{"id":553,"date":"2015-04-01T04:05:49","date_gmt":"2015-04-01T04:05:49","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=553"},"modified":"2015-03-26T04:11:12","modified_gmt":"2015-03-26T04:11:12","slug":"nick-drake","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=553","title":{"rendered":"Nick Drake"},"content":{"rendered":"<p>Paulo Francis, por ter falado da corrup\u00e7\u00e3o da Petrobras no come\u00e7o dos anos 1990, tem sido bastante lembrado ultimamente. Vou falar de outra lembran\u00e7a que tenho dele: reconhe\u00e7o que me incomodava, naquele tempo, quando Francis batia sem d\u00f3 na m\u00fasica pop. Ele dizia que isto n\u00e3o era arte, que nada sobreviveria. E eu ficava me questionando se ele n\u00e3o teria mesmo raz\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Hoje, muitos anos depois, este assunto \u2013 se a m\u00fasica pop \u00e9 arte ou n\u00e3o \u2013 j\u00e1 n\u00e3o tem o menor sentido para mim. De todo modo, se Paulo Francis fosse vivo, eu teria um argumento muito forte contra a sua teoria: o nome deste argumento \u00e9 Nicholas Rodney Drake \u2013 ou Nick Drake, nome pelo qual este grande cantor <em>folk<\/em> brit\u00e2nico \u00e9 conhecido at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Nick Drake, cujo falecimento ocorreu h\u00e1 quarenta anos, no dia 25 de novembro de 1974, \u00e9 o t\u00edpico artista reconhecido depois da morte, tal como Van Gogh, Kafka ou Bach. Mas, ao contr\u00e1rio destes, ele era um m\u00fasico pop. Este reconhecimento p\u00f3stumo tem pouqu\u00edssimos exemplos neste g\u00eanero \u2013 se \u00e9 que tem algum. Poder\u00edamos pensar no Velvet Underground, mas \u00e9 covardia. Realmente, a grande banda americana s\u00f3 foi reconhecida depois do t\u00e9rmino; mas n\u00e3o s\u00f3 ela era patrocinada por Andy Warhol, como Lou Reed e John Cale continuaram vivos e tocando m\u00fasicas do Velvet Underground muitos anos depois do fim da banda. J\u00e1 Nick Drake s\u00f3 deixou para a posteridade alguns discos e algumas fotos \u2013 v\u00e1rias delas promocionais. N\u00e3o h\u00e1 sequer uma filmagem dele adulto. J\u00e1 a \u00fanica entrevista que ele deu foi de um constrangimento total, para todas as partes envolvidas.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas discos que Nick Drake lan\u00e7ou em vida \u2013 <em>Five Leaves Left<\/em>, de 1969;<em>Bryter Layter<\/em>, de 1970; e <em>Pink Moon<\/em>, de 1972 (depois ainda seriam lan\u00e7ados alguns t\u00edtulos p\u00f3stumos, compilando grava\u00e7\u00f5es j\u00e1 lan\u00e7adas ou algumas in\u00e9ditas) \u2013 n\u00e3o chamaram a aten\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m. Naquele per\u00edodo a concorr\u00eancia de m\u00fasica pop era pesada \u2013 Cat Stevens, Paul Simon, Bob Dylan, Stevie Wonder, Elton John, Paul McCartney, John Lennon \u2013 e Nick, um cantor de uma timidez absurda, que odiava se apresentar ao vivo, dar entrevistas, promover seu trabalho, simplesmente n\u00e3o conseguiu achar seu espa\u00e7o. \u00c9 verdade que h\u00e1 quem diga que a gravadora Island deveria ter trabalhado mais para promov\u00ea-lo \u2013 mas ningu\u00e9m duvida que o pr\u00f3prio Drake tamb\u00e9m n\u00e3o ajudava. O que importa \u00e9 que, depois da morte do cantor em 1974, sua fama e sucesso n\u00e3o param de crescer. Isto \u2013 \u00e9 o que eu diria a Paulo Francis \u2013 \u00e9 a prova de que a m\u00fasica pop pode, sim, ser eterna: Arte com A mai\u00fasculo, aquelas coisas.<\/p>\n<p>Nascido na antiga Birm\u00e2nia (o pa\u00eds, situado no sudeste asi\u00e1tico, hoje se chama Myanmar) em 19 de junho de 1948, Nick Drake cresceu numa fam\u00edlia de classe m\u00e9dia alta. Era um estudante quieto, mas relativamente popular \u2013 muito distante do verdadeiro eremita em que se transformou nos \u00faltimos anos da sua vida. Viajou com amigos para Fran\u00e7a e, como tantos outros nos anos 1960, teve diversas experi\u00eancias com drogas \u2013 se ele usava em grandes ou pequenas quantidades \u00e9 motivo de d\u00favida at\u00e9 hoje. Estudou literatura em Cambridge, e desistiu do curso para se dedicar \u00e0 m\u00fasica.<\/p>\n<p>Ainda muito jovem conseguiu um contrato com a Island para gravar, durante v\u00e1rios meses e com uma excelente equipe de m\u00fasicos, o trabalho de estreia <em>Five Leaves Left<\/em>. Apesar da baixa vendagem do \u00e1lbum, lan\u00e7ou mais outro disco com uma equipe contratada pela gravadora. Como <em>Bryter Layter<\/em> (o meu preferido) tamb\u00e9m vendeu muito pouco e o cantor foi ficando cada vez mais recluso (al\u00e9m de praticamente n\u00e3o conseguir se apresentar ao vivo), foi uma verdadeira surpresa quando Nick Drake dirigiu-se at\u00e9 a Island e gravou em apenas duas sess\u00f5es o seu terceiro \u00e1lbum, <em>Pink Moon<\/em> (desta vez, s\u00f3 ele e seu viol\u00e3o em quase todas as faixas). Este disco, que \u00e9 o favorito de Jake Bugg, tamb\u00e9m n\u00e3o vendeu quase nada.<\/p>\n<p>Consciente de seu fracasso como artista e com problemas emocionais cada vez mais s\u00e9rios, Nick voltou a morar na casa de seus pais, onde faleceu devido a uma dose excessiva de comprimidos para dormir \u2013 n\u00e3o se sabe com certeza at\u00e9 hoje se foi suic\u00eddio ou uma superdosagem acidental.<\/p>\n<p>O estilo de Drake \u00e9 calmo, \u00e0s vezes triste \u2013 e \u00e0s vezes se nota uma ponta de ironia. Normalmente se percebe que ele tinha um grande prazer em cantar. Sua t\u00e9cnica no viol\u00e3o era primorosa: muitos at\u00e9 hoje n\u00e3o entendem a afina\u00e7\u00e3o que utilizava. Sua voz frequentemente era sussurrada, mas a dic\u00e7\u00e3o quase sempre bem clara. De todo modo, uma voz que era um complemento perfeito para suas melodias normalmente bel\u00edssimas e sua interpreta\u00e7\u00e3o atingia profundidades inauditas.<\/p>\n<p><strong>DEZ FAIXAS CL\u00c1SSICAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cDay Is Done\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Tudo \u00e9 perfeito aqui. A sensa\u00e7\u00e3o de que tudo j\u00e1 foi cumprido. A instrumenta\u00e7\u00e3o de c\u00e2mara. A interpreta\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo arrebatadora e contida. A melodia inacreditavelmente linda.<\/p>\n<p><strong>\u201cHazey Jane II\u201d<\/strong><\/p>\n<p>E voc\u00ea achava que o Belle &amp; Sebastian n\u00e3o era original porque \u201cimitava\u201d Smiths ou Velvet Underground? Na verdade,a obra inteira da banda escocesa \u00e9 derivada desta can\u00e7\u00e3o de Nick Drake. Desculpem a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u201cPoor Boy\u201d<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 bossa nova o cara colocava nas m\u00fasicas dele. Um monstro.<\/p>\n<p><strong>\u201cThe Thoughs Of Mary Jane\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Olha, n\u00e3o posso acreditar que uma m\u00fasica t\u00e3o doce e sens\u00edvel seja uma homenagem \u00e0 marijuana. N\u00e3o combina, gente!<\/p>\n<p><strong>\u201cWay To Blue\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Os Beatles j\u00e1 tinham feito m\u00fasica pop de excelente qualidade com quarteto (ou coisa que o valha) de cordas em \u201cEleanor Rigby\u201d. Com uma forma\u00e7\u00e3o semelhante, Nick Drake chega num patamar tamb\u00e9m semelhante de qualidade. \u00c9 de arrepiar.<\/p>\n<p><strong>\u201cAt The Time Of A City Clock\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Melodia e arranjo intrincados. Uma can\u00e7\u00e3o cheia de possibilidades.<\/p>\n<p><strong>\u201cI Was Made To Love Magic\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Can\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma, com Nick Drake deliciosamente ir\u00f4nico&#8230; e doce.<\/p>\n<p><strong>\u201cSaturday Sun\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Uma valsa que certamente inspirou as bel\u00edssimas valsas do f\u00e3 Elliott Smith.<\/p>\n<p><strong>\u201cSunday\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O que \u00e9 esta flauta? O que \u00e9 esta flauta???<\/p>\n<p><strong>\u201cFly\u201d<\/strong><\/p>\n<p>E estas cordas ao fundo, com voz e viol\u00e3o \u00e0 frente?<\/p>\n<p><em>(texto publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/musica-dezembro-2014\/nick-drake.html\" target=\"_blank\">Mondo Bacana<\/a> em 2014)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Francis, por ter falado da corrup\u00e7\u00e3o da Petrobras no come\u00e7o dos anos 1990, tem sido bastante lembrado ultimamente. Vou falar de outra lembran\u00e7a que tenho dele: reconhe\u00e7o que me incomodava, naquele tempo, quando Francis batia sem d\u00f3 na m\u00fasica pop. Ele dizia que isto n\u00e3o era arte, que nada sobreviveria. E eu ficava me questionando se ele n\u00e3o teria mesmo raz\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":552,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[87],"class_list":["post-553","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-musica","tag-nick-drake","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/553","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=553"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/553\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":555,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/553\/revisions\/555"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/552"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=553"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=553"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=553"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}