{"id":4836,"date":"2021-07-04T03:18:21","date_gmt":"2021-07-04T06:18:21","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4836"},"modified":"2021-07-04T03:18:50","modified_gmt":"2021-07-04T06:18:50","slug":"livros-vencedores-do-premio-jabuti-de-2006","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4836","title":{"rendered":"Livros vencedores do Pr\u00eamio Jabuti de 2006"},"content":{"rendered":"<p>O Pr\u00eamio Jabuti, institu\u00eddo pela C\u00e2mara Brasileira do Livro desde 1959, \u00e9 o mais tradicional e importante pr\u00eamio liter\u00e1rio do pa\u00eds. Os resultados do pr\u00eamio de 2006 foram anunciados recentemente, e alguns dos livros mais bem classificados em categorias importantes s\u00e3o comentados a seguir, e s\u00e3o \u00f3timas dicas de leitura.<\/p>\n<p>Aclamado pela cr\u00edtica com uma das melhores obras escritas no Brasil nos \u00faltimos anos, <em>Cinzas do Norte<\/em>, do amazonense Milton Hatoum (Companhia das Letras, 312 p\u00e1ginas), venceu o Pr\u00eamio Jabuti na categoria de melhor romance. O livro se passa na cidade e nos arredores de Manaus, a partir do final dos anos 50, e conta a hist\u00f3ria de um artista pl\u00e1stico fracassado, Mundo (apelido de Raimundo). O mote principal da obra \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de \u00f3dio entre ele e seu pai, Jano (apelido de Trajano) Mattoso, um fazendeiro riqu\u00edssimo que simplesmente n\u00e3o tolera a id\u00e9ia de que o rapaz n\u00e3o herde a administra\u00e7\u00e3o de seus neg\u00f3cios e que se envolva com arte. O romance \u00e9 contado em primeira pessoa pelo melhor amigo de Mundo, Lavo, que \u00e9 sobrinho de Ranulfo, um homem pouco afeito ao trabalho &#8211; e amante da m\u00e3e de Mundo, Al\u00edcia. Esta praticamente n\u00e3o suportava o marido e tentava &#8211; muitas vezes sem sucesso &#8211; defender o filho das violentas invectivas de seu pai, Jano. Para poder suportar o constante e profundo clima de \u00f3dio que existe na enorme casa &#8211; um verdadeiro palacete &#8211; Al\u00edcia se refugia no jogo, na bebida, e nas t\u00f3rridas rela\u00e7\u00f5es sexuais com Ranulfo. Um acontecimento de grande import\u00e2ncia no desenvolvimento do romance\u00a0 \u00e9 o golpe militar de 64: ecos do autoritarismo vigente &#8211; por exemplo, surras dadas por militares contra os inimigos dos poderosos ou do regime &#8211; pipocam a todo momento no livro.<\/p>\n<p><em>Cinzas do Norte <\/em>descreve a decad\u00eancia patrimonial e familiar dos Mattoso. Ao mesmo tempo em que o \u00f3dio rec\u00edproco entre filho e pai vai aumentando e minando qualquer possibilidade de harmonia e de relacionamento (mesmo que somente respeitoso) entre eles, a juta &#8211; base da fortuna de Jano &#8211; vai perdendo valor no mercado internacional. A decad\u00eancia \u00e9 mostrada de maneira aguda e sem nenhuma condescend\u00eancia por Milton Hatoum, que parece n\u00e3o ter piedade de seus personagens: \u00e0 medida que a situa\u00e7\u00e3o vai ficando mais e mais insustent\u00e1vel, o pai vai perdendo a sa\u00fade e o filho, a sanidade.<\/p>\n<p><em>Cinzas do Norte<\/em> \u00e9 poderoso, extremamente bem escrito, e conta com personagens inesquec\u00edveis. \u00c9 um livro inquietante que, al\u00e9m de mostrar como poucos a decad\u00eancia moral de uma fam\u00edlia, \u00e9 o retrato de uma \u00e9poca turbulenta do pa\u00eds e de uma regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na categoria romance, ficaram empatados em segundo lugar <em>Menino Oculto<\/em>, de Godofredo de Oliveira Neto (Record, 222 p\u00e1ginas) e <em>Meninos no Poder<\/em>, do paranaense Domingos Pellegrini (Record, 288 p\u00e1ginas).<\/p>\n<p>Assim como em <em>Cinzas do Norte<\/em>, em <em>Menino Oculto <\/em>o personagem principal, chamado Aimor\u00e9 Seixas, \u00e9 um artista pl\u00e1stico. S\u00f3 que, ao contr\u00e1rio do personagem Mundo do outro romance, que queria criar uma obra original, a principal atividade art\u00edstica de Seixas \u00e9 a falsifica\u00e7\u00e3o de pinturas. O livro todo \u00e9 uma entrevista gravada que algu\u00e9m, que acabamos sem saber quem \u00e9, faz com o artista no intuito de saber onde estava um peda\u00e7o &#8211; o qual representava um menino &#8211; de uma obra que ele falsificou.<\/p>\n<p>Definitivamente n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil entrevistar Aimor\u00e9 Seixas, e seu entrevistador se exaspera diversas vezes ao longo do romance. O artista, ao inv\u00e9s de dizer diretamente onde estava a tal pintura, fica se perdendo em reminisc\u00eancias, que mostram uma personalidade pr\u00f3xima da esquizofrenia.<\/p>\n<p>Seixas comenta a respeito de diversos assassinatos que cometeu ao longo dos anos, obrigado por entidades espirituais que moram na ba\u00eda de Babitonga, em Santa Catarina &#8211; o artista viveu em S\u00e3o Francisco do Sul e no Rio de Janeiro na maior parte de sua vida. Al\u00e9m disso, o falsificador tamb\u00e9m \u00e9 obcecado em consultar Baltazar, um velho cego que vive na beira da ba\u00eda e que fala em coisas como lobisomens e possess\u00f5es demon\u00edacas. Outro assunto recorrente de Seixas s\u00e3o suas perip\u00e9cias sexuais com diversas amantes, principalmente com aquela que mais o obcecou, uma mulher chamada Ana. Mas nem s\u00f3 de esquisitices funciona a cabe\u00e7a do falsificador: ele tem um vasto conhecimento de m\u00fasica popular e erudita contempor\u00e2neas, sabe diversos poemas e romances de cor e \u00e9 professor de literatura.<\/p>\n<p>Com uma narrativa ca\u00f3tica e com um final pr\u00f3ximo do <em>thriller<\/em>, <em>Menino Oculto <\/em>\u00e9 um livro inquietante, que faz o leitor penetrar fundo na mente de um louco brilhante. Pode n\u00e3o ser para todos os gostos, mas certamente mereceu a segunda coloca\u00e7\u00e3o no Jabuti.<\/p>\n<p>Se os dois livros citados anteriormente t\u00eam uma atmosfera pesada e sombria, o livro que ficou empatado com <em>Menino Oculto <\/em>em segundo lugar, <em>Meninos no Poder<\/em>, de Domingos Pellegrini, tem um clima bem mais leve. No romance, Cabor\u00e9, um radialista de uma cidade brasileira que n\u00e3o \u00e9 nomeada, recebe a visita de um tal Ari, um baixinho de personalidade inquieta e cheio de id\u00e9ias originais a respeito de como deve ser gerida a administra\u00e7\u00e3o da cidade. Para coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica ele tenta convencer Cabor\u00e9 a se candidatar prefeito. O radialista reluta bastante em aceitar o convite, mas como as id\u00e9ias do baixinho pareciam fact\u00edveis e, honestas e, principalmente, poderiam ajudar a vida do povo se postas em pr\u00e1tica, ele acaba aceitando. E a campanha come\u00e7a.<\/p>\n<p>Aos poucos Cabor\u00e9 vai percebendo que, por mais que pregasse princ\u00edpios honestos e transparentes, Ari n\u00e3o agia\u00a0 exatamente como um pol\u00edtico diferente da maioria. A d\u00favida sobre o real car\u00e1ter do baixinho perpassa a maior parte da obra &#8211; e \u00e9 melhor n\u00e3o contar mais nada para n\u00e3o estragar a surpresa.<\/p>\n<p><em>Meninos no Poder <\/em>\u00e9 um livro \u00e1gil, bem escrito, com muitas reviravoltas e cheio de boas inten\u00e7\u00f5es &#8211; o que, no caso espec\u00edfico deste romance, \u00e9 uma qualidade liter\u00e1ria e n\u00e3o um defeito.<\/p>\n<p>Outra boa sugest\u00e3o de leitura \u00e9 o primeiro colocado na categoria &#8220;Biografia&#8221; do Pr\u00eamio Jabuti, <em>Carmen<\/em>, de Ruy Castro (Companhia das Letras, 632 p\u00e1ginas). Detalhada biografia de Carmen Miranda, a mais famosa brasileira do s\u00e9culo XX, o livro \u00e9 escrito com o estilo envolvente do autor, que j\u00e1 escreveu, entre outras, \u00f3timas biografias de Garrincha, Nelson Rodrigues e o j\u00e1 cl\u00e1ssico <em>Chega de Saudade<\/em>, sobre a bossa nova.<\/p>\n<p>(texto publicado no suplemento dominical do jornal O Estado do Paran\u00e1 em 2006 &#8211; fonte da foto: <a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/meus-livros\/milton-hatoum-os-dias-eram-e-sao-assim\/\">Revista Veja<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Pr\u00eamio Jabuti, institu\u00eddo pela C\u00e2mara Brasileira do Livro desde 1959, \u00e9 o mais tradicional e importante pr\u00eamio liter\u00e1rio do pa\u00eds. Os resultados do pr\u00eamio de 2006 foram anunciados recentemente, e alguns dos livros mais bem classificados em categorias importantes s\u00e3o comentados a seguir, e s\u00e3o \u00f3timas dicas de leitura. Aclamado pela cr\u00edtica com uma das melhores obras escritas no Brasil nos \u00faltimos anos, Cinzas do Norte, do amazonense Milton Hatoum (Companhia das Letras, 312 p\u00e1ginas), venceu o Pr\u00eamio Jabuti na categoria de melhor romance. O livro se passa na cidade e nos arredores de Manaus, a partir do final dos anos 50, e conta a hist\u00f3ria de um artista pl\u00e1stico fracassado, Mundo (apelido de Raimundo). O mote principal da obra \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de \u00f3dio entre ele e seu pai, Jano (apelido de Trajano) Mattoso, um fazendeiro riqu\u00edssimo que simplesmente n\u00e3o tolera a id\u00e9ia de que o rapaz n\u00e3o herde a administra\u00e7\u00e3o de seus neg\u00f3cios e que se envolva com arte. O romance \u00e9 contado em primeira pessoa pelo melhor amigo de Mundo, Lavo, que \u00e9 sobrinho de Ranulfo, um homem pouco afeito ao trabalho &#8211; e amante da m\u00e3e de Mundo, Al\u00edcia. Esta praticamente n\u00e3o suportava o marido e tentava &#8211; muitas vezes sem sucesso &#8211; defender o filho das violentas invectivas de seu pai, Jano. Para poder suportar o constante e profundo clima de \u00f3dio que existe na enorme casa &#8211; um verdadeiro palacete &#8211; Al\u00edcia se refugia no jogo, na bebida, e nas t\u00f3rridas rela\u00e7\u00f5es sexuais com Ranulfo. Um acontecimento de grande import\u00e2ncia no desenvolvimento do romance\u00a0 \u00e9 o golpe militar de 64: ecos do autoritarismo vigente &#8211; por exemplo, surras dadas por militares contra os inimigos dos poderosos ou do regime &#8211; pipocam a todo momento no livro. Cinzas do Norte descreve a decad\u00eancia patrimonial e familiar dos Mattoso. Ao mesmo tempo em que o \u00f3dio rec\u00edproco entre filho e pai vai aumentando e minando qualquer possibilidade de harmonia e de relacionamento (mesmo que somente respeitoso) entre eles, a juta &#8211; base da fortuna de Jano &#8211; vai perdendo valor no mercado internacional. A decad\u00eancia \u00e9 mostrada de maneira aguda e sem nenhuma condescend\u00eancia por Milton Hatoum, que parece n\u00e3o ter piedade de seus personagens: \u00e0 medida que a situa\u00e7\u00e3o vai ficando mais e mais insustent\u00e1vel, o pai vai perdendo a sa\u00fade e o filho, a sanidade. Cinzas do Norte \u00e9 poderoso, extremamente bem escrito, e conta com personagens inesquec\u00edveis. \u00c9 um livro inquietante que, al\u00e9m de mostrar como poucos a decad\u00eancia moral de uma fam\u00edlia, \u00e9 o retrato de uma \u00e9poca turbulenta do pa\u00eds e de uma regi\u00e3o. Tamb\u00e9m na categoria romance, ficaram empatados em segundo lugar Menino Oculto, de Godofredo de Oliveira Neto (Record, 222 p\u00e1ginas) e Meninos no Poder, do paranaense Domingos Pellegrini (Record, 288 p\u00e1ginas). Assim como em Cinzas do Norte, em Menino Oculto o personagem principal, chamado Aimor\u00e9 Seixas, \u00e9 um artista pl\u00e1stico. S\u00f3 que, ao contr\u00e1rio do personagem Mundo do outro romance, que queria criar uma obra original, a principal atividade art\u00edstica de Seixas \u00e9 a falsifica\u00e7\u00e3o de pinturas. O livro todo \u00e9 uma entrevista gravada que algu\u00e9m, que acabamos sem saber quem \u00e9, faz com o artista no intuito de saber onde estava um peda\u00e7o &#8211; o qual representava um menino &#8211; de uma obra que ele falsificou. Definitivamente n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil entrevistar Aimor\u00e9 Seixas, e seu entrevistador se exaspera diversas vezes ao longo do romance. O artista, ao inv\u00e9s de dizer diretamente onde estava a tal pintura, fica se perdendo em reminisc\u00eancias, que mostram uma personalidade pr\u00f3xima da esquizofrenia. Seixas comenta a respeito de diversos assassinatos que cometeu ao longo dos anos, obrigado por entidades espirituais que moram na ba\u00eda de Babitonga, em Santa Catarina &#8211; o artista viveu em S\u00e3o Francisco do Sul e no Rio de Janeiro na maior parte de sua vida. Al\u00e9m disso, o falsificador tamb\u00e9m \u00e9 obcecado em consultar Baltazar, um velho cego que vive na beira da ba\u00eda e que fala em coisas como lobisomens e possess\u00f5es demon\u00edacas. Outro assunto recorrente de Seixas s\u00e3o suas perip\u00e9cias sexuais com diversas amantes, principalmente com aquela que mais o obcecou, uma mulher chamada Ana. Mas nem s\u00f3 de esquisitices funciona a cabe\u00e7a do falsificador: ele tem um vasto conhecimento de m\u00fasica popular e erudita contempor\u00e2neas, sabe diversos poemas e romances de cor e \u00e9 professor de literatura. Com uma narrativa ca\u00f3tica e com um final pr\u00f3ximo do thriller, Menino Oculto \u00e9 um livro inquietante, que faz o leitor penetrar fundo na mente de um louco brilhante. Pode n\u00e3o ser para todos os gostos, mas certamente mereceu a segunda coloca\u00e7\u00e3o no Jabuti. Se os dois livros citados anteriormente t\u00eam uma atmosfera pesada e sombria, o livro que ficou empatado com Menino Oculto em segundo lugar, Meninos no Poder, de Domingos Pellegrini, tem um clima bem mais leve. No romance, Cabor\u00e9, um radialista de uma cidade brasileira que n\u00e3o \u00e9 nomeada, recebe a visita de um tal Ari, um baixinho de personalidade inquieta e cheio de id\u00e9ias originais a respeito de como deve ser gerida a administra\u00e7\u00e3o da cidade. Para coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica ele tenta convencer Cabor\u00e9 a se candidatar prefeito. O radialista reluta bastante em aceitar o convite, mas como as id\u00e9ias do baixinho pareciam fact\u00edveis e, honestas e, principalmente, poderiam ajudar a vida do povo se postas em pr\u00e1tica, ele acaba aceitando. E a campanha come\u00e7a. Aos poucos Cabor\u00e9 vai percebendo que, por mais que pregasse princ\u00edpios honestos e transparentes, Ari n\u00e3o agia\u00a0 exatamente como um pol\u00edtico diferente da maioria. A d\u00favida sobre o real car\u00e1ter do baixinho perpassa a maior parte da obra &#8211; e \u00e9 melhor n\u00e3o contar mais nada para n\u00e3o estragar a surpresa. Meninos no Poder \u00e9 um livro \u00e1gil, bem escrito, com muitas reviravoltas e cheio de boas inten\u00e7\u00f5es &#8211; o que, no caso espec\u00edfico deste romance, \u00e9 uma qualidade liter\u00e1ria e n\u00e3o um defeito. 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