{"id":5147,"date":"2023-05-14T14:48:18","date_gmt":"2023-05-14T17:48:18","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5147"},"modified":"2023-05-14T15:32:04","modified_gmt":"2023-05-14T18:32:04","slug":"essentials-com-helene-grimaud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5147","title":{"rendered":"\u201cEssentials\u201d, com H\u00e9l\u00e8ne Grimaud"},"content":{"rendered":"<p>Para um n\u00e3o-m\u00fasico como eu, provavelmente o grande segredo para ouvir m\u00fasica cl\u00e1ssica de maneira um pouco mais aprofundada seja ouvir a mesma pe\u00e7a com dois ou mais int\u00e9rpretes diferentes. Por exemplo, eu tinha muitos LPs de pe\u00e7as de teclado de Bach com o pianista brasileiro Jo\u00e3o Carlos Martins, e era o que eu conhecia em termos de interpreta\u00e7\u00e3o de piano do grande compositor alem\u00e3o. At\u00e9 hoje lembro do choque que foi ouvir o vol. I das Toccatas de Bach (BWV 910, 912, 913) com o pianista canadense Glenn Gould, depois de comprar o disco \u2013 muito bem recomendado pela Veja, \u00e9 bom que se diga. As pe\u00e7as, que na verdade eu nem sabia que existiam na \u00e9poca, eram executadas com um brilho e uma emo\u00e7\u00e3o que eu simplesmente n\u00e3o conseguia perceber em Jo\u00e3o Carlos Martins. Parecia outro mundo.<\/p>\n<p>Lembro de uns outros poucos exemplos: Vladimir Horowitz e a NBC Symphony Orchestra regida por Arturo Toscanini pareciam movimentar todo o cosmo para executar o Concerto para Piano n.2, apesar das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o feita em 1940, enquanto a vers\u00e3o da mesma pe\u00e7a na Cole\u00e7\u00e3o Mestres da M\u00fasica, da Editora Abril, parecia nunca sair de um torpor eterno. O monumental ciclo Das Lied von der Erde (A Can\u00e7\u00e3o da Terra) de Gustav Mahler com Jessie Norman e Jon Vickers e a London Symphony Orchestra regida por Sir Colin Davis parece revolver o que h\u00e1 de mais profundo na alma humana, enquanto uma vers\u00e3o que comprei em CD, n\u00e3o lembro com quem, parecia executada por uma s\u00e9rie de rob\u00f4s com pregui\u00e7a.<\/p>\n<p>Infelizmente, nem sempre me dediquei o suficiente para comparar a mesma pe\u00e7a com diversos int\u00e9rpretes. Mesmo assim, algumas coisas, para meus ouvidos n\u00e3o treinados, chamaram a minha aten\u00e7\u00e3o e parecem excepcionais por si, sem o refor\u00e7o da compara\u00e7\u00e3o com outras vers\u00f5es. Posso citar neste caso as Sonatas para Violoncelo de Brahms com Mstislav Rostropovitch e Rudolf Serkin, o Concerto n. 4 para Piano e Orquestra de Beethoven com Claudio Arrau e a Staatskapelle Dresden regida por Sir Colin Davis, ou Trios para Piano K. 496 e K. 502 de Mozart com Maria Jo\u00e3o Pires, Augustin Dumay e Jian Wang.<\/p>\n<p>Tudo isso para chegar no disco lan\u00e7ado no in\u00edcio de 2020 pela Deutsche Grammophon \u201cEssentials\u201d, da pianista francesa H\u00e9l\u00e8ne Grimaud, que tamb\u00e9m atua na preserva\u00e7\u00e3o de lobos (!) nos Estados Unidos. Pe\u00e7as que eu j\u00e1 conhecia com outros int\u00e9rpretes &#8211; como o Noturno em Mi Menor Op. 72, n.1 de Chopin, o Prel\u00fadio e Fuga n.1 BWV 846 de Bach ou a Melodia do \u201cOrfeu e Eur\u00eddice\u201d de Gluck com arranjo de Sgambati -, ou pe\u00e7as que eu nunca tinha ouvido antes &#8211; como a Bagatelle I de Valentin Silvestrov, Breathing Light de Nitin Sawhney ou 6 Romanian Folk Dances, BB 68, Sz. 56: I. Stick Dance de B\u00e9la Bart\u00f3k &#8211; parecem levar a m\u00fasica a outro patamar. \u00c0s vezes eu sinto que H\u00e9l\u00e8ne Grimaud parece n\u00e3o ser deste mundo. Que coisa linda, minha gente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para um n\u00e3o-m\u00fasico como eu, provavelmente o grande segredo para ouvir m\u00fasica cl\u00e1ssica de maneira um pouco mais aprofundada seja ouvir a mesma pe\u00e7a com dois ou mais int\u00e9rpretes diferentes. Por exemplo, eu tinha muitos LPs de pe\u00e7as de teclado de Bach com o pianista brasileiro Jo\u00e3o Carlos Martins, e era o que eu conhecia em termos de interpreta\u00e7\u00e3o de piano do grande compositor alem\u00e3o. At\u00e9 hoje lembro do choque que foi ouvir o vol. I das Toccatas de Bach (BWV 910, 912, 913) com o pianista canadense Glenn Gould, depois de comprar o disco \u2013 muito bem recomendado pela Veja, \u00e9 bom que se diga. As pe\u00e7as, que na verdade eu nem sabia que existiam na \u00e9poca, eram executadas com um brilho e uma emo\u00e7\u00e3o que eu simplesmente n\u00e3o conseguia perceber em Jo\u00e3o Carlos Martins. Parecia outro mundo. Lembro de uns outros poucos exemplos: Vladimir Horowitz e a NBC Symphony Orchestra regida por Arturo Toscanini pareciam movimentar todo o cosmo para executar o Concerto para Piano n.2, apesar das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o feita em 1940, enquanto a vers\u00e3o da mesma pe\u00e7a na Cole\u00e7\u00e3o Mestres da M\u00fasica, da Editora Abril, parecia nunca sair de um torpor eterno. O monumental ciclo Das Lied von der Erde (A Can\u00e7\u00e3o da Terra) de Gustav Mahler com Jessie Norman e Jon Vickers e a London Symphony Orchestra regida por Sir Colin Davis parece revolver o que h\u00e1 de mais profundo na alma humana, enquanto uma vers\u00e3o que comprei em CD, n\u00e3o lembro com quem, parecia executada por uma s\u00e9rie de rob\u00f4s com pregui\u00e7a. Infelizmente, nem sempre me dediquei o suficiente para comparar a mesma pe\u00e7a com diversos int\u00e9rpretes. Mesmo assim, algumas coisas, para meus ouvidos n\u00e3o treinados, chamaram a minha aten\u00e7\u00e3o e parecem excepcionais por si, sem o refor\u00e7o da compara\u00e7\u00e3o com outras vers\u00f5es. Posso citar neste caso as Sonatas para Violoncelo de Brahms com Mstislav Rostropovitch e Rudolf Serkin, o Concerto n. 4 para Piano e Orquestra de Beethoven com Claudio Arrau e a Staatskapelle Dresden regida por Sir Colin Davis, ou Trios para Piano K. 496 e K. 502 de Mozart com Maria Jo\u00e3o Pires, Augustin Dumay e Jian Wang. Tudo isso para chegar no disco lan\u00e7ado no in\u00edcio de 2020 pela Deutsche Grammophon \u201cEssentials\u201d, da pianista francesa H\u00e9l\u00e8ne Grimaud, que tamb\u00e9m atua na preserva\u00e7\u00e3o de lobos (!) nos Estados Unidos. Pe\u00e7as que eu j\u00e1 conhecia com outros int\u00e9rpretes &#8211; como o Noturno em Mi Menor Op. 72, n.1 de Chopin, o Prel\u00fadio e Fuga n.1 BWV 846 de Bach ou a Melodia do \u201cOrfeu e Eur\u00eddice\u201d de Gluck com arranjo de Sgambati -, ou pe\u00e7as que eu nunca tinha ouvido antes &#8211; como a Bagatelle I de Valentin Silvestrov, Breathing Light de Nitin Sawhney ou 6 Romanian Folk Dances, BB 68, Sz. 56: I. Stick Dance de B\u00e9la Bart\u00f3k &#8211; parecem levar a m\u00fasica a outro patamar. \u00c0s vezes eu sinto que H\u00e9l\u00e8ne Grimaud parece n\u00e3o ser deste mundo. 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