{"id":5291,"date":"2024-03-10T15:35:00","date_gmt":"2024-03-10T18:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5291"},"modified":"2024-03-10T15:36:03","modified_gmt":"2024-03-10T18:36:03","slug":"livros-que-minha-mae-amava-5-o-genio-e-a-deusa-de-aldous-huxley","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5291","title":{"rendered":"Livros que minha m\u00e3e amava: 5. &#8220;O G\u00eanio e a Deusa&#8221;, de Aldous Huxley"},"content":{"rendered":"<p>Se esta s\u00e9rie de livros que minha m\u00e3e amava tivesse apenas um exemplar, este certamente seria \u201cO G\u00eanio e a Deusa\u201d (Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 113 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Guilherme Linke, publicado originalmente em 1955), o preferido dela.<\/p>\n<p>Como eu, minha m\u00e3e n\u00e3o costumava reler livros, mas tinha algumas exce\u00e7\u00f5es \u2013 as minhas eu comentei <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5203\">aqui<\/a> pouco tempo atr\u00e1s, e a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o que eu sei dela era (devia ter mais algumas, mas eu n\u00e3o lembro) era este \u201cO G\u00eanio e a Deusa\u201d.<\/p>\n<p>Ela me dizia que tinha lido mais de dez vezes este romance, e que \u00e0s vezes o relia quando lhe dava na telha. Alguns trechos da obra ela repetia em algumas ocasi\u00f5es, e este aqui, sublinhado na edi\u00e7\u00e3o dela, \u00e9 o que eu mais lembro de t\u00ea-la ouvido recitar:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201c\u2019A gente acaba se acostumando\u2019 \u2013 repetiu. Cinquenta por cento das Consola\u00e7\u00f5es da Filosofia em cinco palavras. E os outros cinquenta podem ser expressos em seis: irm\u00e3o, quem est\u00e1 morto, est\u00e1 morto. Ou, se se prefere, em sete: irm\u00e3o, quem est\u00e1 morto, <\/em>n\u00e3o <em>est\u00e1 morto.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Eu n\u00e3o achava esta cita\u00e7\u00e3o nada demais, no in\u00edcio. At\u00e9 que um belo dia percebi que ela falava, de modo descontra\u00eddo e profundo ao mesmo tempo, da vida ap\u00f3s a morte \u2013 provavelmente a maior quest\u00e3o da humanidade.<\/p>\n<p>Outro trecho que ela citava \u00e9 famoso in\u00edcio do livro:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cO mal da fic\u00e7\u00e3o \u2013 disse John Rivers \u2013 \u00e9 que ela faz sentido demais. A realidade nunca faz sentido.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Nunca? \u2013 contestei.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Talvez do ponto de vista de Deus \u2013 concedeu ele. \u2013 Do nosso, nunca. A fic\u00e7\u00e3o tem unidade, a fic\u00e7\u00e3o tem estilo. A realidade n\u00e3o possui uma coisa nem outra.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e est\u00e1 cheia de trechos sublinhados, e l\u00ea-los, claro, me faz lembrar dela.<\/p>\n<p>O jeito como o \u201cO G\u00eanio e a Deusa\u201d \u00e9 contado \u00e9 \u2013 apesar de n\u00e3o original \u2013 bastante interessante. O livro todo \u00e9 uma conversa na noite de Natal, \u00e0 noite, entre o narrador e John Rivers, um f\u00edsico que, trinta anos antes, tinha morado na casa da fam\u00edlia do Dr. Maartens (o \u201cg\u00eanio\u201d do t\u00edtulo), um f\u00edsico vencedor do Pr\u00eamio Nobel, casado com Katy (a \u201cdeusa\u201d), e com dois filhos, Timmy e Ruth. Dr. Maartens, apesar de genial na ci\u00eancia, \u00e9 completamente infantil na vida pessoal (ser\u00e1 que \u00e9 a inspira\u00e7\u00e3o para o personagem Michael Beard, do \u00f3timo \u201cSolar\u201d, de Ian McEwan, sobre o qual comentei <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=891\">aqui<\/a>?), enquanto a bela Katy \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cesteio da casa\u201d e Ruth \u00e9 uma adolescente problem\u00e1tica. Os conflitos pessoais entre John Rivers e os Maartens \u00e9 o tema principal do livro.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 tinha lido \u201cO G\u00eanio e a Deusa\u201d na adolesc\u00eancia, mas n\u00e3o tinha entendido muito. Na releitura, agora, notei que o livro \u00e9 simplesmente uma obra-prima, e merece todo o amor que minha m\u00e3e tinha por ele.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o vou deixar de acabar este texto sem transcrever o \u00faltimo par\u00e1grafo do livro, que minha m\u00e3e sublinhou, e d\u00e1 uma pequena mostra do humor \u00e1cido da minha m\u00e3e:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cGuie com cuidado \u2013 recomendou enquanto abria a porta. \u2013 Este \u00e9 um pa\u00eds crist\u00e3o e hoje \u00e9 o anivers\u00e1rio do Salvador. Praticamente todo mundo que voc\u00ea encontrar estar\u00e1 b\u00eabado.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se esta s\u00e9rie de livros que minha m\u00e3e amava tivesse apenas um exemplar, este certamente seria \u201cO G\u00eanio e a Deusa\u201d (Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 113 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Guilherme Linke, publicado originalmente em 1955), o preferido dela. Como eu, minha m\u00e3e n\u00e3o costumava reler livros, mas tinha algumas exce\u00e7\u00f5es \u2013 as minhas eu comentei aqui pouco tempo atr\u00e1s, e a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o que eu sei dela era (devia ter mais algumas, mas eu n\u00e3o lembro) era este \u201cO G\u00eanio e a Deusa\u201d. Ela me dizia que tinha lido mais de dez vezes este romance, e que \u00e0s vezes o relia quando lhe dava na telha. Alguns trechos da obra ela repetia em algumas ocasi\u00f5es, e este aqui, sublinhado na edi\u00e7\u00e3o dela, \u00e9 o que eu mais lembro de t\u00ea-la ouvido recitar: \u201c\u2019A gente acaba se acostumando\u2019 \u2013 repetiu. Cinquenta por cento das Consola\u00e7\u00f5es da Filosofia em cinco palavras. E os outros cinquenta podem ser expressos em seis: irm\u00e3o, quem est\u00e1 morto, est\u00e1 morto. Ou, se se prefere, em sete: irm\u00e3o, quem est\u00e1 morto, n\u00e3o est\u00e1 morto.\u201d Eu n\u00e3o achava esta cita\u00e7\u00e3o nada demais, no in\u00edcio. 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O livro todo \u00e9 uma conversa na noite de Natal, \u00e0 noite, entre o narrador e John Rivers, um f\u00edsico que, trinta anos antes, tinha morado na casa da fam\u00edlia do Dr. Maartens (o \u201cg\u00eanio\u201d do t\u00edtulo), um f\u00edsico vencedor do Pr\u00eamio Nobel, casado com Katy (a \u201cdeusa\u201d), e com dois filhos, Timmy e Ruth. Dr. Maartens, apesar de genial na ci\u00eancia, \u00e9 completamente infantil na vida pessoal (ser\u00e1 que \u00e9 a inspira\u00e7\u00e3o para o personagem Michael Beard, do \u00f3timo \u201cSolar\u201d, de Ian McEwan, sobre o qual comentei aqui?), enquanto a bela Katy \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cesteio da casa\u201d e Ruth \u00e9 uma adolescente problem\u00e1tica. Os conflitos pessoais entre John Rivers e os Maartens \u00e9 o tema principal do livro. Eu j\u00e1 tinha lido \u201cO G\u00eanio e a Deusa\u201d na adolesc\u00eancia, mas n\u00e3o tinha entendido muito. Na releitura, agora, notei que o livro \u00e9 simplesmente uma obra-prima, e merece todo o amor que minha m\u00e3e tinha por ele. Mas n\u00e3o vou deixar de acabar este texto sem transcrever o \u00faltimo par\u00e1grafo do livro, que minha m\u00e3e sublinhou, e d\u00e1 uma pequena mostra do humor \u00e1cido da minha m\u00e3e: \u201cGuie com cuidado \u2013 recomendou enquanto abria a porta. \u2013 Este \u00e9 um pa\u00eds crist\u00e3o e hoje \u00e9 o anivers\u00e1rio do Salvador. 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