{"id":5270,"date":"2024-02-21T12:12:55","date_gmt":"2024-02-21T15:12:55","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5270"},"modified":"2024-03-10T18:05:39","modified_gmt":"2024-03-10T21:05:39","slug":"livros-que-minha-mae-amava-4-dom-casmurro-de-machado-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5270","title":{"rendered":"Livros que minha m\u00e3e amava: 4. &#8220;Dom Casmurro&#8221;, de Machado de Assis"},"content":{"rendered":"<p>Lembro como se fosse hoje. Minha m\u00e3e trabalhava na firma do meu pai, e um dia eu estava na sala dela. Tinha uma prateleira com poucos livros e, no meio destes, havia tr\u00eas livros grossos, bel\u00edssimos, em papel-b\u00edblia, mas que n\u00e3o eram a B\u00edblia. Era uma edi\u00e7\u00e3o das \u201cObras Completas de Machado de Assis\u201d, da Companhia Jos\u00e9 Aguilar, de 1971.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro que ano era, est\u00e1vamos no final dos anos 1970 ou in\u00edcio dos anos 1980. Peguei os livros e comecei a folhe\u00e1-los, simplesmente inebriado. Nunca tinha visto edi\u00e7\u00f5es t\u00e3o lindas como aquelas. Perguntei para minha m\u00e3e de quem eram aqueles livros. \u201cS\u00e3o teus\u201d, ela respondeu.<\/p>\n<p>A alegria que me invadiu naquele momento \u00e9 dif\u00edcil de ser definida, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Li grande parte dos romances de Machado de Assis naquela edi\u00e7\u00e3o, no primeiro volume, muitos deles mais de duas vezes. Tamb\u00e9m li a maioria dos contos, no segundo volume, e algumas pe\u00e7as e poesias, no terceiro. Nunca li as cr\u00f4nicas, que formam boa parte do terceiro volume, mas l\u00ea-las \u00e9 um projeto que carrego comigo at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e amava Machado de Assis como, acho, n\u00e3o amou nenhum outro autor, brasileiro ou estrangeiro. Ela fazia uma cita\u00e7\u00e3o, que nem ela lembrava de quem era, que dizia que \u201cas casas de Machado n\u00e3o t\u00eam quintais\u201d \u2013 uma refer\u00eancia \u00e0s poucas descri\u00e7\u00f5es de lugares e paisagens no autor, ao contr\u00e1rio do que acontecia com outro grande escritor do tempo do Imp\u00e9rio, Jos\u00e9 de Alencar. Ela sempre contava que tinha chorado quando, ainda jovem, acabou de ler o \u00faltimo livro de Machado, pois n\u00e3o teria mais nada novo dele para ler. Lamentava que ele escrevesse em portugu\u00eas, e que fosse pouco conhecido fora do pa\u00eds, e ficou muito feliz quando lhe contei que \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d era um dos livros preferidos de Woody Allen. \u00c0s vezes, ela me perguntava: Capitu traiu ou n\u00e3o? E achava estranho que eu lhe dizia que preferia Lima Barreto a Machado de Assis.<\/p>\n<p>Para esta s\u00e9rie \u201clivros que minha m\u00e3e amava\u201d resolvi reler (pela segunda ou terceira vez) \u201cDom Casmurro\u201d. Tinha gostado muito de mais uma releitura de \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d, em 2016, conforme conto <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2860\">aqui<\/a>. Mas com Dom Casmurro a situa\u00e7\u00e3o foi bem diferente. Desde a primeira vez que o li, a parte que eu mais tinha gostado era a sensibilidade com que era contado o in\u00edcio do namoro entre Bentinho e Capitu. Desta vez, ao contr\u00e1rio, o final do romance estava muito na minha cabe\u00e7a \u2013 s\u00e3o tantos os debates sobre a suposta, ou n\u00e3o, trai\u00e7\u00e3o da personagem principal do romance que, para mim, era inevit\u00e1vel pensar no que aconteceria p\u00e1ginas adiante.<\/p>\n<p>Achei, enfim, um livro amargo, pesado, que n\u00e3o me deu nenhuma alegria ao l\u00ea-lo. Ou, quem sabe, seja s\u00f3 saudade da minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Mas ela n\u00e3o me deixaria terminar este texto sem responder a esta quest\u00e3o, a mais famosa da literatura brasileira: Capitu traiu Bentinho ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Para mim ela traiu sim, m\u00e3e, e acho que voc\u00ea concorda comigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro como se fosse hoje. Minha m\u00e3e trabalhava na firma do meu pai, e um dia eu estava na sala dela. Tinha uma prateleira com poucos livros e, no meio destes, havia tr\u00eas livros grossos, bel\u00edssimos, em papel-b\u00edblia, mas que n\u00e3o eram a B\u00edblia. Era uma edi\u00e7\u00e3o das \u201cObras Completas de Machado de Assis\u201d, da Companhia Jos\u00e9 Aguilar, de 1971. N\u00e3o lembro que ano era, est\u00e1vamos no final dos anos 1970 ou in\u00edcio dos anos 1980. Peguei os livros e comecei a folhe\u00e1-los, simplesmente inebriado. Nunca tinha visto edi\u00e7\u00f5es t\u00e3o lindas como aquelas. Perguntei para minha m\u00e3e de quem eram aqueles livros. \u201cS\u00e3o teus\u201d, ela respondeu. A alegria que me invadiu naquele momento \u00e9 dif\u00edcil de ser definida, at\u00e9 hoje. Li grande parte dos romances de Machado de Assis naquela edi\u00e7\u00e3o, no primeiro volume, muitos deles mais de duas vezes. Tamb\u00e9m li a maioria dos contos, no segundo volume, e algumas pe\u00e7as e poesias, no terceiro. Nunca li as cr\u00f4nicas, que formam boa parte do terceiro volume, mas l\u00ea-las \u00e9 um projeto que carrego comigo at\u00e9 hoje. Minha m\u00e3e amava Machado de Assis como, acho, n\u00e3o amou nenhum outro autor, brasileiro ou estrangeiro. Ela fazia uma cita\u00e7\u00e3o, que nem ela lembrava de quem era, que dizia que \u201cas casas de Machado n\u00e3o t\u00eam quintais\u201d \u2013 uma refer\u00eancia \u00e0s poucas descri\u00e7\u00f5es de lugares e paisagens no autor, ao contr\u00e1rio do que acontecia com outro grande escritor do tempo do Imp\u00e9rio, Jos\u00e9 de Alencar. Ela sempre contava que tinha chorado quando, ainda jovem, acabou de ler o \u00faltimo livro de Machado, pois n\u00e3o teria mais nada novo dele para ler. Lamentava que ele escrevesse em portugu\u00eas, e que fosse pouco conhecido fora do pa\u00eds, e ficou muito feliz quando lhe contei que \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d era um dos livros preferidos de Woody Allen. \u00c0s vezes, ela me perguntava: Capitu traiu ou n\u00e3o? E achava estranho que eu lhe dizia que preferia Lima Barreto a Machado de Assis. Para esta s\u00e9rie \u201clivros que minha m\u00e3e amava\u201d resolvi reler (pela segunda ou terceira vez) \u201cDom Casmurro\u201d. Tinha gostado muito de mais uma releitura de \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d, em 2016, conforme conto aqui. Mas com Dom Casmurro a situa\u00e7\u00e3o foi bem diferente. Desde a primeira vez que o li, a parte que eu mais tinha gostado era a sensibilidade com que era contado o in\u00edcio do namoro entre Bentinho e Capitu. Desta vez, ao contr\u00e1rio, o final do romance estava muito na minha cabe\u00e7a \u2013 s\u00e3o tantos os debates sobre a suposta, ou n\u00e3o, trai\u00e7\u00e3o da personagem principal do romance que, para mim, era inevit\u00e1vel pensar no que aconteceria p\u00e1ginas adiante. Achei, enfim, um livro amargo, pesado, que n\u00e3o me deu nenhuma alegria ao l\u00ea-lo. Ou, quem sabe, seja s\u00f3 saudade da minha m\u00e3e. Mas ela n\u00e3o me deixaria terminar este texto sem responder a esta quest\u00e3o, a mais famosa da literatura brasileira: Capitu traiu Bentinho ou n\u00e3o? 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