras ainda ela faz a camisa dele cobrir tudo. Ela adora, se acha linda. Ele ent\u00e3o manda todas as fotos para ela pelo Telegram. Ele mostra para Francisca o jeito de apagar para que ela apague todo o hist\u00f3rico para os dois. Ela faz isso e ele lhe mostra seu pr\u00f3prio aplicativo, j\u00e1 sem fotos.<\/p>\n<p>\u2014 Que pena! \u2014 disse Francisca. Eu sa\u00ed t\u00e3o bem nas fotos.<\/p>\n<p>\u2014 Eu te mando de novo.<\/p>\n<p>Depois, eles se abra\u00e7aram e transaram pela segunda vez na noite.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o a melhor fase da vida de Francisca, quando a rela\u00e7\u00e3o entre ela e Rodolfo foi seguindo sempre por est\u00e1gios, o posterior sempre melhor que o anterior. Ela chamava esta fase de \u201cano maravilhoso\u201d \u2014 embora n\u00e3o tenha certeza da sua dura\u00e7\u00e3o total, que pode ter sido um ano s\u00f3, ou mais que isso.<\/p>\n<p>Se a utiliza\u00e7\u00e3o do Telegram deixou o amante mais tranquilo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria mulher, para Francisca \u2014 que, como j\u00e1 comentei, n\u00e3o tinha problemas com privacidade no celular \u2014 o Telegram passou a significar o deposit\u00e1rio de v\u00eddeos er\u00f3ticos. Quando ela n\u00e3o podia sair \u00e0 noite com Rodolfo, por qualquer motivo que fosse, os v\u00eddeos de sexo entre os dois \u2014 que ele gravava no pr\u00f3prio celular e depois lhe enviava pelo Telegram \u2014 serviam-lhe como aux\u00edlio para suas sess\u00f5es de masturba\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria antes de a fam\u00edlia chegar \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Outro novo est\u00e1gio na rela\u00e7\u00e3o entre os dois amantes se deu quando Francisca comentou para Rodolfo que sentia falta de alguma aventura \u2014 ela dizia que motel era bom, afinal de contas, mas que ela precisava de algo a mais para apimentar a rela\u00e7\u00e3o. Foi quando ele teve a maravilhosa ideia de mostrar os parques da cidade para ela \u2014 e Francisca nem sabia que a cidade os tivesse em tal quantidade. Ela at\u00e9 conhecia aqueles mais pr\u00f3ximos do Umbar\u00e1 (aqueles em dire\u00e7\u00e3o a S\u00e3o Jos\u00e9 dos Pinhais, como o Zool\u00f3gico e o Parque do Igua\u00e7u), mas nenhum mais para a Zona Norte da Cidade, como os parques do Barreirinha, Barigui, Tingui e Tangu\u00e1.<\/p>\n<p>Ela at\u00e9 hoje gosta de se lembrar da primeira vez em que foi visitar um parque com Rodolfo. Ele inicialmente tinha lhe dito que naquele in\u00edcio da noite os dois iriam fazer uma coisa \u201cdiferente\u201d. Ele ent\u00e3o a pegou de carro onde ela lhe dizia que trabalhava, no Largo da Ordem \u2014 cuidando da mesma dona Roberta fict\u00edcia, que morava nas Merc\u00eas segundo a vers\u00e3o para a fam\u00edlia dela \u2014 e foram seguindo na dire\u00e7\u00e3o norte at\u00e9 chegarem no Parque Tingui.<\/p>\n<p>J\u00e1 estava escuro quando eles sa\u00edram do carro e foram andando de m\u00e3os dadas pela ciclovia que fica no meio do parque, at\u00e9 que ele viu uma pequena regi\u00e3o de bosque mais fechado, perto do Memorial Ucraniano, e os dois entraram juntos na mata. Pararam num local distante, dif\u00edcil de ser acessado por outras pessoas, e ela ent\u00e3o se ajoelhou e come\u00e7ou a chupar aquele p\u00eanis que amava. N\u00e3o deixou que ele ejaculasse na sua boca, pois queria ser penetrada ali mesmo, de p\u00e9 para n\u00e3o se sujar muito no ch\u00e3o. Quando finalmente se vestiram, repararam que um homem olhava tudo, a uns cinco metros de dist\u00e2ncia, na pouca luz que havia naquela hora. Eles n\u00e3o souberam direito o que fazer, e ent\u00e3o simplesmente foram andando at\u00e9 o Logan 2012 como se nada tivesse acontecido \u2014 e n\u00e3o viram mais o tal homem.<\/p>\n<p>Este acontecimento a assustou \u2014 mas a excitou ao mesmo tempo. Em todos os muitos passeios sexuais nos muitos parques da cidade que fizeram naquele \u201cano maravilhoso\u201d, apenas mais uma vez foram observados com certeza, por um homem no Parque Tangu\u00e1 que n\u00e3o s\u00f3 ficou olhando a rela\u00e7\u00e3o sexual entre os dois, como ainda colocou o membro para fora. Quando Rodolfo e Francisca perceberam a presen\u00e7a do homem de p\u00e9, se masturbando olhando para eles, resolveram continuar o que estavam fazendo, pois estavam excitados demais para pararem. Tamb\u00e9m desta vez o <em>voyeurismo<\/em> n\u00e3o teve nenhuma consequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Outro tipo de \u201caventura\u201d sexual era o sexo no carro. Os dois foram com o Logan 2012 de Rodolfo para praticamente todos os <em>drive-ins<\/em> da cidade. Mas, claro, quando a excita\u00e7\u00e3o batia, eles transavam pr\u00f3ximos da BR-116, no caminho para a casa dos dois, ou at\u00e9 mesmo na frente de pra\u00e7as pouco frequentadas. Os filmes gravados no carro \u2014 pelo amadorismo e pela enorme excita\u00e7\u00e3o envolvida \u2014 acabavam sendo os preferidos para auxiliar Francisca em seus momentos de prazer solit\u00e1rio, nos dias em que n\u00e3o via seu amante.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, \u00e9 importante acrescentar que, se Rodolfo impressionava Francisca pelo conhecimento dos parques da capital paranaense, na hora do sexo propriamente dito os pap\u00e9is se invertiam. Rodolfo tinha se casado virgem \u2014 como Francisca, ali\u00e1s \u2014, e n\u00e3o tinha tido experi\u00eancias fora do sexo convencional. Embora a Igreja Universal do Reino de Deus basicamente n\u00e3o critique nenhum aspecto do sexo entre um casal, Isabella \u2014 a mulher de Rodolfo \u2014 se utilizava da religi\u00e3o para n\u00e3o fazer sexo oral no marido, por exemplo, atividade sexual que sempre tinha sido uma das preferidas de Francisca. Rodolfo, al\u00e9m disso, nunca tinha praticado sexo anal com nenhuma mulher, e teve um prazer t\u00e3o grande em sua primeira vez com Francisca que constantemente ficava pedindo por essa atividade.<\/p>\n<p>De todo modo, certas atividades sexuais mais ousadas que \u00e0s vezes os clientes pediam para que Francisca praticasse no apartamento onde trabalhava n\u00e3o eram reproduzidas no sexo com Rodolfo, ou porque lhe causavam desgosto, ou porque ela simplesmente n\u00e3o queria que o amante soubesse o qu\u00e3o versada em sexo ela realmente era.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A \u201csombra\u201d nunca mais tinha falado com Francisca depois daquela vez na frente do port\u00e3o, mas ela continuava vendo o homem \u2014 ou seria anjo? \u2014 todas as vezes que estava sozinha na rua.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia \u2014 ainda durante o \u201cano maravilhoso\u201d \u2014 o homem apareceu ao lado dela. Caminharam uns dez passos e ele lhe falou:<\/p>\n<p>\u2014 Pureza, palavra horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Continuaram caminhando mais um pouco, at\u00e9 que ela se distraiu e ele sumiu.<\/p>\n<p>Com toda a excita\u00e7\u00e3o e prazer que esta rela\u00e7\u00e3o extraconjugal estava lhe trazendo, n\u00e3o se pense aqui que a cultura religiosa tinha sido menosprezada por Francisca \u2014 muito pelo contr\u00e1rio, ali\u00e1s, ainda mais que \u00e0s vezes ela acreditava que a \u201csombra\u201d era seu anjo da guarda mesmo. Como ex-estudante de teologia e pregador eventual em grupos de estudos b\u00edblicos da Igreja Universal, Rodolfo tinha um razo\u00e1vel cabedal de conhecimentos sobre os Evang\u00e9licos, sobre algumas das cartas de Paulo e sobre alguns livros do Velho Testamento, se destacando a\u00ed o j\u00e1 citado livro de J\u00f3, os Prov\u00e9rbios e as profecias que se referiam a Jesus \u2014 Francisca chegou a chorar quando, com a B\u00edblia aberta, Rodolfo leu e lhe explicou a par\u00e1bola do Servo Sofredor em Isa\u00edas. Mas nunca liam a Palavra nus, \u00e9 importante que se ressalte. As leituras muitas vezes aconteciam em bares e restaurantes da capital paranaense, quando a satisfa\u00e7\u00e3o era de m\u00e3o dupla: Rodolfo feliz por ser admirado por seu conhecimento teol\u00f3gico, e Francisca feliz porque uma pessoa t\u00e3o inteligente e culta ouvia com tanta aten\u00e7\u00e3o suas d\u00favidas a respeito da f\u00e9.<\/p>\n<p>Havia mais do que sexo no relacionamento de Rodolfo e Francisca, nunca \u00e9 demais ressaltar.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Enfim, no \u201cano maravilhoso\u201d, de uma forma um tanto surpreendente para quem v\u00ea a hist\u00f3ria de longe, Francisca passou a ser uma m\u00e3e ainda mais presente na educa\u00e7\u00e3o dos filhos e uma mulher mais carinhosa do que j\u00e1 era. Sempre atendera aos filhos pelo celular \u2014 por mensagens, quase sempre \u2014 quando estava trabalhando no apartamento, e agora tamb\u00e9m fazia o mesmo quando estava com Rodolfo.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, a sua mudan\u00e7a de hor\u00e1rio para cuidar da fict\u00edcia Dona Roberta acabou sendo aceita com tranquilidade pelos tr\u00eas filhos e pelo marido, e ela ent\u00e3o podia chegar em casa at\u00e9 \u00e0s nove e meia da noite sem maiores problemas. At\u00e9 porque a Francisca \u201cda casa\u201d aparecia com todo seu esplendor nos finais de semana, quando ela lavava a roupa acumulada, fazia comida \u2014 e a congelava \u2014 para a semana inteira, limpava a casa, fazia faxina.<\/p>\n<p>At\u00e9 a presen\u00e7a constante da \u201csombra\u201d quando caminhava sozinha n\u00e3o a estressava mais. Seria ele mesmo seu anjo da guarda? Pena ele ser t\u00e3o quieto, Francisca pensava \u2014 baseado em testemunhos de crentes na Igreja que acreditavam ter conhecido anjos na forma de desconhecidos que falavam pelos cotovelos, ela acreditava que anjos eram seres faladores.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>O fim do \u201cano maravilhoso\u201d, como Francisca ainda hoje chama aqueles dias de excita\u00e7\u00e3o e \u2014 por que n\u00e3o? \u2014 autoconhecimento, come\u00e7ou com uma grande mensagem pelo Telegram de Rodolfo, que dizia mais ou menos o seguinte:<\/p>\n<p>\u2014 Meu amor, minha vida n\u00e3o \u00e9 nada sem voc\u00ea. Os ventos me trazem a sua presen\u00e7a, as flores desabrocham querendo te ver, a chuva traz a vida para voc\u00ea, a natureza ama por voc\u00ea. Meu amor, penso em voc\u00ea pela manh\u00e3 e \u00e0 noite, \u00e0 tarde e ao meio-dia. Vivo com sua presen\u00e7a como se fosse uma tatuagem, como se fosse parte de mim. Amor, eu te amo, eu te quero, eu te amo, eu te venero. Amor, eu preciso de voc\u00ea.<\/p>\n<p>No que Francisca prontamente respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, amor, tamb\u00e9m te amo.<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 preciso um par\u00eantese: desde o in\u00edcio de seu relacionamento, Rodolfo e Francisca tinham estado de acordo que a rela\u00e7\u00e3o deles era informal, que n\u00e3o haveria sentimento envolvido, mas somente divers\u00e3o. Uns meses antes, Rodolfo j\u00e1 tinha come\u00e7ado a dizer \u2014 tanto pessoalmente quanto por mensagens \u2014 que amava Francisca. Desde o in\u00edcio, ela n\u00e3o gostara muito da novidade, mas respondia laconicamente que tamb\u00e9m o amava. De modo que o descrito logo acima n\u00e3o era muito diferente do que estava acontecendo nos \u00faltimos tempos.<\/p>\n<p>A novidade veio a seguir, em uma mensagem de Rodolfo pelo Telegram:<\/p>\n<p>\u2014 Meu amor, eu te amo, eu quero largar a minha esposa e ficar com voc\u00ea.<\/p>\n<p>Francisca ficou chocada, sem saber o que responder. E n\u00e3o respondeu. Mais alguns minutos se passaram e Rodolfo volta \u00e0 carga:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 s\u00e9rio, meu amor. Eu n\u00e3o aguento mais, preciso de voc\u00ea, preciso me casar com voc\u00ea!<\/p>\n<p>Francisca ficou realmente preocupada e acabou respondendo o amante:<\/p>\n<p>\u2014 Meu amor, n\u00e3o posso largar minha fam\u00edlia, voc\u00ea sabe disso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00c3O SEI DE NADA! EU TE AMO E TE QUERO!<\/p>\n<p>Francisca sabia que, naquele dia, Rodolfo estaria de folga. Ser\u00e1 que estava b\u00eabado? Era s\u00f3 o que faltava!<\/p>\n<p>\u2014 Quando voc\u00ea estiver mais calmo, a gente conversa \u2014 Francisca respondeu. E bloqueou o n\u00famero do amante no celular.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Infelizmente, esse tipo de conversa passou a ser muito comum nos meses que se seguiram: Rodolfo implorando para que os dois abandonassem seus companheiros para ter uma vida a dois juntos, e Francisca furiosa com essas ideias do amante. Brigavam e voltavam a se falar numa m\u00e9dia de quase duas vezes por semana. \u00c0s vezes Francisca dava uma dura maior e ficava at\u00e9 dez dias sem rela\u00e7\u00f5es com Rodolfo; para que ela o perdoasse nessas ocasi\u00f5es, o que normalmente acontecia \u00e9 que ele tivesse que deixar de lado as ideias de viverem juntos. Mas isso n\u00e3o demorava muito e logo ele voltava com grandes e longas juras de amor e pedidos para uma uni\u00e3o de corpos.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, frequentemente Francisca prometia a si mesma que \u201cnunca mais\u201d falaria com Rodolfo \u2014 mas bastava ela desbloquear o celular que se rendia a alguma mensagem rom\u00e2ntica dele. \u201cEu n\u00e3o sei o que esse homem consegue fazer comigo\u201d, dizia Francisca para um cliente que sabia do seu relacionamento com Rodolfo e que se divertia muito com a hist\u00f3ria dos dois.<\/p>\n<p>E, do mesmo modo que naquela famosa m\u00fasica, depois das brigas o sexo entre os dois amantes era mais quente do que nunca. O fato \u00e9 que Francisca sentia muito a falta f\u00edsica de Rodolfo. Os dois amantes continuavam ainda a falar sobre assuntos espirituais \u2014 mas boa parte do tempo anteriormente dedicado a estes assuntos, infelizmente, passou a ser despendido com brigas e discuss\u00f5es. Al\u00e9m disso, \u00e0 medida que Rodolfo ficava mais e mais obcecado em viver com Francisca, menos se satisfazia com sexo vaginal, e mais desejava sexo anal. A preocupa\u00e7\u00e3o com o estado psicol\u00f3gico do amante preocupava cada vez mais Francisca.<\/p>\n<p>Esse per\u00edodo de brigas foi o primeiro est\u00e1gio da segunda fase \u2014 esta, jamais nomeada, ao contr\u00e1rio da primeira, o \u201cano maravilhoso\u201d \u2014 do relacionamento entre Rodolfo e Francisca.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Foi durante a segunda fase que a \u201csombra\u201d conversou com ela novamente. Eram umas seis da tarde, e o homem de preto estava na frente do port\u00e3o da casa dela, como da outra vez. Ele falou assim:<\/p>\n<p>\u2014 Francisca, por que voc\u00ea continua com esse homem?<\/p>\n<p>\u2014 Porque eu tenho muito prazer com ele, n\u00e3o sei explicar como ele mexe comigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 tem tantos clientes, j\u00e1 faz sexo o dia inteiro \u2014 ele retorquiu.<\/p>\n<p>\u2014 Mas nenhum deles me faz eu me sentir desejada.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ele n\u00e3o \u00e9 o homem certo. Ainda h\u00e1 tempo. N\u00e3o diga que eu n\u00e3o avisei.<\/p>\n<p>Ela sentiu um tremor gra\u00e7as \u00e0 \u201csombra\u201d \u2014 que sumiu logo em seguida \u2014 como n\u00e3o sentia h\u00e1 muito tempo j\u00e1.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Assim como cada est\u00e1gio da primeira fase \u2014 o \u201cano maravilhoso\u201d \u2014 do relacionamento entre eles era melhor que o anterior, na segunda fase cada est\u00e1gio causava mais estresse e sofrimento que o anterior.<\/p>\n<p>O segundo est\u00e1gio da segunda fase come\u00e7ou com uma mensagem recebida no Telegram de Francisca:<\/p>\n<p>\u2014 SUA VAGABUNDA, LARGUE DO MEU MARIDO! SEI TUDO O QUE VOC\u00ca E MEU MARIDO FIZERAM!<\/p>\n<p>O nome de quem tinha mandado a mensagem era Isabella, exatamente o nome da mulher de seu amante. Sem saber o que fazer, inicialmente Francisca bloqueou o n\u00famero da Isabella. Depois mandou uma mensagem para Rodolfo:<\/p>\n<p>\u2014 SUA MULHER ME ESCREVEU! DISSE QUE EST\u00c1 SABENDO DE TUDO!<\/p>\n<p>O amante estava <em>offline<\/em>.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Francisca estava no apartamento onde trabalhava quando isso tudo aconteceu e ficou, como se pode deduzir, num estado muito abalado. E o tempo foi passando: veio um cliente, depois outro, depois outro. E nada de Rodolfo responder.<\/p>\n<p>Ela j\u00e1 estava no \u00f4nibus, voltando para casa, quando Rodolfo escreve pelo Telegram:<\/p>\n<p>\u2014 Oi, amor, o que houve?<\/p>\n<p>\u2014 Sua mulher! Me escreveu que est\u00e1 sabendo de tudo!<\/p>\n<p>Rodolfo ficou chocado. Tinha passado o dia todo numa obra na regi\u00e3o metropolitana onde o celular n\u00e3o tinha sinal e por isso n\u00e3o respondera a Francisca. Na falta de alguma ideia melhor, os dois combinamos que iriam esperar como Isabella reagiria com o marido. Ela n\u00e3o tinha entrado em contato com ele, e este n\u00e3o podia simplesmente vir se queixar de que ela tinha tratado mal sua amante \u2014 afinal de contas, ele n\u00e3o tinha uma amante, para todos os efeitos.<\/p>\n<p>Francisca ent\u00e3o se lembrou do que a \u201csombra\u201d tinha lhe dito alguns dias antes, de que ainda havia tempo para deixar dele.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que ainda havia mesmo tempo?<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>E assim se passou mais uma semana: Isabella \u00e0s vezes dava um olhar mais significativo para o marido, que fazia de tudo para fingir que n\u00e3o sabia de nada. E Francisca continuava com o n\u00famero de Isabella bloqueado.<\/p>\n<p>Ainda as coisas estavam assim quando surgiu uma nova caracter\u00edstica de Francisca: o ci\u00fame e a vontade de provocar a mulher do amante. Come\u00e7ou assim: Francisca, que sempre utilizava uma foto sua normal \u2014 com cal\u00e7a jeans e camiseta \u2014 como avatar de seu perfil do Telegram, mudou-o para uma mensagem escrita simplesmente \u201cTe amo, meu amor\u201d, com um cora\u00e7\u00e3o embaixo dos dizeres. E desbloqueou a mulher de Rodolfo. E assim ela ia mudando o avatar do seu perfil, com mensagens cada vez mais expl\u00edcitas: \u201cN\u00e3o sei viver sem voc\u00ea\u201d; \u201cMeu corpo precisa do teu\u201d; \u201cSou toda sua, meu amor\u201d \u2014 esta \u00faltima mensagem com uma mulher nua estilizada abaixo dos dizeres.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Foi nessa fase de ci\u00fame de Francisca que a \u201csombra\u201d falou com ela de novo. Ela estava chegando em casa, ele andando ao lado dela, quando ele olhou bem no fundo dos seus olhos, com aqueles olhos verdes lindos, e perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Ci\u00fame, agora?<\/p>\n<p>Francisca, que nunca tinha brigado com a \u201csombra\u201d, n\u00e3o aguentou e gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea vem, me segue, aparece do nada e me vem com umas mensagens nada a ver! Quem voc\u00ea acha que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Seu anjo da guarda \u2014 a \u201csombra\u201d respondeu.<\/p>\n<p>E riu.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A provoca\u00e7\u00e3o di\u00e1ria pelo Telegram \u2014 importante destacar que Francisca n\u00e3o usava este aplicativo para conversar com a fam\u00edlia, mas apenas com Rodolfo \u2014 acabou tendo suas consequ\u00eancias. Foi assim: uma manh\u00e3, mais ou menos um m\u00eas depois de Francisca ter modificado pela primeira vez seu avatar, Rodolfo escreveu para Francisca:<\/p>\n<p>\u2014 Meu amor, precisamos conversar.<\/p>\n<p>O tom era estranho. Os dois se conversavam quase todos os dias, e continuavam a fazer sexo de tr\u00eas a quatro vezes por semana. Por que \u201cprecisavam conversar\u201d? Mas ela respondeu somente isso:<\/p>\n<p>\u2014 Ok, amor.<\/p>\n<p>Quando se encontraram, a\u00ed pelas seis da tarde no Logan 2012, Rodolfo comenta com Francisca:<\/p>\n<p>\u2014 Minha mulher me tocou de casa.<\/p>\n<p>Sem saber o que fazer, Francisca respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 E voc\u00ea, o que vai fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Vou sair! Estou feliz! Quero viver com voc\u00ea!<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu j\u00e1 disse que n\u00e3o posso largar minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Os dois ficam num sil\u00eancio tenso, e Francisca perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Bem, e como \u00e9 que ela descobriu?<\/p>\n<p>\u2014 Mexendo no meu celular, s\u00f3 isso. Descobriu que o Telegram existe, e viu um monte de foto tua chupando o meu pau \u2014 Francisca ficou com vontade de rir com o coment\u00e1rio, mas preferiu s\u00f3 responder:<\/p>\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea n\u00e3o me dizia sempre que apagava as mensagens pra voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9. Mas aquelas fotos s\u00e3o t\u00e3o lindas&#8230; \u2014 e come\u00e7ou a chorar.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>No dia seguinte, Rodolfo escreve para Francisca que j\u00e1 n\u00e3o dormiria em casa. O \u00fanico filho dos dois, Rodrigo, que tinha quinze anos de idade e fazia curso t\u00e9cnico em edifica\u00e7\u00f5es, ficaria com a m\u00e3e. E ele moraria num pequeno hotel do centro at\u00e9 arranjar um lugar definitivo.<\/p>\n<p>E assim alguns meses foram se passando: Rodolfo insistia cada vez mais para que Francisca deixasse da fam\u00edlia dele, dizendo que n\u00e3o aguentava mais viver sozinho, e ela cada vez mais estressada \u2014 seria uma \u00f3tima ideia deixar de Rodolfo de vez, Francisca pensava consigo; mas ela n\u00e3o aguentava ficar longe dele, e estava gostando cada vez mais de colocar avatares provocativos no Telegram, porque tinha certeza de que Isabella via tudo.<\/p>\n<p>E a \u201csombra\u201d aparecia sempre, e n\u00e3o falava nada.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Um dia Francisca teve uma ideia: passar um s\u00e1bado inteiro com o amante. Eles poderiam ir a alguns parques, poderiam transar no carro, poderiam ir a um motel, tudo no mesmo dia \u2014 um dia inteiro dedicado ao sexo. O que Rodolfo achava da ideia?<\/p>\n<p>\u2014 Este s\u00e1bado n\u00e3o posso, tenho uma obra em Pinhais&#8230;<\/p>\n<p>Francisca nem sabia dessa obra em Pinhais, achou estranha a resposta dele e desconfiou de algo espec\u00edfico. Mas j\u00e1 sabia o que fazer, e com paci\u00eancia p\u00f4s seu plano em pr\u00e1tica: nas quatro semanas seguintes, pediu para Rodolfo que tivessem um s\u00e1bado dedicado inteiramente ao sexo, e Rodolfo recusou seguidamente. Foi na \u00faltima recusa que ela fez a pergunta que estava preparando h\u00e1 quase um m\u00eas:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 com sua mulher, n\u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Estou sim \u2014 respondeu ele, envergonhado.<\/p>\n<p>Os dois estavam pr\u00f3ximos da Pra\u00e7a Rui Barbosa neste momento, e Francisca exigiu sair do carro. E prometeu para ele \u2014 e para si mesma \u2014 que nunca mais falaria com o amante. Era muita cafajestada, pensou.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>E foi atravessando uma rua pr\u00f3xima da Rui Barbosa que aconteceu uma coisa que poderia ter sido tr\u00e1gica. Ela n\u00e3o lembra direito do que aconteceu, se escorregou, se um carro \u201cfurou\u201d o sinal vermelho, se ela tinha culpa ou n\u00e3o, se ela tinha sido imprudente, se o freio do carro n\u00e3o funcionou direito, ou se foi s\u00f3 um problema do tr\u00e2nsito horroroso de Curitiba.<\/p>\n<p>Ela se lembra de alguns detalhes: estava no meio da rua quando um sujeito, correndo, pegou-a pela cintura e se jogou abra\u00e7ado com ela na cal\u00e7ada. Ele fez de tal jeito que ela quase n\u00e3o teve nenhuma escoria\u00e7\u00e3o. Ele tinha os cabelos escuros, era alto, e olhou com seus profundos olhos verdes para ela e lhe perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem, mo\u00e7a? Voc\u00ea quase foi atropelada, ainda bem que deu tempo de te tirar do caminho do carro, que estava em excesso de velocidade.<\/p>\n<p>Era \u201ca sombra\u201d! Sem chap\u00e9u, com uma camiseta branca com motivos de surfe, e na frente de um monte de gente. E \u00e0 luz do dia.<\/p>\n<p>Logo outras pessoas se juntaram para saber se ela estava bem. Estava. Assim que ela se levantou, a \u201csombra\u201d falou para ela, bem baixinho para ningu\u00e9m mais ouvir:<\/p>\n<p>\u2014 Precisando de mim, me avise. Voc\u00ea sabe onde me encontrar.<\/p>\n<p>E saiu, tranquilamente, no meio da pequena multid\u00e3o que se formou.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Creio que n\u00e3o seria errado chamar o pr\u00f3ximo est\u00e1gio da rela\u00e7\u00e3o entre Rodolfo e Francisca de \u201cest\u00e1gio das brigas feias\u201d, e que durou mais alguns meses. Os dois brigavam por qualquer motivo. Rodolfo acusava Francisca de n\u00e3o querer deixar o marido para ficar com ele \u2014 o que, em \u00faltima an\u00e1lise, era verdade, como sabemos. Francisca acusava o amante de prometer coisas que n\u00e3o podia, nem queria, cumprir \u2014 o que tamb\u00e9m estava longe de ser falso.<\/p>\n<p>A \u00faltima briga que tiveram nesse est\u00e1gio aconteceu num motel e est\u00e1 reproduzida abaixo.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Rodolfo chorava, dizia que iria sim largar a mulher em seguida, e ela responde:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que voc\u00ea diz que vai largar ela, e eu estou esperando faz um temp\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 verdade!<\/p>\n<p>\u2014 Mas vai largar quando? Semana que vem?<\/p>\n<p>\u2014 Semana que vem n\u00e3o posso, ainda n\u00e3o sei onde vou morar, ainda temos a casa, que ningu\u00e9m sabe com quem vai ficar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E ainda tem essa maldita casa!<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, mas o que voc\u00ea quer que eu fa\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2014 Largue dela, ou pare de me prometer essa bobagem.<\/p>\n<p>Rodolfo come\u00e7a a chorar.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho tanta pena de voc\u00ea, Rodolfo \u2014 responde Francisca, com ironia.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 verdade, n\u00e3o ria do meu sofrimento.<\/p>\n<p>\u2014 Quando a gente come\u00e7ou, a gente combinou que iria s\u00f3 aproveitar a vida. A\u00ed voc\u00ea se apaixonou. A\u00ed falou que n\u00e3o podia viver sem mim. E eu na minha, com meu marido. A\u00ed voc\u00ea come\u00e7ou a pedir pra eu deixar dele e ficar com voc\u00ea. Mas nem largar da tua mulher voc\u00ea larga! \u2014 Francisca j\u00e1 estava gritando.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A briga reproduzida acima n\u00e3o teve nada de especial em termos de originalidade, e n\u00e3o foi muito diferente das que grassavam a rela\u00e7\u00e3o dos dois h\u00e1 j\u00e1 um bom tempo. O problema aconteceu logo depois.<\/p>\n<p>Assim que chegou em casa, naquela noite, Francisca viu Paulo esperando-a no jardim de entrada da casa. Ele falou, baixo:<\/p>\n<p>\u2014 Francisca, precisamos conversar.<\/p>\n<p>\u2014 Ok \u2014 respondeu ela, tentando manter a calma.<\/p>\n<p>Com os dois sentados na sala, Paulo mostra o celular para ela, e pede que ela veja uma conversa espec\u00edfica no WhatsApp. Era uma curta mensagem de texto de Rodolfo, dizendo \u201cveja o que sua mulher anda fazendo comigo\u201d, e uma s\u00e9rie de fotos: algumas com os dois nus \u2014 fazendo ou n\u00e3o sexo \u2014 e outras com os dois vestidos, mas se beijando; tinha fotos deles jantando e almo\u00e7ando tamb\u00e9m. Por sorte \u2014 se \u00e9 que se pode chamar de sorte \u2014 n\u00e3o tinha nenhum v\u00eddeo com os dois transando. Depois que ela viu as fotos, Paulo pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 Faz tempo que isso est\u00e1 acontecendo?<\/p>\n<p>\u2014 Faz uns anos j\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Eu falhei com voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, h\u00e1 um bom tempo eu tenho me sentido esquecida, Paulo. Ent\u00e3o, pode ter falhado, mesmo que voc\u00ea n\u00e3o mere\u00e7a a trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os dois come\u00e7am uma longa conversa, cuja conclus\u00e3o foi mais ou menos a seguinte: se Francisca quisesse, ele a perdoaria e tentaria ser um marido melhor. Com medo de perder o contato com os filhos, furiosa com Rodolfo por ter contado tudo para o seu marido, e feliz com Paulo por ter sido compreensivo \u2014 ela mesma achava que n\u00e3o seria t\u00e3o bondosa se estivesse no lugar dele \u2014, Francisca acabou decidindo ficar com o marido e deixar o amante para sempre.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria n\u00e3o acabou aqui.<\/p>\n<p>Paulo e a mulher ainda combinaram que ela teria que liberar o acesso do celular ao marido, que atualmente o vasculha com aten\u00e7\u00e3o quase que diariamente. Mais do que isso, ele pediu para voltar ao seu hor\u00e1rio anterior na transportadora, e n\u00e3o s\u00f3 chega mais cedo em casa, como pede para que a esposa mande fotos de onde est\u00e1 durante o dia. Por sorte, ele s\u00f3 n\u00e3o exige que ela tire fotos da casa da fict\u00edcia dona Roberta, porque a esposa lhe contou que a fam\u00edlia da velhinha n\u00e3o permitia que ela tirasse fotos l\u00e1 de dentro \u2014 o que \u00e9 bastante compreens\u00edvel, por motivos de seguran\u00e7a, e Paulo aceitou.<\/p>\n<p>Agora Francisca tem saudade de suas \u201caventuras\u201d, que provavelmente n\u00e3o voltar\u00e3o mais, com ningu\u00e9m mais. Mas isso nem \u00e9 o pior: o que realmente a assusta \u00e9 o p\u00e2nico de que o marido descubra a verdadeira atividade profissional dela. Francisca acha que ele n\u00e3o a perdoar\u00e1 nesse caso, e tem medo at\u00e9 de ser assassinada por ele caso seja desmascarada.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o tenho medo de morrer. N\u00e3o tenho!<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Semana passada, Francisca ouviu irritada a prega\u00e7\u00e3o do pastor da Igreja Universal do Reino de Deus sobre a \u201cpureza\u201d que todos t\u00eam de ter diante de Deus.<\/p>\n<p>\u2014 Pureza, palavra horr\u00edvel \u2014 lembrou-se Francisca das palavras do anjo.<\/p>\n<p><em>(Ilustra\u00e7\u00e3o que acompanha o texto obtida no Google Gemini)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisca era uma garota de programa que trabalhava num apartamento ao lado do Passeio P\u00fablico. Passava o hor\u00e1rio comercial ali, e a casa tinha, normalmente, uma alta rotatividade de clientes. Alguns eram muito bondosos, davam gorjetas e chegavam a pedir por programas de cinco horas. Outros eram asquerosos, tratavam-na mal, eram grosseiros \u2014 pelo menos estes, normalmente, chegavam rapidamente ao orgasmo e o programa era curto. \u00c0 noite, ela voltava para casa, um sobrado bem ajeitado no Umbar\u00e1, onde morava com o marido. Pegava dois \u00f4nibus para ir para casa, o primeiro na Pra\u00e7a Rui Barbosa e o segundo no Terminal do Pinheirinho. Quando chegava, o marido lhe perguntava como tinha sido o dia. Ela dizia que trabalhava como cuidadora de uma senhora senil perto das Merc\u00eas, e ele aceitava sem problemas. O marido, que se chamava Paulo, trabalhava com transporte de bebidas e era um homem s\u00e9rio e compenetrado. Nos fins de semana, ele, a mulher e os tr\u00eas filhos assistiam aos cultos na Igreja Universal do Reino de Deus, a tr\u00eas quadras da casa deles. Como ela trabalhava de segunda a sexta, podia ir aos cultos de s\u00e1bado e domingo sem maiores problemas. \u00c0s vezes a fam\u00edlia ia visitar o pai dela, que morava em Matinhos, e era s\u00f3 assim que perdiam as cerim\u00f4nias religiosas. Em algumas dessas ocasi\u00f5es, Paulo assistia a um culto da mesma denomina\u00e7\u00e3o l\u00e1 no litoral, mas o mais comum era avisar ao seu pastor na igreja do Umbar\u00e1 que \u201cnaquele fim de semana eles iriam fazer a obriga\u00e7\u00e3o de dar uma aten\u00e7\u00e3o para o sogro, um velhinho muito bom, mas, infelizmente, distante da igreja\u201d. O pastor ent\u00e3o orava junto com Paulo pela convers\u00e3o de Raul, o pai de Francisca. N\u00e3o se pode dizer que essa vida dupla n\u00e3o pesava na consci\u00eancia da pobre Francisca, que realmente tinha trabalhado durante algum tempo cuidando de idosas. Quase meia d\u00e9cada antes dos fatos narrados aqui, a \u00faltima mulher sob seus cuidados morrera de uma hora para outra e ela ficara desempregada. Seu marido tamb\u00e9m estava sem emprego, e o desespero do casal era imagin\u00e1vel: eles tinham tr\u00eas filhos, sendo que nenhum dos tr\u00eas trabalhava e o mais velho tinha apenas dezoito anos. Nessa situa\u00e7\u00e3o desoladora \u2014 o pouco dinheiro que tinham economizado j\u00e1 estava no fim \u2014, a irm\u00e3 de Francisca, uma cat\u00f3lica n\u00e3o praticante que n\u00e3o se importava com os chamados \u201cmoral e bons costumes\u201d, sugeriu que ela come\u00e7asse a vender seu corpo para ganhar dinheiro. Se Francisca quisesse, Raquel \u2014 a irm\u00e3 \u2014 poderia lhe passar o contato de uma amiga dona de um apartamento que estava precisando de meninas para esse tipo de trabalho. Depois de muita hesita\u00e7\u00e3o, Francisca acabou conversando com a mo\u00e7a, e as duas combinaram que na semana seguinte ela come\u00e7aria a trabalhar ali. Francisca acabou gostando muito mais de trabalhar com sexo do que tinha imaginado. Tinha muito mais desejo sexual que o marido \u2014 frequentemente ia dormir insatisfeita porque ele n\u00e3o queria nada com ela \u2014 e os clientes, em sua maioria, a tratavam bem. Percebeu que n\u00e3o precisava se esfor\u00e7ar muito para ganhar muito mais dinheiro que antes: na verdade, em grande parte do tempo, o trabalho lhe dava prazer. Era ass\u00eddua com os hor\u00e1rios \u2014 a dona exigia que ela chegasse \u00e0s sete da manh\u00e3 e ela n\u00e3o poderia sair antes das cinco da tarde \u2014, e n\u00e3o faltava nem quando estava muito resfriada. Para a fam\u00edlia, como se pode imaginar, ela tinha dito que arranjara outro trabalho como cuidadora de idosos. Sua consci\u00eancia pesou mais no in\u00edcio da vida dupla: ela se sentia mal nos cultos, dada a incoer\u00eancia entre o que era pregado e seu trabalho. Faltou a algumas cerim\u00f4nias religiosas, mas teve que voltar a participar delas quando o marido disse que n\u00e3o era bom que ela continuasse se ausentando da casa de Deus. Ent\u00e3o, recome\u00e7ou a frequentar as cerim\u00f4nias. Quanto a seu dia a dia em casa, percebeu que nada se modificara e que, de certa maneira, seu trabalho no apartamento era apenas mais um trabalho: continuava sendo a boa m\u00e3e e esposa de sempre, carinhosa e atenta \u00e0s necessidades da fam\u00edlia. *** Al\u00e9m dos problemas de consci\u00eancia, que \u00e0s vezes eram maiores, \u00e0s vezes menores, Francisca se incomodava com o que ela chamava de \u201csombra\u201d. Sempre que estava sozinha \u00e0 noite andando na rua (que n\u00e3o precisava estar necessariamente deserta para que isso acontecesse), ela via um homem alto, com uma capa comprida e chap\u00e9u pretos. \u00c0s vezes ele estava na sua frente, normalmente a uns vinte metros de dist\u00e2ncia, mas \u00e0s vezes ela sentia que ele estava atr\u00e1s dela \u2014 e, quando se virava, l\u00e1 estava ele. O pior nem era isso: o mais comum era Francisca olhar para ele, se distrair e, quando olhava de novo, ele sumia \u2014 normalmente para aparecer em outro lugar da rua, frequentemente distante do anterior, alguns minutos depois. Ela sentia uma sensa\u00e7\u00e3o estranha, uma esp\u00e9cie de calafrio, quando o via. No in\u00edcio, ela sentia bastante medo do homem misterioso, de quem nunca conseguiu ver direito o rosto \u2014 ele sempre aparecia \u00e0 noite, e o chap\u00e9u aumentava a sua sombra, afinal de contas. S\u00f3 sabia que ele usava uma barba, muito escura, ali\u00e1s. Com o tempo, o medo diminuiu, mas n\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de desconforto que ele lhe trazia. *** Grandes mudan\u00e7as na vida de Francisca tiveram in\u00edcio quando Paulo passou a chegar cada vez mais tarde em casa, devido a mudan\u00e7as em sua escala de trabalho. Logo ele se estabeleceu num hor\u00e1rio fixo na transportadora de bebidas: do meio-dia \u00e0s oito da noite, de ter\u00e7a a s\u00e1bado. Por isso, ele deixou de ir aos cultos do s\u00e1bado \u2014 mas Francisca e os filhos n\u00e3o. Continuaram os mesmos bons crentes de sempre. Para ela, a principal diferen\u00e7a era a falta que o marido lhe fazia entre a hora em que ela chegava em casa \u2014 normalmente perto das seis da tarde \u2014 e a hora de Paulo, entre nove e dez da<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6020,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[558],"tags":[],"class_list":["post-6018","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-obra-literaria","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6018","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6018"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6018\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6022,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6018\/revisions\/6022"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6020"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6018"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6018"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}