{"id":5661,"date":"2025-01-05T19:09:32","date_gmt":"2025-01-05T22:09:32","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5661"},"modified":"2025-01-05T19:15:54","modified_gmt":"2025-01-05T22:15:54","slug":"auschwitz-por-dentro-e-por-fora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5661","title":{"rendered":"Auschwitz por dentro e por fora"},"content":{"rendered":"<p>O filme come\u00e7a em um cen\u00e1rio id\u00edlico, numa beira de rio: alguns jovens, crian\u00e7as e casais se divertem e relaxam numa bela paisagem com um linda vegeta\u00e7\u00e3o. As pessoas t\u00eam uma tonalidade de pele muito clara, uns s\u00e3o loiros, alguns rapazes est\u00e3o sem camisa. Eles voltam por um bonito caminho no meio do mato.<\/p>\n<p>A casa de um casal do grupo citado acima \u00e9 grande, bonita, com belos jardins perfeitamente cuidados &#8211; lembra um pouco a perfei\u00e7\u00e3o dos jardins de &#8220;Playtime &#8211; tempo de divers\u00e3o&#8221;, cl\u00e1ssico de Jacques Tati de 1967. As cenas de lugares bonitos com uma linda vegeta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m lembram a cidade onde vivem os personagens principais da primeira temporada da s\u00e9rie &#8220;O conto da aia&#8221;, baseada no <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3792\">romance hom\u00f4nimo<\/a> de Margaret Atwood.<\/p>\n<p>O filme em que quest\u00e3o \u00e9 &#8220;Zona de interesse&#8221; (dire\u00e7\u00e3o de Jonathan Glazer, Estados Unidos, Reino Unido e Pol\u00f4nia, 2023, 105 minutos, dispon\u00edvel no Prime Video), e n\u00e3o \u00e9 nenhuma com\u00e9dia que debocha da modernidade do final dos anos 1960, como &#8220;Playtime&#8221;, e nem uma hist\u00f3ria fict\u00edcia que ocorre num futuro dist\u00f3pico, como &#8220;O conto da aia&#8221;. O casal que mora na linda e bela casa \u00e9 formado por Rudolf H\u00f6ss (vivido por Christian Friedel), que foi o comandante do campo de exterm\u00ednio de Auschwitz e \u00e9 considerado por muitos o maior assassino em massa da hist\u00f3ria, e sua esposa Hedwig H\u00f6ss (vivida por Sandra H\u00fcller). &#8220;Zona de interesse&#8221; \u00e9 baseado numa hist\u00f3ria tragicamente real.<\/p>\n<p>O principal acontecimento do filme \u00e9 a tentativa dos superiores de H\u00f6ss de tir\u00e1-lo do cargo de comandante do campo de exterm\u00ednio, e o desespero dele e da sua mulher, que lutam para a sua perman\u00eancia no posto. O horror do lugar \u00e9 lembrado s\u00f3 de vez em quando, como quando se ouve o grito de alguns prisioneiros, ou quando se percebe que o comportamento das empregadas de\u00a0 Hedwig H\u00f6ss \u00e9 estranh\u00edssimo: elas s\u00e3o judias e basicamente n\u00e3o falam e nem olham para cima. Na maior parte do filme tudo \u00e9 limpo, organizado, bonito e funcional. \u00c9 assustador. N\u00e3o \u00e0 toa Steven Spielberg acha que &#8220;Zona de interesse&#8221; <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/entretenimento\/spielberg-zona-de-interesse-e-o-melhor-filme-sobre-o-holocausto-que-ja-vi\/\">\u00e9 o melhor filme sobre o Holocausto j\u00e1 feito<\/a>.<\/p>\n<p>Se tudo \u00e9 assustadoramente limpo e organizado em &#8220;Zona de interesse&#8221;, em &#8220;O filho de Saul&#8221; (dirigido por L\u00e1szl\u00f3 Nemes, Hungria, 2015, 107 minutos) tudo \u00e9 exatamente o seu contr\u00e1rio: o filme conta a hist\u00f3ria de Saul Ausl\u00e4nder (G\u00e9za R\u00f6hrig), um prisioneiro de Auschwitz que trabalha jogando os cad\u00e1veres assassinados nas c\u00e2maras de g\u00e1s num cremat\u00f3rio, num ritmo de trabalho inumano. L\u00e1 pelas tantas Saul acha que um menino que sobreviveu ao g\u00e1s e foi posteriormente assassinado por um guarda nazista \u00e9 seu filho, e ele tenta dar um enterro digno e religioso para o garoto. N\u00e3o vou contar mais para n\u00e3o dar spoiler.<\/p>\n<p>A c\u00e2mera, em close-up, fica grande parte do tempo filmando a frente e as costas de Saul Ausl\u00e4nder, deixando quase todo o resto fora de foco. Isso acaba deixando uma sensa\u00e7\u00e3o de permanente desconforto no espectador, como se toda a viol\u00eancia que os prisioneiros vivem n\u00e3o fosse o suficiente. Em &#8220;O filho de Saul&#8221; basicamente n\u00e3o h\u00e1 nenhum momento de tr\u00e9gua, e provavelmente este filme consegue dar uma ideia bastante veross\u00edmil do inferno que era ser prisioneiro em Auschwitz &#8211; bastante diferente, ali\u00e1s, da vis\u00e3o paradis\u00edaca que Rudolf H\u00f6ss e Hedwig H\u00f6ss tinham da vida a um muro de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p><em>(Agrade\u00e7o especialmente ao cr\u00edtico Andr\u00e9 Barcinski, por me chamar a aten\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=l-lfchiLSqc\">num v\u00eddeo no YouTube<\/a> sobre &#8220;Zona de interesse&#8221;, e a meu grande amigo <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/acpf7\">Antonio Carlos Sandoval Pedro<\/a>, o Nash, que \u00e9 especialista em cinema e comentou &#8220;O filho de Saul&#8221; em uma apresenta\u00e7\u00e3o com debate na UFPR alguns anos atr\u00e1s. A imagem que acompanha o texto, de &#8220;O filho de Saul&#8221;, foi obtida no site <a href=\"https:\/\/www.planocritico.com\/critica-o-filho-de-saul\/\">&#8220;O plano cr\u00edtico&#8221;<\/a>.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme come\u00e7a em um cen\u00e1rio id\u00edlico, numa beira de rio: alguns jovens, crian\u00e7as e casais se divertem e relaxam numa bela paisagem com um linda vegeta\u00e7\u00e3o. As pessoas t\u00eam uma tonalidade de pele muito clara, uns s\u00e3o loiros, alguns rapazes est\u00e3o sem camisa. Eles voltam por um bonito caminho no meio do mato. A casa de um casal do grupo citado acima \u00e9 grande, bonita, com belos jardins perfeitamente cuidados &#8211; lembra um pouco a perfei\u00e7\u00e3o dos jardins de &#8220;Playtime &#8211; tempo de divers\u00e3o&#8221;, cl\u00e1ssico de Jacques Tati de 1967. As cenas de lugares bonitos com uma linda vegeta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m lembram a cidade onde vivem os personagens principais da primeira temporada da s\u00e9rie &#8220;O conto da aia&#8221;, baseada no romance hom\u00f4nimo de Margaret Atwood. O filme em que quest\u00e3o \u00e9 &#8220;Zona de interesse&#8221; (dire\u00e7\u00e3o de Jonathan Glazer, Estados Unidos, Reino Unido e Pol\u00f4nia, 2023, 105 minutos, dispon\u00edvel no Prime Video), e n\u00e3o \u00e9 nenhuma com\u00e9dia que debocha da modernidade do final dos anos 1960, como &#8220;Playtime&#8221;, e nem uma hist\u00f3ria fict\u00edcia que ocorre num futuro dist\u00f3pico, como &#8220;O conto da aia&#8221;. O casal que mora na linda e bela casa \u00e9 formado por Rudolf H\u00f6ss (vivido por Christian Friedel), que foi o comandante do campo de exterm\u00ednio de Auschwitz e \u00e9 considerado por muitos o maior assassino em massa da hist\u00f3ria, e sua esposa Hedwig H\u00f6ss (vivida por Sandra H\u00fcller). &#8220;Zona de interesse&#8221; \u00e9 baseado numa hist\u00f3ria tragicamente real. O principal acontecimento do filme \u00e9 a tentativa dos superiores de H\u00f6ss de tir\u00e1-lo do cargo de comandante do campo de exterm\u00ednio, e o desespero dele e da sua mulher, que lutam para a sua perman\u00eancia no posto. O horror do lugar \u00e9 lembrado s\u00f3 de vez em quando, como quando se ouve o grito de alguns prisioneiros, ou quando se percebe que o comportamento das empregadas de\u00a0 Hedwig H\u00f6ss \u00e9 estranh\u00edssimo: elas s\u00e3o judias e basicamente n\u00e3o falam e nem olham para cima. Na maior parte do filme tudo \u00e9 limpo, organizado, bonito e funcional. \u00c9 assustador. N\u00e3o \u00e0 toa Steven Spielberg acha que &#8220;Zona de interesse&#8221; \u00e9 o melhor filme sobre o Holocausto j\u00e1 feito. Se tudo \u00e9 assustadoramente limpo e organizado em &#8220;Zona de interesse&#8221;, em &#8220;O filho de Saul&#8221; (dirigido por L\u00e1szl\u00f3 Nemes, Hungria, 2015, 107 minutos) tudo \u00e9 exatamente o seu contr\u00e1rio: o filme conta a hist\u00f3ria de Saul Ausl\u00e4nder (G\u00e9za R\u00f6hrig), um prisioneiro de Auschwitz que trabalha jogando os cad\u00e1veres assassinados nas c\u00e2maras de g\u00e1s num cremat\u00f3rio, num ritmo de trabalho inumano. L\u00e1 pelas tantas Saul acha que um menino que sobreviveu ao g\u00e1s e foi posteriormente assassinado por um guarda nazista \u00e9 seu filho, e ele tenta dar um enterro digno e religioso para o garoto. N\u00e3o vou contar mais para n\u00e3o dar spoiler. A c\u00e2mera, em close-up, fica grande parte do tempo filmando a frente e as costas de Saul Ausl\u00e4nder, deixando quase todo o resto fora de foco. Isso acaba deixando uma sensa\u00e7\u00e3o de permanente desconforto no espectador, como se toda a viol\u00eancia que os prisioneiros vivem n\u00e3o fosse o suficiente. Em &#8220;O filho de Saul&#8221; basicamente n\u00e3o h\u00e1 nenhum momento de tr\u00e9gua, e provavelmente este filme consegue dar uma ideia bastante veross\u00edmil do inferno que era ser prisioneiro em Auschwitz &#8211; bastante diferente, ali\u00e1s, da vis\u00e3o paradis\u00edaca que Rudolf H\u00f6ss e Hedwig H\u00f6ss tinham da vida a um muro de dist\u00e2ncia. (Agrade\u00e7o especialmente ao cr\u00edtico Andr\u00e9 Barcinski, por me chamar a aten\u00e7\u00e3o num v\u00eddeo no YouTube sobre &#8220;Zona de interesse&#8221;, e a meu grande amigo Antonio Carlos Sandoval Pedro, o Nash, que \u00e9 especialista em cinema e comentou &#8220;O filho de Saul&#8221; em uma apresenta\u00e7\u00e3o com debate na UFPR alguns anos atr\u00e1s. 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