{"id":5857,"date":"2025-06-08T14:47:22","date_gmt":"2025-06-08T17:47:22","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5857"},"modified":"2025-06-08T14:52:12","modified_gmt":"2025-06-08T17:52:12","slug":"juliana-frank-e-3040-como-a-grande-escritora-ajudou-no-meu-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5857","title":{"rendered":"Juliana Frank e 3040 &#8211; como a grande escritora ajudou no meu livro"},"content":{"rendered":"<p>Juliana Frank \u00e9 uma escritora excepcional. Em livros como &#8220;Quenga de Pl\u00e1stico&#8221; (7Letras, 2011), &#8220;Meu Cora\u00e7\u00e3o de Pedra-Pomes&#8221; (Companhia das Letras, 2013), &#8220;Cabe\u00e7a de Pimpinela&#8221; (7Letras, 2013) e &#8220;U\u00edsque e Vergonha&#8221; (Oito e Meio, 2016), ela constr\u00f3i uma literatura estranha, provocativa, original e fascinante. Suas personagens s\u00e3o peculiares e obcecadas por objetos como bolsas e bonecas Barbie. Leylsa Kedman, de &#8220;Quenga de Pl\u00e1stico&#8221;, por exemplo, \u00e9 obcecada por sexo, enriquece e empobrece algumas vezes, atua em diversos filmes porn\u00f4, \u00e9 estuprada e se apaixona pelo estuprador, mata dois homens, e tem uma melhor amiga que \u00e9 an\u00e3 e viciada em coca\u00edna.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Juliana Frank, por vezes, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/C7bZ3CoOOB6CAjF11tBMPGAyzpd_DAAdcYj6T40\/\">compartilha lindas frases ou haicais em suas redes sociais<\/a>, como:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Pelas ruas falam uma l\u00edngua<\/p>\n<p>Que j\u00e1 n\u00e3o<\/p>\n<p>Me lembro<\/p>\n<p>Mais&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Este, por exemplo, abre um vasto horizonte po\u00e9tico de significados: pode remeter \u00e0 sa\u00edda de uma vida de boemia, a um desajuste mais profundo, ou a muitas outras interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>At\u00e9 &#8220;3040&#8221;, todos os meus textos de fic\u00e7\u00e3o ou literatura eram contos, mem\u00f3rias ou novelas, e nenhum ultrapassava as sessenta p\u00e1ginas em formato A4.<\/p>\n<p>Decidi, em determinado momento, escrever um romance muito longo, mais como um desafio do que qualquer outra coisa. A partir de um sonho da minha filha, imaginei a humanidade em um futuro distante vivendo em pequenos cub\u00edculos, isolados, longe da natureza \u2013 e isso antes mesmo da pandemia.<\/p>\n<p>O livro se chamava &#8220;5040&#8221;, um pouco em homenagem ao meu sogro, que brincava que tinha um dinheiro enorme guardado no banco que s\u00f3 seria liberado em 2040.<\/p>\n<p>Consegui que a Juliana Frank me ajudasse na empreitada. Ela sugeriu que o livro deveria estar mais pr\u00f3ximo no tempo e que eu deveria abordar a transi\u00e7\u00e3o dos dias de hoje para o futuro. Tudo o que ela me ensinou na elabora\u00e7\u00e3o do livro foi precioso.<\/p>\n<p>O pref\u00e1cio de &#8220;3040&#8221;, livro dedicado \u00e0 Juliana Frank, segue abaixo.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<blockquote><p><em>Conversamos. Voc\u00ea me perguntou se eu deveria reler &#8220;O Jogo da Amarelinha&#8221;, j\u00e1 que n\u00e3o me lembrava de nada e nem tinha entendido direito na primeira leitura. Confesso que, mesmo agora, no in\u00edcio da releitura, ainda n\u00e3o estou entendendo tudo \u2013 preciso deixar isso bem claro. Minha resposta foi que esperei tanto pelo sexto volume de &#8220;Minha Luta&#8221; que me pareceu meio triste ter que adiar a leitura, agora que preciso reler &#8220;O Jogo da Amarelinha&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>Conversamos sobre Deus, sobre minhas ideias sobre Ele. Tamb\u00e9m falamos sobre pol\u00edtica e economia, eu \u00e0 direita, voc\u00ea \u00e0 esquerda, mas nenhum de n\u00f3s t\u00e3o longe do centro assim.<\/em><\/p>\n<p><em>Houve um tempo em que eu me espantava com a quantidade de coisas: coisas vividas, coisas faladas, coisas escritas. \u00c9 angustiante pensar que h\u00e1 muito mais livros escritos do que uma pessoa consegue ler na vida. Eu andava em livrarias e ficava triste porque jamais leria tudo aquilo, nem que quisesse, nem que fosse a \u00fanica coisa que fizesse at\u00e9 o final da vida. Wilson Martins lia muito, e lia deitado: se dormisse, era sinal de que o livro era ruim. Ele disse uma vez que o Novo Testamento \u00e9 o Paulo Coelho do passado e, digamos, essa \u00e9 uma opini\u00e3o pouco popular \u2013 apesar de, em termos estil\u00edsticos, ter sim alguma coisa a ver. Lembro do choque quando li &#8220;Sidarta&#8221;, de Hermann Hesse, e me pareceu igual a Paulo Coelho \u2013 que, com raz\u00e3o, se queixa de n\u00e3o ter ganhado o Nobel, ao contr\u00e1rio do alem\u00e3o que, aparentemente, o inspirou.<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 imaginaram a quantidade de cantinhos que existem no mar? Mais cantinhos do que podemos sequer conceber. Uma pedrinha aqui, outra ali, um peixe aqui e outro ali. E Deus sabe todos os cantinhos. E leu todos os livros. E ouviu todas as conversas. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa, digo a voc\u00ea, que haja tantas pessoas que n\u00e3o acreditam Nele.<\/em><\/p>\n<p><em>Conto a voc\u00ea que estou gostando de reler &#8220;O Jogo da Amarelinha&#8221;, percebendo nele coisas que eu n\u00e3o tinha notado antes \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 porque eu tinha lido o livro muito novinho. H\u00e1 todo um mist\u00e9rio ali, pronto para ser desvendado, que eu nem fazia ideia de que existia.<\/em><\/p>\n<p><em>Falo a voc\u00ea que alguns autores deixam transparecer facilmente seu amor-pr\u00f3prio em seus livros \u2013 refiro-me a Nabokov, Balzac e Henry James, que sempre parecem satisfeitos com a pr\u00f3pria genialidade, e que convencem seus leitores (eu inclu\u00eddo) de que eles s\u00e3o especiais.<\/em><\/p>\n<p><em>Eu n\u00e3o sou desses. Sem voc\u00ea, eu teria parado de escrever.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>***<\/p>\n<p>Se voc\u00ea tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.substack.com\/p\/juliana-frank-e-3040\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juliana Frank \u00e9 uma escritora excepcional. Em livros como &#8220;Quenga de Pl\u00e1stico&#8221; (7Letras, 2011), &#8220;Meu Cora\u00e7\u00e3o de Pedra-Pomes&#8221; (Companhia das Letras, 2013), &#8220;Cabe\u00e7a de Pimpinela&#8221; (7Letras, 2013) e &#8220;U\u00edsque e Vergonha&#8221; (Oito e Meio, 2016), ela constr\u00f3i uma literatura estranha, provocativa, original e fascinante. Suas personagens s\u00e3o peculiares e obcecadas por objetos como bolsas e bonecas Barbie. Leylsa Kedman, de &#8220;Quenga de Pl\u00e1stico&#8221;, por exemplo, \u00e9 obcecada por sexo, enriquece e empobrece algumas vezes, atua em diversos filmes porn\u00f4, \u00e9 estuprada e se apaixona pelo estuprador, mata dois homens, e tem uma melhor amiga que \u00e9 an\u00e3 e viciada em coca\u00edna. *** Juliana Frank, por vezes, compartilha lindas frases ou haicais em suas redes sociais, como: &#8220;Pelas ruas falam uma l\u00edngua Que j\u00e1 n\u00e3o Me lembro Mais&#8221; Este, por exemplo, abre um vasto horizonte po\u00e9tico de significados: pode remeter \u00e0 sa\u00edda de uma vida de boemia, a um desajuste mais profundo, ou a muitas outras interpreta\u00e7\u00f5es. *** At\u00e9 &#8220;3040&#8221;, todos os meus textos de fic\u00e7\u00e3o ou literatura eram contos, mem\u00f3rias ou novelas, e nenhum ultrapassava as sessenta p\u00e1ginas em formato A4. Decidi, em determinado momento, escrever um romance muito longo, mais como um desafio do que qualquer outra coisa. A partir de um sonho da minha filha, imaginei a humanidade em um futuro distante vivendo em pequenos cub\u00edculos, isolados, longe da natureza \u2013 e isso antes mesmo da pandemia. O livro se chamava &#8220;5040&#8221;, um pouco em homenagem ao meu sogro, que brincava que tinha um dinheiro enorme guardado no banco que s\u00f3 seria liberado em 2040. Consegui que a Juliana Frank me ajudasse na empreitada. Ela sugeriu que o livro deveria estar mais pr\u00f3ximo no tempo e que eu deveria abordar a transi\u00e7\u00e3o dos dias de hoje para o futuro. Tudo o que ela me ensinou na elabora\u00e7\u00e3o do livro foi precioso. O pref\u00e1cio de &#8220;3040&#8221;, livro dedicado \u00e0 Juliana Frank, segue abaixo. *** Conversamos. Voc\u00ea me perguntou se eu deveria reler &#8220;O Jogo da Amarelinha&#8221;, j\u00e1 que n\u00e3o me lembrava de nada e nem tinha entendido direito na primeira leitura. Confesso que, mesmo agora, no in\u00edcio da releitura, ainda n\u00e3o estou entendendo tudo \u2013 preciso deixar isso bem claro. Minha resposta foi que esperei tanto pelo sexto volume de &#8220;Minha Luta&#8221; que me pareceu meio triste ter que adiar a leitura, agora que preciso reler &#8220;O Jogo da Amarelinha&#8221;. Conversamos sobre Deus, sobre minhas ideias sobre Ele. Tamb\u00e9m falamos sobre pol\u00edtica e economia, eu \u00e0 direita, voc\u00ea \u00e0 esquerda, mas nenhum de n\u00f3s t\u00e3o longe do centro assim. Houve um tempo em que eu me espantava com a quantidade de coisas: coisas vividas, coisas faladas, coisas escritas. \u00c9 angustiante pensar que h\u00e1 muito mais livros escritos do que uma pessoa consegue ler na vida. Eu andava em livrarias e ficava triste porque jamais leria tudo aquilo, nem que quisesse, nem que fosse a \u00fanica coisa que fizesse at\u00e9 o final da vida. Wilson Martins lia muito, e lia deitado: se dormisse, era sinal de que o livro era ruim. Ele disse uma vez que o Novo Testamento \u00e9 o Paulo Coelho do passado e, digamos, essa \u00e9 uma opini\u00e3o pouco popular \u2013 apesar de, em termos estil\u00edsticos, ter sim alguma coisa a ver. Lembro do choque quando li &#8220;Sidarta&#8221;, de Hermann Hesse, e me pareceu igual a Paulo Coelho \u2013 que, com raz\u00e3o, se queixa de n\u00e3o ter ganhado o Nobel, ao contr\u00e1rio do alem\u00e3o que, aparentemente, o inspirou. J\u00e1 imaginaram a quantidade de cantinhos que existem no mar? Mais cantinhos do que podemos sequer conceber. Uma pedrinha aqui, outra ali, um peixe aqui e outro ali. E Deus sabe todos os cantinhos. E leu todos os livros. E ouviu todas as conversas. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa, digo a voc\u00ea, que haja tantas pessoas que n\u00e3o acreditam Nele. Conto a voc\u00ea que estou gostando de reler &#8220;O Jogo da Amarelinha&#8221;, percebendo nele coisas que eu n\u00e3o tinha notado antes \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 porque eu tinha lido o livro muito novinho. H\u00e1 todo um mist\u00e9rio ali, pronto para ser desvendado, que eu nem fazia ideia de que existia. Falo a voc\u00ea que alguns autores deixam transparecer facilmente seu amor-pr\u00f3prio em seus livros \u2013 refiro-me a Nabokov, Balzac e Henry James, que sempre parecem satisfeitos com a pr\u00f3pria genialidade, e que convencem seus leitores (eu inclu\u00eddo) de que eles s\u00e3o especiais. Eu n\u00e3o sou desses. Sem voc\u00ea, eu teria parado de escrever. *** Se voc\u00ea tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":5859,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[558],"tags":[947,566],"class_list":["post-5857","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-obra-literaria","tag-947","tag-juliana-frank","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5857","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5857"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5857\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5864,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5857\/revisions\/5864"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5859"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5857"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5857"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5857"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}