{"id":5472,"date":"2024-11-03T12:52:51","date_gmt":"2024-11-03T15:52:51","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5472"},"modified":"2026-03-22T19:42:02","modified_gmt":"2026-03-22T22:42:02","slug":"vida-de-petrarca-de-ugo-dotti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5472","title":{"rendered":"&#8220;Vida de Petrarca&#8221;, de Ugo Dotti"},"content":{"rendered":"<p>Muita gente debochou de Luana Piovani quando ela disse que tinha lido &#8220;Cem anos de solid\u00e3o&#8221;, o cl\u00e1ssico de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, em seis meses. Segundo <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ilustrada\/ult90u55803.shtml\">este <\/a>link da Folha de S\u00e3o Paulo, ela declarou, orgulhosa:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Terminei de ler meu \u00faltimo companheiro de 6 meses, meu fiel amigo de cabeceira, meu gorducho livro! Gabriel e eu realmente nos entendemos! Cem Anos de Solid\u00e3o me fez viajar por lugares quentes, me apresentou mulheres loucas e admir\u00e1veis e ainda me descreveu uma cena de amor enfestada [<b>sic<\/b>] de borboletas amarelas.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Eu n\u00e3o entendo direito o deboche, j\u00e1 que \u00e0s vezes demoro anos para acabar de ler um livro. Eu certamente demorei mais de dez para terminar este &#8220;Vida de Petrarca&#8221;, de Ugo Dotti (Editora Unicamp, 555 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Andr\u00e9 Nepomuceno, publicado originalmente em 1987), sobre o grande poeta e ensa\u00edsta italiano que viveu entre 1304-1374 &#8211; uma \u00e9poca extremamente conturbada na Europa. Petrarca participou ativamente dos dist\u00farbios pol\u00edticos de seu tempo polemizando &#8211; muitas vezes por cartas &#8211; com pol\u00edticos e escritores importantes. Quando se cita o papado de Avignon (1309-1377), por exemplo, quase sempre Petrarca \u00e9 lembrado por declarar, para quem quisesse ouvir, que aquela mudan\u00e7a de sede, da It\u00e1lia para a Fran\u00e7a, era o &#8220;<em>cativeiro<\/em> <em>babil\u00f4nico<\/em> dos papas&#8221; (de todo modo, agora o papado de Avignon \u00e9 um dos meus <em><a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5095\">interesses estranhos<\/a><\/em>).<\/p>\n<p>N\u00e3o que precise, mas vou tentar me justificar por ter terminado tanto tempo para acabar de ler a biografia do grande poeta italiano.<\/p>\n<p>No pref\u00e1cio &#8220;Marcel Proust &#8211; uma biografia&#8221;, de George D. Painter (Editora Guanabara, 798 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de Fernando Py, publicado originalmente em 1959) o autor declara que, com o livro, pretendeu fazer a &#8220;biografia definitiva&#8221; de um dos meus escritores preferidos. Deixei a leitura pela metade, achei chato demais. Um trecho ao acaso mostra sobre o que estou falando:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Proust a conheceu, no outono de 1888, ela contava trinta sete anos, e ele apenas dezessete; ela estava agora exatamente com quarenta. Era roli\u00e7a, por\u00e9m de cintura fina, e usava um vestido bastante decotado, com fest\u00f5es de p\u00e9rolas, tr\u00eas de cada lado, que pendiam da parte m\u00ednima que ocultava seu seio. O cabelo era louro-acinzentado, atado com uma fita cor-de-rosa; os olhos eram pretos e tendiam a abrir-se desmesuradamente quando ela se excitava. &#8216;Tenho olhos amendoados, mas em sentido inverso&#8217;, dizia rindo. Possu\u00eda uma grande cole\u00e7\u00e3o de porcelanas, na qual inclu\u00eda Proust, a quem chamava de &#8220;meu pequeno psic\u00f3logo de porcelana&#8221;. Ele replicava comparando a um altar a estante em ele ela dispunha suas figuras de Saxe: &#8216;Vivemos no s\u00e9culo de Laure Hayman; e a dinastia reinante \u00e9 a de Saxe&#8217;; (&#8230;)&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Tudo bem que &#8220;Em busca do tempo perdido&#8221; tem muitos detalhes assim, mas o objetivo no romance \u00e9 sempre liter\u00e1rio e, na biografia, \u00e9 sempre descritivo. E chato.<\/p>\n<p>J\u00e1 passei da metade de mais duas monumentais biografias definitivas &#8211; e chatas -, uma de Rasp\u00fatin, de Douglas Smith, e uma de Nietzsche, de Curt Paul Janz. Em comum com as de Marcel Proust e Petrarca, descri\u00e7\u00f5es tediosas de viagens, conversas, rela\u00e7\u00f5es com amigos e inimigos. E etc.<\/p>\n<p>Enfim, achei que nunca terminaria de ler uma &#8220;biografia definitiva&#8221; deste naipe, at\u00e9 que, depois de mais de uma d\u00e9cada, terminei de ler esta &#8220;Vida de Petrarca&#8221;.<\/p>\n<p>Fiquei orgulhoso como a Luana Piovani citada acima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muita gente debochou de Luana Piovani quando ela disse que tinha lido &#8220;Cem anos de solid\u00e3o&#8221;, o cl\u00e1ssico de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, em seis meses. Segundo este link da Folha de S\u00e3o Paulo, ela declarou, orgulhosa: &#8220;Terminei de ler meu \u00faltimo companheiro de 6 meses, meu fiel amigo de cabeceira, meu gorducho livro! Gabriel e eu realmente nos entendemos! Cem Anos de Solid\u00e3o me fez viajar por lugares quentes, me apresentou mulheres loucas e admir\u00e1veis e ainda me descreveu uma cena de amor enfestada [sic] de borboletas amarelas.&#8221; Eu n\u00e3o entendo direito o deboche, j\u00e1 que \u00e0s vezes demoro anos para acabar de ler um livro. Eu certamente demorei mais de dez para terminar este &#8220;Vida de Petrarca&#8221;, de Ugo Dotti (Editora Unicamp, 555 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Andr\u00e9 Nepomuceno, publicado originalmente em 1987), sobre o grande poeta e ensa\u00edsta italiano que viveu entre 1304-1374 &#8211; uma \u00e9poca extremamente conturbada na Europa. Petrarca participou ativamente dos dist\u00farbios pol\u00edticos de seu tempo polemizando &#8211; muitas vezes por cartas &#8211; com pol\u00edticos e escritores importantes. Quando se cita o papado de Avignon (1309-1377), por exemplo, quase sempre Petrarca \u00e9 lembrado por declarar, para quem quisesse ouvir, que aquela mudan\u00e7a de sede, da It\u00e1lia para a Fran\u00e7a, era o &#8220;cativeiro babil\u00f4nico dos papas&#8221; (de todo modo, agora o papado de Avignon \u00e9 um dos meus interesses estranhos). N\u00e3o que precise, mas vou tentar me justificar por ter terminado tanto tempo para acabar de ler a biografia do grande poeta italiano. No pref\u00e1cio &#8220;Marcel Proust &#8211; uma biografia&#8221;, de George D. Painter (Editora Guanabara, 798 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de Fernando Py, publicado originalmente em 1959) o autor declara que, com o livro, pretendeu fazer a &#8220;biografia definitiva&#8221; de um dos meus escritores preferidos. Deixei a leitura pela metade, achei chato demais. Um trecho ao acaso mostra sobre o que estou falando: &#8220;Proust a conheceu, no outono de 1888, ela contava trinta sete anos, e ele apenas dezessete; ela estava agora exatamente com quarenta. Era roli\u00e7a, por\u00e9m de cintura fina, e usava um vestido bastante decotado, com fest\u00f5es de p\u00e9rolas, tr\u00eas de cada lado, que pendiam da parte m\u00ednima que ocultava seu seio. O cabelo era louro-acinzentado, atado com uma fita cor-de-rosa; os olhos eram pretos e tendiam a abrir-se desmesuradamente quando ela se excitava. &#8216;Tenho olhos amendoados, mas em sentido inverso&#8217;, dizia rindo. Possu\u00eda uma grande cole\u00e7\u00e3o de porcelanas, na qual inclu\u00eda Proust, a quem chamava de &#8220;meu pequeno psic\u00f3logo de porcelana&#8221;. Ele replicava comparando a um altar a estante em ele ela dispunha suas figuras de Saxe: &#8216;Vivemos no s\u00e9culo de Laure Hayman; e a dinastia reinante \u00e9 a de Saxe&#8217;; (&#8230;)&#8221; Tudo bem que &#8220;Em busca do tempo perdido&#8221; tem muitos detalhes assim, mas o objetivo no romance \u00e9 sempre liter\u00e1rio e, na biografia, \u00e9 sempre descritivo. E chato. J\u00e1 passei da metade de mais duas monumentais biografias definitivas &#8211; e chatas -, uma de Rasp\u00fatin, de Douglas Smith, e uma de Nietzsche, de Curt Paul Janz. Em comum com as de Marcel Proust e Petrarca, descri\u00e7\u00f5es tediosas de viagens, conversas, rela\u00e7\u00f5es com amigos e inimigos. E etc. Enfim, achei que nunca terminaria de ler uma &#8220;biografia definitiva&#8221; deste naipe, at\u00e9 que, depois de mais de uma d\u00e9cada, terminei de ler esta &#8220;Vida de Petrarca&#8221;. Fiquei orgulhoso como a Luana Piovani citada acima. &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":5476,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[887,135,973,886,58,885],"class_list":["post-5472","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-editora-unicamp","tag-gabriel-garcia-marquez","tag-interesses-estranhos","tag-luana-piovani","tag-marcel-proust","tag-petrarca","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5472","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5472"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5472\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5574,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5472\/revisions\/5574"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5476"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5472"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5472"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}