{"id":434,"date":"2015-03-10T13:38:56","date_gmt":"2015-03-10T13:38:56","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=434"},"modified":"2015-03-20T17:52:57","modified_gmt":"2015-03-20T17:52:57","slug":"narrativas-do-espolio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=434","title":{"rendered":"Narrativas do esp\u00f3lio"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>&#8220;Ah&#8221;, disse o rato, &#8220;o mundo torna-se cada vez mais estreito. A princ\u00edpio era t\u00e3o vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via \u00e0 dist\u00e2ncia, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem t\u00e3o depressa uma para a outra, que j\u00e1 estou no \u00faltimo quarto e l\u00e1 no canto fica a ratoeira para a qual eu corro&#8221;. &#8211; &#8220;Voc\u00ea s\u00f3 precisa mudar de dire\u00e7\u00e3o&#8221;, disse o gato, e devorou-o.<\/p><\/blockquote>\n<p><!--more-->O pequeno conto acima chama-se Pequena F\u00e1bula, foi escrito por Franz Kafka e traduzido magistralmente por Modesto Carone. Ele faz parte do volume chamado Narrativas do Esp\u00f3lio, publicado pela Companhia das Letras, que engloba os contos escritos por Kafka que n\u00e3o foram publicados enquanto este estava vivo &#8211; da\u00ed o t\u00edtulo, dado postumamente.<\/p>\n<p>Assim como O Abutre (ver mais detalhes aqui), Pequena F\u00e1bula \u00e9 uma pequena obra-prima que, num \u00fanico par\u00e1grafo, mostra toda a sombria vis\u00e3o de mundo de Kafka, onde simplesmente n\u00e3o h\u00e1 nenhuma sa\u00edda poss\u00edvel. Ali\u00e1s, a tradu\u00e7\u00e3o de Modesto Carone para O Abutre (tamb\u00e9m inclu\u00edda em Narrativas do Esp\u00f3lio) segue abaixo:<\/p>\n<blockquote><p>Era um abutre que bicava meus p\u00e9s. Ele j\u00e1 havia estra\u00e7alhado botas e agora bicava os p\u00e9s propriamente. Toda vez que atacava, voava v\u00e1rias vezes ao meu redor, inquieto, e depois prosseguia o trabalho. Passou por ali um senhor, olhou um pouquinho e perguntou ent\u00e3o por que eu tolerava o abutre.<br \/>\n-Estou indefeso &#8211; eu disse. &#8211; Ele chegou e come\u00e7ou a bicar, naturalmente eu quis enxot\u00e1-lo, tentei at\u00e9 enforc\u00e1-lo, mas um animal desses te muita for\u00e7a, ele tamb\u00e9m queria saltar no meu rosto, a\u00ed eu preferi sacrificar-lhe os p\u00e9s. Agora eles est\u00e3o quase despeda\u00e7ados.<br \/>\n&#8211; Imagine, deixar-se torturar dessa maneira! &#8211; disse o senhor. &#8211; Um tiro e o abutre est\u00e1 liquidado.<br \/>\n&#8211; \u00c9 mesmo? &#8211; perguntei. &#8211; E o senhor pode cuidar disso?<br \/>\n&#8211; Com prazer &#8211; disse ele -, s\u00f3 preciso ir para casa pegar minha espingarda. O senhor pode esperar mais meia hora?<br \/>\n&#8211; Isso eu n\u00e3o sei &#8211; disse e fiquei em p\u00e9 um momento, paralisado de dor.<br \/>\nDepois falei:<br \/>\n&#8211; De qualquer modo tente, por favor.<br \/>\n&#8211; Muito bem &#8211; disse o senhor. &#8211; Vou me apressar.<br \/>\nDurante a conversa o abutre escutou calmamente, deixando o olhar perambular entre mim e aquele senhor. Agora eu via que ele tinha entendido tudo: levantou v\u00f4o, fez a curva da volta bem longe para ganhar \u00edmpeto suficiente e depois, como um lan\u00e7ador de dardos, arremessou at\u00e9 o fundo de mim o bico pela minha boca. Ao cair para tr\u00e1s senti, liberto, como ele se afogava sem salva\u00e7\u00e3o no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens.<\/p><\/blockquote>\n<p>A mesma impossibilidade, a mesma falta de sa\u00eddas vi\u00e1veis, o mesmo tipo de hist\u00f3ria \u00e9 o que Kafka apresenta em outro conto de Narrativas do Esp\u00f3lio, chamado Batida no port\u00e3o da propriedade, que conta a hist\u00f3ria de um casal de irm\u00e3os que \u00e9 preso &#8211; possivelmente para sempre &#8211; e torturado porque a menina bateu, por traquinagem, no port\u00e3o de uma propriedade e saiu correndo.<\/p>\n<p>Mas Kafka nem sempre \u00e9 t\u00e3o dram\u00e1tico e violento: em outros contos situa\u00e7\u00f5es &#8220;kafkianas&#8221; aparecem em situa\u00e7\u00f5es muito mais prosaicas &#8211; e quase engra\u00e7adas. Um exemplo not\u00e1vel \u00e9 o pequeno conto Desista!, reproduzido abaixo:<\/p>\n<blockquote><p>Era de manh\u00e3 bem cedo, as ruas limpas e vazias, eu ia para a esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria. Quando confrontei um rel\u00f3gio de torre com o meu rel\u00f3gio, vi que j\u00e1 era muito mais tarde do que havia acreditado, precisava me apressar bastante; o susto dessa descoberta fez-me ficar inseguro no caminho, eu ainda n\u00e3o conhecia bem aquela cidade, felizmente havia um guarda por perto, corri at\u00e9 ele e perguntei-lhe sem f\u00f4lego pelo caminho. Ele sorriu e disse:<br \/>\n&#8211; De mim voc\u00ea quer saber o caminho?<br \/>\n&#8211; Sim &#8211; eu disse -, uma vez que eu mesmo n\u00e3o posso encontr\u00e1-lo.<br \/>\n&#8211; Desista, desista &#8211; disse ele e virou-se com um grande \u00edmpeto, como as pessoas que querem estar a s\u00f3s com o seu riso.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em Narrativas do Esp\u00f3lio, a vis\u00e3o kafkiana da impossibilidade das coisas aparece das maneiras mais inesperadas: em O Vizinho, um concorrente direto se estabelece ao lado do escrit\u00f3rio do personagem principal e se aproveita das paredes fin\u00edssimas que separam os dois para ouvir tudo; em O Timoneiro um homem tira, \u00e0 for\u00e7a, o timoneiro de um navio de seu posto, e o restante da tripula\u00e7\u00e3o assiste a tudo sem reagir; Uma confus\u00e3o cotidiana conta a hist\u00f3ria de A, que tenta mas simplesmente n\u00e3o consegue fechar um neg\u00f3cio com B, que mora em H; a segunda parte do not\u00e1vel conto Blumfeld, um solteir\u00e3o de meia idade conta os (praticamente insol\u00faveis) problemas que o personagem principal encontra em seu trabalho; O mestre-escola da aldeia conta a hist\u00f3ria de um senhor que descobriu &#8220;uma toupeira muito grande&#8221; mas cuja descoberta n\u00e3o era respeitada por que ele n\u00e3o era cientista; O recrutamento das tropas mostra rapazes que viajam para outras cidades e tentam, em v\u00e3o, ser convocados para o ex\u00e9rcito; Comunidade conta a hist\u00f3ria de cinco amigos que andam sempre juntos, e tentam de todas as maneiras excluir um sexto que se imiscui entre eles.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o minuciosa e avassaladora de burocracias absurdas \u00e9 outro pilar dos escritos de Kafka. Um exemplo disso \u00e9 o inesperado e magistral conto Pos\u00eaidon, onde o deus dos mares se sacrifica para colocar o trabalho em dia:<\/p>\n<blockquote><p>Pos\u00eaidon estava sentado \u00e0 sua escrivaninha e fazia contas. A administra\u00e7\u00e3o de todas as \u00e1guas lhe dava um trabalho intermin\u00e1vel. Poderia ter quantos auxiliares quisesse, possu\u00eda muitos, ali\u00e1s; mas, uma vez que levava muito a s\u00e9rio seu of\u00edcio, revia mais uma vez tudo e sendo assim os auxiliares o ajudavam pouco. N\u00e3o se pode dizer que o trabalho o alegrasse; na verdade ele o realizava s\u00f3 porque lhe fora imposto; j\u00e1 havia solicitado muitas vezes tarefas mais prazerosas, conforme se expressava; mas, sempre que lhe faziam propostas diferentes, era manifesto que nada o agradava tanto quanto o cargo que at\u00e9 ent\u00e3o ocupara. Era muito dif\u00edcil, al\u00e9m disso, encontrar outra coisa para ele. Com efeito, era-lhe imposs\u00edvel atribuir-lhe algo como um determinado mar; sem mencionar que, neste caso, o trabalho de calcular n\u00e3o seria apenas maior, mas tamb\u00e9m mesquinho, o grande Pos\u00eaidon s\u00f3 podia receber um posto que fosse dominante. E, se lhe ofereciam um of\u00edcio fora da \u00e1gua, sentia-se mal com a id\u00e9ia: seu alento divino se descontrolava, o t\u00f3rax de bronze oscilava. De resto, n\u00e3o levavam realmente a s\u00e9rio as queixas que fazia; quando um poderoso importuna, \u00e9 preciso dar a impress\u00e3o de tentar ceder mesmo nas quest\u00f5es mais sem perspectiva: ningu\u00e9m pensava em remover de fato Pos\u00eaidon do seu posto; desde o in\u00edcio mais remoto tinha sido destinado a ser o rei dos mares e assim devia permanecer.<br \/>\nO que mais o irritava &#8211; e essa era a causa principal de sua insatisfa\u00e7\u00e3o com o cargo &#8211; era escutar as imagens que faziam dele como, por exemplo, ele dirigindo sem parar as ondas com o tridente. Enquanto isso Pos\u00eaidon estava sentado nas profundezas dos mares do mundo, fazendo contas ininterruptamente; de vez em quando uma viagem para se encontrar com J\u00fapiter era a \u00fanica quebra de monotonia &#8211; viagem, por sinal, de que ele na maioria das vezes voltava furioso. Assim \u00e9 que mal tinha visto os mares: s\u00f3 fugazmente, durante a c\u00e9lere ascens\u00e3o ao Olimpo, sem nunca o ter efetivamente atravessado. Costumava dizer que ia esperar o fim do mundo, a\u00ed ent\u00e3o se produziria com certeza um segundo de tranq\u00fcilidade, no qual ele, bem pr\u00f3ximo ao fim, depois de revisar o \u00faltimo c\u00e1lculo, poderia ainda dar, rapidamente, um pequeno giro por tudo.<\/p><\/blockquote>\n<p>A burocracia kafkiana aparece tamb\u00e9m, por exemplo, em Advogados de defesa, que conta das dificuldades em se obter os tais advogados: a descri\u00e7\u00e3o asfixiante de um edif\u00edcio p\u00fablico parece ter sa\u00eddo do romance O Processo, do mesmo autor. Origin\u00e1rio deste livro parece ser tamb\u00e9m Sobre a quest\u00e3o das leis, onde pessoas do povo discutem se as leis existem mesmo &#8211; j\u00e1 que ningu\u00e9m tem acesso a elas &#8211; ou se s\u00e3o apenas uma fic\u00e7\u00e3o criada pelos nobres para que estes se perpetuem no poder. A dist\u00e2ncia intranspon\u00edvel entre os donos do poder e o povo \u00e9 exemplificada brilhantemente em Durante a constru\u00e7\u00e3o da Muralha da China. O poder desp\u00f3tico das ditaduras \u00e9 mostrado em A Recusa, onde as pessoas de uma aldeia se re\u00fanem numa pra\u00e7a e pedem favores &#8211; quase sempre recusados &#8211; ao coronel que domina a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Um tema que j\u00e1 aparecera em obras de Kafka como Carta ao pai, a dificuldade de rela\u00e7\u00f5es entre pais e filhos, \u00e9 retratado em Volta ao lar &#8211; onde o rapaz que chega \u00e0 casa paterna depois de algum tempo fora n\u00e3o consegue pegar coragem para bater na porta e entrar.<\/p>\n<p>Outros contos em Narrativas do Esp\u00f3lio s\u00e3o, entretanto, de mais dif\u00edcil classifica\u00e7\u00e3o. Muitos deles t\u00eam, sim, o travo amargo caracter\u00edstico de Kafka, mas acabam enveredando por outros caminhos: linguagem po\u00e9tica, paradoxo, ou fant\u00e1stico &#8211; ou mesmo uma mistura de todos estes. Veja-se por exemplo o interessant\u00edssimo e inesperado A verdade sobre Sancho Pancha:<\/p>\n<blockquote><p>Sancho Pan\u00e7a, que por sinal nunca se vangloriou disso, no curso dos anos conseguiu, oferecendo-lhe in\u00fameros romances de cavalaria e de salteadores nas horas do anoitecer e da noite, afastar de si o seu dem\u00f4nio &#8211; a quem mais tarde deu o nome de D. Quixote &#8211; de tal maneira que este, fora de controle, realizou os atos mais loucos, os quais no entanto, por falta de um objeto predeterminado &#8211; que deveria precisamente ser Sancho Pan\u00e7a -, n\u00e3o prejudicaram ningu\u00e9m. Sancho Pan\u00e7a, um homem livre, acompanhou imperturb\u00e1vel, talvez por um certo senso de responsabilidade, D. Quixote nas suas sortidas, retirando delas um grande e proveitoso divertimento at\u00e9 o fim de seus dias.<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma esp\u00e9cie de exerc\u00edcio paradoxal de intelig\u00eancia \u00e9 o conto Sobre os s\u00edmiles:<\/p>\n<blockquote><p>Muitos se queixam de que as palavras dos s\u00e1bios n\u00e3o passam de s\u00edmiles, mas n\u00e3o utiliz\u00e1veis na vida di\u00e1ria &#8211; e esta \u00e9 a \u00fanica que temos. Quando o s\u00e1bio diz: &#8220;V\u00e1 para o outro lado&#8221;, ele n\u00e3o quer significar que se deva passar para o lado de l\u00e1, o que, seja como for, ainda se poderia fazer, se o resultado da caminhada valesse a pena; ele no entanto se refere a algum outro lado lend\u00e1rio, a alguma coisa que n\u00e3o conhecemos, que nem ele consegue designar com mais precis\u00e3o e que, tamb\u00e9m neste caso, n\u00e3o pode nos ajudar em nada. Todos esses s\u00edmiles, na realidade, querem apenas dizer que o inconceb\u00edvel \u00e9 inconceb\u00edvel, e isso n\u00f3s j\u00e1 sab\u00edamos. Por\u00e9m aquilo com que nos ocupamos todos os dias s\u00e3o outras coisas.<br \/>\nA esse respeito algu\u00e9m disse: &#8220;Por que voc\u00eas se defendem? Se seguissem os s\u00edmilies, teriam tamb\u00e9m se tornado s\u00edmiles e com isso livres do esfor\u00e7os do dia-a-dia&#8221;.<br \/>\nUm outro disse: &#8220;Aposto que isso tamb\u00e9m \u00e9 um s\u00edmile&#8221;.<br \/>\nO primeiro disse: &#8220;Voc\u00ea ganhou&#8221;.<br \/>\nO segundo disse: &#8220;Mas infelizmente s\u00f3 no s\u00edmile&#8221;.<br \/>\nO primeiro disse: &#8220;N\u00e3o, na realidade; no s\u00edmile voc\u00ea perdeu&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por mais amargo que seja o conto, A ponte \u00e9 um exemplo da bel\u00edssima linguagem po\u00e9tica de Kafka:<\/p>\n<blockquote><p>Eu estava r\u00edgido e frio, era uma ponte, estendido sobre um abismo. As pontas dos p\u00e9s cravadas deste lado, do outro as m\u00e3os, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradi\u00e7a. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ru\u00eddo o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransit\u00e1vel, a ponte ainda n\u00e3o estava assinalada nos mapas. &#8211; Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.<br \/>\nCerta vez, era pelo anoitecer &#8211; o primeiro, o mil\u00e9simo, n\u00e3o sei &#8211; meus pensamentos se moviam sempre em confus\u00e3o e sempre em c\u00edrculo. Pelo anoitecer no ver\u00e3o, o riacho sussurrava mais escuro &#8211; foi ent\u00e3o que ouvi o passo de um homem! Vinha em dire\u00e7\u00e3o a mim, a mim. &#8211; Estenda-se, ponte, fique em posi\u00e7\u00e3o, viga sem corrim\u00e3o, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vest\u00edgio, a inseguran\u00e7a do seu passo, mas, se ele oscilar, fa\u00e7a-se conhecer e como um deus da montanha atire-o \u00e0 terra firme.<br \/>\nEle veio; com a ponta de ferro da bengala deu umas batidas em mim, depois levantou com ela as abas do meu casaco e as p\u00f4s em ordem em cima de mim. Passou a ponta por meu cabelo cerrado e provavelmente olhando com ferocidade em torno deixou-a ficar ali longo tempo. Mas depois &#8211; eu estava justamente seguindo-o em sonho por montanha e vale &#8211; ele saltou com os dois p\u00e9s sobre o meio do meu corpo. Estremeci numa dor atroz, sem compreender nada. Quem era? Uma crian\u00e7a? Um sonho? Um salteador de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E virei-me para v\u00ea-lo. &#8211; Uma ponte que d\u00e1 voltas! Eu ainda n\u00e3o tinha me virado e j\u00e1 estava caindo, desabei, j\u00e1 estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que sempre me haviam fitado t\u00e3o pacificamente da \u00e1gua enfurecida.<\/p><\/blockquote>\n<p>Fascinante tamb\u00e9m \u00e9 o conto Prometeu, sobre o personagem da mitologia grega que, humano, tentou tirar o fogo dos deuses e em virtude disso foi por estes preso eternamente a uma rocha, com o f\u00edgado continuamente bicado por uma \u00e1guia:<\/p>\n<blockquote><p>Sobre Prometeu d\u00e3o not\u00edcias quatro lendas:<br \/>\nSegundo a primeira, ele foi acorrentado no C\u00e1ucaso porque havia tra\u00eddo os deuses aos homens, e os deuses remeteram \u00e1guias que devoravam seu f\u00edgado que crescia sem parar.<br \/>\nDe acordo com a segunda, Prometeu, por causa da dor causada pelos bicos que o picavam, comprimiu-se cada vez mais fundo nas rochas at\u00e9 se confundir com elas.<br \/>\nSegundo a terceira, no decorrer dos mil\u00eanios sua trai\u00e7\u00e3o foi esquecida, os deuses se esqueceram, as \u00e1guias se esqueceram, e ele pr\u00f3prio se esqueceu.<br \/>\nSegundo a quarta, todos se cansaram do que havia se tornado sem fundamento. Os deuses se cansaram, as \u00e1guias se cansaram, a ferida, cansada, fechou-se.<br \/>\nRestou a cadeia inexplic\u00e1vel de rochas. A lenda tenta explicar o inexplic\u00e1vel. Uma vez que emerge de um fundo de verdade, ela precisa terminar de novo no que n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE o que dizer sobre o extraordin\u00e1rio e on\u00edrico \u00c0 noite? O melhor \u00e9 apenas reproduzi-lo aqui:<br \/>\nAfundado na noite. Como algu\u00e9m que \u00e0s vezes baixa a cabe\u00e7a para meditar, totalmente afundado na noite. Em torno as pessoas dormem. Uma pequena encena\u00e7\u00e3o, um inocente auto-engano de que dormem em casas, em camas firmes, sob o teto s\u00f3lido, estirados ou encolhidos sobre colch\u00f5es, em len\u00e7\u00f3is, sob cobertas, na realidade reuniram-se como outrora e mais tarde, em regi\u00e3o deserta, um acampamento ao ar livre, um n\u00famero incalcul\u00e1vel de pessoas, um ex\u00e9rcito, um povo, sob o c\u00e9u frio, na terra fria, estendidos onde antes estavam em p\u00e9, a testa premida sobre o bra\u00e7o, o rosto voltado para o ch\u00e3o, respirando tranq\u00fcilamente. E voc\u00ea vigia, \u00e9 um dos vigias, descobre o mais pr\u00f3ximo pela agita\u00e7\u00e3o da madeira em brasa no monte de galhos secos ao seu lado. Por que voc\u00ea vigia? Algu\u00e9m precisa vigiar, \u00e9 o que dizem. Algu\u00e9m precisa estar a\u00ed.<\/p><\/blockquote>\n<p>Outros exemplos de contos &#8220;inclassific\u00e1veis&#8221; de Narrativas do Esp\u00f3lio: O ca\u00e7ador Graco, que conta a hist\u00f3ria de um cad\u00e1ver que, de alguma forma, ainda vive e mant\u00e9m a consci\u00eancia, e que peregrina num barco pelo mundo; a primeira parte de Blumfeld, um solteir\u00e3o de meia-idade, que apresenta duas bolinhas saltitantes que seguem a personagem principal por toda a parte; Um cruzamento, uma hist\u00f3ria contada com maestria e profundidade sobre um animal metade gatinho, metade cordeiro; O sil\u00eancio das sereias, que mostra a esperteza do personagem mitol\u00f3gico Ulisses ao escapar do feiti\u00e7o das sereias; O bras\u00e3o da cidade, um pequeno conto totalmente inesperado sobre a Torre de Babel; o paradoxal A Prova; O Pi\u00e3o, que fala de um fil\u00f3sofo que queria descobrir o verdadeiro significado das coisas num pi\u00e3o jogado por crian\u00e7as; o estranho O Casal, que trata de uma ressurrei\u00e7\u00e3o; e o virtualmente inclassific\u00e1vel Investiga\u00e7\u00e3o de um c\u00e3o, &#8220;certamente uma das fic\u00e7\u00f5es mais originais e misteriosas da obra de Kafka&#8221;, no dizer do tradutor Modesto Carone.<\/p>\n<p>Narrativas do Esp\u00f3lio \u00e9 um livro bel\u00edssimo, onde o magistral estilo seco e objetivo de Kafka cede espa\u00e7o, aqui e ali, para passagens on\u00edricas e\/ou po\u00e9ticas. Creio que a melhor maneira de concluir a coluna sobre este livro \u00e9 reproduzir um de seus melhores contos, A Partida:<\/p>\n<blockquote><p>Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado n\u00e3o me entendeu. Fui pessoalmente \u00e0 estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi soar \u00e0 dist\u00e2ncia uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele n\u00e3o sabia de nada e n\u00e3o havia escutado nada. Perto do port\u00e3o ele me deteve e perguntou:<br \/>\n&#8211; Para onde cavalga, senhor?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei direito &#8211; eu disse &#8211; s\u00f3 sei que \u00e9 para fora daqui, fora daqui. Fora daqui sem parar: s\u00f3 assim posso atingir meu objetivo.<br \/>\n&#8211; Conhece ent\u00e3o seu objetivo? &#8211; perguntou ele.<br \/>\n&#8211; Sim &#8211; respondi -. Eu j\u00e1 disse: &#8220;fora-daqui&#8221;, \u00e9 esse o meu objetivo.<br \/>\n&#8211; O senhor n\u00e3o leva provis\u00f5es &#8211; disse ele.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o preciso de nenhuma &#8211; disse eu -. A viagem \u00e9 t\u00e3o longa que tenho de morrer de fome se n\u00e3o receber nada no caminho. Nenhuma provis\u00e3o pode me salvar. Por sorte esta viagem \u00e9 realmente imensa.<\/p><\/blockquote>\n<p><em>(texto escrito em meados de 2004)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Ah&#8221;, disse o rato, &#8220;o mundo torna-se cada vez mais estreito. A princ\u00edpio era t\u00e3o vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via \u00e0 dist\u00e2ncia, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem t\u00e3o depressa uma para a outra, que j\u00e1 estou no \u00faltimo quarto e l\u00e1 no canto fica a ratoeira para a qual eu corro&#8221;. &#8211; &#8220;Voc\u00ea s\u00f3 precisa mudar de dire\u00e7\u00e3o&#8221;, disse o gato, e devorou-o.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":435,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[69],"class_list":["post-434","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-kafka","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/434","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=434"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/434\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":477,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/434\/revisions\/477"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/435"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=434"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=434"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=434"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}