{"id":5947,"date":"2025-08-17T14:33:17","date_gmt":"2025-08-17T17:33:17","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5947"},"modified":"2025-08-17T14:41:26","modified_gmt":"2025-08-17T17:41:26","slug":"o-que-nao-senti-inicio-do-conto-jack-the-ripper-a-ser-publicado-em-a-mulher-de-cesar-fabricio-muller","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5947","title":{"rendered":"O Que N\u00e3o Senti &#8211; In\u00edcio do conto &#8220;Jack The Ripper&#8221;, a ser publicado em &#8220;A mulher de C\u00e9sar&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>3 de mar\u00e7o de 2017<\/strong><\/p>\n<p>Acordo com uma sensa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel: a de que assassinar pessoas \u00e9 uma atividade horrenda, punida com pris\u00e3o e malvista pela sociedade. O estranho \u00e9 que nunca matei ningu\u00e9m nem tive vontade \u2014 mesmo assim, por que fico t\u00e3o chocado? Em que canto horr\u00edvel da minha mente assassinar \u00e9 f\u00e1cil e corriqueiro?<\/p>\n<p><strong>15 de mar\u00e7o de 2017<\/strong><\/p>\n<p>Doze dias depois, a sensa\u00e7\u00e3o ruim n\u00e3o passa. Se estou relaxado, pensando em nada, a sensa\u00e7\u00e3o de incompreens\u00e3o \u2013 de n\u00e3o entender por que tirar a vida dos outros \u00e9 considerado um crime grave \u2013 volta \u00e0 minha mente com for\u00e7a total. E, assim, acabo me lembrando da morte de um ex-amigo.<\/p>\n<p>Eu tinha achado estranho o acidente do Jairo ter acontecido depois de discutirmos: ele me acusou de desonestidade \u2013 o que era absurdo, j\u00e1 que sempre o ajudei \u2013 e eu lhe respondi que n\u00e3o falasse mais comigo, que eu n\u00e3o o perdoaria jamais. Ele saiu batendo a porta e n\u00e3o nos falamos durante um m\u00eas. Ao final desse per\u00edodo, ele morreu num acidente horr\u00edvel na estrada da praia.<\/p>\n<p>N\u00e3o senti nenhum remorso, nada. Nem fui ao enterro \u2013 t\u00ednhamos sido amigos insepar\u00e1veis, mas por sorte eu estava viajando (tinha ido ao Peru) e n\u00e3o tinha como voltar. N\u00e3o precisei me justificar. Tamb\u00e9m n\u00e3o fui \u00e0 missa de s\u00e9timo dia, afinal, minha presen\u00e7a n\u00e3o era t\u00e3o necess\u00e1ria, e ningu\u00e9m me questionou sobre a aus\u00eancia.<\/p>\n<p>A morte de Jairo foi horr\u00edvel: um caminh\u00e3o desgovernado passou por cima do carro em que ele estava, sem que ele pudesse desviar ou fugir. As ferragens dos ve\u00edculos impediram o resgate \u2013 ele ficou agonizante por horas e, quando finalmente foi retirado daquele amontoado de metal retorcido, j\u00e1 estava morto. Foi uma morte muito dolorosa, a respeito da qual eu n\u00e3o senti absolutamente nada.<\/p>\n<p>N\u00e3o que eu sentisse \u00f3dio de Jairo. Pelo contr\u00e1rio: para mim, ele simplesmente j\u00e1 n\u00e3o existia mais, e sua morte s\u00f3 confirmou o que eu sentia por dentro.<\/p>\n<div class=\"captioned-image-container\">\n<figure>\n<div class=\"image2-inset\"><\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<p><em>(Imagem que acompanha o texto obtida com a Gemini, do Google.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Se voc\u00ea estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/o-que-nao-senti\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>3 de mar\u00e7o de 2017 Acordo com uma sensa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel: a de que assassinar pessoas \u00e9 uma atividade horrenda, punida com pris\u00e3o e malvista pela sociedade. O estranho \u00e9 que nunca matei ningu\u00e9m nem tive vontade \u2014 mesmo assim, por que fico t\u00e3o chocado? Em que canto horr\u00edvel da minha mente assassinar \u00e9 f\u00e1cil e corriqueiro? 15 de mar\u00e7o de 2017 Doze dias depois, a sensa\u00e7\u00e3o ruim n\u00e3o passa. Se estou relaxado, pensando em nada, a sensa\u00e7\u00e3o de incompreens\u00e3o \u2013 de n\u00e3o entender por que tirar a vida dos outros \u00e9 considerado um crime grave \u2013 volta \u00e0 minha mente com for\u00e7a total. E, assim, acabo me lembrando da morte de um ex-amigo. Eu tinha achado estranho o acidente do Jairo ter acontecido depois de discutirmos: ele me acusou de desonestidade \u2013 o que era absurdo, j\u00e1 que sempre o ajudei \u2013 e eu lhe respondi que n\u00e3o falasse mais comigo, que eu n\u00e3o o perdoaria jamais. Ele saiu batendo a porta e n\u00e3o nos falamos durante um m\u00eas. Ao final desse per\u00edodo, ele morreu num acidente horr\u00edvel na estrada da praia. N\u00e3o senti nenhum remorso, nada. Nem fui ao enterro \u2013 t\u00ednhamos sido amigos insepar\u00e1veis, mas por sorte eu estava viajando (tinha ido ao Peru) e n\u00e3o tinha como voltar. N\u00e3o precisei me justificar. Tamb\u00e9m n\u00e3o fui \u00e0 missa de s\u00e9timo dia, afinal, minha presen\u00e7a n\u00e3o era t\u00e3o necess\u00e1ria, e ningu\u00e9m me questionou sobre a aus\u00eancia. A morte de Jairo foi horr\u00edvel: um caminh\u00e3o desgovernado passou por cima do carro em que ele estava, sem que ele pudesse desviar ou fugir. As ferragens dos ve\u00edculos impediram o resgate \u2013 ele ficou agonizante por horas e, quando finalmente foi retirado daquele amontoado de metal retorcido, j\u00e1 estava morto. Foi uma morte muito dolorosa, a respeito da qual eu n\u00e3o senti absolutamente nada. N\u00e3o que eu sentisse \u00f3dio de Jairo. Pelo contr\u00e1rio: para mim, ele simplesmente j\u00e1 n\u00e3o existia mais, e sua morte s\u00f3 confirmou o que eu sentia por dentro. 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