{"id":508,"date":"2015-04-09T03:52:30","date_gmt":"2015-04-09T03:52:30","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=508"},"modified":"2015-04-03T10:52:20","modified_gmt":"2015-04-03T10:52:20","slug":"lancamentos-de-rap-resenhas-escritas-em-2008","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=508","title":{"rendered":"Lan\u00e7amentos de rap &#8211; resenhas escritas em 2008"},"content":{"rendered":"<p>O <em>rap<\/em> americano \u00e9 um universo \u00e0 parte, vast\u00edssimo e multifacetado \u2013 o que costuma chegar at\u00e9 n\u00f3s (Snoop, 50 Cent, Eminem) \u00e9 apenas uma pontinha do <em>iceberg<\/em>. \u00c9, portanto, mais do que louv\u00e1vel a iniciativa da Sum Records em lan\u00e7ar um pacote de discos no estilo praticamente desconhecidos por aqui.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A maior parte dos novos lan\u00e7amentos s\u00e3o provenientes do chamado Dirty South, como \u00e9 chamada a zona dos <em>rappers<\/em> que moram em cidades do Sul dos Estados Unidos, como New Orleans e Atlanta. E \u00e9 desta \u00faltima que v\u00eam os dois melhores \u00e1lbuns de todo o pacote: <em>Me &amp; My Brother<\/em>, da dupla <strong>Ying Yang Twins<\/strong>, e <em>Kings Of Crunk<\/em>, de <strong>Lil\u2019 Jon &amp; The East Side Boyz<\/strong>. Os dois grupos, que fazem parte da mesma gravadora (a TVT Records), s\u00e3o parte de um estilo chamado <em>crunk<\/em>, que \u00e9 um tipo de <em>hip hop<\/em> com vocal doido e sujo, secundado batidas pesadas e dan\u00e7antes, que canta as alegrias de sair para dan\u00e7ar em clubes, encher a cara, fazer sexo e fumar maconha. O objetivo dos<em>crunkers<\/em> \u00e9 fazer m\u00fasica para as pessoas se divertirem mesmo.<\/p>\n<p>Unido por amigos em comum, o Ying Yang Twins foi formado em 1996 por Kaine e D-Roc. <em>Me &amp; My Brother<\/em> \u00e9 seu terceiro \u00e1lbum \u2013 <em>Thug Walkin<\/em>foi lan\u00e7ado em 2000 e <em>Alley: The Return Of The Ying Yang Twins<\/em> em 2002. O disco \u00e9 uma alucinante seq\u00fc\u00eancia de faixas dan\u00e7antes e alucinadas. Com o vocal rouco de Kaine e D-Roc e batida pesada e hipn\u00f3tica, <em>Me &amp; My Brother<\/em> \u00e9 um lan\u00e7amento imperd\u00edvel de rap. S\u00e3o tantas as m\u00fasicas excelentes que fica dif\u00edcil apontar alguns destaques. De todo o modo, \u201cHahn\u201d, \u201cWhats Happnin!\u201d, \u201cSalt Shaker\u201d, \u201cGeorgia Dome\u201d e \u201cCalling All Zones\u201d parecem estar um pouco acima das demais.<\/p>\n<p>Boa parte das letras tem o objetivo de deixar o povo no clube alucinado. Em \u201cHahn\u201d, os <em>rappers<\/em> ficam pedindo para as pessoas no clube repetirem a interjei\u00e7\u00e3o \u201chahn!\u201d. \u201cGrey Goose\u201d, o nome de outra faixa, \u00e9 uma elegia \u00e0 bebida preferida dos caras. \u201cSalt Shaker\u201d descreve o que eles fazem em um clube de strip-tease. E, como n\u00e3o poderia deixar de faltar em um disco de <em>rap<\/em>, <em>Me &amp; My Brother<\/em> tem suas faixas mis\u00f3ginas (\u201cNaggin&#8217;\u201d, que, \u00e9 preciso que se diga, \u00e9 seguida pela resposta feminina: \u201cNaggin&#8217; Part II\u201d), de glorifica\u00e7\u00e3o \u00e0 maconha (\u201cThe Nerve Calmer\u201d), sexistas (\u201cGeorgia Dome (Get Low Sequel)\u201d) e de vida nas ruas (a sensacional \u201cCalling All Zones\u201d).<\/p>\n<p>Lil Jon, que tem os dentes incrustados de diamantes (!!!), e seus East Side Boyz (Big Sam e Lil Bo) j\u00e1 haviam lan\u00e7ado o \u00e1lbum <em>Put Yo Hood Up<\/em>em 2001 e consideram <em>Kings Of Crunk<\/em> o \u201c<em>The Chronic<\/em>\u201d do <em>crunk<\/em> (refer\u00eancia ao cl\u00e1ssico concebido por Dr. Dre no in\u00edcio dos anos 90). Realmente, o lan\u00e7amento dos <em>rappers<\/em> de Atlanta \u00e9 impactante: os tr\u00eas vocalistas cantam boa parte do tempo em un\u00edssono \u2013 se bem que o verbo &#8220;gritar&#8221; parece mesmo mais apropriado. A jun\u00e7\u00e3o dos seus berros com as pesadas bases atingem efeitos de arrepiar (em \u201cThrow It Up\u201d, \u201cBitch\u201d, \u201cRep Yo City\u201d e \u201cKeep Yo Chullin Out The Street\u201d).<\/p>\n<p>Lil Jon &amp; The East Side Boyz tamb\u00e9m chegam a excelentes resultados quando fazem <em>rap<\/em> misturado com <em>rhythm\u2019n\u2019blues<\/em> \u2013\u201cNothin On\u201d e \u201cNothins Free\u201d possuem refr\u00f5es com lindas melodias e letras safadas, cantados pela (excelente) vocalista Oobie. As letras do grupo, como as dos Ying Yang Twins (que, ali\u00e1s, aparecem uma faixa de <em>Kings Of Crunk<\/em>), servem para deixar o povo alucinado no clube (\u201cI Don&#8217;t Give A Fuck\u201d, &#8220;Push That Nigga\u201d, \u201cPush That Hoe&#8221;), louvam a maconha (\u201cThe Weedman\u201d) ou s\u00e3o puramente sexistas (\u201cPlay No Games\u201d). H\u00e1 tamb\u00e9m letras de amea\u00e7as aos inimigos (\u201cKeep Yo Chillin Out The Street\u201d) e uma que glorifica diamantes (\u201cDiamonds\u201d).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m do Dirty South mas origin\u00e1rio de New Orleans \u00e9 o <em>rapper<\/em> B.G. (Baby Gangsta), tamb\u00e9m conhecido como B.Gizzle e o autor do \u00e1lbum duplo <em>Livin&#8217; Legend<\/em> (interessante notar que s\u00f3 se percebe que s\u00e3o dois CDs quando o \u00e1lbum \u00e9 aberto \u2013 o segundo disco, com <em>bonus tracks<\/em> e sem ficha t\u00e9cnica, n\u00e3o \u00e9 mencionado na parte externa da caixa, provavelmente para que os lojistas s\u00f3 cobrem o pre\u00e7o de um disco). Realmente n\u00e3o \u00e9 um exagero cham\u00e1-lo de lenda vida, j\u00e1 que ele gravou seu primeiro contrato com a gravadora Cash Money quando tinha apenas onze anos (?!).<\/p>\n<p><em>Livin&#8217; Legend<\/em> \u00e9 seu s\u00e9timo \u00e1lbum (ele est\u00e1 com 23 anos) e o primeiro pela Chopper City Records. Em mais de uma faixa, ali\u00e1s, B.G. detona ex-companheiros da antiga gravadora, de onde ele saiu por problemas com drogas. As faixas de <em>Livin&#8217; Legend<\/em> come\u00e7am bem, com o estilo lento e sincopado das bases e a voz rouca e um pouco anasalada do <em>rapper<\/em>. Mas em poucas faixas o estilo de B.G. vai cansando o ouvinte. No final das contas, as melhores faixas s\u00e3o aquelas em que ele recebe convidados: as hipn\u00f3ticas \u201cI&#8217;m Outta Here\u201d e \u201cDuckin&#8217; The Law\u201d, com seus colegas de gravadora Sniper e Hakim (n\u00e3o confundir com Rakim, da legend\u00e1ria dupla Eric B and Rakim); e as suingadas \u201cOnly For You\u201d, com a cantora Windy; e \u201cLet It Flow\u201d, com Windy, Gar, Sniper e Hakim.<\/p>\n<p>Os temas n\u00e3o fogem do usual em discos de <em>gangsta rap<\/em>. H\u00e1 auto-glorifica\u00e7\u00e3o\/amea\u00e7as aos inimigos (\u201cReality Check Part 2\u201d, \u201cFuck That Shit\u201d, \u201cIt&#8217;s All On U Vol.2\u201d), sexo (\u201cOnly 4 U\u201d). Al\u00e9m disso, B.G. emociona quando fala de um amigo que faleceu (\u201cR.I.P\u201d), ou ainda de seus filhos pequenos (\u201cMy Son And My Daughter\u201d).<\/p>\n<p>H\u00e1 algo de errado com <em>On My Own<\/em>, do \u00faltimo <em>rapper<\/em> do Dirty South (New Orleans, neste caso) a ser analisado aqui, chamado Magic. N\u00e3o sei bem o que \u00e9, mas tem algo nele que n\u00e3o passa. Suas bases n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o ruins, algumas m\u00fasicas chegam a ser legais mesmo (\u201cInternational Gangstas\u201d, \u201cDown Here\u201d, \u201cMy Life\u201d, \u201cAll I Do\u201d). Se fosse para apostar, eu diria que Magic tenta passar por um <em>gangsta rapper<\/em> malvado \u2013 mas que de malvado n\u00e3o tem nada. \u00c9 s\u00f3 ver as caretas de mau pouqu\u00edssimo convincentes das suas fotos no encarte para saber do que eu estou falando: quando se ouve o sujeito a impress\u00e3o que se tem \u00e9 a mesma.<\/p>\n<p><strong>Caminhos diferentes<\/strong><br \/>\nOs demais discos do pacote da Sum s\u00e3o de outras praias: <em>Nu-Mixx Klazzics<\/em>, do grande 2Pac Shakur, e <em>Faster Than You Know<\/em>, do Spooks.<\/p>\n<p>\u00c9 normal, depois da morte de um g\u00eanio da m\u00fasica, que as gravadores tirem leite de pedra para arranjar uns trocados &#8211; e com o rapper da Costa Oeste 2Pac Shakur (assassinado em 1996, e j\u00e1 citado anteriormente no <strong>Bacana<\/strong> \u2013 leia <strong><a href=\"http:\/\/www.bacana.mus.br\/edicao_mat.asp?e=20&amp;mat=245\" target=\"\u201dblank\u201d\">aqui<\/a><\/strong>) a coisa n\u00e3o \u00e9 diferente. Este <em>Nu-Mixx Klazzics<\/em>, lan\u00e7ado pela sua gravadora original, a Death Row Records, apresenta remixes de seus grandes sucessos e est\u00e1 longe, muito longe de ser um disco ruim.<\/p>\n<p>As novas caras das m\u00fasicas definitivamente fazem sentido, t\u00eam bom gosto e, na maioria das vezes, criam excelentes climas. S\u00f3 que a grande qualidade de 2Pac estava na grande for\u00e7a interpretativa \u2013 e n\u00e3o se sente 10% desta for\u00e7a nestas faixas sofisticadas de <em>Nu-Mixx Klazzics<\/em>. Em outras palavras: este \u00e9 um excelente disco, mas para quem n\u00e3o conhece a obra original.<\/p>\n<p>O Spooks \u00e9 um grupo de rap com tr\u00eas MCs (Booka T, Hypno e Joe Davis) e uma vocalista (Ming-Xia). Seu mais recente lan\u00e7amento, <em>Faster Than You Know<\/em>, \u00e9 o \u00faltimo \u00e1lbum do pacote da Sum analisado aqui. Os membros do Spooks, palavra cuja tradu\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima \u00e9 \u201cespectro\u2019, costumam dizer que vivem nas sombras e fazem mist\u00e9rio a respeito de suas origens \u2013 s\u00f3 dizem que s\u00e3o do Leste dos Estados Unidos. A forma\u00e7\u00e3o do grupo acaba levando a um tipo de <em>rap<\/em> com refr\u00f5es cantados\/estrofes faladas, o que acaba estragando um pouco o efeito-surpresa da entrada da vocalista.<\/p>\n<p>Independente disso, a irregularidade do \u00e1lbum salta aos olhos. <em>Faster Than You Know<\/em> cont\u00e9m algumas poucas p\u00e9rolas indiscut\u00edveis, com refr\u00f5es bel\u00edssimos (a faixa-t\u00edtulo, \u201cDon&#8217;t Be Afraid\u201d, \u201cMore To Learn\u201d, \u201cEulogy\u201d), enquanto as demais faixas ficam naquele limbo \u2013 nem muito boas, nem muito ruins, muito pelo contr\u00e1rio. Quanto \u00e0 tem\u00e1tica, o \u00e1lbum \u00e9 o \u00fanico lan\u00e7amento deste pacote com mensagens positivas, distantes do universo <em>gangsta<\/em> e um pouco mais pr\u00f3ximas, portanto, das dos seus \u00eddolos do De La Soul <em>[a banda tamb\u00e9m elege, entre suas influ\u00eancias, James Brown; Earth, Wind &amp; Fire; Bj\u00f6rk; Radiohead e U2 (?!)]<\/em>. A faixa-t\u00edtulo, por exemplo, desanca os <em>gangsta rappers<\/em> e tudo o que eles glorificam, enquanto \u201cA Hit\u201d reclama das press\u00f5es das gravadoras para que eles fa\u00e7am sucesso.<\/p>\n<p>(texto publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/edicao-30-100-love-songs\/rap.html\" target=\"_blank\">Mondo Bacana<\/a> em 2008)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rap americano \u00e9 um universo \u00e0 parte, vast\u00edssimo e multifacetado \u2013 o que costuma chegar at\u00e9 n\u00f3s (Snoop, 50 Cent, Eminem) \u00e9 apenas uma pontinha do iceberg. \u00c9, portanto, mais do que louv\u00e1vel a iniciativa da Sum Records em lan\u00e7ar um pacote de discos no estilo praticamente desconhecidos por aqui.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":509,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[79],"class_list":["post-508","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-musica","tag-rap","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/508","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=508"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/508\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":510,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/508\/revisions\/510"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/509"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}