{"id":5826,"date":"2025-05-04T13:33:37","date_gmt":"2025-05-04T16:33:37","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5826"},"modified":"2025-05-04T13:33:37","modified_gmt":"2025-05-04T16:33:37","slug":"helena-morley-e-george-orwell-dois-livros-de-memorias-muito-diferentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5826","title":{"rendered":"Helena Morley e George Orwell &#8211; Dois livros de mem\u00f3rias muito diferentes"},"content":{"rendered":"<p>Helena Morley era uma menina de treze anos, vivendo em Diamantina (MG) e que, estimulada pelo pai, come\u00e7ou a escrever seu di\u00e1rio em 1893. Em 1962 ele foi publicado com o nome de \u201cMinha vida de menina\u201d (Companhia de Bolso, 325 p\u00e1ginas).<\/p>\n<p>O ingl\u00eas George Orwell, o grande escritor de \u201c1984\u201d e \u201cA revolu\u00e7\u00e3o dos bichos\u201d, viveu como subempregado e at\u00e9 como mendigo (n\u00e3o est\u00e1 muito claro para mim se por alguma experi\u00eancia liter\u00e1ria ou por pura necessidade) e contou suas experi\u00eancias em \u201cNa pior em Paris e em Londres\u201d (TriCaju, 224 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de D\u00e9bora Isidoro, publicado originalmente em 1933).<\/p>\n<p>Dois livros de mem\u00f3rias escritos com cerca de trinta anos de diferen\u00e7a, mas quanta diferen\u00e7a! \u201cMinha vida de menina\u201d \u00e9 doce, alegre, engra\u00e7ado, e \u201cNa pior em Paris e Londres\u201d \u00e9 chocante e pesado, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Em 1893, quando come\u00e7a o di\u00e1rio de Helena Morley, a escravid\u00e3o tinha sido abolida no Brasil apenas quatro anos antes, e a Rep\u00fablica, proclamada h\u00e1 tr\u00eas. Vivendo em Diamantina, a menina descreve uma vida muito pr\u00f3xima daquela do Imp\u00e9rio: \u00e9 fascinante, para o leitor de hoje, saber detalhes de como os moradores iam de um lugar para outro, o que comiam, quais eram as suas divers\u00f5es, como era intensa a sua vida social. Filha de um ingl\u00eas com uma brasileira, \u00e9 evidente para o leitor que Helena Morley n\u00e3o tinha racismo nenhum, j\u00e1 que tratava os negros como tratava os brancos; por outro lado, nota-se facilmente a condescend\u00eancia com que os negros eram tratados pelos brancos, e como o ex-escravizados, frequentemente sem condi\u00e7\u00f5es de vida melhor, continuavam morando nas propriedades dos antigos donos para os quais trabalhavam.<\/p>\n<p>Mas \u201cMinha vida de menina\u201d \u00e9 mais do que um importante documento hist\u00f3rico: os coment\u00e1rios da adolescente s\u00e3o divertidos, v\u00edvidos, e as considera\u00e7\u00f5es sobre as muitas pessoas com as quais convivia s\u00e3o sempre agudos e inteligentes. N\u00e3o \u00e0 toa, grandes escritores como\u00a0<a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?tag=georges-bernanos\" rel=\"nofollow ugc noopener\">George Bernanos<\/a>, Carlos Drummond de Andrade, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa e Elisabeth Bishop (que chegou a traduzir o livro para o ingl\u00eas) eram f\u00e3s do livro.<\/p>\n<p>George Orwell trabalhou como assistente de cozinha em Paris, e descreve com grande detalhe como era intenso e desumano o ritmo de trabalho, e como o sal\u00e1rio mal dava para viver. Ele tem uma proposta de um amigo para trabalhar em Londres, mas, quando chega l\u00e1, descobre que a vaga seria aberta apenas alguns meses depois de sua chegada. Logo em seguida ele \u00e9 assaltado, fica sem reserva financeira nenhuma e vive como mendigo: conhece albergues e restaurantes para desabrigados (em alguns dos quais ele deve, para seu grande desgosto, rezar na capela para receber o alimento) e tem que \u2013 junto com outros mendigos \u2013 se deslocar incessantemente pela cidade para n\u00e3o ser preso por vadiagem. \u00c9 chocante sua descri\u00e7\u00e3o do que sentia quando estava com fome e n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de conseguir comida.<\/p>\n<p>Sou f\u00e3 de George Orwell. N\u00e3o s\u00f3 \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos\u201d e \u201c1984\u201d s\u00e3o obras-primas fascinantes, mas seus ensaios liter\u00e1rios s\u00e3o sempre brilhantes, com estilo preciso e l\u00edmpido (j\u00e1 comentei\u00a0<a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?tag=george-orwell\" rel=\"nofollow ugc noopener\">aqui<\/a>\u00a0sobre alguns livros do autor). Impressionante e perturbador, \u201cNa pior em Paris e Londres\u201d s\u00f3 me fez aumentar a admira\u00e7\u00e3o que tenho pelo autor.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Quem estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique <a href=\"https:\/\/substack.com\/inbox\/post\/161256975?r=2m0pd&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=true&amp;triedRedirect=true\">aqui<\/a> e cadastre seu e-mail.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helena Morley era uma menina de treze anos, vivendo em Diamantina (MG) e que, estimulada pelo pai, come\u00e7ou a escrever seu di\u00e1rio em 1893. Em 1962 ele foi publicado com o nome de \u201cMinha vida de menina\u201d (Companhia de Bolso, 325 p\u00e1ginas). O ingl\u00eas George Orwell, o grande escritor de \u201c1984\u201d e \u201cA revolu\u00e7\u00e3o dos bichos\u201d, viveu como subempregado e at\u00e9 como mendigo (n\u00e3o est\u00e1 muito claro para mim se por alguma experi\u00eancia liter\u00e1ria ou por pura necessidade) e contou suas experi\u00eancias em \u201cNa pior em Paris e em Londres\u201d (TriCaju, 224 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de D\u00e9bora Isidoro, publicado originalmente em 1933). Dois livros de mem\u00f3rias escritos com cerca de trinta anos de diferen\u00e7a, mas quanta diferen\u00e7a! \u201cMinha vida de menina\u201d \u00e9 doce, alegre, engra\u00e7ado, e \u201cNa pior em Paris e Londres\u201d \u00e9 chocante e pesado, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo. Em 1893, quando come\u00e7a o di\u00e1rio de Helena Morley, a escravid\u00e3o tinha sido abolida no Brasil apenas quatro anos antes, e a Rep\u00fablica, proclamada h\u00e1 tr\u00eas. Vivendo em Diamantina, a menina descreve uma vida muito pr\u00f3xima daquela do Imp\u00e9rio: \u00e9 fascinante, para o leitor de hoje, saber detalhes de como os moradores iam de um lugar para outro, o que comiam, quais eram as suas divers\u00f5es, como era intensa a sua vida social. Filha de um ingl\u00eas com uma brasileira, \u00e9 evidente para o leitor que Helena Morley n\u00e3o tinha racismo nenhum, j\u00e1 que tratava os negros como tratava os brancos; por outro lado, nota-se facilmente a condescend\u00eancia com que os negros eram tratados pelos brancos, e como o ex-escravizados, frequentemente sem condi\u00e7\u00f5es de vida melhor, continuavam morando nas propriedades dos antigos donos para os quais trabalhavam. Mas \u201cMinha vida de menina\u201d \u00e9 mais do que um importante documento hist\u00f3rico: os coment\u00e1rios da adolescente s\u00e3o divertidos, v\u00edvidos, e as considera\u00e7\u00f5es sobre as muitas pessoas com as quais convivia s\u00e3o sempre agudos e inteligentes. N\u00e3o \u00e0 toa, grandes escritores como\u00a0George Bernanos, Carlos Drummond de Andrade, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa e Elisabeth Bishop (que chegou a traduzir o livro para o ingl\u00eas) eram f\u00e3s do livro. George Orwell trabalhou como assistente de cozinha em Paris, e descreve com grande detalhe como era intenso e desumano o ritmo de trabalho, e como o sal\u00e1rio mal dava para viver. Ele tem uma proposta de um amigo para trabalhar em Londres, mas, quando chega l\u00e1, descobre que a vaga seria aberta apenas alguns meses depois de sua chegada. Logo em seguida ele \u00e9 assaltado, fica sem reserva financeira nenhuma e vive como mendigo: conhece albergues e restaurantes para desabrigados (em alguns dos quais ele deve, para seu grande desgosto, rezar na capela para receber o alimento) e tem que \u2013 junto com outros mendigos \u2013 se deslocar incessantemente pela cidade para n\u00e3o ser preso por vadiagem. \u00c9 chocante sua descri\u00e7\u00e3o do que sentia quando estava com fome e n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de conseguir comida. Sou f\u00e3 de George Orwell. N\u00e3o s\u00f3 \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos\u201d e \u201c1984\u201d s\u00e3o obras-primas fascinantes, mas seus ensaios liter\u00e1rios s\u00e3o sempre brilhantes, com estilo preciso e l\u00edmpido (j\u00e1 comentei\u00a0aqui\u00a0sobre alguns livros do autor). Impressionante e perturbador, \u201cNa pior em Paris e Londres\u201d s\u00f3 me fez aumentar a admira\u00e7\u00e3o que tenho pelo autor. *** Quem estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":5828,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[827,966],"class_list":["post-5826","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-george-orwell","tag-helena-morley","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5826"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5826\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5830,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5826\/revisions\/5830"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}