{"id":4761,"date":"2021-05-22T15:07:51","date_gmt":"2021-05-22T18:07:51","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4761"},"modified":"2021-05-22T15:08:54","modified_gmt":"2021-05-22T18:08:54","slug":"quero-matar-hitler-de-edward-moorhouse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4761","title":{"rendered":"&#8220;Quero Matar Hitler&#8221;, de Edward Moorhouse"},"content":{"rendered":"<p>Hoje qualquer um pode (e deve) ser antinazista. Na Alemanha entre os anos 1933 e 1945, por outro lado, a coisa era muito diferente. Pequenos deslizes, pertencer ao povo \u201cerrado\u201d, opini\u00f5es divergentes do usual \u2013 qualquer coisa podia fazer a pessoa ser torturada e assassinada em algum dos muitos campos de concentra\u00e7\u00e3o espalhados pelo territ\u00f3rio ocupado pelos nazistas. \u00c9 por causa deste tenebroso pano de fundo que s\u00e3o t\u00e3o admir\u00e1veis os muitos casos de bravura descritos em <em>Quero Matar Hitler<\/em>, do historiador Edward Moorhouse (Ediouro). Como o pr\u00f3prio nome sugere, o livre descreve diversas tentativas de matar o ditador, sejam individuais, sejam parte de movimentos maiores de resist\u00eancia. Tendo em vista que Hitler se suicidou em 1945, desde o in\u00edcio se sabe que nenhuma destas a\u00e7\u00f5es conseguiu seu atingir seu objetivo.<\/p>\n<p>Os dois cap\u00edtulos iniciais s\u00e3o tamb\u00e9m os mais tocantes. Eles tratam de duas tentativas individuais de matar o F\u00fchrer, uma por parte do estudante su\u00ed\u00e7o Maurice Bavaud e outra perpetrada por um comunista alem\u00e3o chamado Georg Elser. Bavaud, cat\u00f3lico fervoroso, tentou assassinar o ditador por diversas maneiras e por causa de uma delas acabou preso e posteriormente assassinado em um campo de concentra\u00e7\u00e3o. O su\u00ed\u00e7o chegou pr\u00f3ximo de seu objetivo em 1938, quando Hitler passava por um carro aberto em um desfile em Munique enquanto Maurice estava armado com uma pistola autom\u00e1tica na plat\u00e9ia. Neste dia o sanguin\u00e1rio ditador acabou passando mais longe do que o estudante previra e, por isto, este acabou n\u00e3o atirando.<\/p>\n<p>J\u00e1 Georg Elser plantou uma bomba-rel\u00f3gio na cervejaria em que Hitler iria discursar, em 8 de novembro de 1939, tamb\u00e9m em Munique. A bomba explodiu conforme o planejado, \u00e0s 21h20. Mas o sanguin\u00e1rio ditador, como fazia frequentemente, saiu do local mais cedo do que o previsto e escapou da morte por treze minutos. O resultado da explos\u00e3o foram sessenta e tr\u00eas pessoas gravemente feridas e oito mortas.<\/p>\n<p>Tanto Bavaud quanto Elser praticamente n\u00e3o tiveram ajuda de outras pessoas, o que faz as a\u00e7\u00f5es deles serem ainda mais admir\u00e1veis. <em>Quero Matar Hitler<\/em>, ali\u00e1s, mostra como estas duas tentativas tamb\u00e9m foram possibilitadas pelo fraco sistema de seguran\u00e7a nazista da \u00e9poca (final dos anos 30). \u00c0 medida que os anos foram passando, a\u00e7\u00f5es como as de Maurice e Georg praticamente n\u00e3o seriam mais poss\u00edveis, gra\u00e7as ao crescente aumento na seguran\u00e7a pessoal do chefe nazista<\/p>\n<p>Um cap\u00edtulo de <em>Quero Matar Hitler<\/em>, como n\u00e3o poderia deixar de ser, \u00e9 dedicado ao mais famoso dos atentados contra Hitler, aquele perpetrado pelo tenente-coronel alem\u00e3o Claus Von Stauffenberg, cuja hist\u00f3ria inspirou o recente filme <em>Opera\u00e7\u00e3o Valkiria<\/em>, estrelado por Tom Cruise. A bomba que o militar plantou perto do ditador em uma reuni\u00e3o, no dia 20 de julho de 1944, n\u00e3o o matou por muito pouco \u2013 e ainda refor\u00e7ou a ideia que Hitler tinha de si pr\u00f3prio, de que ele era um escolhido pela Provid\u00eancia. Outro aspecto importante deste caso \u00e9 como o ex\u00e9rcito alem\u00e3o (a Wehrmacht) ainda conseguia ser um foco de resist\u00eancia ao regime nazista, j\u00e1 que da conspira\u00e7\u00e3o de Stauffenberg faziam parte um grande n\u00famero de militares de alta patente. Ali\u00e1s, quase todos brutalmente assassinados como repres\u00e1lia ao atentado.<\/p>\n<p>Outro cap\u00edtulo de <em>Quero Matar Hitler<\/em> descreve as tentativas de Albert Speer, j\u00e1 no final da guerra, para assassinar o ditador. Speer, segundo relatos, era o \u00fanico dos nazistas de alt\u00edssimo escal\u00e3o \u201cque parecia uma pessoa normal, n\u00e3o um psicopata\u201d. Apesar da proximidade com Hitler e dos importantes cargos que ocupou, parece que realmente Speer n\u00e3o participou ativamente das maiores crueldades nazistas \u2013 tanto assim que ele n\u00e3o fora condenado \u00e0 morte pelo Tribunal de Nuremberg (mas a uma pena de 20 anos de pris\u00e3o). De todo modo, o fato de Speer ter ou n\u00e3o pensado realmente a s\u00e9rio em matar Hitler no final da guerra \u00e9 um assunto controverso at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Os demais cap\u00edtulos do livro n\u00e3o se concentram em tentativas de matar Hitler, mas s\u00e3o descri\u00e7\u00f5es de movimentos de resist\u00eancia (polon\u00eas, russo. brit\u00e2nico) nos quais o assassinato do ditador era, por vezes, aventado. A conclus\u00e3o descreve como seria a morte do ditador.<\/p>\n<p>Quero Matar Hitler \u00e9 uma leitura \u00e1gil e interessante. O autor mostra uma grande preocupa\u00e7\u00e3o em inserir as tentativas de assassinato do F\u00fchrer dentro do contexto hist\u00f3rico, o que muito enriquece a leitura. \u00c9 pena que a tradu\u00e7\u00e3o da Ediouro seja t\u00e3o descuidada &#8211; mas nada que uma boa e s\u00e9ria revis\u00e3o futura n\u00e3o resolva.<\/p>\n<p><em>(texto publicado em 2010 no <a href=\"https:\/\/mondobacana.wordpress.com\/\">Mondo Bacana<\/a> &#8211; foto: <a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/fernando-grostein\/quando-a-ganancia-mata\/\">Revista Veja<\/a>)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje qualquer um pode (e deve) ser antinazista. Na Alemanha entre os anos 1933 e 1945, por outro lado, a coisa era muito diferente. Pequenos deslizes, pertencer ao povo \u201cerrado\u201d, opini\u00f5es divergentes do usual \u2013 qualquer coisa podia fazer a pessoa ser torturada e assassinada em algum dos muitos campos de concentra\u00e7\u00e3o espalhados pelo territ\u00f3rio ocupado pelos nazistas. \u00c9 por causa deste tenebroso pano de fundo que s\u00e3o t\u00e3o admir\u00e1veis os muitos casos de bravura descritos em Quero Matar Hitler, do historiador Edward Moorhouse (Ediouro). Como o pr\u00f3prio nome sugere, o livre descreve diversas tentativas de matar o ditador, sejam individuais, sejam parte de movimentos maiores de resist\u00eancia. Tendo em vista que Hitler se suicidou em 1945, desde o in\u00edcio se sabe que nenhuma destas a\u00e7\u00f5es conseguiu seu atingir seu objetivo. Os dois cap\u00edtulos iniciais s\u00e3o tamb\u00e9m os mais tocantes. Eles tratam de duas tentativas individuais de matar o F\u00fchrer, uma por parte do estudante su\u00ed\u00e7o Maurice Bavaud e outra perpetrada por um comunista alem\u00e3o chamado Georg Elser. Bavaud, cat\u00f3lico fervoroso, tentou assassinar o ditador por diversas maneiras e por causa de uma delas acabou preso e posteriormente assassinado em um campo de concentra\u00e7\u00e3o. O su\u00ed\u00e7o chegou pr\u00f3ximo de seu objetivo em 1938, quando Hitler passava por um carro aberto em um desfile em Munique enquanto Maurice estava armado com uma pistola autom\u00e1tica na plat\u00e9ia. Neste dia o sanguin\u00e1rio ditador acabou passando mais longe do que o estudante previra e, por isto, este acabou n\u00e3o atirando. J\u00e1 Georg Elser plantou uma bomba-rel\u00f3gio na cervejaria em que Hitler iria discursar, em 8 de novembro de 1939, tamb\u00e9m em Munique. A bomba explodiu conforme o planejado, \u00e0s 21h20. Mas o sanguin\u00e1rio ditador, como fazia frequentemente, saiu do local mais cedo do que o previsto e escapou da morte por treze minutos. O resultado da explos\u00e3o foram sessenta e tr\u00eas pessoas gravemente feridas e oito mortas. Tanto Bavaud quanto Elser praticamente n\u00e3o tiveram ajuda de outras pessoas, o que faz as a\u00e7\u00f5es deles serem ainda mais admir\u00e1veis. Quero Matar Hitler, ali\u00e1s, mostra como estas duas tentativas tamb\u00e9m foram possibilitadas pelo fraco sistema de seguran\u00e7a nazista da \u00e9poca (final dos anos 30). \u00c0 medida que os anos foram passando, a\u00e7\u00f5es como as de Maurice e Georg praticamente n\u00e3o seriam mais poss\u00edveis, gra\u00e7as ao crescente aumento na seguran\u00e7a pessoal do chefe nazista Um cap\u00edtulo de Quero Matar Hitler, como n\u00e3o poderia deixar de ser, \u00e9 dedicado ao mais famoso dos atentados contra Hitler, aquele perpetrado pelo tenente-coronel alem\u00e3o Claus Von Stauffenberg, cuja hist\u00f3ria inspirou o recente filme Opera\u00e7\u00e3o Valkiria, estrelado por Tom Cruise. A bomba que o militar plantou perto do ditador em uma reuni\u00e3o, no dia 20 de julho de 1944, n\u00e3o o matou por muito pouco \u2013 e ainda refor\u00e7ou a ideia que Hitler tinha de si pr\u00f3prio, de que ele era um escolhido pela Provid\u00eancia. Outro aspecto importante deste caso \u00e9 como o ex\u00e9rcito alem\u00e3o (a Wehrmacht) ainda conseguia ser um foco de resist\u00eancia ao regime nazista, j\u00e1 que da conspira\u00e7\u00e3o de Stauffenberg faziam parte um grande n\u00famero de militares de alta patente. Ali\u00e1s, quase todos brutalmente assassinados como repres\u00e1lia ao atentado. Outro cap\u00edtulo de Quero Matar Hitler descreve as tentativas de Albert Speer, j\u00e1 no final da guerra, para assassinar o ditador. Speer, segundo relatos, era o \u00fanico dos nazistas de alt\u00edssimo escal\u00e3o \u201cque parecia uma pessoa normal, n\u00e3o um psicopata\u201d. Apesar da proximidade com Hitler e dos importantes cargos que ocupou, parece que realmente Speer n\u00e3o participou ativamente das maiores crueldades nazistas \u2013 tanto assim que ele n\u00e3o fora condenado \u00e0 morte pelo Tribunal de Nuremberg (mas a uma pena de 20 anos de pris\u00e3o). De todo modo, o fato de Speer ter ou n\u00e3o pensado realmente a s\u00e9rio em matar Hitler no final da guerra \u00e9 um assunto controverso at\u00e9 hoje. Os demais cap\u00edtulos do livro n\u00e3o se concentram em tentativas de matar Hitler, mas s\u00e3o descri\u00e7\u00f5es de movimentos de resist\u00eancia (polon\u00eas, russo. brit\u00e2nico) nos quais o assassinato do ditador era, por vezes, aventado. A conclus\u00e3o descreve como seria a morte do ditador. Quero Matar Hitler \u00e9 uma leitura \u00e1gil e interessante. O autor mostra uma grande preocupa\u00e7\u00e3o em inserir as tentativas de assassinato do F\u00fchrer dentro do contexto hist\u00f3rico, o que muito enriquece a leitura. \u00c9 pena que a tradu\u00e7\u00e3o da Ediouro seja t\u00e3o descuidada &#8211; mas nada que uma boa e s\u00e9ria revis\u00e3o futura n\u00e3o resolva. (texto publicado em 2010 no Mondo Bacana &#8211; foto: Revista Veja) &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4762,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[201,263,101],"class_list":["post-4761","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","tag-hitler","tag-nazismo","tag-segunda-guerra-mundial","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4761","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4761"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4761\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4763,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4761\/revisions\/4763"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4762"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4761"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4761"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4761"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}