{"id":4673,"date":"2021-03-07T17:38:39","date_gmt":"2021-03-07T20:38:39","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4673"},"modified":"2021-03-07T17:45:57","modified_gmt":"2021-03-07T20:45:57","slug":"algumas-historias-minhas-com-erich-von-stroheim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4673","title":{"rendered":"Algumas hist\u00f3rias minhas com Erich von Stroheim"},"content":{"rendered":"<p>Isso aconteceu h\u00e1 alguns anos. Estava mudando de canal at\u00e9 que apareceu a imagem de Erich von Stroheim na tela do Telecine Cult. Era um filme mudo que estava bem no final, e os poucos minutos a que assisti foram marcantes, nunca mais me esqueci deles. V\u00e1rias imagens passaram na minha mente depois que ele terminou.<\/p>\n<p>A primeira, claro, foi a do verbete da Enciclop\u00e9dia Abril que eu tinha lido diversas vezes na adolesc\u00eancia e que reproduzi <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/stroheim.pdf\">aqui<\/a>. Nele, se dizia que Stroheim (austr\u00edaco, nascido em 1885, e que fez sua carreira como diretor em Hollywood) era um caso \u201ct\u00edpico\u201d de \u201cpoder criador liquidado pelo sistema industrial\u201d. O verbete dizia que, devido ao seu \u201cnaturalismo delirante\u201d, seus filmes sofriam impedimentos de \u201cordem moral\u201d por parte dos produtores e, para exemplificar isto, \u00e9 citado o texto de um cr\u00edtico cinematogr\u00e1fico segundo o qual um de seus filmes, \u201cFoolish Wives\u201d, \u201cdeveria ser interditado\u201d, pois era um caso de \u201calta trai\u00e7\u00e3o contra a Am\u00e9rica e um insulto \u00e0 mulher em geral\u201d \u2013 o cr\u00edtico citado ainda comenta que \u201cmataria o homem que levasse meus filhos a assistir este filme\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do fato de um diretor de cinema ocupar quase duas p\u00e1ginas na Enciclop\u00e9dia Abril, muitas coisas me fascinavam em Erich von Stroheim. O fato de o diretor ter uma apar\u00eancia t\u00e3o militar (s\u00f3 ver a foto que acompanha este texto, obtida <a href=\"https:\/\/7wallpapers.net\/erich-von-stroheim\/\">aqui<\/a>) e mesmo assim ser um g\u00eanio do cinema. O fato de ele ser uma pessoa que inventava seu passado (o \u201cvon\u201d, part\u00edcula que indica nobreza, de seu nome foi cria\u00e7\u00e3o sua). A injusti\u00e7a que Hollywood fez com ele, que n\u00e3o conseguiu mais pap\u00e9is como diretor, mas apenas como ator \u2013 vale aqui reproduzir, com pequenas adapta\u00e7\u00f5es, a parte do verbete que fala de sua participa\u00e7\u00e3o no cl\u00e1ssico \u201cO Crep\u00fasculo dos Deuses\u201d:<\/p>\n<p><em>\u201cEm 1950, trabalhou em outro filme de prest\u00edgio, \u2018Sunset Boulevard\u2019, de Billy Wilder. Seu papel \u00e9 o de um grande diretor cinematogr\u00e1fico dos tempos de cinema mudo que, para sobreviver na nova era de som e imagem, torna-se mordomo de uma ex-estrela dos anos de 1920. Para fugir \u00e0 depress\u00e3o, a antiga \u2018diva\u2019 (interpretada por Gloria Swanson) relembra os tempos \u00e1ureos mandando projetar fragmentos do velho \u2018Queen Kelly\u2019 (dirigido por Stroheim e interpretado pela pr\u00f3pria Gloria Swanson). Certos cr\u00edticos viram em \u2018Crep\u00fasculos dos Deuses\u2019 um exerc\u00edcio de sadomasoquismo para o velho diretor. Bob Bergut chegou a dizer que \u2018Hollywood vingou-se cruelmente de Stroheim\u2019 fazendo-o trabalhar nesse filme \u2018que ultrapassou at\u00e9 os limites da dec\u00eancia\u2019\u201d.<\/em><\/p>\n<p>A outra lembran\u00e7a que me veio \u00e0 mente quando vi o trecho do filme de Stroheim no Telecine Cult \u00e9 divertida, e meio rid\u00edcula. Foi assim: eu ainda namorava a Val\u00e9ria e a levei para assistir \u201cOuro e Maldi\u00e7\u00e3o\u201d, tradu\u00e7\u00e3o brasileira de \u201cGreed\u201d, considerado por muitos cr\u00edticos um dos dez melhores filmes de todos os tempos. Quem conheceu a antiga Cinemateca do Museu Guido Viaro aqui em Curitiba sabe que a sala de proje\u00e7\u00e3o era pequena, com bancos desconfort\u00e1veis de madeira e, frequentemente, com problemas no ar-condicionado. Pois bem, foi l\u00e1 que eu a levei para assistir a este cl\u00e1ssico do cinema.<\/p>\n<p>A c\u00f3pia de \u201cOuro e Maldi\u00e7\u00e3o\u201d tinha intert\u00edtulos (as legendas do cinema mudo) em ingl\u00eas e, para resolver a quest\u00e3o de idioma, tinha um sujeito na primeira fila traduzindo o que estava escrito na tela para os espectadores. S\u00f3 que o filme era estranho, e n\u00e3o s\u00f3 por ser mudo: a hist\u00f3ria n\u00e3o fazia muito sentido. E eu, o namorado que tinha levado a namorada naquele programa esquisito, estava obviamente desconfort\u00e1vel. Pois bem: l\u00e1 pelas tantas o filme acaba e os espectadores n\u00e3o conseguem disfar\u00e7ar o inc\u00f4modo. \u00c9 quando o \u201ctradutor\u201d vem \u00e0 frente da sala de proje\u00e7\u00e3o e explica o porqu\u00ea da estranheza: o filme tinha tr\u00eas rolos, e um deles n\u00e3o tinha sido projetado. \u00c9 por isso que ele era t\u00e3o estranho! Enfim, o sujeito pediu desculpas para a plateia e pergunta se quer\u00edamos ver o primeiro rolo. Quer\u00edamos, claro (mas n\u00e3o sei se a Val\u00e9ria estava muito a fim de ver, haha).<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, n\u00e3o sei se j\u00e1 estava casado ou n\u00e3o, a levei novamente para ver \u201cOuro e Maldi\u00e7\u00e3o\u201d, desta vez na ordem certa. Eu amei, mas n\u00e3o sei at\u00e9 hoje se minha \u2013 hoje \u2013 esposa gostou ou n\u00e3o. De todo modo, n\u00e3o me saiu da lembran\u00e7a o coment\u00e1rio que meu falecido sogro, nascido em 1917, fez quando a Val\u00e9ria lhe contou sobre nossas aventuras com Stroheim na Cinemateca: \u201cum grande diretor, um grande ator\u201d. O \u00faltimo filme dirigido pelo diretor, o j\u00e1 citado \u201cQueen Kelly\u201d, foi lan\u00e7ado em 1932, o que significa que meu sogro acompanhou o auge comercial de Stroheim \u2013 apenas para compara\u00e7\u00e3o, minha m\u00e3e, que amava cinema na juventude e que nasceu em 1943, nunca tinha ouvido falar nele.<\/p>\n<p>Agora estou com um projeto pessoal de ver todos os filmes dirigidos por Erich von Stroheim, e j\u00e1 assisti a cinco dos nove que ele realizou (todos podem ser vistos de gra\u00e7a no YouTube, ali\u00e1s). Estou lendo tamb\u00e9m a \u00f3tima biografia \u201cStroheim\u201d, de Arthur Lenning (The University Press of Kentucky, 588 p\u00e1ginas). Pretendo comentar sobre os filmes e o livro por aqui ainda.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, neste processo de assistir aos filmes de Erich von Stroheim, eu estava curioso para saber qual era aquele citado no in\u00edcio deste texto. Acabei descobrindo: era \u201cThe Wedding March\u201d, que teve uma continua\u00e7\u00e3o, chamada \u201cHoneymoon\u201d, que infelizmente se perdeu num inc\u00eandio em Paris. Na biografia de Arthur Lenning consta uma descri\u00e7\u00e3o minuciosa do que se sabe sobre este filme perdido, que ainda n\u00e3o li.<\/p>\n<p>Como nota final, acabei procurando sobre a transmiss\u00e3o de \u201cThe Wedding March\u201d no Telecine Cult, e encontrei <a href=\"http:\/\/www.contracampo.com.br\/80\/tv.htm\">este texto<\/a> na revista de cinema Contracampo, que comenta que a vers\u00e3o transmitida foi a restaurada &#8211; e eu lembro bem da excelente qualidade da imagem. Pois bem: infelizmente, a que eu assisti no YouTube est\u00e1 bem desgastada. Fui procurar o filme no canal de streaming da Telecine e, obviamente, nada de \u201cThe Wedding March\u201d.<\/p>\n<p>Que \u00f3dio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isso aconteceu h\u00e1 alguns anos. Estava mudando de canal at\u00e9 que apareceu a imagem de Erich von Stroheim na tela do Telecine Cult. Era um filme mudo que estava bem no final, e os poucos minutos a que assisti foram marcantes, nunca mais me esqueci deles. V\u00e1rias imagens passaram na minha mente depois que ele terminou. A primeira, claro, foi a do verbete da Enciclop\u00e9dia Abril que eu tinha lido diversas vezes na adolesc\u00eancia e que reproduzi aqui. Nele, se dizia que Stroheim (austr\u00edaco, nascido em 1885, e que fez sua carreira como diretor em Hollywood) era um caso \u201ct\u00edpico\u201d de \u201cpoder criador liquidado pelo sistema industrial\u201d. O verbete dizia que, devido ao seu \u201cnaturalismo delirante\u201d, seus filmes sofriam impedimentos de \u201cordem moral\u201d por parte dos produtores e, para exemplificar isto, \u00e9 citado o texto de um cr\u00edtico cinematogr\u00e1fico segundo o qual um de seus filmes, \u201cFoolish Wives\u201d, \u201cdeveria ser interditado\u201d, pois era um caso de \u201calta trai\u00e7\u00e3o contra a Am\u00e9rica e um insulto \u00e0 mulher em geral\u201d \u2013 o cr\u00edtico citado ainda comenta que \u201cmataria o homem que levasse meus filhos a assistir este filme\u201d. Al\u00e9m do fato de um diretor de cinema ocupar quase duas p\u00e1ginas na Enciclop\u00e9dia Abril, muitas coisas me fascinavam em Erich von Stroheim. O fato de o diretor ter uma apar\u00eancia t\u00e3o militar (s\u00f3 ver a foto que acompanha este texto, obtida aqui) e mesmo assim ser um g\u00eanio do cinema. O fato de ele ser uma pessoa que inventava seu passado (o \u201cvon\u201d, part\u00edcula que indica nobreza, de seu nome foi cria\u00e7\u00e3o sua). A injusti\u00e7a que Hollywood fez com ele, que n\u00e3o conseguiu mais pap\u00e9is como diretor, mas apenas como ator \u2013 vale aqui reproduzir, com pequenas adapta\u00e7\u00f5es, a parte do verbete que fala de sua participa\u00e7\u00e3o no cl\u00e1ssico \u201cO Crep\u00fasculo dos Deuses\u201d: \u201cEm 1950, trabalhou em outro filme de prest\u00edgio, \u2018Sunset Boulevard\u2019, de Billy Wilder. Seu papel \u00e9 o de um grande diretor cinematogr\u00e1fico dos tempos de cinema mudo que, para sobreviver na nova era de som e imagem, torna-se mordomo de uma ex-estrela dos anos de 1920. Para fugir \u00e0 depress\u00e3o, a antiga \u2018diva\u2019 (interpretada por Gloria Swanson) relembra os tempos \u00e1ureos mandando projetar fragmentos do velho \u2018Queen Kelly\u2019 (dirigido por Stroheim e interpretado pela pr\u00f3pria Gloria Swanson). Certos cr\u00edticos viram em \u2018Crep\u00fasculos dos Deuses\u2019 um exerc\u00edcio de sadomasoquismo para o velho diretor. Bob Bergut chegou a dizer que \u2018Hollywood vingou-se cruelmente de Stroheim\u2019 fazendo-o trabalhar nesse filme \u2018que ultrapassou at\u00e9 os limites da dec\u00eancia\u2019\u201d. A outra lembran\u00e7a que me veio \u00e0 mente quando vi o trecho do filme de Stroheim no Telecine Cult \u00e9 divertida, e meio rid\u00edcula. Foi assim: eu ainda namorava a Val\u00e9ria e a levei para assistir \u201cOuro e Maldi\u00e7\u00e3o\u201d, tradu\u00e7\u00e3o brasileira de \u201cGreed\u201d, considerado por muitos cr\u00edticos um dos dez melhores filmes de todos os tempos. Quem conheceu a antiga Cinemateca do Museu Guido Viaro aqui em Curitiba sabe que a sala de proje\u00e7\u00e3o era pequena, com bancos desconfort\u00e1veis de madeira e, frequentemente, com problemas no ar-condicionado. Pois bem, foi l\u00e1 que eu a levei para assistir a este cl\u00e1ssico do cinema. A c\u00f3pia de \u201cOuro e Maldi\u00e7\u00e3o\u201d tinha intert\u00edtulos (as legendas do cinema mudo) em ingl\u00eas e, para resolver a quest\u00e3o de idioma, tinha um sujeito na primeira fila traduzindo o que estava escrito na tela para os espectadores. S\u00f3 que o filme era estranho, e n\u00e3o s\u00f3 por ser mudo: a hist\u00f3ria n\u00e3o fazia muito sentido. E eu, o namorado que tinha levado a namorada naquele programa esquisito, estava obviamente desconfort\u00e1vel. Pois bem: l\u00e1 pelas tantas o filme acaba e os espectadores n\u00e3o conseguem disfar\u00e7ar o inc\u00f4modo. \u00c9 quando o \u201ctradutor\u201d vem \u00e0 frente da sala de proje\u00e7\u00e3o e explica o porqu\u00ea da estranheza: o filme tinha tr\u00eas rolos, e um deles n\u00e3o tinha sido projetado. \u00c9 por isso que ele era t\u00e3o estranho! Enfim, o sujeito pediu desculpas para a plateia e pergunta se quer\u00edamos ver o primeiro rolo. Quer\u00edamos, claro (mas n\u00e3o sei se a Val\u00e9ria estava muito a fim de ver, haha). Em outra ocasi\u00e3o, n\u00e3o sei se j\u00e1 estava casado ou n\u00e3o, a levei novamente para ver \u201cOuro e Maldi\u00e7\u00e3o\u201d, desta vez na ordem certa. Eu amei, mas n\u00e3o sei at\u00e9 hoje se minha \u2013 hoje \u2013 esposa gostou ou n\u00e3o. De todo modo, n\u00e3o me saiu da lembran\u00e7a o coment\u00e1rio que meu falecido sogro, nascido em 1917, fez quando a Val\u00e9ria lhe contou sobre nossas aventuras com Stroheim na Cinemateca: \u201cum grande diretor, um grande ator\u201d. O \u00faltimo filme dirigido pelo diretor, o j\u00e1 citado \u201cQueen Kelly\u201d, foi lan\u00e7ado em 1932, o que significa que meu sogro acompanhou o auge comercial de Stroheim \u2013 apenas para compara\u00e7\u00e3o, minha m\u00e3e, que amava cinema na juventude e que nasceu em 1943, nunca tinha ouvido falar nele. Agora estou com um projeto pessoal de ver todos os filmes dirigidos por Erich von Stroheim, e j\u00e1 assisti a cinco dos nove que ele realizou (todos podem ser vistos de gra\u00e7a no YouTube, ali\u00e1s). Estou lendo tamb\u00e9m a \u00f3tima biografia \u201cStroheim\u201d, de Arthur Lenning (The University Press of Kentucky, 588 p\u00e1ginas). Pretendo comentar sobre os filmes e o livro por aqui ainda. \u00c9 claro que, neste processo de assistir aos filmes de Erich von Stroheim, eu estava curioso para saber qual era aquele citado no in\u00edcio deste texto. Acabei descobrindo: era \u201cThe Wedding March\u201d, que teve uma continua\u00e7\u00e3o, chamada \u201cHoneymoon\u201d, que infelizmente se perdeu num inc\u00eandio em Paris. Na biografia de Arthur Lenning consta uma descri\u00e7\u00e3o minuciosa do que se sabe sobre este filme perdido, que ainda n\u00e3o li. Como nota final, acabei procurando sobre a transmiss\u00e3o de \u201cThe Wedding March\u201d no Telecine Cult, e encontrei este texto na revista de cinema Contracampo, que comenta que a vers\u00e3o transmitida foi a restaurada &#8211; e eu lembro bem da excelente qualidade da imagem. Pois bem: infelizmente, a que eu assisti no YouTube est\u00e1 bem desgastada. 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