{"id":5116,"date":"2023-02-12T15:41:00","date_gmt":"2023-02-12T18:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5116"},"modified":"2023-02-12T15:45:05","modified_gmt":"2023-02-12T18:45:05","slug":"viagem-ao-fim-da-noite-de-louis-ferdinand-celine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5116","title":{"rendered":"&#8220;Viagem ao fim da noite&#8221;, de Louis-Ferdinand C\u00e9line"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Louis-Ferdinand C\u00e9line (1894-1961) \u00e9 considerado por muitos um dos dois grandes escritores franceses do s\u00e9culo XX, ao lado de Marcel Proust.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ele j\u00e1 tinha publicado com sucesso duas obras-primas, \u201cViagem ao fim da noite\u201d (1932) e \u201cMorte a cr\u00e9dito\u201d (1936), quando, nas v\u00e9speras da Segunda Guerra Mundial, lan\u00e7ou tr\u00eas panfletos antissemitas que terminaram causando sua pris\u00e3o de dois anos na Dinamarca em 1945, depois do final da guerra, e que fizeram com que seus \u00faltimos anos, j\u00e1 na Fran\u00e7a a partir de 1951, fossem vividos quase no obscurecimento &#8211; ele tamb\u00e9m era m\u00e9dico, e aparentemente tinha pouqu\u00edssimos pacientes \u00e0quela altura.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A rela\u00e7\u00e3o entre a qualidade de seus livros e a personalidade desprez\u00edvel do seu autor \u00e9 sempre problem\u00e1tica. Lembro de um trecho de um livro do escritor judeu Philip Roth, em que um personagem, um professor de literatura tamb\u00e9m judeu, ensinava C\u00e9line nas suas aulas porque o autor era um g\u00eanio, mesmo n\u00e3o prestando como pessoa. St\u00e9phane Zagdanski \u00e9 um estudioso judeu de Louis-Ferdinand C\u00e9line e que descreve o antissemitismo do autor <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KGBa3SyqxIA&amp;t=1788s\"><span style=\"font-weight: 400\">neste v\u00eddeo<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, onde ele diz &#8211; entre muitas outras coisas &#8211; que pode amar as obras do escritor franc\u00eas apesar de sua pr\u00f3pria origem judaica. Grande conhecedor de literatura, o ex-presidente franc\u00eas Nicolas Sarkozy comenta <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=obMnaJTrvQk\"><span style=\"font-weight: 400\">neste v\u00eddeo<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> que \u201cC\u00e9line escreveu tr\u00eas obras-primas mas, quanto ao resto, \u00e9 uma vergonha\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Meio por curiosidade, meio pelo meu amor \u00e0 literatura, resolvi encarar a leitura de \u201cViagem ao fim da noite\u201d (Companhia das Letras, 659 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o Rosa Freire d\u2019Aguiar), mesmo sabendo de tudo isso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O livro \u00e9 contado em primeira pessoa pelo personagem principal, o franc\u00eas Ferdinand Bardamu. Ele luta na Primeira Guerra Mundial e faz de tudo para desertar. Depois tenta a sorte na \u00c1frica, mas as condi\u00e7\u00f5es que ele encontra s\u00e3o dific\u00edlimas; desiste de l\u00e1 e acaba se arriscando nos Estados Unidos. Naquele pa\u00eds as coisas n\u00e3o melhoram muito e Bardamu volta para a Fran\u00e7a, onde se forma em medicina. A vida como m\u00e9dico n\u00e3o representa uma grande melhora em suas condi\u00e7\u00f5es de vida: ele se envolve em v\u00e1rios tipos de problemas, at\u00e9 policiais, e ganha pouco dinheiro por n\u00e3o ser bom em cobrar de seus pacientes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eu entendo o choque cultural que foi a publica\u00e7\u00e3o de \u201cViagem ao fim da noite\u201d: seu estilo tem grande influ\u00eancia da oralidade, \u00e9 \u00e1gil e cheio de g\u00edrias (tentei ler \u201cMorte a cr\u00e9dito\u201d em franc\u00eas muitos anos atr\u00e1s, mas desisti pela dificuldade de compreens\u00e3o de muitos termos de origem popular utilizados pelo autor). E acabei conseguindo entender a influ\u00eancia de C\u00e9line no j\u00e1 citado Philip Roth, devido \u00e0 crueza e agilidade do estilo de ambos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas, confesso, o niilismo quase absoluto de Louis-Ferdinand C\u00e9line &#8211; parece que nada na vida tem valor para ele &#8211; acabou tornando a leitura de &#8220;Viagem ao fim da noite&#8221; pesada para mim.\u00a0 Pelo menos o livro n\u00e3o tem uma linha contra os judeus.<\/span><\/p>\n<p><em>(foto que acompanha o texto obtida na Wikip\u00e9dia)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Louis-Ferdinand C\u00e9line (1894-1961) \u00e9 considerado por muitos um dos dois grandes escritores franceses do s\u00e9culo XX, ao lado de Marcel Proust. Ele j\u00e1 tinha publicado com sucesso duas obras-primas, \u201cViagem ao fim da noite\u201d (1932) e \u201cMorte a cr\u00e9dito\u201d (1936), quando, nas v\u00e9speras da Segunda Guerra Mundial, lan\u00e7ou tr\u00eas panfletos antissemitas que terminaram causando sua pris\u00e3o de dois anos na Dinamarca em 1945, depois do final da guerra, e que fizeram com que seus \u00faltimos anos, j\u00e1 na Fran\u00e7a a partir de 1951, fossem vividos quase no obscurecimento &#8211; ele tamb\u00e9m era m\u00e9dico, e aparentemente tinha pouqu\u00edssimos pacientes \u00e0quela altura.\u00a0 A rela\u00e7\u00e3o entre a qualidade de seus livros e a personalidade desprez\u00edvel do seu autor \u00e9 sempre problem\u00e1tica. Lembro de um trecho de um livro do escritor judeu Philip Roth, em que um personagem, um professor de literatura tamb\u00e9m judeu, ensinava C\u00e9line nas suas aulas porque o autor era um g\u00eanio, mesmo n\u00e3o prestando como pessoa. St\u00e9phane Zagdanski \u00e9 um estudioso judeu de Louis-Ferdinand C\u00e9line e que descreve o antissemitismo do autor neste v\u00eddeo, onde ele diz &#8211; entre muitas outras coisas &#8211; que pode amar as obras do escritor franc\u00eas apesar de sua pr\u00f3pria origem judaica. Grande conhecedor de literatura, o ex-presidente franc\u00eas Nicolas Sarkozy comenta neste v\u00eddeo que \u201cC\u00e9line escreveu tr\u00eas obras-primas mas, quanto ao resto, \u00e9 uma vergonha\u201d.\u00a0 Meio por curiosidade, meio pelo meu amor \u00e0 literatura, resolvi encarar a leitura de \u201cViagem ao fim da noite\u201d (Companhia das Letras, 659 p\u00e1ginas, tradu\u00e7\u00e3o Rosa Freire d\u2019Aguiar), mesmo sabendo de tudo isso.\u00a0 O livro \u00e9 contado em primeira pessoa pelo personagem principal, o franc\u00eas Ferdinand Bardamu. Ele luta na Primeira Guerra Mundial e faz de tudo para desertar. Depois tenta a sorte na \u00c1frica, mas as condi\u00e7\u00f5es que ele encontra s\u00e3o dific\u00edlimas; desiste de l\u00e1 e acaba se arriscando nos Estados Unidos. Naquele pa\u00eds as coisas n\u00e3o melhoram muito e Bardamu volta para a Fran\u00e7a, onde se forma em medicina. A vida como m\u00e9dico n\u00e3o representa uma grande melhora em suas condi\u00e7\u00f5es de vida: ele se envolve em v\u00e1rios tipos de problemas, at\u00e9 policiais, e ganha pouco dinheiro por n\u00e3o ser bom em cobrar de seus pacientes. Eu entendo o choque cultural que foi a publica\u00e7\u00e3o de \u201cViagem ao fim da noite\u201d: seu estilo tem grande influ\u00eancia da oralidade, \u00e9 \u00e1gil e cheio de g\u00edrias (tentei ler \u201cMorte a cr\u00e9dito\u201d em franc\u00eas muitos anos atr\u00e1s, mas desisti pela dificuldade de compreens\u00e3o de muitos termos de origem popular utilizados pelo autor). E acabei conseguindo entender a influ\u00eancia de C\u00e9line no j\u00e1 citado Philip Roth, devido \u00e0 crueza e agilidade do estilo de ambos. Mas, confesso, o niilismo quase absoluto de Louis-Ferdinand C\u00e9line &#8211; parece que nada na vida tem valor para ele &#8211; acabou tornando a leitura de &#8220;Viagem ao fim da noite&#8221; pesada para mim.\u00a0 Pelo menos o livro n\u00e3o tem uma linha contra os judeus. 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