{"id":4524,"date":"2020-11-15T19:07:03","date_gmt":"2020-11-15T22:07:03","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4524"},"modified":"2024-12-28T15:22:20","modified_gmt":"2024-12-28T18:22:20","slug":"roberto-campos-em-energia-terceira-parte-de-rua-paraiba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4524","title":{"rendered":"Roberto Campos em &#8220;Energia&#8221;, terceira parte de &#8220;Rua Para\u00edba&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A primeira vez que lembro de ter ouvido falar de Roberto Campos foi numa entrevista na Veja em que ele, ent\u00e3o senador pelo Mato Grosso, vituperava contra a lei de reserva de mercado da inform\u00e1tica. Era uma coisa estranha: uma esp\u00e9cie de Dom Quixote, do <em>pr\u00f3prio partido do governo<\/em> (de quem era a responsabilidade pela a malfadada lei), numa luta solit\u00e1ria e infrut\u00edfera contra tudo e contra todos: nesse ponto espec\u00edfico, o governo e a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda estavam do mesmo lado, <em>contra <\/em>Roberto Campos.<\/p>\n<p>Era uma lei que hoje parece uma coisa do s\u00e9culo XV: as grandes empresas estrangeiras de inform\u00e1tica eram proibidas de investir no Brasil \u2013 nos dias de hoje, \u00e9 como se ningu\u00e9m pudesse mais comprar um iPhone ou um <em>laptop<\/em> da Lenovo.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que estavam todos errados, e s\u00f3 Roberto Campos estava certo.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p><em>Il va sans dire<\/em> que Roberto Campos tinha uma forte rejei\u00e7\u00e3o por parte da esquerda. O Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo, inclusive, criou uma piada que dizia que Delfim Netto era o Roberto Campos brasileiro \u2013 o senador mato-grossense, afinal, era chamado de <em>Bobby Fields<\/em>. Para a esquerda ele era um entreguista. Queria vender o pa\u00eds para os Estados Unidos a pre\u00e7o vil (a esquerda adora essa express\u00e3o). Era um lobista que defendia apenas os interesses estadunidenses (aqui no Brasil, quando algu\u00e9m fala \u201cestadunidense\u201d, pode saber que \u00e9 de esquerda).<\/p>\n<p>Durante um bom tempo, o que Roberto Campos escrevia era lei para mim. Eu ficava esperando &#8211; n\u00e3o lembro exatamente quantas vezes por semana &#8211; para ler suas colunas no jornal, ficava acordado esperando suas entrevistas na TV, defendia o cara contra tudo e contra todos.<\/p>\n<p>O \u00e1pice da minha liga\u00e7\u00e3o com ele foi a leitura do monumental \u201cLanterna na Popa\u201d, autobiografia de mais de mil p\u00e1ginas. Eu reconhecia que certos coment\u00e1rios dele eram grosseiros, mas que vida a do Roberto Campos! Ministro da Fazenda de Castello Branco, embaixador na Inglaterra no governo M\u00e9dici, senador por Mato Grosso no governo Figueiredo. Fica evidente, no livro, a frustra\u00e7\u00e3o que ele teve ao perder o poder que teve no in\u00edcio do regime militar e que nunca mais iria recuperar. Ele deixava claro sua opini\u00e3o segundo a qual o milagre econ\u00f4mico do governo M\u00e9dici dependeu de maneira fundamental das reformas que ele implantara, ainda no governo Castello Branco. Para Roberto Campos, o governo M\u00e9dici era excessivamente repressor contra a oposi\u00e7\u00e3o. Para quem, como eu, cresceu num lar em que a m\u00e3e, esquerdista, tinha um peso fundamental na <em>ideologia<\/em> da casa, ser um admirador t\u00e3o incondicional de um burocrata importante do governo militar n\u00e3o deixava de ser meio inc\u00f4modo. O fato de ele efetivamente n\u00e3o ter participado da repress\u00e3o e t\u00ea-la at\u00e9 criticado um pouco n\u00e3o deixava de ser um al\u00edvio.<\/p>\n<p>Pequeno, mas um al\u00edvio.<\/p>\n<p>De todo modo, ele estava numa fase \u00e1urea em termos de influ\u00eancia intelectual \u2013 at\u00e9 a esquerda o estava respeitando &#8211; Roberto Campos subitamente parou de escrever no jornal, por estar doente. Eu senti o baque, fiquei meio perdido, mas achava, claro, que logo ele se recuperaria e eu teria de novo meu economista de bolso para poder copiar as opini\u00f5es. Mas isso n\u00e3o ocorreu. Roberto Campos faleceu depois de uns dois anos doente. Nesse meio tempo era poss\u00edvel ler algumas not\u00edcias sobre a sua vida de recluso. Uma delas \u00e9 que ele se obrigava a rezar a Ave-Maria \u2013 mesmo sem acreditar direito em Deus &#8211; em algumas l\u00ednguas, para n\u00e3o perder a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o adiantou, acabou perdendo a vida.<\/p>\n<p>Desculpem essa piada sem-gra\u00e7a: \u00e9 uma homenagem \u00e0s piadas sem gra\u00e7a de Roberto Campos. Na \u00e9poca em que os telefones celulares eram melhores e mais caros quanto mais pequenos, ele escreveu que eles eram uma esp\u00e9cie de homenagem \u00e0 impot\u00eancia, j\u00e1 que viviam dobrados e paravam de funcionar quando entravam em t\u00faneis. Chamava o <em>whisky <\/em>de n\u00e9ctar. Ex-seminarista, no in\u00edcio de seu livro de mem\u00f3rias ele conta a hist\u00f3ria de um colega de semin\u00e1rio que virou padre, mas que acabou sendo afastado. Segundo o que um colega em comum acabou contando para Roberto Campos, o padre afastado<\/p>\n<blockquote><p><em>&#8220;era comunista, e isso a gente podia aceitar; ele tinha um caso com uma mulher, e isso dava para aceitar; mas nunca acreditou em Deus, e isso n\u00e3o dava para aceitar&#8221;.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><em>(trecho de Energia, terceira parte do meu livro &#8220;Rua Para\u00edba&#8221;, publicado recentemente &#8211; mais detalhes <a href=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4512\">aqui<\/a>; fonte da foto: <a href=\"https:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/blog-do-fucs\/18-perolas-de-roberto-campos\/\">Estad\u00e3o<\/a>)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira vez que lembro de ter ouvido falar de Roberto Campos foi numa entrevista na Veja em que ele, ent\u00e3o senador pelo Mato Grosso, vituperava contra a lei de reserva de mercado da inform\u00e1tica. Era uma coisa estranha: uma esp\u00e9cie de Dom Quixote, do pr\u00f3prio partido do governo (de quem era a responsabilidade pela a malfadada lei), numa luta solit\u00e1ria e infrut\u00edfera contra tudo e contra todos: nesse ponto espec\u00edfico, o governo e a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda estavam do mesmo lado, contra Roberto Campos. Era uma lei que hoje parece uma coisa do s\u00e9culo XV: as grandes empresas estrangeiras de inform\u00e1tica eram proibidas de investir no Brasil \u2013 nos dias de hoje, \u00e9 como se ningu\u00e9m pudesse mais comprar um iPhone ou um laptop da Lenovo. \u00c9 claro que estavam todos errados, e s\u00f3 Roberto Campos estava certo. (&#8230;) Il va sans dire que Roberto Campos tinha uma forte rejei\u00e7\u00e3o por parte da esquerda. O Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo, inclusive, criou uma piada que dizia que Delfim Netto era o Roberto Campos brasileiro \u2013 o senador mato-grossense, afinal, era chamado de Bobby Fields. Para a esquerda ele era um entreguista. Queria vender o pa\u00eds para os Estados Unidos a pre\u00e7o vil (a esquerda adora essa express\u00e3o). Era um lobista que defendia apenas os interesses estadunidenses (aqui no Brasil, quando algu\u00e9m fala \u201cestadunidense\u201d, pode saber que \u00e9 de esquerda). Durante um bom tempo, o que Roberto Campos escrevia era lei para mim. Eu ficava esperando &#8211; n\u00e3o lembro exatamente quantas vezes por semana &#8211; para ler suas colunas no jornal, ficava acordado esperando suas entrevistas na TV, defendia o cara contra tudo e contra todos. O \u00e1pice da minha liga\u00e7\u00e3o com ele foi a leitura do monumental \u201cLanterna na Popa\u201d, autobiografia de mais de mil p\u00e1ginas. Eu reconhecia que certos coment\u00e1rios dele eram grosseiros, mas que vida a do Roberto Campos! Ministro da Fazenda de Castello Branco, embaixador na Inglaterra no governo M\u00e9dici, senador por Mato Grosso no governo Figueiredo. Fica evidente, no livro, a frustra\u00e7\u00e3o que ele teve ao perder o poder que teve no in\u00edcio do regime militar e que nunca mais iria recuperar. Ele deixava claro sua opini\u00e3o segundo a qual o milagre econ\u00f4mico do governo M\u00e9dici dependeu de maneira fundamental das reformas que ele implantara, ainda no governo Castello Branco. Para Roberto Campos, o governo M\u00e9dici era excessivamente repressor contra a oposi\u00e7\u00e3o. Para quem, como eu, cresceu num lar em que a m\u00e3e, esquerdista, tinha um peso fundamental na ideologia da casa, ser um admirador t\u00e3o incondicional de um burocrata importante do governo militar n\u00e3o deixava de ser meio inc\u00f4modo. O fato de ele efetivamente n\u00e3o ter participado da repress\u00e3o e t\u00ea-la at\u00e9 criticado um pouco n\u00e3o deixava de ser um al\u00edvio. Pequeno, mas um al\u00edvio. De todo modo, ele estava numa fase \u00e1urea em termos de influ\u00eancia intelectual \u2013 at\u00e9 a esquerda o estava respeitando &#8211; Roberto Campos subitamente parou de escrever no jornal, por estar doente. Eu senti o baque, fiquei meio perdido, mas achava, claro, que logo ele se recuperaria e eu teria de novo meu economista de bolso para poder copiar as opini\u00f5es. Mas isso n\u00e3o ocorreu. Roberto Campos faleceu depois de uns dois anos doente. Nesse meio tempo era poss\u00edvel ler algumas not\u00edcias sobre a sua vida de recluso. Uma delas \u00e9 que ele se obrigava a rezar a Ave-Maria \u2013 mesmo sem acreditar direito em Deus &#8211; em algumas l\u00ednguas, para n\u00e3o perder a mem\u00f3ria. N\u00e3o adiantou, acabou perdendo a vida. Desculpem essa piada sem-gra\u00e7a: \u00e9 uma homenagem \u00e0s piadas sem gra\u00e7a de Roberto Campos. Na \u00e9poca em que os telefones celulares eram melhores e mais caros quanto mais pequenos, ele escreveu que eles eram uma esp\u00e9cie de homenagem \u00e0 impot\u00eancia, j\u00e1 que viviam dobrados e paravam de funcionar quando entravam em t\u00faneis. Chamava o whisky de n\u00e9ctar. Ex-seminarista, no in\u00edcio de seu livro de mem\u00f3rias ele conta a hist\u00f3ria de um colega de semin\u00e1rio que virou padre, mas que acabou sendo afastado. Segundo o que um colega em comum acabou contando para Roberto Campos, o padre afastado &#8220;era comunista, e isso a gente podia aceitar; ele tinha um caso com uma mulher, e isso dava para aceitar; mas nunca acreditou em Deus, e isso n\u00e3o dava para aceitar&#8221;. (trecho de Energia, terceira parte do meu livro &#8220;Rua Para\u00edba&#8221;, publicado recentemente &#8211; mais detalhes aqui; fonte da foto: Estad\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4526,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[54,36],"tags":[664,529],"class_list":["post-4524","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","category-literatura","tag-roberto-campos","tag-rua-paraiba","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4524"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4524\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4527,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4524\/revisions\/4527"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4526"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}