{"id":5324,"date":"2024-04-21T13:07:13","date_gmt":"2024-04-21T16:07:13","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5324"},"modified":"2025-03-09T18:38:43","modified_gmt":"2025-03-09T21:38:43","slug":"livros-que-minha-mae-amava-6-memorial-de-aires-de-machado-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5324","title":{"rendered":"Livros que minha m\u00e3e amava: 6. &#8220;Memorial de Aires&#8221;, de Machado de Assis"},"content":{"rendered":"<p>Comentei <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5270\">aqui <\/a>que minha m\u00e3e amava Machado de Assis como, provavelmente, nenhum outro autor. Contei tamb\u00e9m que eu n\u00e3o tinha gostado muito de uma nova leitura de &#8220;Dom Casmurro&#8221;, provavelmente por saudade dela.<\/p>\n<p>Resolvi tirar a cisma e li (pela segunda) &#8220;Memorial de Aires&#8221;, o \u00faltimo romance escrito pelo Bruxo do Cosme Velho.<\/p>\n<p>No romance, contado em primeira pessoa pelo Conselheiro Aires, diplomata aposentado, um casal idoso, de sobrenome Aguiar, n\u00e3o p\u00f4de ter filhos, mas praticamente ajudou a criar Fid\u00e9lia, filha de um fazendeiro e agora vi\u00fava, e o advogado Trist\u00e3o, que estava em Portugal e voltou para a cidade onde toda a a\u00e7\u00e3o de passa, o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Dom Casmurro, amei &#8220;Memorial de Aires&#8221;. No dizer de Barreto Filho, que faz a introdu\u00e7\u00e3o dos romances de Machado de Assis na edi\u00e7\u00e3o das obras completas do autor da Nova Aguilar Editora, <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5270\">sobre a qual eu tinha comentado anteriormente<\/a> e cuja foto ilustra este texto, comenta:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O escritor est\u00e1 trabalhando com uma m\u00e3o leve, que n\u00e3o conhece mais a \u00eanfase nem a infla\u00e7\u00e3o sentimental. Quando o marido declara que os dois possu\u00edam o \u00fanico e grande ressentimento de n\u00e3o terem filhos, o Conselheiro censura no seu di\u00e1rio semelhante \u00eanfase, e o melhor elogio que tem para Dona Carmo \u00e9 declarar: &#8216;\u00e9 das poucas pessoas a quem nunca ouvi dizer que s\u00e3o doidas por morangos, nem que morrem por ouvir Mozart. Nela a intensidade parece estar mais no sentimento que na express\u00e3o&#8217;. Isso nos d\u00e1 uma amostra das exig\u00eancias de sobriedade a que ele tinha chegado, e que ele pr\u00f3prio praticava, exemplarmente, n\u00e3o somente como homem mas nos seus livros e em particular no Memorial, onde n\u00e3o se encontra nenhuma situa\u00e7\u00e3o, nenhum sentimento, nenhuma reflex\u00e3o sublinhada al\u00e9m de sua medida.<\/p>\n<p>O seu esp\u00edrito chegou aqui a um estado de apuro em que imita ou se confunde com a sabedoria popular. A sua palavra sobre cada coisa vem repassada daquela simplicidade e concis\u00e3o de que \u00e9 feito o ditado, a express\u00e3o ao mesmo tempo \u00fanica e geral. O Memorial est\u00e1 cheio dessas del\u00edcias, e as pr\u00f3prias constru\u00e7\u00f5es casti\u00e7as respiram essa linguagem arcaica que o povo muitas vezes conserva, e esse modo meio jocoso e s\u00e9rio de apreciar as coisas que \u00e9 o patrim\u00f4nio do senso comum. (&#8230;) O seu sistema de ideias constitui um patrim\u00f4nio comum, que se comunica a todos, produzindo-se a surpresa de um encontro entre o grande trabalho de erudi\u00e7\u00e3o e de cultura e o insond\u00e1vel sentimento da comunidade. Eis por que a sua influ\u00eancia \u00e9 cada vez mais ampla e profunda.<\/p>\n<p>Memorial \u00e9 melanc\u00f3lico, mas \u00e9 um depoimento em favor da vida.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Minha m\u00e3e falava pouco deste livro, mas o que importa?<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que a releitura me deu saudades dela.<\/p>\n<p>Ainda mais hoje, no dia do anivers\u00e1rio de seu falecimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comentei aqui que minha m\u00e3e amava Machado de Assis como, provavelmente, nenhum outro autor. Contei tamb\u00e9m que eu n\u00e3o tinha gostado muito de uma nova leitura de &#8220;Dom Casmurro&#8221;, provavelmente por saudade dela. Resolvi tirar a cisma e li (pela segunda) &#8220;Memorial de Aires&#8221;, o \u00faltimo romance escrito pelo Bruxo do Cosme Velho. No romance, contado em primeira pessoa pelo Conselheiro Aires, diplomata aposentado, um casal idoso, de sobrenome Aguiar, n\u00e3o p\u00f4de ter filhos, mas praticamente ajudou a criar Fid\u00e9lia, filha de um fazendeiro e agora vi\u00fava, e o advogado Trist\u00e3o, que estava em Portugal e voltou para a cidade onde toda a a\u00e7\u00e3o de passa, o Rio de Janeiro. Ao contr\u00e1rio de Dom Casmurro, amei &#8220;Memorial de Aires&#8221;. No dizer de Barreto Filho, que faz a introdu\u00e7\u00e3o dos romances de Machado de Assis na edi\u00e7\u00e3o das obras completas do autor da Nova Aguilar Editora, sobre a qual eu tinha comentado anteriormente e cuja foto ilustra este texto, comenta: &#8220;O escritor est\u00e1 trabalhando com uma m\u00e3o leve, que n\u00e3o conhece mais a \u00eanfase nem a infla\u00e7\u00e3o sentimental. 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A sua palavra sobre cada coisa vem repassada daquela simplicidade e concis\u00e3o de que \u00e9 feito o ditado, a express\u00e3o ao mesmo tempo \u00fanica e geral. O Memorial est\u00e1 cheio dessas del\u00edcias, e as pr\u00f3prias constru\u00e7\u00f5es casti\u00e7as respiram essa linguagem arcaica que o povo muitas vezes conserva, e esse modo meio jocoso e s\u00e9rio de apreciar as coisas que \u00e9 o patrim\u00f4nio do senso comum. (&#8230;) O seu sistema de ideias constitui um patrim\u00f4nio comum, que se comunica a todos, produzindo-se a surpresa de um encontro entre o grande trabalho de erudi\u00e7\u00e3o e de cultura e o insond\u00e1vel sentimento da comunidade. Eis por que a sua influ\u00eancia \u00e9 cada vez mais ampla e profunda. Memorial \u00e9 melanc\u00f3lico, mas \u00e9 um depoimento em favor da vida.&#8221; Minha m\u00e3e falava pouco deste livro, mas o que importa? O fato \u00e9 que a releitura me deu saudades dela. 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