{"id":5483,"date":"2024-10-20T13:04:25","date_gmt":"2024-10-20T16:04:25","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5483"},"modified":"2024-10-20T13:39:21","modified_gmt":"2024-10-20T16:39:21","slug":"revisitando-livros-lidos-na-asolescencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5483","title":{"rendered":"Revisitando livros lidos na adolesc\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 sempre interessante reler livros lidos h\u00e1 muito tempo. Recentemente revisitei dois autores que n\u00e3o lia h\u00e1 mais de trinta anos j\u00e1.<\/p>\n<p>Eu conheci o escritor norte-americano Charles Bukowski (1920-1994) pelas cr\u00edticas sempre favor\u00e1veis da Revista Veja a respeito de sua obra. Li cinco livros do autor na adolesc\u00eancia, e lembro eles tinham uma estrutura meio circular, quase sempre com os mesmos temas: bebedeiras hom\u00e9ricas, sexo desenfreado com mulheres meio perdidas, sem grandes objetivos na vida &#8211; como o narrador\/autor, ali\u00e1s -, apostas em corridas de cavalo, mudan\u00e7as constantes de um subemprego para outro, o in\u00edcio da fama na literatura. Lembro que eu n\u00e3o considerava a obra de Bukowski como &#8220;literatura s\u00e9ria&#8221; &#8211; eu amava Thomas Mann, na \u00e9poca, para que se tenha uma ideia -, mas me sentia atra\u00eddo por aquelas hist\u00f3rias malucas.<\/p>\n<p>Enfim, um belo dia emprestei meus cinco livros de Bukowski para algu\u00e9m que n\u00e3o lembro at\u00e9 hoje quem era, e que nunca me devolveu &#8211; e nunca mais tive contato com o autor.<\/p>\n<p>Alguns meses atr\u00e1s passei na frente de um sebo e l\u00e1 estava com destaque este &#8220;Cr\u00f4nicas de um amo louco &#8211; ere\u00e7\u00f5es, ejacula\u00e7\u00f5es e exibicionismos &#8211; Parte I&#8221; (L&amp;PM, tradu\u00e7\u00e3o de Milton Persson, 320 p\u00e1ginas, publicado originalmente em 1967), e resolvi compr\u00e1-lo. A releitura me revelou um escritor muito melhor do que eu me lembrava: sua perspectiva \u00e0s vezes divertida e quase sempre carinhosa de seus personagens \u00e0 margem da sociedade e, frequentemente, desencantados, \u00e9 coisa de um grande escritor.<\/p>\n<p>No que depender de mim, vou continuar lendo &#8211; e relendo &#8211; Charles Bukowski por muito tempo ainda.<\/p>\n<p>Com o escritor italiano Alberto Moravia (1907-1990) a minha rela\u00e7\u00e3o era ao mesmo tempo parecida e diferente. Ele tamb\u00e9m tinha \u00f3timas cr\u00edticas na Revista Veja e suas hist\u00f3rias eram fortemente sexuais; mas, ao contr\u00e1rio de Bukowski, ele tinha um verbete nas p\u00e1ginas principais da Editora Abril. Na minha mente de adolescente meio exibido e fan\u00e1tico por literatura, isto fazia uma grande diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Li nos anos oitenta tr\u00eas livros de Alberto Moravia, e dois deles, o romance &#8220;A Romana&#8221; e este &#8220;A coisa&#8221;, de contos, me impactaram enormemente. Sempre tive na cabe\u00e7a a ideia de que deveria reler Moravia: ainda n\u00e3o revisitei o romance, mas reli o outro citado recentemente.<\/p>\n<p>&#8220;A coisa&#8221; (Difel, tradu\u00e7\u00e3o de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade, 268 p\u00e1ginas, lan\u00e7ado originalmente em 1983) \u00e9 composto por hist\u00f3rias que envolvem, frequentemente, sexualidade, pol\u00edtica e\/ou mist\u00e9rio com\u00a0 toques sobrenaturais. Os primeiros contos do livro s\u00e3o mais longos, e parece que Moravia foi ficando com pregui\u00e7a \u00e0 medida que o escrevia, j\u00e1 que os contos v\u00e3o diminuindo em tamanho &#8211; e tamb\u00e9m em qualidade &#8211; \u00e0 medida que as p\u00e1ginas v\u00e3o transcorrendo.<\/p>\n<p>Os mais impressionantes s\u00e3o: aquele que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 colet\u00e2nea, em que &#8220;a coisa&#8221; \u00e9 uma tara estranha de um casal de l\u00e9sbicas; &#8220;Ao deus desconhecido&#8221;, em que uma enfermeira presta pequenos favores a seus pacientes homens num hospital; &#8220;A mulher da capa preta&#8221;, uma hist\u00f3ria selvagem e misteriosa sobre dois vi\u00favos que se hospedam num mesmo hotel; e &#8220;O cinto&#8221; e &#8220;O sinal da opera\u00e7\u00e3o&#8221;, duas hist\u00f3rias que hoje em dia seriam consideradas politicamente incorretas, uma sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica, outra sobre um padrasto e sua enteada. Se os melhores contos s\u00e3o grande literatura, mesmo nos piores a escrita de Alberto Moravia faz o leitor nunca perder o interesse.<\/p>\n<p>No que depender de mim, vou continuar lendo &#8211; e relendo &#8211; Alberto Moravia por muito tempo ainda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 sempre interessante reler livros lidos h\u00e1 muito tempo. Recentemente revisitei dois autores que n\u00e3o lia h\u00e1 mais de trinta anos j\u00e1. Eu conheci o escritor norte-americano Charles Bukowski (1920-1994) pelas cr\u00edticas sempre favor\u00e1veis da Revista Veja a respeito de sua obra. Li cinco livros do autor na adolesc\u00eancia, e lembro eles tinham uma estrutura meio circular, quase sempre com os mesmos temas: bebedeiras hom\u00e9ricas, sexo desenfreado com mulheres meio perdidas, sem grandes objetivos na vida &#8211; como o narrador\/autor, ali\u00e1s -, apostas em corridas de cavalo, mudan\u00e7as constantes de um subemprego para outro, o in\u00edcio da fama na literatura. Lembro que eu n\u00e3o considerava a obra de Bukowski como &#8220;literatura s\u00e9ria&#8221; &#8211; eu amava Thomas Mann, na \u00e9poca, para que se tenha uma ideia -, mas me sentia atra\u00eddo por aquelas hist\u00f3rias malucas. Enfim, um belo dia emprestei meus cinco livros de Bukowski para algu\u00e9m que n\u00e3o lembro at\u00e9 hoje quem era, e que nunca me devolveu &#8211; e nunca mais tive contato com o autor. Alguns meses atr\u00e1s passei na frente de um sebo e l\u00e1 estava com destaque este &#8220;Cr\u00f4nicas de um amo louco &#8211; ere\u00e7\u00f5es, ejacula\u00e7\u00f5es e exibicionismos &#8211; Parte I&#8221; (L&amp;PM, tradu\u00e7\u00e3o de Milton Persson, 320 p\u00e1ginas, publicado originalmente em 1967), e resolvi compr\u00e1-lo. A releitura me revelou um escritor muito melhor do que eu me lembrava: sua perspectiva \u00e0s vezes divertida e quase sempre carinhosa de seus personagens \u00e0 margem da sociedade e, frequentemente, desencantados, \u00e9 coisa de um grande escritor. No que depender de mim, vou continuar lendo &#8211; e relendo &#8211; Charles Bukowski por muito tempo ainda. Com o escritor italiano Alberto Moravia (1907-1990) a minha rela\u00e7\u00e3o era ao mesmo tempo parecida e diferente. Ele tamb\u00e9m tinha \u00f3timas cr\u00edticas na Revista Veja e suas hist\u00f3rias eram fortemente sexuais; mas, ao contr\u00e1rio de Bukowski, ele tinha um verbete nas p\u00e1ginas principais da Editora Abril. Na minha mente de adolescente meio exibido e fan\u00e1tico por literatura, isto fazia uma grande diferen\u00e7a. Li nos anos oitenta tr\u00eas livros de Alberto Moravia, e dois deles, o romance &#8220;A Romana&#8221; e este &#8220;A coisa&#8221;, de contos, me impactaram enormemente. Sempre tive na cabe\u00e7a a ideia de que deveria reler Moravia: ainda n\u00e3o revisitei o romance, mas reli o outro citado recentemente. &#8220;A coisa&#8221; (Difel, tradu\u00e7\u00e3o de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade, 268 p\u00e1ginas, lan\u00e7ado originalmente em 1983) \u00e9 composto por hist\u00f3rias que envolvem, frequentemente, sexualidade, pol\u00edtica e\/ou mist\u00e9rio com\u00a0 toques sobrenaturais. Os primeiros contos do livro s\u00e3o mais longos, e parece que Moravia foi ficando com pregui\u00e7a \u00e0 medida que o escrevia, j\u00e1 que os contos v\u00e3o diminuindo em tamanho &#8211; e tamb\u00e9m em qualidade &#8211; \u00e0 medida que as p\u00e1ginas v\u00e3o transcorrendo. Os mais impressionantes s\u00e3o: aquele que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 colet\u00e2nea, em que &#8220;a coisa&#8221; \u00e9 uma tara estranha de um casal de l\u00e9sbicas; &#8220;Ao deus desconhecido&#8221;, em que uma enfermeira presta pequenos favores a seus pacientes homens num hospital; &#8220;A mulher da capa preta&#8221;, uma hist\u00f3ria selvagem e misteriosa sobre dois vi\u00favos que se hospedam num mesmo hotel; e &#8220;O cinto&#8221; e &#8220;O sinal da opera\u00e7\u00e3o&#8221;, duas hist\u00f3rias que hoje em dia seriam consideradas politicamente incorretas, uma sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica, outra sobre um padrasto e sua enteada. 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