{"id":5126,"date":"2023-03-26T17:40:34","date_gmt":"2023-03-26T20:40:34","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5126"},"modified":"2023-03-26T17:46:39","modified_gmt":"2023-03-26T20:46:39","slug":"nunca-houve-uma-cantora-brasileira-como-marisa-monte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5126","title":{"rendered":"Nunca houve uma cantora brasileira como Marisa Monte"},"content":{"rendered":"<p>As novas gera\u00e7\u00f5es nunca v\u00e3o saber o que era fazer sucesso antes do advento da internet. Hoje em dia, se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 interessado nos estilos, \u00e9 f\u00e1cil n\u00e3o saber quem s\u00e3o os cantores de megassucessos AgroPlay &amp; Ana Castela, Treyce, Selena Gomez ou Drake. At\u00e9, digamos, o final dos anos 1990, era muito dif\u00edcil n\u00e3o ser exposto, em determinadas \u00e9pocas, a m\u00fasicas de gente como Ultraje a Rigor, RPM, Madonna ou Prince. Eram poucos canais de televis\u00e3o (a TV a cabo s\u00f3 surgiu no Brasil em 1989), poucas esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio, a internet n\u00e3o existia \u2013 nem se imaginava uma coisa dessas. A pulveriza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, iniciada h\u00e1 algumas poucas d\u00e9cadas, mudou tudo: lembro de mostrar para minha filha, quando ela tinha, sei l\u00e1, uns dez anos, um programinha de computador que imitava o apresentador Silvio o Santos, e ela n\u00e3o achou gra\u00e7a porque <em>n\u00e3o conhecia a voz dele<\/em> \u2013 certamente s\u00e3o rar\u00edssimos os brasileiros da minha idade que n\u00e3o reconhecem a voz do comunicador.<\/p>\n<p>Quando a m\u00fasica \u201cBem que se Quis\u201d, da cantora estreante Marisa Monte, surgiu no horizonte musical brasileiro em 1989, foi um sucesso no estilo daqueles de Roberto Carlos nos anos 1970 ou de Michael Jackson nos anos 1980: o p\u00fablico estava exposto \u00e0 m\u00fasica de maneira que poucos podiam ignor\u00e1-la. Eu mesmo n\u00e3o me impressionei nada com a can\u00e7\u00e3o, mas acho que sei cant\u00e1-la de cor at\u00e9 hoje \u2013 ainda bem que n\u00e3o pretendo fazer isso perto de ningu\u00e9m, seria muito constrangedor para os poss\u00edveis envolvidos.<\/p>\n<p>Em 1991 Marisa Monte lan\u00e7a outro megassucesso, \u201cBeija Eu\u201d, com letra de Arnaldo Antunes, que tamb\u00e9m n\u00e3o me impressionou nada.<\/p>\n<p>Por mais que tente, eu n\u00e3o consigo lembrar por que resolvi comprar o CD \u201cVerde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carv\u00e3o\u201d (cuja capa acompanha este texto), em 1994: nada do que ela tinha lan\u00e7ado antes tinha me agradado, e os jornalistas que eu acompanhava na \u00e9poca debochavam incessantemente dela e da \u201cnova MPB\u201d daqueles tempos. Enfim, ap\u00f3s poucas audi\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum eu conclu\u00ed algo que continuo defendendo: nunca houve uma cantora brasileira como ela. O disco era perfeito, melanc\u00f3lico, sutil, e o timbre de Marisa Monte era algo que n\u00e3o parecia deste mundo. Cheguei a comentar sobre ele no meu \u201cRua Para\u00edba\u201d:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cEu nunca gostei muito de ouvir m\u00fasicas repetidamente: tanto pelo fato de sempre ter apreciado v\u00e1rios estilos diferentes, quanto por ter medo de me cansar do que estou ouvindo, o repeat nunca foi meu forte \u2014 mesmo no tempo dos LPs, poucos foram os discos que ficaram muito tempo seguido no aparelho de som. <\/em><\/p>\n<p><em>Nas minhas madrugadas fazendo disserta\u00e7\u00e3o, meio que deixei esse costume de lado. Em boa parte do tempo despendido escrevendo ou programando eu ouvia o CD \u201cCor de Rosa e Carv\u00e3o\u201d, de Marisa Monte, no aparelho de som do escrit\u00f3rio, ou a fita cassete oficial (nem tinha sido lan\u00e7ado o LP no Brasil) de \u201cCheck Your Head\u201d, do grupo de rap americano Beastie Boys, que eu escutava num aparelho pequeno que tinha apenas r\u00e1dio e toca-fitas. O melanc\u00f3lico e bel\u00edssimo disco de Marisa Monte era uma boa companhia para aquelas muitas horas solit\u00e1rias.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O tempo foi passando, fui deixando Marisa Monte de lado \u2013 mesmo assim gostei muito do primeiro disco dos Tribalistas, com ela, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes. Em 2006 ela lan\u00e7a outro \u00e1lbum quase t\u00e3o bom quanto \u201cVerde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carv\u00e3o\u201d: \u201cUniverso ao Meu Redor\u201d, composto quase que s\u00f3 por sambas, alegre, positivo, que parece querer fazer com que o ouvinte fique de bom humor assim que o ou\u00e7a. Fascinado, ouvi muitas e muitas vezes este disco, que tem como grandes destaques a faixa-t\u00edtulo e \u201cMeu can\u00e1rio\u201d. \u201cUniverso ao meu redor\u201d foi lan\u00e7ado simultaneamente com outro disco com proposta bastante diferente, \u201cInfinito particular\u201d &#8211; muito bom tamb\u00e9m mas que, na minha opini\u00e3o, n\u00e3o se compara com aquele.<\/p>\n<p>Passei mais um bom tempo praticamente sem ouvir Marisa Monte at\u00e9 que resolvi baixar, uns poucos anos atr\u00e1s, no Spotify, \u201cVerde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carv\u00e3o\u201d: na primeira audi\u00e7\u00e3o me senti transportado para meus anos escrevendo a disserta\u00e7\u00e3o \u2013 Marcel Proust explicou isso antes. Passou mais algum tempo e descobri que a cantora ia fazer um show aqui em Curitiba, em duas datas no Teatro Positivo. Comprei o ingresso para o dia 10 de setembro de 2022 e resolvi ir atr\u00e1s da setlist e do novo disco dela, \u201cPortas\u201d: outro lan\u00e7amento excepcional, com maravilhas como a faixa-t\u00edtulo, \u201cCalma\u201d, \u201cD\u00e9j\u00e0 Vu\u201d, \u201cA L\u00edngua dos Animais\u201d e o grande destaque, o fado \u201cVagalumes\u201d.<\/p>\n<p>O show foi uma experi\u00eancia quase m\u00edstica, dif\u00edcil de descrever em palavras \u2013 at\u00e9 por isso acabei n\u00e3o escrevendo sobre ele na \u00e9poca. A coisa foi t\u00e3o louca que at\u00e9 amigos que n\u00e3o s\u00e3o f\u00e3s, nem costumam ouvir MPB, gostaram do espet\u00e1culo (como nota complementar, a plateia canta \u201cBem que se Quis\u201d, citada acima, <em>a capella<\/em> no final do show).<\/p>\n<p>Nunca houve uma cantora brasileira como Marisa Monte. Ningu\u00e9m me tira isso da cabe\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As novas gera\u00e7\u00f5es nunca v\u00e3o saber o que era fazer sucesso antes do advento da internet. Hoje em dia, se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 interessado nos estilos, \u00e9 f\u00e1cil n\u00e3o saber quem s\u00e3o os cantores de megassucessos AgroPlay &amp; Ana Castela, Treyce, Selena Gomez ou Drake. At\u00e9, digamos, o final dos anos 1990, era muito dif\u00edcil n\u00e3o ser exposto, em determinadas \u00e9pocas, a m\u00fasicas de gente como Ultraje a Rigor, RPM, Madonna ou Prince. Eram poucos canais de televis\u00e3o (a TV a cabo s\u00f3 surgiu no Brasil em 1989), poucas esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio, a internet n\u00e3o existia \u2013 nem se imaginava uma coisa dessas. A pulveriza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, iniciada h\u00e1 algumas poucas d\u00e9cadas, mudou tudo: lembro de mostrar para minha filha, quando ela tinha, sei l\u00e1, uns dez anos, um programinha de computador que imitava o apresentador Silvio o Santos, e ela n\u00e3o achou gra\u00e7a porque n\u00e3o conhecia a voz dele \u2013 certamente s\u00e3o rar\u00edssimos os brasileiros da minha idade que n\u00e3o reconhecem a voz do comunicador. Quando a m\u00fasica \u201cBem que se Quis\u201d, da cantora estreante Marisa Monte, surgiu no horizonte musical brasileiro em 1989, foi um sucesso no estilo daqueles de Roberto Carlos nos anos 1970 ou de Michael Jackson nos anos 1980: o p\u00fablico estava exposto \u00e0 m\u00fasica de maneira que poucos podiam ignor\u00e1-la. Eu mesmo n\u00e3o me impressionei nada com a can\u00e7\u00e3o, mas acho que sei cant\u00e1-la de cor at\u00e9 hoje \u2013 ainda bem que n\u00e3o pretendo fazer isso perto de ningu\u00e9m, seria muito constrangedor para os poss\u00edveis envolvidos. Em 1991 Marisa Monte lan\u00e7a outro megassucesso, \u201cBeija Eu\u201d, com letra de Arnaldo Antunes, que tamb\u00e9m n\u00e3o me impressionou nada. Por mais que tente, eu n\u00e3o consigo lembrar por que resolvi comprar o CD \u201cVerde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carv\u00e3o\u201d (cuja capa acompanha este texto), em 1994: nada do que ela tinha lan\u00e7ado antes tinha me agradado, e os jornalistas que eu acompanhava na \u00e9poca debochavam incessantemente dela e da \u201cnova MPB\u201d daqueles tempos. Enfim, ap\u00f3s poucas audi\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum eu conclu\u00ed algo que continuo defendendo: nunca houve uma cantora brasileira como ela. O disco era perfeito, melanc\u00f3lico, sutil, e o timbre de Marisa Monte era algo que n\u00e3o parecia deste mundo. Cheguei a comentar sobre ele no meu \u201cRua Para\u00edba\u201d: \u201cEu nunca gostei muito de ouvir m\u00fasicas repetidamente: tanto pelo fato de sempre ter apreciado v\u00e1rios estilos diferentes, quanto por ter medo de me cansar do que estou ouvindo, o repeat nunca foi meu forte \u2014 mesmo no tempo dos LPs, poucos foram os discos que ficaram muito tempo seguido no aparelho de som. Nas minhas madrugadas fazendo disserta\u00e7\u00e3o, meio que deixei esse costume de lado. Em boa parte do tempo despendido escrevendo ou programando eu ouvia o CD \u201cCor de Rosa e Carv\u00e3o\u201d, de Marisa Monte, no aparelho de som do escrit\u00f3rio, ou a fita cassete oficial (nem tinha sido lan\u00e7ado o LP no Brasil) de \u201cCheck Your Head\u201d, do grupo de rap americano Beastie Boys, que eu escutava num aparelho pequeno que tinha apenas r\u00e1dio e toca-fitas. O melanc\u00f3lico e bel\u00edssimo disco de Marisa Monte era uma boa companhia para aquelas muitas horas solit\u00e1rias.\u201d O tempo foi passando, fui deixando Marisa Monte de lado \u2013 mesmo assim gostei muito do primeiro disco dos Tribalistas, com ela, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes. Em 2006 ela lan\u00e7a outro \u00e1lbum quase t\u00e3o bom quanto \u201cVerde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carv\u00e3o\u201d: \u201cUniverso ao Meu Redor\u201d, composto quase que s\u00f3 por sambas, alegre, positivo, que parece querer fazer com que o ouvinte fique de bom humor assim que o ou\u00e7a. Fascinado, ouvi muitas e muitas vezes este disco, que tem como grandes destaques a faixa-t\u00edtulo e \u201cMeu can\u00e1rio\u201d. \u201cUniverso ao meu redor\u201d foi lan\u00e7ado simultaneamente com outro disco com proposta bastante diferente, \u201cInfinito particular\u201d &#8211; muito bom tamb\u00e9m mas que, na minha opini\u00e3o, n\u00e3o se compara com aquele. Passei mais um bom tempo praticamente sem ouvir Marisa Monte at\u00e9 que resolvi baixar, uns poucos anos atr\u00e1s, no Spotify, \u201cVerde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carv\u00e3o\u201d: na primeira audi\u00e7\u00e3o me senti transportado para meus anos escrevendo a disserta\u00e7\u00e3o \u2013 Marcel Proust explicou isso antes. Passou mais algum tempo e descobri que a cantora ia fazer um show aqui em Curitiba, em duas datas no Teatro Positivo. Comprei o ingresso para o dia 10 de setembro de 2022 e resolvi ir atr\u00e1s da setlist e do novo disco dela, \u201cPortas\u201d: outro lan\u00e7amento excepcional, com maravilhas como a faixa-t\u00edtulo, \u201cCalma\u201d, \u201cD\u00e9j\u00e0 Vu\u201d, \u201cA L\u00edngua dos Animais\u201d e o grande destaque, o fado \u201cVagalumes\u201d. O show foi uma experi\u00eancia quase m\u00edstica, dif\u00edcil de descrever em palavras \u2013 at\u00e9 por isso acabei n\u00e3o escrevendo sobre ele na \u00e9poca. A coisa foi t\u00e3o louca que at\u00e9 amigos que n\u00e3o s\u00e3o f\u00e3s, nem costumam ouvir MPB, gostaram do espet\u00e1culo (como nota complementar, a plateia canta \u201cBem que se Quis\u201d, citada acima, a capella no final do show). Nunca houve uma cantora brasileira como Marisa Monte. 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