{"id":5866,"date":"2025-06-15T14:38:49","date_gmt":"2025-06-15T17:38:49","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5866"},"modified":"2025-06-15T14:44:01","modified_gmt":"2025-06-15T17:44:01","slug":"livros-que-minha-mae-amava-9-pastoral-americana-de-philip-roth","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5866","title":{"rendered":"Livros que minha m\u00e3e amava: 9. \u201cPastoral Americana\u201d, de Philip Roth"},"content":{"rendered":"<p>No final dos anos 1990, minha m\u00e3e comentou que seus dois escritores preferidos, Philip Roth e John Updike, haviam escrito esp\u00e9cies de \u00e9picos sobre a vida americana: <strong>\u201cPastoral Americana\u201d<\/strong> (Planeta DeAgostini, 480 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de Rubens Figueiredo) e <strong>\u201cNa Beleza dos L\u00edrios\u201d<\/strong>, respectivamente. J\u00e1 na \u00e9poca, era impressionante como dois grandes nomes da literatura publicaram obras t\u00e3o ambiciosas no mesmo ano, 1997.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e gostou mais de <strong>\u201cPastoral Americana\u201d<\/strong>, de Philip Roth; eu, de <strong>\u201cNa Beleza dos L\u00edrios\u201d<\/strong>. Para mim, o livro de John Updike era mais suave, otimista, e trazia um espa\u00e7o para a f\u00e9 em Deus \u2013 eu estava me convertendo, aos poucos, na \u00e9poca. J\u00e1 a obra de Philip Roth era grosseira, pessimista, amarga. Eu n\u00e3o gostava do autor naquele tempo, e minha m\u00e3e sempre insistia para que eu lesse os livros dele. Eu reconhecia que eram t\u00e3o bem escritos que acabava por l\u00ea-los rapidamente, mas achava os temas muito grosseiros (hoje, at\u00e9 acho meio engra\u00e7ado comentar sobre isso, mas \u00e9 quase certo que ele n\u00e3o recebeu o Pr\u00eamio Nobel por sua crueza excessiva).<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, virei f\u00e3 incondicional de Philip Roth e resolvi reler recentemente <strong>\u201cPastoral Americana\u201d<\/strong> numa edi\u00e7\u00e3o que minha m\u00e3e comprou bem depois de n\u00f3s dois termos lido as duas obras-primas lan\u00e7adas originalmente em 1997.<\/p>\n<p>Que choque! O livro conta a hist\u00f3ria de <strong>Seymour &#8220;Sueco&#8221; Levov<\/strong>, um homem que personifica o &#8220;sonho americano&#8221; em sua vers\u00e3o mais idealizada \u2013 atleta de sucesso, empres\u00e1rio e pai de fam\u00edlia. No entanto, sua vida \u00e9 violentamente desestabilizada quando sua filha se radicaliza politicamente durante a Guerra do Vietn\u00e3 e comete um ato terrorista. Judeu, o &#8220;Sueco&#8221; tenta se adaptar a tudo e a todos: \u00e0 vida americana e a seus costumes, a seu pai dominador e inflex\u00edvel, \u00e0 sua filha perturbada e agressiva, e \u00e0 sua mulher linda (ex-miss Newark), cat\u00f3lica e de comportamento dissimulado. Ele parece, no in\u00edcio do livro, um sujeito alienado e feliz. Quanta ilus\u00e3o!<\/p>\n<p>Com quase 500 p\u00e1ginas, o livro \u00e9 um profundo mergulho nos Estados Unidos dos anos 1950 em diante. Um aspecto importante da obra \u00e9 a <strong>desindustrializa\u00e7\u00e3o<\/strong>, que come\u00e7ou a se acentuar no final dos anos 1960. As f\u00e1bricas come\u00e7avam a fechar ou a se mudar para outros lugares em busca de m\u00e3o de obra mais barata e menos regulamentada. Isso levou ao decl\u00ednio das cidades industriais como <strong>Newark<\/strong> (em Nova Jersey), \u00e0 perda de empregos e \u00e0 eros\u00e3o do senso de comunidade e prop\u00f3sito para muitos trabalhadores.<\/p>\n<p>A desindustrializa\u00e7\u00e3o, para Roth, n\u00e3o \u00e9 apenas um fen\u00f4meno econ\u00f4mico, mas um processo que desmantela a estrutura social e moral de uma na\u00e7\u00e3o. A perda da base industrial, que sustentava uma certa ordem e um conjunto de valores, abriu espa\u00e7o para as ambiguidades e a &#8220;f\u00faria&#8221; de passeatas e protestos que levaram \u00e0 desilus\u00e3o geral do &#8220;sonho americano&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 fato conhecido que Donald Trump se elegeu em 2016 \u00a0e em 2024 com os votos dos estados do chamado <strong>&#8220;Cintur\u00e3o da Ferrugem&#8221; (Rust Belt)<\/strong> \u2013 como Pensilv\u00e2nia, Ohio, Michigan, Wisconsin e partes de Nova York e Illinois \u2013 onde uma enorme quantidade de trabalhadores sofreu os terr\u00edveis efeitos da desindustrializa\u00e7\u00e3o americana. Nos trechos em que Philip Roth descrevia com a crueza e o detalhismo de sempre os efeitos da fuga de empregos industriais na cidade de Newark, no estado de Nova Jersey, eu s\u00f3 conseguia pensar comigo: <strong>a elei\u00e7\u00e3o de Trump come\u00e7ou aqui!<\/strong><\/p>\n<p>Pretendo reler <strong>\u201cNa Beleza dos L\u00edrios\u201d<\/strong>, mas, mesmo antes de rel\u00ea-lo, posso afirmar sem nenhuma d\u00favida de que minha m\u00e3e estava certa e que <strong>\u201cPastoral Americana\u201d<\/strong> \u00e9 o melhor dos dois grandes romances.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Foto que acompanha o texto obtida no site da revista <a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/2017\/11\/13\/philip-roth-patriot\">New Yorker<\/a>.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Se voc\u00ea estiver interessado em ler este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/open.substack.com\/pub\/fabriciomuller\/p\/pastoral-americana-de-philip-roth?r=2m0pd&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=true\">aqui<\/a> e cadastre seu email.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final dos anos 1990, minha m\u00e3e comentou que seus dois escritores preferidos, Philip Roth e John Updike, haviam escrito esp\u00e9cies de \u00e9picos sobre a vida americana: \u201cPastoral Americana\u201d (Planeta DeAgostini, 480 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de Rubens Figueiredo) e \u201cNa Beleza dos L\u00edrios\u201d, respectivamente. J\u00e1 na \u00e9poca, era impressionante como dois grandes nomes da literatura publicaram obras t\u00e3o ambiciosas no mesmo ano, 1997. Minha m\u00e3e gostou mais de \u201cPastoral Americana\u201d, de Philip Roth; eu, de \u201cNa Beleza dos L\u00edrios\u201d. Para mim, o livro de John Updike era mais suave, otimista, e trazia um espa\u00e7o para a f\u00e9 em Deus \u2013 eu estava me convertendo, aos poucos, na \u00e9poca. J\u00e1 a obra de Philip Roth era grosseira, pessimista, amarga. Eu n\u00e3o gostava do autor naquele tempo, e minha m\u00e3e sempre insistia para que eu lesse os livros dele. Eu reconhecia que eram t\u00e3o bem escritos que acabava por l\u00ea-los rapidamente, mas achava os temas muito grosseiros (hoje, at\u00e9 acho meio engra\u00e7ado comentar sobre isso, mas \u00e9 quase certo que ele n\u00e3o recebeu o Pr\u00eamio Nobel por sua crueza excessiva). De l\u00e1 para c\u00e1, virei f\u00e3 incondicional de Philip Roth e resolvi reler recentemente \u201cPastoral Americana\u201d numa edi\u00e7\u00e3o que minha m\u00e3e comprou bem depois de n\u00f3s dois termos lido as duas obras-primas lan\u00e7adas originalmente em 1997. Que choque! O livro conta a hist\u00f3ria de Seymour &#8220;Sueco&#8221; Levov, um homem que personifica o &#8220;sonho americano&#8221; em sua vers\u00e3o mais idealizada \u2013 atleta de sucesso, empres\u00e1rio e pai de fam\u00edlia. No entanto, sua vida \u00e9 violentamente desestabilizada quando sua filha se radicaliza politicamente durante a Guerra do Vietn\u00e3 e comete um ato terrorista. Judeu, o &#8220;Sueco&#8221; tenta se adaptar a tudo e a todos: \u00e0 vida americana e a seus costumes, a seu pai dominador e inflex\u00edvel, \u00e0 sua filha perturbada e agressiva, e \u00e0 sua mulher linda (ex-miss Newark), cat\u00f3lica e de comportamento dissimulado. Ele parece, no in\u00edcio do livro, um sujeito alienado e feliz. Quanta ilus\u00e3o! Com quase 500 p\u00e1ginas, o livro \u00e9 um profundo mergulho nos Estados Unidos dos anos 1950 em diante. Um aspecto importante da obra \u00e9 a desindustrializa\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou a se acentuar no final dos anos 1960. As f\u00e1bricas come\u00e7avam a fechar ou a se mudar para outros lugares em busca de m\u00e3o de obra mais barata e menos regulamentada. Isso levou ao decl\u00ednio das cidades industriais como Newark (em Nova Jersey), \u00e0 perda de empregos e \u00e0 eros\u00e3o do senso de comunidade e prop\u00f3sito para muitos trabalhadores. A desindustrializa\u00e7\u00e3o, para Roth, n\u00e3o \u00e9 apenas um fen\u00f4meno econ\u00f4mico, mas um processo que desmantela a estrutura social e moral de uma na\u00e7\u00e3o. A perda da base industrial, que sustentava uma certa ordem e um conjunto de valores, abriu espa\u00e7o para as ambiguidades e a &#8220;f\u00faria&#8221; de passeatas e protestos que levaram \u00e0 desilus\u00e3o geral do &#8220;sonho americano&#8221;. \u00c9 fato conhecido que Donald Trump se elegeu em 2016 \u00a0e em 2024 com os votos dos estados do chamado &#8220;Cintur\u00e3o da Ferrugem&#8221; (Rust Belt) \u2013 como Pensilv\u00e2nia, Ohio, Michigan, Wisconsin e partes de Nova York e Illinois \u2013 onde uma enorme quantidade de trabalhadores sofreu os terr\u00edveis efeitos da desindustrializa\u00e7\u00e3o americana. Nos trechos em que Philip Roth descrevia com a crueza e o detalhismo de sempre os efeitos da fuga de empregos industriais na cidade de Newark, no estado de Nova Jersey, eu s\u00f3 conseguia pensar comigo: a elei\u00e7\u00e3o de Trump come\u00e7ou aqui! Pretendo reler \u201cNa Beleza dos L\u00edrios\u201d, mas, mesmo antes de rel\u00ea-lo, posso afirmar sem nenhuma d\u00favida de que minha m\u00e3e estava certa e que \u201cPastoral Americana\u201d \u00e9 o melhor dos dois grandes romances. *** Foto que acompanha o texto obtida no site da revista New Yorker. *** Se voc\u00ea estiver interessado em ler este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu email.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":5868,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[856,972,851,807,131],"class_list":["post-5866","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-john-updike","tag-literatura-americana","tag-livros-que-minha-mae-amava","tag-nedier","tag-philip-roth","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5866","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5866"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5866\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5869,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5866\/revisions\/5869"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5868"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5866"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5866"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5866"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}