{"id":568,"date":"2015-03-27T23:55:25","date_gmt":"2015-03-27T23:55:25","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=568"},"modified":"2015-04-23T01:52:20","modified_gmt":"2015-04-23T01:52:20","slug":"cinco-textos-de-diderot","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=568","title":{"rendered":"Cinco textos de Diderot"},"content":{"rendered":"<p>Situados entre a discuss\u00e3o filos\u00f3fica, o ensaio e o conto, <em>Os dois amigos de Bourbonne<\/em>, <em>Reuni<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o de um pai com seus filhos<\/em>, <em>Sobre a inconsequ\u00eancia da opini<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o p<\/em><em>\u00fa<\/em><em>blica<\/em>, <em>Meu pai e eu<\/em> e <em>Carta a meu irm<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o<\/em> s\u00e3o \u00f3timos textos curtos de Denis Diderot.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Os dois amigos de Bourbonne<\/em> (Les deux amis de Bourbonne) conta a hist\u00f3ria da profunda e bela amizade existente entre Felix e Olivier. O conto \u00e9 uma sucess\u00e3o intensa de desventuras, onde um amigo sucessivamente arrisca tudo, at\u00e9 mesmo a vida, para salvar a vida do outro, numa rela\u00e7\u00e3o de amizade t\u00e3o intensa que acaba ficando lend\u00e1ria. No final, ap\u00f3s o desenrolar tr\u00e1gico de toda a hist\u00f3ria, surpreendentemente Diderot escreve um ensaio falando em tr\u00eas tipos poss\u00edveis de conto: um fant\u00e1stico, \u00e0 maneira de Homero; outro prazeroso, \u00e0 maneira de La Fontaine; e, finalmente, o terceiro tipo, em que o autor quer escrever uma hist\u00f3ria real, que tem por objeto a verdade rigorosa. O autor, neste caso, quer interessar, tocar, emocionar, fazer as lagrimas correrem. Para atingir este objetivo sem cair no exagero e na irrealidade o autor deve colocar na hist\u00f3ria pequenas circunstancias t\u00e3o ligadas \u00e0 coisa, t\u00e3o simples, t\u00e3o naturais e, ao mesmo tempo, t\u00e3o dif\u00edceis de imaginar, que o leitor acaba concluindo: que coisa, isto \u00e9 verdade! Deste modo, o autor satisfar\u00e1 duas condi\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias, ou seja, ser ao mesmo tempo historiador e poeta, verdadeiro e mentiroso. Diderot, obviamente, fez com esta conclus\u00e3o inesperada para dizer que <em>Os dois amigos de Bourbonne<\/em> \u00e9 um conto do terceiro tipo.<\/p>\n<p>Conversa de um pai com os seus filhos \u00e9 um \u00f3timo di\u00e1logo onde os nomes dos personagens s\u00e3o Meu Pai, Eu, Meu Irm\u00e3o, Minha Irm\u00e3, O Frade, etc. (seria esta a descri\u00e7\u00e3o de um di\u00e1logo que aconteceu realmente?). Neste di\u00e1logo, diversas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o apresentadas e debatidas &#8211; onde a lei est\u00e1 quase sempre contra o senso comum. Por exemplo, o Pai conta o caso em que ele ia cuidar do invent\u00e1rio de um homem rico que n\u00e3o deixara sucessores. Como n\u00e3o havia, aparentemente, nenhum testamento, todos os bens deste homem seriam deixados a parentes distantes e muito pobres, que j\u00e1 estavam na casa do falecido, esperando ansiosamente pelo esp\u00f3lio. A crise moral do Pai come\u00e7a quando, quase por acaso e escondido num monte de pap\u00e9is, ele encontra o testamento do tal homem rico &#8211; testamento este que deixava todos os bens para outra pessoa abastada, insens\u00edvel e fria. O que faria o Pai? Fingiria que n\u00e3o tinha encontrado o testamento e passaria o esp\u00f3lio aos pobres? Ou faria a vontade do morto, passando seus bens para a outra pessoa rica? Na d\u00favida, o Pai pergunta a um padre respeit\u00e1vel, que recomenda que tudo se fa\u00e7a conforme a vontade do falecido. E \u00e9 assim que ele faz, no que o autor (o personagem Eu) acha que o pai cometeu um erro, pois a vontade do morto era errada &#8211; al\u00e9m disto, ningu\u00e9m saberia do testamento se o Pai o queimasse imediatamente. Outro caso debatido no di\u00e1logo \u00e9 o do m\u00e9dico que cura um assassino not\u00f3rio &#8211; o autor, neste caso, achava que salvar o criminoso n\u00e3o faria nenhum bem \u00e0 sociedade, no que o m\u00e9dico discorda profundamente. Outro debate ainda \u00e9 o de um marido que cuidou de sua mulher, doente e mais rica que ele, durante dezoito anos. Ap\u00f3s a morte dela, o marido &#8220;rouba&#8221; uma s\u00e9rie de objetos de grande valor da esposa &#8211; os quais passariam a seus parentes consangu\u00edneos, pelas leis da \u00e9poca. Este \u00e9 mais um caso em que o autor acaba sendo favor\u00e1vel, por causa do bom senso, a ir contra a lei. Em outras palavras, para o autor o marido agira corretamente.<\/p>\n<p>Se o tom do texto anterior \u00e9 afetivo, familiar e s\u00e9rio, <em>em Sobre a inconseq<\/em><em>u\u00ea<\/em><em>ncia do julgamento p<\/em><em>\u00fa<\/em><em>blico de nossas a<\/em><em>\u00e7\u00f5<\/em><em>es particulares<\/em> (Sur l&#8217;incons\u00e9quence du jugement publique de nos actions particuli\u00e8res) o tom \u00e9 mais c\u00ednico e debochado. Neste di\u00e1logo duas pessoas contam o porqu\u00ea da m\u00e1-fama do cavaleiro Desroches, que fora casado com uma vi\u00fava extremamente ciumenta, Mme de la Carli\u00e8re. Esta faz aquele jurar fidelidade durante a cerim\u00f4nia de casamento, mas uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica acaba facilitando as coisas para que Desroches a traia. Quando Mme de La Carli\u00e8re descobre a falta do marido, reage, como era de se esperar, da pior maneira poss\u00edvel. Desroches faz de tudo para conseguir seu perd\u00e3o, mas sem sucesso &#8211; a mulher permanece irredut\u00edvel. De nada adiantam todas as suas in\u00fameras tentativas, cartas, humilha\u00e7\u00f5es e pedidos. Mme de La Carli\u00e8re, por seu lado, amargurada, isola-se, empobrece &#8211; e perde a m\u00e3e, o irm\u00e3o mais novo e o filho. Todas estas trag\u00e9dias fazem com que aumente tremendamente a culpa de Desroches, segundo o dizer das outras pessoas. Era como se ele mesmo tivesse matado os familiares dela. Para a opini\u00e3o p\u00fablica ele nem mesmo pedira perd\u00e3o a ele, o que n\u00e3o correspondia em absoluto \u00e0 realidade. O que tinha sido um pequeno deslize passou a ser visto como uma falta de car\u00e1ter gigantesca de Desroches, que tornou-se malvisto e mal falado por boa parte da sociedade &#8211; mas n\u00e3o durante muito tempo, \u00e9 o que a conclus\u00e3o esperan\u00e7osa do di\u00e1logo sugere.<\/p>\n<p><em>Meu pai e eu<\/em>\u00a0(Mon p\u00e8re et moi) \u00e9 contada em primeira pessoa por uma filha, que acha que a riqueza pessoal \u00e9 tudo. Seu pai, mesmo rico, acha que o mais importante \u00e9 a caridade. \u00c9 bastante interessante a teoria desenvolvida por ele para que os ricos distribuam o excesso de suas riquezas aos mais pobres, assim como \u00e9 emocionante o final da hist\u00f3ria, quando um grande n\u00famero de necessitados que a filha desconhecia choram junto ao caix\u00e3o do pai. Ela nem tinha ideia do qu\u00e3o a s\u00e9rio seu pai levara suas pr\u00f3prias ideias a respeito de redistribui\u00e7\u00e3o de riqueza. A partir de ent\u00e3o ela passa a agir da mesma maneira que ele agira durante a vida.<\/p>\n<p><em>Carta a meu irm<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o<\/em> (Lettre \u00e0 mon fr\u00e8re) \u00e9 uma carta real que o pr\u00f3prio Diderot enviara a seu irm\u00e3o, padre que n\u00e3o aceitava em absoluto as ideias iluministas do filosofo descrente. O interessante na carta \u00e9 que Diderot combate o radicalismo de seu irm\u00e3o utilizando mensagens de amor e compreens\u00e3o ditas por santos, ou contidas na pr\u00f3pria B\u00edblia.<\/p>\n<p>O que \u00e9 extremamente importante nestes textos, como em quase todos aqueles escritos por Diderot, \u00e9 a sua verve, a sua expressividade. Apesar de o estilo parecer um tanto ca\u00f3tico \u00e0 primeira vista, a leitura \u00e9 sempre fluida e \u00e1gil &#8211; n\u00e3o \u00e0 toa, todos reconheciam que ele escrevia melhor quando n\u00e3o revisava, pois sua for\u00e7a expressiva era t\u00e3o grande que ele encontrava o tom certo logo de chofre. Os personagens s\u00e3o descritos em tons v\u00edvidos &#8211; em poucas linhas j\u00e1 sentimos familiaridade com eles.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em agosto de 2002)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Situados entre a discuss\u00e3o filos\u00f3fica, o ensaio e o conto, Os dois amigos de Bourbonne, Reuni\u00e3o de um pai com seus filhos, Sobre a inconsequ\u00eancia da opini\u00e3o p\u00fablica, Meu pai e eu e Carta a meu irm\u00e3o s\u00e3o \u00f3timos textos curtos de Denis Diderot.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":569,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[92],"class_list":["post-568","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-diderot","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/568","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=568"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/568\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":571,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/568\/revisions\/571"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/569"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=568"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=568"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=568"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}