{"id":541,"date":"2015-03-29T22:42:43","date_gmt":"2015-03-29T22:42:43","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=541"},"modified":"2015-03-25T22:54:02","modified_gmt":"2015-03-25T22:54:02","slug":"travessuras-de-menina-ma-de-mario-vargas-llosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=541","title":{"rendered":"Travessuras da menina m\u00e1, de Mario Vargas Llosa"},"content":{"rendered":"<p>Em um bairro rico da cidade peruana de Miraflores duas chilenas surgem movimentando a vida social dos jovens. Lily tinha cerca de 15 anos, enquanto sua irm\u00e3 Lucy tinha uns dois anos a menos. Segundo Ricardo Samacurcio, o personagem que narra em primeira pessoa o extraordin\u00e1rio\u00a0<em>Travessuras da menina m\u00e1<\/em>, do escritor peruano Mario Vargas Llosa (Alfaguara, 303 p\u00e1ginas), &#8220;o adjetivo marcante parecia ter sido inventado para elas, mas, sem deixar de s\u00ea-lo, Lucy era menos marcante que a irm\u00e3, n\u00e3o s\u00f3 porque seu cabelo era menos louro e mais curto e se vestia com menos atrevimento que Lily, mas tamb\u00e9m porque era mais calada e, na hora de dan\u00e7ar, apesar de tamb\u00e9m fazer firulas e requebrar a cintura com uma aud\u00e1cia que nenhuma miraflorense se atreveria a assumir, parecia uma garota recatada, inibida e quase ins\u00edpida em compara\u00e7\u00e3o com aquele pi\u00e3o, aquela labareda ao vento, aquele fogo-f\u00e1tuo que era Lily quando, colocados os discos na vitrola, o mambo explodia e come\u00e7\u00e1vamos todos a dan\u00e7ar.&#8221;<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Quando Lily dan\u00e7ava o mambo, os jovens da conservadora Miraflores ficavam fascinados, concentrados na &#8220;apresenta\u00e7\u00e3o&#8221; dela, enquanto que os mais velhos reprovavam. No dizer indignado de uma tia de Ricardo Samacurcio, Alberta, Lily dan\u00e7ava &#8220;como uma Tongolele&#8221;, parecia &#8220;uma rumbeira de filme mexicano&#8221;. E acrescentava, maldosa: &#8220;bem, n\u00e3o vamos esquecer que \u00e9 chilena, e o forte das mulheres desse pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 a virtude&#8221;.<\/p>\n<p>Como muitos outros rapazes do bairro, Ricardo Samacurcio se apaixonou por uma das chilenas. A escolhida foi Lily, para quem ele dizia: &#8220;em voc\u00ea, gosto de tudo, mas o melhor \u00e9 o seu jeitinho de falar&#8221;. Pediu-a em namoro tr\u00eas vezes &#8211; e foi recusado nas tr\u00eas. Estranhamente, para duas jovens aparentemente t\u00e3o avan\u00e7adas, elas nunca aceitavam os pedidos de namoro de ningu\u00e9m &#8211; e nem deixavam ningu\u00e9m ir at\u00e9 a sua casa, o que come\u00e7ou a criar uma aura de mist\u00e9rio em torno delas.<\/p>\n<p>Um dia parte deste mist\u00e9rio foi solucionado quando Lily e Lucy foram desmascaradas em um jantar. N\u00e3o eram chilenas cois\u00edssima nenhuma, e sim peruanas que imitavam o sotaque daquele pa\u00eds. A partir dali a sociedade do bairro miraflorense onde Ricardo morava n\u00e3o ouviu mais falar nas duas impostoras.<\/p>\n<p>Anos depois, Samacurcio est\u00e1 morando em Paris e se torna amigo de um guerrilheiro esquerdista seu compatriota, que est\u00e1 na capital francesa planejando uma revolu\u00e7\u00e3o, no Peru, semelhante \u00e0quela vitoriosa de Fidel Castro em 1959. Um dos servi\u00e7os do ativista \u00e9 reunir jovens que iriam fazer um curso de guerrilha em Cuba, patrocinado pelo governo local. Por uma das coincid\u00eancias deliciosas que permeiam\u00a0<em>Travessuras da menina m\u00e1<\/em>, uma das guerrilheiras peruanas que est\u00e1 em Paris \u00e9 Lily, a falsa chilena por quem Ricardo Samacurcio se apaixonara. Os dois se encontram, t\u00eam um r\u00e1pido\u00a0<em>affair<\/em>,<em>\u00a0<\/em>mas ela acaba sendo meio obrigada a ir at\u00e9 Cuba fazer seu curso &#8211; e Ricardo fica mais v\u00e1rios anos sem ver o grande amor de sua vida.<\/p>\n<p>Quando os dois se encontram novamente, Ricardo &#8211; que trabalhava fazendo tradu\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas em congressos e \u00f3rg\u00e3os internacionais &#8211; acaba sabendo que a antiga Lily agora era a Madame Arnoux, a rica esposa de Robert Arnoux, um diplomata franc\u00eas. Eles retomam o\u00a0<em>affair<\/em>, mas agora como amantes.<\/p>\n<p>Depois disso, a hist\u00f3ria ainda tem muitas reviravoltas, mas nem \u00e9 necess\u00e1rio descrev\u00ea-las em mais detalhes para n\u00e3o estragar a(s) surpresa(s). S\u00f3 o que se pode adiantar \u00e9 que a\u00a0<em>Menina M\u00e1<\/em>\u00a0(apelido que Samacurcio deu para o grande amor de sua vida) tende a querer sempre quer maridos mais ricos, e Ricardo nunca consegue esquec\u00ea-la.<\/p>\n<p><em>Travessuras da menina m\u00e1\u00a0<\/em>\u00e9 um livro extraordin\u00e1rio. Se, por um lado, a riqueza do personagem da\u00a0<em>Menina M\u00e1\u00a0<\/em>e o grande amor que o narrador sente por ela s\u00e3o os temas mais importantes do romance, por outro os personagens que o narrador encontra pelo caminho s\u00e3o interessant\u00edssimos e bem desenvolvidos. Tanto o guerrilheiro peruano j\u00e1 citado, como o\u00a0<em>hippie\u00a0<\/em>peruano que mora em Londres e o casal &#8211; ele belga, ela venezuelana &#8211; e seu filho adotivo vietnamita mudo s\u00e3o inesquec\u00edveis.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Mario Vargas Llosa (que \u00e9 extremamente interessado em pol\u00edtica &#8211; chegou a concorrer \u00e0 presid\u00eancia do Peru), comenta, com alguma riqueza de detalhes, diversos acontecimentos paralelos \u00e0 conturbada vida de Ricardo Samacurcio: a inquietude na Paris de 1968; a explos\u00e3o da contracultura em Londres no final dos anos sessenta; a triste decad\u00eancia de seu pa\u00eds natal, sempre envolto por golpes de Estado e sucessivos fracassos econ\u00f4micos.<\/p>\n<p><em>Travessuras da menina m\u00e1<\/em>\u00a0\u00e9 um livro bem humorado, profundamente humanista, e, por que n\u00e3o dizer, otimista. Uma prova inequ\u00edvoca de n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ser amargo para se fazer grande literatura.<\/p>\n<p><em>(texto publicado na revista dominical do jornal O Estado do Paran\u00e1, em novembro de 2006)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um bairro rico da cidade peruana de Miraflores duas chilenas surgem movimentando a vida social dos jovens. Lily tinha cerca de 15 anos, enquanto sua irm\u00e3 Lucy tinha uns dois anos a menos. 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