{"id":5449,"date":"2024-09-15T12:41:32","date_gmt":"2024-09-15T15:41:32","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5449"},"modified":"2024-09-14T23:15:29","modified_gmt":"2024-09-15T02:15:29","slug":"o-crime-do-padre-amaro-de-eca-de-queiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5449","title":{"rendered":"&#8220;O crime do Padre Amaro&#8221;, de E\u00e7a de Queir\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>Raramente fico frustrado com o tamanho dos meus textos aqui. Minha ideia sempre \u00e9 dar uma pequena ideia do assunto a ser tratado, um tanto para fixar na mem\u00f3ria, um tanto para destacar os pontos mais importantes. Mas com &#8220;O crime do Padre Amaro&#8221;, o primeiro romance do grande escritor portugu\u00eas E\u00e7a de Queir\u00f3s (1845-1900), \u00e9 inevit\u00e1vel eu me sentir um tanto descontente por n\u00e3o fazer um texto detalhado sobre ele. S\u00e3o tantos os personagens interessant\u00edssimos, tantas cr\u00edticas ao mesmo tempo \u00e1cidas e bem-humoradas, tanta genialidade, que eu acho que deveria, se tivesse mais tempo e menos pregui\u00e7a, fazer um verdadeiro ensaio sobre o livro. Quem sabe um dia! Mas enfim, vamos aos pontos principais desta obra espetacular.<\/p>\n<p>&#8220;O crime do Padre Amaro&#8221;, lan\u00e7ado originalmente em 1875, conta a hist\u00f3ria do amor tempestuoso entre um padre &#8211; o Amaro do t\u00edtulo &#8211; e uma jovem solteira chamada Am\u00e9lia. A contracapa da edi\u00e7\u00e3o que acompanha este texto (da \u00f3tima cole\u00e7\u00e3o &#8220;Grandes Nomes da Literatura&#8221;, da Folha de S\u00e3o Paulo, com 470 p\u00e1ginas), escrita pelo grande Jo\u00e3o Pereira Coutinho, faz um bom resumo de parte importante desta obra-prima:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O <em>crime<\/em> do padre Amaro (&#8230;) n\u00e3o \u00e9 apenas &#8216;uma intriga de cl\u00e9rigos e de beatas tramada e murmurada \u00e0 sombra de uma velha S\u00e9&#8217;, como o pr\u00f3prio autor escreveu. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1, como certa cr\u00edtica defende, uma mera condena\u00e7\u00e3o moral e espiritual do clero e da hipocrisia abjecta das mulheres devotas, que rezam aos santos certos e se entregam a lux\u00farias com os homens errados. Este romance sobrevive na mem\u00f3ria do tempo pela extraordin\u00e1ria for\u00e7a dos seus personagens em especial de Amaro, o jovem que seguiu o sacerd\u00f3cio sem real voca\u00e7\u00e3o e que sucumbe ao mais prosaico dos sentimentos quando se apaixona por Am\u00e9lia. Acompanhar os seus atos e pensamentos &#8211; a ang\u00fastia da transgress\u00e3o; o ressentimento pela liberdade amorosa de terceiros; mas tamb\u00e9m a fragilidade t\u00edpica do amante; os seus ci\u00fames reais ou imagin\u00e1rios; e a dilacerante ambiguidade com que ele contempla o horrendo crime &#8211; \u00e9 conhecer por dentro a trag\u00e9dia de um homem em carne viva que o leitor ir\u00e1 reconhecer como um de n\u00f3s.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 claro que o tema principal do romance &#8211; a rela\u00e7\u00e3o t\u00f3rrida entre Amaro e Am\u00e9lia &#8211; \u00e9 apresentado primorosamente, mas o que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a maneira corrosiva e divertida com que E\u00e7a de Queir\u00f3s descreve a hipocrisia, a falta de escr\u00fapulos e o corporativismo de quase todos os membros da Igreja Cat\u00f3lica apresentados no livro (com exce\u00e7\u00e3o do abade Ferr\u00e3o, o \u00fanico, aparentemente, que realmente aplicava o Evangelho em sua vida privada) e das mulheres devotas que os seguem. E E\u00e7a de Queir\u00f3s, \u00e0 maneira de Moli\u00e8re, parece ter um carinho bem-humorado por tanta gente sem car\u00e1ter. Enfim, eu gostaria de fazer um texto maior para descrever tantos personagens divertidos e fascinantes.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o quero terminar este curto texto sem apresentar a explica\u00e7\u00e3o esdr\u00faxula, absurda e vil que o personagem c\u00f4nego Dias faz da famosa frase de Cristo &#8220;dos pobres \u00e9 o reino do c\u00e9u&#8221;. E\u00e7a de Queir\u00f3s era g\u00eanio.<\/p>\n<p>Deixemos a palavra, enfim, com o tal c\u00f4nego Dias:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;-Pra Deus n\u00e3o h\u00e1 pobre nem rico \u2013 suspirou a S. Joaneira. \u2013 Antes pobre, que dos pobres \u00e9 o reino do c\u00e9u!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, antes rico \u2013 acudiu o c\u00f4nego, estendendo a m\u00e3o para deter aquela falsa interpreta\u00e7\u00e3o da lei divina. \u2013 Que o c\u00e9u tamb\u00e9m \u00e9 para os ricos. A senhora n\u00e3o compreende o preceito. <em>Beati pauperes, benditos os pobres<\/em>, quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; n\u00e3o desejarem os bens dos ricos; n\u00e3o quererem mais que o bocado de p\u00e3o que t\u00eam; n\u00e3o aspirarem a participar das riquezas dos outros, sob pena de n\u00e3o serem benditos. \u00c9 por isso, saiba a senhora, que essa canalha que prega que os trabalhadores e as classes baixas devem viver melhor do que vivem vai de encontro \u00e0 expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e n\u00e3o merece sen\u00e3o chicote, como excomungados que s\u00e3o! Ouf!&#8221;<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raramente fico frustrado com o tamanho dos meus textos aqui. Minha ideia sempre \u00e9 dar uma pequena ideia do assunto a ser tratado, um tanto para fixar na mem\u00f3ria, um tanto para destacar os pontos mais importantes. Mas com &#8220;O crime do Padre Amaro&#8221;, o primeiro romance do grande escritor portugu\u00eas E\u00e7a de Queir\u00f3s (1845-1900), \u00e9 inevit\u00e1vel eu me sentir um tanto descontente por n\u00e3o fazer um texto detalhado sobre ele. S\u00e3o tantos os personagens interessant\u00edssimos, tantas cr\u00edticas ao mesmo tempo \u00e1cidas e bem-humoradas, tanta genialidade, que eu acho que deveria, se tivesse mais tempo e menos pregui\u00e7a, fazer um verdadeiro ensaio sobre o livro. Quem sabe um dia! Mas enfim, vamos aos pontos principais desta obra espetacular. &#8220;O crime do Padre Amaro&#8221;, lan\u00e7ado originalmente em 1875, conta a hist\u00f3ria do amor tempestuoso entre um padre &#8211; o Amaro do t\u00edtulo &#8211; e uma jovem solteira chamada Am\u00e9lia. A contracapa da edi\u00e7\u00e3o que acompanha este texto (da \u00f3tima cole\u00e7\u00e3o &#8220;Grandes Nomes da Literatura&#8221;, da Folha de S\u00e3o Paulo, com 470 p\u00e1ginas), escrita pelo grande Jo\u00e3o Pereira Coutinho, faz um bom resumo de parte importante desta obra-prima: &#8220;O crime do padre Amaro (&#8230;) n\u00e3o \u00e9 apenas &#8216;uma intriga de cl\u00e9rigos e de beatas tramada e murmurada \u00e0 sombra de uma velha S\u00e9&#8217;, como o pr\u00f3prio autor escreveu. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1, como certa cr\u00edtica defende, uma mera condena\u00e7\u00e3o moral e espiritual do clero e da hipocrisia abjecta das mulheres devotas, que rezam aos santos certos e se entregam a lux\u00farias com os homens errados. Este romance sobrevive na mem\u00f3ria do tempo pela extraordin\u00e1ria for\u00e7a dos seus personagens em especial de Amaro, o jovem que seguiu o sacerd\u00f3cio sem real voca\u00e7\u00e3o e que sucumbe ao mais prosaico dos sentimentos quando se apaixona por Am\u00e9lia. Acompanhar os seus atos e pensamentos &#8211; a ang\u00fastia da transgress\u00e3o; o ressentimento pela liberdade amorosa de terceiros; mas tamb\u00e9m a fragilidade t\u00edpica do amante; os seus ci\u00fames reais ou imagin\u00e1rios; e a dilacerante ambiguidade com que ele contempla o horrendo crime &#8211; \u00e9 conhecer por dentro a trag\u00e9dia de um homem em carne viva que o leitor ir\u00e1 reconhecer como um de n\u00f3s.&#8221; \u00c9 claro que o tema principal do romance &#8211; a rela\u00e7\u00e3o t\u00f3rrida entre Amaro e Am\u00e9lia &#8211; \u00e9 apresentado primorosamente, mas o que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a maneira corrosiva e divertida com que E\u00e7a de Queir\u00f3s descreve a hipocrisia, a falta de escr\u00fapulos e o corporativismo de quase todos os membros da Igreja Cat\u00f3lica apresentados no livro (com exce\u00e7\u00e3o do abade Ferr\u00e3o, o \u00fanico, aparentemente, que realmente aplicava o Evangelho em sua vida privada) e das mulheres devotas que os seguem. E E\u00e7a de Queir\u00f3s, \u00e0 maneira de Moli\u00e8re, parece ter um carinho bem-humorado por tanta gente sem car\u00e1ter. Enfim, eu gostaria de fazer um texto maior para descrever tantos personagens divertidos e fascinantes. Mas n\u00e3o quero terminar este curto texto sem apresentar a explica\u00e7\u00e3o esdr\u00faxula, absurda e vil que o personagem c\u00f4nego Dias faz da famosa frase de Cristo &#8220;dos pobres \u00e9 o reino do c\u00e9u&#8221;. E\u00e7a de Queir\u00f3s era g\u00eanio. Deixemos a palavra, enfim, com o tal c\u00f4nego Dias: &#8220;-Pra Deus n\u00e3o h\u00e1 pobre nem rico \u2013 suspirou a S. Joaneira. \u2013 Antes pobre, que dos pobres \u00e9 o reino do c\u00e9u! \u2013 N\u00e3o, antes rico \u2013 acudiu o c\u00f4nego, estendendo a m\u00e3o para deter aquela falsa interpreta\u00e7\u00e3o da lei divina. \u2013 Que o c\u00e9u tamb\u00e9m \u00e9 para os ricos. A senhora n\u00e3o compreende o preceito. Beati pauperes, benditos os pobres, quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; n\u00e3o desejarem os bens dos ricos; n\u00e3o quererem mais que o bocado de p\u00e3o que t\u00eam; n\u00e3o aspirarem a participar das riquezas dos outros, sob pena de n\u00e3o serem benditos. \u00c9 por isso, saiba a senhora, que essa canalha que prega que os trabalhadores e as classes baixas devem viver melhor do que vivem vai de encontro \u00e0 expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e n\u00e3o merece sen\u00e3o chicote, como excomungados que s\u00e3o! Ouf!&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":5452,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[157,884,883,356],"class_list":["post-5449","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-eca-de-queiros","tag-folha-de-sao-paulo","tag-joao-pereira-coutinho","tag-moliere","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5449","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5449"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5449\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5465,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5449\/revisions\/5465"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5452"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5449"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5449"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5449"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}