{"id":5343,"date":"2024-05-05T15:54:36","date_gmt":"2024-05-05T18:54:36","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5343"},"modified":"2024-05-05T15:54:36","modified_gmt":"2024-05-05T18:54:36","slug":"inverno-de-karl-ove-knausgard","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5343","title":{"rendered":"&#8220;Inverno&#8221;, de Karl Ove Knausg\u00e5rd"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogger.com\/#\" data-original-attrs=\"{&quot;data-original-href&quot;:&quot;https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5072&quot;}\">Aqui<\/a>\u00a0j\u00e1 tinha comentado que a Quadrilogia das Esta\u00e7\u00f5es, de Karl Ove Knausg\u00e5rd, apresenta um volume para cada uma das esta\u00e7\u00f5es do ano, e que a s\u00e9rie \u00e9 uma esp\u00e9cie de manual de instru\u00e7\u00f5es para uma filha que ainda n\u00e3o tinha nascido. J\u00e1 tinha discorrido sobre &#8220;Outono&#8221;, e o presente texto \u00e9 sobre &#8220;Inverno&#8221; (Companhia das Letras, 232 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o do noruegu\u00eas de Guilherme Silva Braga, publicado originalmente em 2015), o segundo da s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Assim como no livro anterior, &#8220;Inverno&#8221; \u00e9 composto por pequenos textos de cerca de tr\u00eas p\u00e1ginas cada um, comentando sobre assuntos variados, como &#8220;c\u00e9rebro&#8221;, &#8220;montes de neve&#8221;, &#8220;sexo&#8221;, &#8220;ponto de fuga&#8221;.<\/p>\n<p>O estilo de Knausg\u00e5rd \u00e9 fascinante. Ele escreve de maneira t\u00e3o detalhada e interessada sobre assuntos \u00e0s vezes aparentemente insignificantes (como corujas ou cotonetes) que \u00e0s vezes eu imagino que, se Deus fosse falar de sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o &#8211; ou das cria\u00e7\u00f5es dos humanos &#8211; suas palavras seriam semelhantes \u00e0 do grande escritor noruegu\u00eas. Vejam por exemplo este exemplo, o in\u00edcio do texto sobre o c\u00e9rebro:<\/p>\n<blockquote><p>O c\u00e9rebro, que numa pessoa adulta pesa cerca de um quilo, \u00e9 composto de dois hemisf\u00e9rios sim\u00e9tricos e separados por uma fissura longitudinal, e se parece acima de tudo com uma grande noz, no sentido de que a superf\u00edcie \u00e9 toda enrugada, cheia de sulcos e depress\u00f5es, e tamb\u00e9m porque o c\u00e9rebro, a exemplo das nozes, encontra-se no interior de uma casca dura e redonda que faz as vezes de caixa. Mas, enquanto a noz \u00e9 seca, enrugada e morta, o c\u00e9rebro \u00e9 \u00famido e repleto de l\u00edquidos, e nessa perspectiva se parece mais com um molusco, que tamb\u00e9m \u00e9 composto de um interior \u00famido e vivo fechado no interior de uma casca. A diferen\u00e7a mais importante, claro, \u00e9 que o molusco comp\u00f5e uma unidade, que constitui uma criatura em si mesmo, enquanto o c\u00e9rebro \u00e9 apenas um \u00f3rg\u00e3o que integra um todo maior, a saber, o corpo humano, atrav\u00e9s do qual o c\u00e9rebro se ramifica por meio dos in\u00fameros nervos que dele saem. Mas, se pud\u00e9ssemos retirar o c\u00e9rebro da caixa craniana e separar cada um desses nervos, que saem do c\u00e9rebro, descem pela nuca e se espalham por todas as partes do corpo, o c\u00e9rebro haveria de parecer-se\u00a0com\u00a0uma\u00a0criatura \u00e0 parte, n\u00e3o mais uma criatura terrestre, porque n\u00e3o teria pernas nem bra\u00e7os, mas uma criatura que flutua no mar.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aqui\u00a0j\u00e1 tinha comentado que a Quadrilogia das Esta\u00e7\u00f5es, de Karl Ove Knausg\u00e5rd, apresenta um volume para cada uma das esta\u00e7\u00f5es do ano, e que a s\u00e9rie \u00e9 uma esp\u00e9cie de manual de instru\u00e7\u00f5es para uma filha que ainda n\u00e3o tinha nascido. 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