{"id":5578,"date":"2024-11-17T15:23:34","date_gmt":"2024-11-17T18:23:34","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5578"},"modified":"2024-11-17T18:09:13","modified_gmt":"2024-11-17T21:09:13","slug":"revendo-filmes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5578","title":{"rendered":"Revendo filmes"},"content":{"rendered":"<p>Acho que foi no Cine Groff, na extinta Galeria Schaffer, no centro de Curitiba, que assisti a &#8220;Stalker&#8221; (1979, 2h43min, Alemanha\/Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica), de Andrei Tarkovski. Um filme longo e lento, com algumas cenas coloridas e outras numa esp\u00e9cie de preto-e-branco em s\u00e9pia, em cen\u00e1rios de constru\u00e7\u00f5es decadentes ou abandonadas, onde a floresta e a extrema umidade come\u00e7am a tomar conta de tudo e com uma hist\u00f3ria misteriosa &#8211; e meio incompreens\u00edvel para o adolescente metido a intelectual que eu era nos anos 1980. Sempre quis rever este filme, o que s\u00f3 fui fazer dia desses.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria n\u00e3o era t\u00e3o dif\u00edcil de entender assim. Basicamente um guia (o &#8220;Stalker&#8221;) tenta levar duas pessoas a uma &#8220;Zona&#8221; no meio de uma regi\u00e3o abandonada, onde os desejos de cada um s\u00e3o satisfeitos. A sua mulher tenta de todas as maneiras que o guia n\u00e3o fa\u00e7a mais uma expedi\u00e7\u00e3o, mas o &#8220;Stalker&#8221; n\u00e3o a obedece.<\/p>\n<p>O filme &#8211; que merece o status de cult que tem at\u00e9 hoje &#8211; conta uma hist\u00f3ria profunda de f\u00e9 e cren\u00e7a, e me lembrou demais a de <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4947\">&#8220;Ordet&#8221;<\/a> (1955), obra-prima de Carl Dreyer.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 era casado quando resolvi assistir a &#8220;Encontros e desencontros&#8221; (2003, Lost in translation, Sofia Coppola, 2003, 1h41min, Estados Unidos\/Jap\u00e3o), mas n\u00e3o lembro quando foi. Certamente assisti ao filme em casa e n\u00e3o no cinema, e devo ter lido alguma cr\u00edtica favor\u00e1vel que dizia que o filme era &#8220;leve e bom&#8221;, ou coisa assim. Lembro que gostei bastante do filme mas, para mim, era isso mesmo: &#8220;leve e bom&#8221;.<\/p>\n<p>Revi dia desses. Bill Murray faz Bob Harris, um ator de seus cinquenta anos que est\u00e1 em T\u00f3quio para algumas sess\u00f5es de publicidade, n\u00e3o entende nada de japon\u00eas, e muitas cenas melancolicamente engra\u00e7adas s\u00e3o criadas a partir deste fato &#8211; ali\u00e1s, a incompreens\u00e3o da linguagem \u00e9 um dos motivos para o t\u00edtulo original, em tradu\u00e7\u00e3o livre, se chamar &#8220;perdido na tradu\u00e7\u00e3o&#8221;. Bob Harris se encontra no hotel com Charlotte (Scarlett Johansson), a esposa de um fot\u00f3grafo que trabalha virtualmente o dia inteiro e a deixa sozinha no hotel.<\/p>\n<p>Ambos se sentem meio perdidos e solit\u00e1rios em T\u00f3quio, e eu n\u00e3o lembro de ter visto um filme onde tantos di\u00e1logos sem palavras s\u00e3o trocados entre dois personagens: Bob Harris, bem mais velho que a jovem Charlotte, parece saber tudo o que se passa na cabe\u00e7a da mo\u00e7a apenas olhando para ela, e o inverso tamb\u00e9m vale. A interpreta\u00e7\u00e3o sublime de Bill Murray e Scarlett Johansson faz com que &#8220;Encontros e desencontros&#8221; seja muito mais do que apenas um filme &#8220;leve e bom&#8221;.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Eu estava trocando de canal na TV a cabo muitos anos atr\u00e1s quando assisti a uma cena chocante de guerra (n\u00e3o vou entrar em detalhes para n\u00e3o dar spoiler) em que participavam, no meio de v\u00e1rios soldados, os atores Liv Ullmann e Max von Sydow. Pela crueza da cena e pelos atores, logo pensei que era um filme de Ingmar Bergman, e eu estava certo. Poucos diretores s\u00e3o t\u00e3o diretos &#8211; e mesmo chocantes &#8211; para tratar de algum tema importante quanto ele, e posso citar v\u00e1rios exemplos: a psicopatia (&#8220;Persona&#8221;), a sexualidade (<a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3887\">&#8220;O Sil\u00eancio&#8221;<\/a>), a idade m\u00e9dia (&#8220;O S\u00e9timo Selo&#8221;), a perda da f\u00e9 (<a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3887\">&#8220;Atrav\u00e9s de um espelho&#8221;<\/a>), a dor (&#8220;Gritos e sussurros&#8221;). Apenas por um trecho eu vi que ele tratava a guerra da mesma maneira crua com que tratava outros assuntos.<\/p>\n<p>O nome do filme em que aparecia a cena supracitada se chama &#8220;Vergonha&#8221; (1968, Skammen, 103 min). No filme, Jan e Evan Rosenberg (Max von Sydow e Liv Ullmann, citados acima) s\u00e3o dois m\u00fasicos que v\u00e3o viver em uma ilha para fugir da guerra civil que assola seu pa\u00eds. Assisti ao filme poucos meses depois de ter assistido \u00e0quela cena na TV a cabo, e o revi dia desses. Na revis\u00e3o o filme me pareceu ainda melhor e mais chocante do que da outra vez.<\/p>\n<p><em>(foto que acompanha o texto, de &#8220;Stalker&#8221;, obtida na <a href=\"https:\/\/faroutmagazine.co.uk\/what-makes-andrei-tarkovsky-stalker-great\/\">Far Out Magazine<\/a>)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acho que foi no Cine Groff, na extinta Galeria Schaffer, no centro de Curitiba, que assisti a &#8220;Stalker&#8221; (1979, 2h43min, Alemanha\/Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica), de Andrei Tarkovski. Um filme longo e lento, com algumas cenas coloridas e outras numa esp\u00e9cie de preto-e-branco em s\u00e9pia, em cen\u00e1rios de constru\u00e7\u00f5es decadentes ou abandonadas, onde a floresta e a extrema umidade come\u00e7am a tomar conta de tudo e com uma hist\u00f3ria misteriosa &#8211; e meio incompreens\u00edvel para o adolescente metido a intelectual que eu era nos anos 1980. Sempre quis rever este filme, o que s\u00f3 fui fazer dia desses. A hist\u00f3ria n\u00e3o era t\u00e3o dif\u00edcil de entender assim. Basicamente um guia (o &#8220;Stalker&#8221;) tenta levar duas pessoas a uma &#8220;Zona&#8221; no meio de uma regi\u00e3o abandonada, onde os desejos de cada um s\u00e3o satisfeitos. A sua mulher tenta de todas as maneiras que o guia n\u00e3o fa\u00e7a mais uma expedi\u00e7\u00e3o, mas o &#8220;Stalker&#8221; n\u00e3o a obedece. 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Bill Murray faz Bob Harris, um ator de seus cinquenta anos que est\u00e1 em T\u00f3quio para algumas sess\u00f5es de publicidade, n\u00e3o entende nada de japon\u00eas, e muitas cenas melancolicamente engra\u00e7adas s\u00e3o criadas a partir deste fato &#8211; ali\u00e1s, a incompreens\u00e3o da linguagem \u00e9 um dos motivos para o t\u00edtulo original, em tradu\u00e7\u00e3o livre, se chamar &#8220;perdido na tradu\u00e7\u00e3o&#8221;. Bob Harris se encontra no hotel com Charlotte (Scarlett Johansson), a esposa de um fot\u00f3grafo que trabalha virtualmente o dia inteiro e a deixa sozinha no hotel. Ambos se sentem meio perdidos e solit\u00e1rios em T\u00f3quio, e eu n\u00e3o lembro de ter visto um filme onde tantos di\u00e1logos sem palavras s\u00e3o trocados entre dois personagens: Bob Harris, bem mais velho que a jovem Charlotte, parece saber tudo o que se passa na cabe\u00e7a da mo\u00e7a apenas olhando para ela, e o inverso tamb\u00e9m vale. A interpreta\u00e7\u00e3o sublime de Bill Murray e Scarlett Johansson faz com que &#8220;Encontros e desencontros&#8221; seja muito mais do que apenas um filme &#8220;leve e bom&#8221;. *** Eu estava trocando de canal na TV a cabo muitos anos atr\u00e1s quando assisti a uma cena chocante de guerra (n\u00e3o vou entrar em detalhes para n\u00e3o dar spoiler) em que participavam, no meio de v\u00e1rios soldados, os atores Liv Ullmann e Max von Sydow. Pela crueza da cena e pelos atores, logo pensei que era um filme de Ingmar Bergman, e eu estava certo. Poucos diretores s\u00e3o t\u00e3o diretos &#8211; e mesmo chocantes &#8211; para tratar de algum tema importante quanto ele, e posso citar v\u00e1rios exemplos: a psicopatia (&#8220;Persona&#8221;), a sexualidade (&#8220;O Sil\u00eancio&#8221;), a idade m\u00e9dia (&#8220;O S\u00e9timo Selo&#8221;), a perda da f\u00e9 (&#8220;Atrav\u00e9s de um espelho&#8221;), a dor (&#8220;Gritos e sussurros&#8221;). Apenas por um trecho eu vi que ele tratava a guerra da mesma maneira crua com que tratava outros assuntos. O nome do filme em que aparecia a cena supracitada se chama &#8220;Vergonha&#8221; (1968, Skammen, 103 min). No filme, Jan e Evan Rosenberg (Max von Sydow e Liv Ullmann, citados acima) s\u00e3o dois m\u00fasicos que v\u00e3o viver em uma ilha para fugir da guerra civil que assola seu pa\u00eds. Assisti ao filme poucos meses depois de ter assistido \u00e0quela cena na TV a cabo, e o revi dia desses. Na revis\u00e3o o filme me pareceu ainda melhor e mais chocante do que da outra vez. 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