{"id":4820,"date":"2021-06-27T03:02:00","date_gmt":"2021-06-27T06:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4820"},"modified":"2021-06-27T14:54:38","modified_gmt":"2021-06-27T17:54:38","slug":"ze-do-caixao-e-henri-rousseau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4820","title":{"rendered":"Z\u00e9 do Caix\u00e3o e Henri Rousseau"},"content":{"rendered":"<p>Assisti dia desses \u201c\u00c0 meia-noite levarei sua alma\u201d, que \u00e9 a estreia do Z\u00e9 do Caix\u00e3o no cinema e o terceiro longa-metragem de Jos\u00e9 Mojica Marins, lan\u00e7ado em 1964. Se antes seus filmes eram mais mal do que bem recebidos pela cr\u00edtica especializada, hoje o nome do diretor parece estar consolidado entre os especialistas, tanto que assisti ao filme na Globoplay, na sele\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/fantastico\/noticia\/2021\/06\/06\/globoplay-lanca-projeto-especial-com-o-melhor-do-cinema-brasileiro.ghtml\">cinquenta filmes em setenta anos de cinema brasileiro<\/a>, apresentada pela Fernanda Montenegro e tudo.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 meia-noite levarei sua alma\u201d conta a hist\u00f3ria do coveiro Z\u00e9 do Caix\u00e3o, vivido pelo pr\u00f3prio Jos\u00e9 Mojica Marins, que aterroriza com amea\u00e7as e viol\u00eancia a pequena cidade onde mora, e que debocha da religi\u00e3o e da crendice das pessoas do lugar. \u00c9 um filme de terror de baix\u00edssimo or\u00e7amento, com atores amadores, mas que impressiona pela qualidade art\u00edstica: o clima de tens\u00e3o que Jos\u00e9 Mojica Marins mant\u00e9m durante todo o tempo \u00e9 impressionante; n\u00e3o se assiste ao filme porque ele \u00e9 \u201cpitoresco\u201d ou qualquer outro termo nesse sentido, mas porque ele \u00e9 excelente.<\/p>\n<p>F\u00e3 e apoiador incondicional de Jos\u00e9 Mojica Marins, o jornalista Andr\u00e9 Barcinski deve ser um dos maiores respons\u00e1veis pelo respeito da cr\u00edtica que o diretor, falecido em 2020, alcan\u00e7ou nos dias de hoje. Ele levou inclusive o diretor e seus filmes para festivais dos Estados Unidos, onde Z\u00e9 do Caix\u00e3o \u00e9 conhecido como <em>Coffin Joe<\/em>.<\/p>\n<p>Foi principalmente num programa de entrevistas com Jos\u00e9 Mojica Marins e dirigido por Andr\u00e9 Barcinski que passava na Rede Brasil, \u201cO Estranho Mundo de Z\u00e9 do Caix\u00e3o\u201d, que tive maior contato com o diretor. Ele era uma pessoa sem estudo, que falava portugu\u00eas errado, e quem acompanha os podcasts <a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=2ahUKEwjVvOmz1bbxAhV8q5UCHdh0DqkQFjALegQIBxAD&amp;url=https%3A%2F%2Fopen.spotify.com%2Fshow%2F6up1DmA4drCoNUI3HYXaDF&amp;usg=AOvVaw3RFC2LXYwQYdoVy2-HBJ85\">B3<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=2ahUKEwj_ypT41bbxAhXsqpUCHTbRCbYQFjAMegQICxAD&amp;url=https%3A%2F%2Fopen.spotify.com%2Fshow%2F6gD0uJHOHcYkZuH3Mkxg3a&amp;usg=AOvVaw1WTWNlLRUCr83rkclX5u4W\">ABFP<\/a>, em que Barcinski participa, j\u00e1 teve contato com hist\u00f3rias saborosas cujo principal tema era a falta de cultura geral do Z\u00e9 do Caix\u00e3o.<\/p>\n<p>Assistir ao filme \u201c\u00c0 meia-noite levarei sua alma\u201d me lembrou o grande pintor franc\u00eas Henri Rousseau (1844-1910), tamb\u00e9m conhecido como Douanier (alfandeg\u00e1rio, profiss\u00e3o que ele exerceu) Rousseau.<\/p>\n<p>A maior parte do que sei sobre artes pl\u00e1sticas em geral \u00e9 fruto de cole\u00e7\u00f5es da Editora Abril que minha m\u00e3e comprava para ela, mas, principalmente, para mim: \u201cMestres da Pintura\u201d, \u201cG\u00eanios da Pintura\u201d e, por \u00faltimo mas n\u00e3o menos importante, a \u201cEnciclop\u00e9dia Abril\u201d &#8211; j\u00e1 citada <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4673\">aqui<\/a> num texto sobre o grande diretor Erich von Stroheim.<\/p>\n<p>Henri Rousseau, conforme os textos obtidos nas fontes da Abril e reproduzidas <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/rousseau.pdf\">aqui<\/a>, era um g\u00eanio da pintura que n\u00e3o tinha tido educa\u00e7\u00e3o formal. De mentalidade burguesa, ele queria mesmo era ser reconhecido pela Academia, por mais que pudesse expor suas obras no muito mais importante \u2013 posteriormente &#8211; Sal\u00e3o dos Independentes, juntamente com g\u00eanios como Degas e C\u00e9zanne. Ing\u00eanuo e pouco interessado na revolu\u00e7\u00e3o que os impressionistas, cubistas e surrealistas estavam fazendo nas artes pl\u00e1sticas, Rousseau chegou a ter um jantar meio debochado em sua homenagem promovido por Pablo Picasso, mas n\u00e3o percebeu a ironia na inten\u00e7\u00e3o do grande espanhol. O interessante \u00e9 que aqueles grandes pintores se divertiam com a falta de horizontes intelectuais do Douanier ao mesmo tempo que sabiam da genialidade dele. E \u00e9 uma coincid\u00eancia engra\u00e7ada que, assim como o j\u00e1 citado Erich von Stroheim, por quem tamb\u00e9m sou obcecado, Henri Rousseau tamb\u00e9m inventava gl\u00f3rias passadas de sua pr\u00f3pria vida que simplesmente n\u00e3o aconteceram.<\/p>\n<p>As pinturas de Henri Rousseau, \u00e9 s\u00f3 dar uma fu\u00e7ada no Google Images para sacar, s\u00e3o impressionantes: g\u00eanio no uso da cor, ele criou imagens fort\u00edssimas que \u2013 mesmo com um erro de propor\u00e7\u00e3o aqui e ali \u2013 n\u00e3o saem da cabe\u00e7a depois de serem vistas com algum cuidado. O quadro \u201cO sonho\u201d, que acompanha este texto, n\u00e3o me deixa mentir.<\/p>\n<p>O fato de fazer uma arte de extraordin\u00e1ria qualidade mesmo sem estudo formal fez o grande dramaturgo Alfred Jarry chamar Rousseau de \u201cprimitivo\u201d. O tipo de arte que ele fazia hoje em dia \u00e9 chamada de \u201cna\u00eff\u201d (ing\u00eanua, em franc\u00eas), ep\u00edteto que tamb\u00e9m pode ser sem problemas utilizado para o nosso Z\u00e9 do Caix\u00e3o.<\/p>\n<p>Fui ver na internet se algu\u00e9m tinha percebido o paralelo entre os dois, e rapidamente achei a disserta\u00e7\u00e3o de Daniela Pinto Senador<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, em que \u00e9 transcrito um depoimento do cineasta e cr\u00edtico Gustavo Dahl: \u201cquando apareceu o Mojica Marins ele era uma esp\u00e9cie de Henri Rousseau e Douanier Rousseau do cinema; repetiu a mesma rela\u00e7\u00e3o que os surrealistas tiveram com Rousseau\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Senador, Daniela Pinto. Das primeiras experi\u00eancias ao fen\u00f4meno Z\u00e9 do Caix\u00e3o: um estudo sobre o modo de produ\u00e7\u00e3o e a recep\u00e7\u00e3o dos filmes de Jos\u00e9 Mojica Marins entre 1953 e 1967. 2008. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produ\u00e7\u00e3o Medi\u00e1tica) \u2013 Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2008. Dispon\u00edvel em: &lt; http:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/27\/27153\/tde-05072009-230157\/ &gt;. Acesso em: 26 jun. 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assisti dia desses \u201c\u00c0 meia-noite levarei sua alma\u201d, que \u00e9 a estreia do Z\u00e9 do Caix\u00e3o no cinema e o terceiro longa-metragem de Jos\u00e9 Mojica Marins, lan\u00e7ado em 1964. Se antes seus filmes eram mais mal do que bem recebidos pela cr\u00edtica especializada, hoje o nome do diretor parece estar consolidado entre os especialistas, tanto que assisti ao filme na Globoplay, na sele\u00e7\u00e3o de cinquenta filmes em setenta anos de cinema brasileiro, apresentada pela Fernanda Montenegro e tudo. \u201c\u00c0 meia-noite levarei sua alma\u201d conta a hist\u00f3ria do coveiro Z\u00e9 do Caix\u00e3o, vivido pelo pr\u00f3prio Jos\u00e9 Mojica Marins, que aterroriza com amea\u00e7as e viol\u00eancia a pequena cidade onde mora, e que debocha da religi\u00e3o e da crendice das pessoas do lugar. \u00c9 um filme de terror de baix\u00edssimo or\u00e7amento, com atores amadores, mas que impressiona pela qualidade art\u00edstica: o clima de tens\u00e3o que Jos\u00e9 Mojica Marins mant\u00e9m durante todo o tempo \u00e9 impressionante; n\u00e3o se assiste ao filme porque ele \u00e9 \u201cpitoresco\u201d ou qualquer outro termo nesse sentido, mas porque ele \u00e9 excelente. F\u00e3 e apoiador incondicional de Jos\u00e9 Mojica Marins, o jornalista Andr\u00e9 Barcinski deve ser um dos maiores respons\u00e1veis pelo respeito da cr\u00edtica que o diretor, falecido em 2020, alcan\u00e7ou nos dias de hoje. Ele levou inclusive o diretor e seus filmes para festivais dos Estados Unidos, onde Z\u00e9 do Caix\u00e3o \u00e9 conhecido como Coffin Joe. Foi principalmente num programa de entrevistas com Jos\u00e9 Mojica Marins e dirigido por Andr\u00e9 Barcinski que passava na Rede Brasil, \u201cO Estranho Mundo de Z\u00e9 do Caix\u00e3o\u201d, que tive maior contato com o diretor. Ele era uma pessoa sem estudo, que falava portugu\u00eas errado, e quem acompanha os podcasts B3 e ABFP, em que Barcinski participa, j\u00e1 teve contato com hist\u00f3rias saborosas cujo principal tema era a falta de cultura geral do Z\u00e9 do Caix\u00e3o. Assistir ao filme \u201c\u00c0 meia-noite levarei sua alma\u201d me lembrou o grande pintor franc\u00eas Henri Rousseau (1844-1910), tamb\u00e9m conhecido como Douanier (alfandeg\u00e1rio, profiss\u00e3o que ele exerceu) Rousseau. A maior parte do que sei sobre artes pl\u00e1sticas em geral \u00e9 fruto de cole\u00e7\u00f5es da Editora Abril que minha m\u00e3e comprava para ela, mas, principalmente, para mim: \u201cMestres da Pintura\u201d, \u201cG\u00eanios da Pintura\u201d e, por \u00faltimo mas n\u00e3o menos importante, a \u201cEnciclop\u00e9dia Abril\u201d &#8211; j\u00e1 citada aqui num texto sobre o grande diretor Erich von Stroheim. Henri Rousseau, conforme os textos obtidos nas fontes da Abril e reproduzidas aqui, era um g\u00eanio da pintura que n\u00e3o tinha tido educa\u00e7\u00e3o formal. De mentalidade burguesa, ele queria mesmo era ser reconhecido pela Academia, por mais que pudesse expor suas obras no muito mais importante \u2013 posteriormente &#8211; Sal\u00e3o dos Independentes, juntamente com g\u00eanios como Degas e C\u00e9zanne. Ing\u00eanuo e pouco interessado na revolu\u00e7\u00e3o que os impressionistas, cubistas e surrealistas estavam fazendo nas artes pl\u00e1sticas, Rousseau chegou a ter um jantar meio debochado em sua homenagem promovido por Pablo Picasso, mas n\u00e3o percebeu a ironia na inten\u00e7\u00e3o do grande espanhol. O interessante \u00e9 que aqueles grandes pintores se divertiam com a falta de horizontes intelectuais do Douanier ao mesmo tempo que sabiam da genialidade dele. E \u00e9 uma coincid\u00eancia engra\u00e7ada que, assim como o j\u00e1 citado Erich von Stroheim, por quem tamb\u00e9m sou obcecado, Henri Rousseau tamb\u00e9m inventava gl\u00f3rias passadas de sua pr\u00f3pria vida que simplesmente n\u00e3o aconteceram. As pinturas de Henri Rousseau, \u00e9 s\u00f3 dar uma fu\u00e7ada no Google Images para sacar, s\u00e3o impressionantes: g\u00eanio no uso da cor, ele criou imagens fort\u00edssimas que \u2013 mesmo com um erro de propor\u00e7\u00e3o aqui e ali \u2013 n\u00e3o saem da cabe\u00e7a depois de serem vistas com algum cuidado. O quadro \u201cO sonho\u201d, que acompanha este texto, n\u00e3o me deixa mentir. O fato de fazer uma arte de extraordin\u00e1ria qualidade mesmo sem estudo formal fez o grande dramaturgo Alfred Jarry chamar Rousseau de \u201cprimitivo\u201d. O tipo de arte que ele fazia hoje em dia \u00e9 chamada de \u201cna\u00eff\u201d (ing\u00eanua, em franc\u00eas), ep\u00edteto que tamb\u00e9m pode ser sem problemas utilizado para o nosso Z\u00e9 do Caix\u00e3o. Fui ver na internet se algu\u00e9m tinha percebido o paralelo entre os dois, e rapidamente achei a disserta\u00e7\u00e3o de Daniela Pinto Senador[1], em que \u00e9 transcrito um depoimento do cineasta e cr\u00edtico Gustavo Dahl: \u201cquando apareceu o Mojica Marins ele era uma esp\u00e9cie de Henri Rousseau e Douanier Rousseau do cinema; repetiu a mesma rela\u00e7\u00e3o que os surrealistas tiveram com Rousseau\u201d. [1] Senador, Daniela Pinto. Das primeiras experi\u00eancias ao fen\u00f4meno Z\u00e9 do Caix\u00e3o: um estudo sobre o modo de produ\u00e7\u00e3o e a recep\u00e7\u00e3o dos filmes de Jos\u00e9 Mojica Marins entre 1953 e 1967. 2008. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produ\u00e7\u00e3o Medi\u00e1tica) \u2013 Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2008. Dispon\u00edvel em: &lt; http:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/27\/27153\/tde-05072009-230157\/ &gt;. 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