{"id":4826,"date":"2021-06-26T14:46:04","date_gmt":"2021-06-26T17:46:04","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4826"},"modified":"2021-06-27T14:52:40","modified_gmt":"2021-06-27T17:52:40","slug":"4826","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4826","title":{"rendered":"Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem"},"content":{"rendered":"<p>O historiador marxista ingl\u00eas Eric Hobsbawn contou a hist\u00f3ria dos \u00faltimos s\u00e9culos em quatro livros que ficaram famosos: <em>Era das Revolu\u00e7\u00f5es<\/em> (1789-1848), <em>A Era do Capital<\/em> (1848-1875), <em>A Era dos Imp\u00e9rios<\/em> (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991) \u2013 eu mesmo s\u00f3 li os dois primeiros. Em discuss\u00e3o recente no jornal Folha de S\u00e3o Paulo, o soci\u00f3logo brasileiro Dem\u00e9trio Magnoli reconhece que o <em>seu Liberdade Versus Igualdade: O Mundo em Desordem (1915-1945) Vol. 1<\/em>, (Editora Record, escrito em colabora\u00e7\u00e3o com Elaine Senise Barbosa), \u00e9 uma contraposi\u00e7\u00e3o ao quarto volume da obra de Hobsbawn. Enquanto o ingl\u00eas \u00e9 um marxista empedernido (que acredita, portanto, na igualdade entre os homens), Magnoli visa a provar que n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de conviverem, lado a lado, liberdade e igualdade. Segundo o brasileiro, todas as tentativas de promover a igualdade entre os homens acabam descambando, inevitavelmente, para um totalitarismo atroz. Esta tese n\u00e3o \u00e9 nova, e um dos mais brilhantes defensores dela \u00e9 Friedrich Hayek, em seu <em>O Caminho da Servid\u00e3o<\/em>. O que Magnoli quer \u00e9 contar a hist\u00f3ria do mundo entre o final da Primeira Guerra Mundial e o final da Segunda sob um prisma liberal \u2013 e n\u00e3o o prisma marxista de Hobsbawn.<\/p>\n<p>Fora esta, existe uma diferen\u00e7a importante entre as obras. Nos livros da s\u00e9rie de Hobsbawn \u2013 e n\u00e3o custa refor\u00e7ar que s\u00f3 li os dois primeiros \u2013 o historiador ingl\u00eas se preocupa enormemente em dar um &#8220;sentido&#8221; aos acontecimentos. Em <em>A Era das Revolu\u00e7\u00f5es<\/em>, as liga\u00e7\u00f5es entre a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (de cunho pol\u00edtico) e a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial (de cunho econ\u00f4mico) s\u00e3o mostradas a todo momento. O leitor sente que est\u00e1 vendo a &#8220;hist\u00f3ria acontecer&#8221; e grandes movimentos hist\u00f3ricos s\u00e3o descortinados diante de nossos olhos. Tudo parece ter um sentido profundo. Apesar de n\u00e3o ser nem de longe um defensor de ideias marxistas ou socialistas, gostei muito da maneira como Hobsbawn descreve a Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Dem\u00e9trio Magnoli e Elaine Senise Barbosa por outro lado, tentam ser mais sutis em mostrar sua vis\u00e3o de mundo. Sim, eles acham mesmo que, se um governo prioriza a igualdade, a liberdade sair\u00e1 prejudicada. Esta maneira de ver as coisas realmente aparece aqui e ali no livro. Mas a obra, frequentemente, parece uma descri\u00e7\u00e3o de fatos hist\u00f3ricos e ideias sem muita liga\u00e7\u00e3o uns com os outros. N\u00e3o temos, ao ler <em>Liberdade Versus Igualdade<\/em>, a sensa\u00e7\u00e3o de estarmos &#8220;compreendendo o que est\u00e1 por tr\u00e1s&#8221; dos acontecimentos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Seria este ent\u00e3o o desejo de Magnoli e Senise Barbosa? Como bons liberais, ser\u00e1 que eles acham que o leitor deve ter a liberdade (opa!) de concluir o que bem lhe der na veneta?<\/p>\n<p>Pode ser. De todo modo, apesar de menos &#8220;emocionante&#8221; que os livros de Hobsbawn, a leitura deste primeiro volume <em>Liberdade Versus Igualdade<\/em> me parece indispens\u00e1vel para quem quer ter uma ideia do que aconteceu naquele per\u00edodo t\u00e3o conturbado da hist\u00f3ria humana &#8211; e sob um prisma, no meu modo de entender, mais correto que o prisma marxista de Hobsbawn.<\/p>\n<p><em>(texto publicado em 2011 no Mondo Bacana)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O historiador marxista ingl\u00eas Eric Hobsbawn contou a hist\u00f3ria dos \u00faltimos s\u00e9culos em quatro livros que ficaram famosos: Era das Revolu\u00e7\u00f5es (1789-1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era dos Imp\u00e9rios (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991) \u2013 eu mesmo s\u00f3 li os dois primeiros. 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O que Magnoli quer \u00e9 contar a hist\u00f3ria do mundo entre o final da Primeira Guerra Mundial e o final da Segunda sob um prisma liberal \u2013 e n\u00e3o o prisma marxista de Hobsbawn. Fora esta, existe uma diferen\u00e7a importante entre as obras. Nos livros da s\u00e9rie de Hobsbawn \u2013 e n\u00e3o custa refor\u00e7ar que s\u00f3 li os dois primeiros \u2013 o historiador ingl\u00eas se preocupa enormemente em dar um &#8220;sentido&#8221; aos acontecimentos. Em A Era das Revolu\u00e7\u00f5es, as liga\u00e7\u00f5es entre a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (de cunho pol\u00edtico) e a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial (de cunho econ\u00f4mico) s\u00e3o mostradas a todo momento. O leitor sente que est\u00e1 vendo a &#8220;hist\u00f3ria acontecer&#8221; e grandes movimentos hist\u00f3ricos s\u00e3o descortinados diante de nossos olhos. Tudo parece ter um sentido profundo. Apesar de n\u00e3o ser nem de longe um defensor de ideias marxistas ou socialistas, gostei muito da maneira como Hobsbawn descreve a Hist\u00f3ria. Dem\u00e9trio Magnoli e Elaine Senise Barbosa por outro lado, tentam ser mais sutis em mostrar sua vis\u00e3o de mundo. Sim, eles acham mesmo que, se um governo prioriza a igualdade, a liberdade sair\u00e1 prejudicada. Esta maneira de ver as coisas realmente aparece aqui e ali no livro. Mas a obra, frequentemente, parece uma descri\u00e7\u00e3o de fatos hist\u00f3ricos e ideias sem muita liga\u00e7\u00e3o uns com os outros. N\u00e3o temos, ao ler Liberdade Versus Igualdade, a sensa\u00e7\u00e3o de estarmos &#8220;compreendendo o que est\u00e1 por tr\u00e1s&#8221; dos acontecimentos hist\u00f3ricos. Seria este ent\u00e3o o desejo de Magnoli e Senise Barbosa? Como bons liberais, ser\u00e1 que eles acham que o leitor deve ter a liberdade (opa!) de concluir o que bem lhe der na veneta? Pode ser. 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