{"id":5090,"date":"2022-12-20T15:08:37","date_gmt":"2022-12-20T18:08:37","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5090"},"modified":"2022-12-20T15:08:37","modified_gmt":"2022-12-20T18:08:37","slug":"livros-lidos-recentemente-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=5090","title":{"rendered":"Livros lidos recentemente"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA viagem do elefante\u201d, de Jos\u00e9 Saramago (Companhia das Letras, 264 p\u00e1ginas, publicado originalmente em 2008): a ida do elefante indiano Salom\u00e3o de Bel\u00e9m (Lisboa) at\u00e9 \u00e0 \u00c1ustria, mandado pelo Rei D. Jo\u00e3o III para ser o presente de casamento do arquiduque Maximiliano II, \u00e9 o tema deste romance. Havia poucas informa\u00e7\u00f5es reais sobre essa viagem, o que acabou ajudando o grande escritor portugu\u00eas Jos\u00e9 Saramago (1922-2010), Nobel de Literatura de 1998, a fazer uma descri\u00e7\u00e3o fantasiosa, frequentemente engra\u00e7ada, frequentemente l\u00edrica, desta estranha viagem ocorrida no s\u00e9culo XV europeu.<\/p>\n<p>\u201cO assassino cego\u201d, Margaret Atwood (Rocco, 516 p\u00e1ginas, traduzido por L\u00e9a Viveiros de Castro, publicado originalmente em 2001): confesso que me confundi nas primeiras p\u00e1ginas deste romance que tem tr\u00eas narrativas paralelas: as recorda\u00e7\u00f5es da octogen\u00e1ria Iris Chase Griffen, filha de um industrial falido; o romance fict\u00edcio de grande sucesso \u201cO assassino cego\u201d, escrito por sua irm\u00e3 Laura; e not\u00edcias de jornal do local e da \u00e9poca e em que grande parte dos acontecimentos descritos no livro ocorreu, a pequena cidade de Port Ticonderoga, no Canad\u00e1 dos anos 30 do s\u00e9culo XX. Bem, quando finalmente engrenei na leitura, descobri que \u201cO assassino cego\u201d \u00e9 provavelmente o melhor romance de Margaret Atwood (1939- ) que j\u00e1 li.<\/p>\n<p>\u201cVida e morte de M. J. Gonzaga de S\u00e1\u201d, de Lima Barreto (publicado originalmente em 1919): respeito quem pensa diferente, mas Lima Barreto \u00e9 o maior escritor brasileiro. Neste romance publicado originalmente em 1919, o narrador, Augusto Machado, recorda di\u00e1logos que tinha tido com seu amigo e colega mais velho, Gonzaga de S\u00e1, falecido logo no in\u00edcio da hist\u00f3ria. Como sempre em Lima Barreto (1881-1922), a descri\u00e7\u00e3o de tipos e da realidade carioca do come\u00e7o do s\u00e9culo XX \u00e9 inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e1tiras e outras subvers\u00f5es\u201d, de Lima Barreto (Companhia das Letras, 552 p\u00e1ginas, colet\u00e2nea organizada por Fernando Botelho Corr\u00eaa, publicada originalmente em 2016): para complementar a renda que recebia como amanuense, o grande escritor carioca publicava cr\u00f4nicas em diversos ve\u00edculos de imprensa, muitas vezes com pseud\u00f4nimo \u2013 e s\u00e3o esses textos an\u00f4nimos que comp\u00f5e a totalidade desta colet\u00e2nea. A introdu\u00e7\u00e3o do livro \u00e9 primorosa, descrevendo todo o processo de procura por textos esquecidos em arquivos e as t\u00e9cnicas para descobrir a identidade escondida do autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. J\u00e1 as cr\u00f4nicas em si, frequentemente ir\u00f4nicas e debochadas, n\u00e3o sobreviveram ao teste do tempo: o leitor atual normalmente n\u00e3o sabe sobre quem Lima Barreto estava falando.<\/p>\n<p><em>(fonte da imagem: <a href=\"https:\/\/istoe.com.br\/saramago-centenario\/\">Revista Isto\u00e9<\/a>)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA viagem do elefante\u201d, de Jos\u00e9 Saramago (Companhia das Letras, 264 p\u00e1ginas, publicado originalmente em 2008): a ida do elefante indiano Salom\u00e3o de Bel\u00e9m (Lisboa) at\u00e9 \u00e0 \u00c1ustria, mandado pelo Rei D. Jo\u00e3o III para ser o presente de casamento do arquiduque Maximiliano II, \u00e9 o tema deste romance. Havia poucas informa\u00e7\u00f5es reais sobre essa viagem, o que acabou ajudando o grande escritor portugu\u00eas Jos\u00e9 Saramago (1922-2010), Nobel de Literatura de 1998, a fazer uma descri\u00e7\u00e3o fantasiosa, frequentemente engra\u00e7ada, frequentemente l\u00edrica, desta estranha viagem ocorrida no s\u00e9culo XV europeu. \u201cO assassino cego\u201d, Margaret Atwood (Rocco, 516 p\u00e1ginas, traduzido por L\u00e9a Viveiros de Castro, publicado originalmente em 2001): confesso que me confundi nas primeiras p\u00e1ginas deste romance que tem tr\u00eas narrativas paralelas: as recorda\u00e7\u00f5es da octogen\u00e1ria Iris Chase Griffen, filha de um industrial falido; o romance fict\u00edcio de grande sucesso \u201cO assassino cego\u201d, escrito por sua irm\u00e3 Laura; e not\u00edcias de jornal do local e da \u00e9poca e em que grande parte dos acontecimentos descritos no livro ocorreu, a pequena cidade de Port Ticonderoga, no Canad\u00e1 dos anos 30 do s\u00e9culo XX. Bem, quando finalmente engrenei na leitura, descobri que \u201cO assassino cego\u201d \u00e9 provavelmente o melhor romance de Margaret Atwood (1939- ) que j\u00e1 li. \u201cVida e morte de M. J. Gonzaga de S\u00e1\u201d, de Lima Barreto (publicado originalmente em 1919): respeito quem pensa diferente, mas Lima Barreto \u00e9 o maior escritor brasileiro. Neste romance publicado originalmente em 1919, o narrador, Augusto Machado, recorda di\u00e1logos que tinha tido com seu amigo e colega mais velho, Gonzaga de S\u00e1, falecido logo no in\u00edcio da hist\u00f3ria. Como sempre em Lima Barreto (1881-1922), a descri\u00e7\u00e3o de tipos e da realidade carioca do come\u00e7o do s\u00e9culo XX \u00e9 inesquec\u00edvel. \u201cS\u00e1tiras e outras subvers\u00f5es\u201d, de Lima Barreto (Companhia das Letras, 552 p\u00e1ginas, colet\u00e2nea organizada por Fernando Botelho Corr\u00eaa, publicada originalmente em 2016): para complementar a renda que recebia como amanuense, o grande escritor carioca publicava cr\u00f4nicas em diversos ve\u00edculos de imprensa, muitas vezes com pseud\u00f4nimo \u2013 e s\u00e3o esses textos an\u00f4nimos que comp\u00f5e a totalidade desta colet\u00e2nea. A introdu\u00e7\u00e3o do livro \u00e9 primorosa, descrevendo todo o processo de procura por textos esquecidos em arquivos e as t\u00e9cnicas para descobrir a identidade escondida do autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. J\u00e1 as cr\u00f4nicas em si, frequentemente ir\u00f4nicas e debochadas, n\u00e3o sobreviveram ao teste do tempo: o leitor atual normalmente n\u00e3o sabe sobre quem Lima Barreto estava falando. 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