{"id":5941,"date":"2025-08-10T14:25:51","date_gmt":"2025-08-10T17:25:51","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5941"},"modified":"2025-08-10T14:25:51","modified_gmt":"2025-08-10T17:25:51","slug":"flamenco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5941","title":{"rendered":"Flamenco!"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 achei que o melhor show a que assisti na vida foi o de <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1459\">Morrissey<\/a>, em 2000. Depois mudei de ideia e passei a achar que o de <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3177\">Ariana Grande<\/a> tinha superado o do cantor ingl\u00eas. Finalmente, tinha chegado \u00e0 conclus\u00e3o de que o melhor show da minha vida foi o do <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4346\">Amenra<\/a>, pouco antes do lockdown da pandemia em 2020.<\/p>\n<p>Mas, pensando bem, a maior experi\u00eancia musical que j\u00e1 tive foi em uma noite de flamenco em Madri, em 1982.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos ido, s\u00f3 eu e minha m\u00e3e, para um m\u00eas de excurs\u00e3o de \u00f4nibus pela Europa com outros brasileiros e um guia portugu\u00eas, e passamos por quase uma dezena de pa\u00edses. Em Madri, minha m\u00e3e resolveu que n\u00e3o \u00e9ramos turistas como os outros e, para provar isso, deixamos de assistir ao show de flamenco que o restante da excurs\u00e3o iria. Ela perguntou a um motorista de t\u00e1xi que t\u00ednhamos tomado durante a tarde qual era um lugar com shows de flamenco &#8220;de verdad&#8221; \u2014 ou alguma outra express\u00e3o em portunhol que ela inventou na hora. O taxista escreveu num papelzinho: &#8220;Caf\u00e9 Chinitas&#8221;. Era l\u00e1 que assistir\u00edamos, \u00e0 noite, a um verdadeiro show de flamenco, e n\u00e3o \u00e0quela bobagem dilu\u00edda a que os demais participantes da excurs\u00e3o iriam!<\/p>\n<p>Sei l\u00e1 como foi o show dos outros turistas. O nosso foi, literalmente, inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Eram v\u00e1rios homens e mulheres com roupas mais ou menos t\u00edpicas de ciganos, todos sentados em semic\u00edrculo. De vez em quando, alguns deles vinham ao centro para dan\u00e7ar, \u00e0s vezes em casal, \u00e0s vezes uma mulher sozinha.<\/p>\n<p>O flamenco \u00e9 uma m\u00fasica tensa, a dan\u00e7a com sapateado \u00e9 forte e hipnotizante. As palmas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de instrumento percussivo, e o viol\u00e3o \u00e9 tocado de maneira extremamente virtuosa (eu tinha aulas de viol\u00e3o na \u00e9poca, o que deixou tudo ainda mais intenso), elementos que tornam tudo mais intenso \u2014 e lindo. O estilo tem pilares fundamentais: o <strong>cante<\/strong>, executado pelo cantaor; o <strong>toque<\/strong>, executado pelo tocaor; o <strong>baile<\/strong>, sob responsabilidade do bailaor; e o <strong>comp\u00e1s<\/strong>, o ritmo, que pode ser muito complexo.<\/p>\n<p>No Caf\u00e9 Chinitas, n\u00e3o era servido nada que n\u00e3o fosse a <strong>sangr\u00eda<\/strong>, um coquetel com uma base de vinho. Nunca fui f\u00e3 de bebidas alco\u00f3licas, e com quatorze anos eu mal devia saber o gosto daquilo! Mas a tal da sangr\u00eda era realmente deliciosa. Se o \u00e1lcool me fez gostar ainda mais do espet\u00e1culo, \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto \u2014 mas, como sou f\u00e3 do estilo at\u00e9 hoje e sou abst\u00eamio, imagino que a influ\u00eancia deva ter sido pequena.<\/p>\n<p>Voltei da Europa tentando achar alguma coisa de flamenco para ouvir e s\u00f3 consegui duas faixas de um LP com v\u00e1rias m\u00fasicas espanholas, a maioria de touradas. Mais tarde, descobri que o maior cantaor da hist\u00f3ria \u2014 em uma rara unanimidade no campo art\u00edstico \u2014 se chamava <strong>Camar\u00f3n de La Isla<\/strong>, e o cara era espetacular mesmo, tendo inclusive gravado v\u00e1rios discos com o grande violonista <strong>Paco de Luc\u00eda<\/strong>. Apesar de ele ser relativamente pouco conhecido por aqui, a nossa grande C\u00e1ssia Eller <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=nJRJakR9Ut4&amp;list=RDnJRJakR9Ut4&amp;start_radio=1\">cantava<\/a> algumas m\u00fasicas dele.<\/p>\n<p>Acho que s\u00f3 o <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?tag=country-blues\">blues rural<\/a>, como m\u00fasica antiga e &#8220;de raiz&#8221;, me emociona tanto quanto o flamenco. E hoje amo ver alguns v\u00eddeos, como <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=tyJrhIN38n8&amp;list=RDtyJrhIN38n8&amp;start_radio=1\">este<\/a> com a cantaora <strong>Antonia &#8220;La Negra&#8221;<\/strong> e com Camar\u00f3n de La Isla ao toque (!), que me lembram perfeitamente a maior experi\u00eancia musical da minha vida.<\/p>\n<p>E, claro, tudo isso me faz recordar, com saudade, da minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Quem estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/open.substack.com\/pub\/fabriciomuller\/p\/flamenco?r=2m0pd&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=true\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.<\/p>\n<p>Imagem que acompanha o texto obtida no site <a href=\"https:\/\/dancasceca.fandom.com\/pt-br\/wiki\/Flamenco\">Fandom<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 achei que o melhor show a que assisti na vida foi o de Morrissey, em 2000. Depois mudei de ideia e passei a achar que o de Ariana Grande tinha superado o do cantor ingl\u00eas. Finalmente, tinha chegado \u00e0 conclus\u00e3o de que o melhor show da minha vida foi o do Amenra, pouco antes do lockdown da pandemia em 2020. Mas, pensando bem, a maior experi\u00eancia musical que j\u00e1 tive foi em uma noite de flamenco em Madri, em 1982. T\u00ednhamos ido, s\u00f3 eu e minha m\u00e3e, para um m\u00eas de excurs\u00e3o de \u00f4nibus pela Europa com outros brasileiros e um guia portugu\u00eas, e passamos por quase uma dezena de pa\u00edses. Em Madri, minha m\u00e3e resolveu que n\u00e3o \u00e9ramos turistas como os outros e, para provar isso, deixamos de assistir ao show de flamenco que o restante da excurs\u00e3o iria. Ela perguntou a um motorista de t\u00e1xi que t\u00ednhamos tomado durante a tarde qual era um lugar com shows de flamenco &#8220;de verdad&#8221; \u2014 ou alguma outra express\u00e3o em portunhol que ela inventou na hora. O taxista escreveu num papelzinho: &#8220;Caf\u00e9 Chinitas&#8221;. Era l\u00e1 que assistir\u00edamos, \u00e0 noite, a um verdadeiro show de flamenco, e n\u00e3o \u00e0quela bobagem dilu\u00edda a que os demais participantes da excurs\u00e3o iriam! Sei l\u00e1 como foi o show dos outros turistas. O nosso foi, literalmente, inesquec\u00edvel. Eram v\u00e1rios homens e mulheres com roupas mais ou menos t\u00edpicas de ciganos, todos sentados em semic\u00edrculo. De vez em quando, alguns deles vinham ao centro para dan\u00e7ar, \u00e0s vezes em casal, \u00e0s vezes uma mulher sozinha. O flamenco \u00e9 uma m\u00fasica tensa, a dan\u00e7a com sapateado \u00e9 forte e hipnotizante. As palmas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de instrumento percussivo, e o viol\u00e3o \u00e9 tocado de maneira extremamente virtuosa (eu tinha aulas de viol\u00e3o na \u00e9poca, o que deixou tudo ainda mais intenso), elementos que tornam tudo mais intenso \u2014 e lindo. O estilo tem pilares fundamentais: o cante, executado pelo cantaor; o toque, executado pelo tocaor; o baile, sob responsabilidade do bailaor; e o comp\u00e1s, o ritmo, que pode ser muito complexo. No Caf\u00e9 Chinitas, n\u00e3o era servido nada que n\u00e3o fosse a sangr\u00eda, um coquetel com uma base de vinho. Nunca fui f\u00e3 de bebidas alco\u00f3licas, e com quatorze anos eu mal devia saber o gosto daquilo! Mas a tal da sangr\u00eda era realmente deliciosa. Se o \u00e1lcool me fez gostar ainda mais do espet\u00e1culo, \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto \u2014 mas, como sou f\u00e3 do estilo at\u00e9 hoje e sou abst\u00eamio, imagino que a influ\u00eancia deva ter sido pequena. Voltei da Europa tentando achar alguma coisa de flamenco para ouvir e s\u00f3 consegui duas faixas de um LP com v\u00e1rias m\u00fasicas espanholas, a maioria de touradas. Mais tarde, descobri que o maior cantaor da hist\u00f3ria \u2014 em uma rara unanimidade no campo art\u00edstico \u2014 se chamava Camar\u00f3n de La Isla, e o cara era espetacular mesmo, tendo inclusive gravado v\u00e1rios discos com o grande violonista Paco de Luc\u00eda. Apesar de ele ser relativamente pouco conhecido por aqui, a nossa grande C\u00e1ssia Eller cantava algumas m\u00fasicas dele. Acho que s\u00f3 o blues rural, como m\u00fasica antiga e &#8220;de raiz&#8221;, me emociona tanto quanto o flamenco. E hoje amo ver alguns v\u00eddeos, como este com a cantaora Antonia &#8220;La Negra&#8221; e com Camar\u00f3n de La Isla ao toque (!), que me lembram perfeitamente a maior experi\u00eancia musical da minha vida. E, claro, tudo isso me faz recordar, com saudade, da minha m\u00e3e. *** Quem estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto obtida no site Fandom.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":5943,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[561],"tags":[658,409,997,996,999,81,998],"class_list":["post-5941","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-shows-espetaculos","tag-amenra","tag-ariana-grande","tag-camaron-de-la-isla","tag-cassia-eller","tag-flamenco","tag-morrissey","tag-paco-de-lucia","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5941","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5941"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5941\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5944,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5941\/revisions\/5944"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5943"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5941"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5941"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5941"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}