{"id":430,"date":"2015-03-05T12:48:15","date_gmt":"2015-03-05T12:48:15","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=430"},"modified":"2015-03-20T17:55:25","modified_gmt":"2015-03-20T17:55:25","slug":"430","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=430","title":{"rendered":"Limite, de Saulo Pereira de Mello"},"content":{"rendered":"<p>Saulo Pereira de Mello estudou f\u00edsica e filosofia e \u00e9, junto como Pl\u00ednio S\u00fcssekind da Rocha, um dos respons\u00e1veis por ainda podermos assistir aquele que \u00e9 considerado o maior filme brasileiro de todos os tempos. A dram\u00e1tica restaura\u00e7\u00e3o de Limite \u00e9 contada por Emil de Castro na biografia do diretor M\u00e1rio Peixoto (*):<!--more--><\/p>\n<blockquote><p>Jos\u00e9 Carlos Avellar diz que em 1959 foi que surgiu a preocupa\u00e7\u00e3o de que Limite poderia desaparecer, pois a proje\u00e7\u00e3o ja vinha sendo feita sem a segunda parte. O nitrato iniciava o processo de decomposi\u00e7\u00e3o. Foi ent\u00e3o que Pl\u00ednio S\u00fcssekind da Rocha pediu a ajuda de Saulo. A c\u00f3pia do filme ficou guardada na Faculdade Nacional de Filosofia at\u00e9 1966, quando foi absurdamente apreendida por ordem da Pol\u00edcia Federal, junto com A M\u00e3e, de Pudovkin, e O encoura\u00e7ado Potemkin, de Einsenstein. Em 1966, o filme foi liberado (&#8230;) e ficou sob os cuidados de Saulo em sua casa.<\/p><\/blockquote>\n<p>Foi uma luta constante para impedir a sua decomposi\u00e7\u00e3o . S\u00f3 quase 20 anos depois \u00e9 que Saulo conseguiu a recupera\u00e7\u00e3o do filme e come\u00e7ou a estud\u00e1-lo, fotografando-o imagem por imagem. N\u00e3o foi um trabalho f\u00e1cil salvar Limite. Somente uma paix\u00e3o desmedida levaria algu\u00e9m a tamanho sacrif\u00edcio, o de transformar sua casa num laborat\u00f3rio cinematogr\u00e1fico, com as fitas tomando conta de sua sala de jantar.<br \/>\nSaulo, a mulher Ayla e a filha Laura passaram a viver cercados de Limite por todos os lados. Ele, por\u00e9m, n\u00e3o se arrepende de sua dedica\u00e7\u00e3o ao filme e de sua amizade por M\u00e1rio Peixoto. Se n\u00e3o fosse Limite ele seria apenas um simples professor de F\u00edsica, o que n\u00e3o seria nenhuma desonra. Mas hoje ele \u00e9 uma das mais abalizadas autoridades em Limite, e com lugar assegurado na hist\u00f3ria da cinematografia brasileira como o restaurador do filme.<\/p>\n<p>E \u00e9 esta abalizada autoridade o autor de um pequeno livro (de pouco mais de 100 p\u00e1ginas) da cole\u00e7\u00e3o Artem\u00eddia, da Editora Rocco, chamado Limite. O livro &#8211; eu nem precisaria comentar &#8211; \u00e9 uma preciosidade para os f\u00e3s do filme (entre os quais me incluo).<\/p>\n<p>Limite, o livro, foi lan\u00e7ado em 1996 e \u00e9 uma reuni\u00e3o de dois longos artigos lan\u00e7ados no in\u00edcio da d\u00e9cada de 90 (Metamorfoses do vis\u00edvel e Ins\u00f3lita organiza\u00e7\u00e3o de imagens) somados a uma introdu\u00e7\u00e3o e a um ep\u00edlogo (chamados respectivamente de Antes de Limite e Depois de Limite) feitos especialmente para o livro.<\/p>\n<p>As partes de leitura mais f\u00e1cil s\u00e3o, sem d\u00favida, a introdu\u00e7\u00e3o e o ep\u00edlogo. Antes de Limite apresenta um r\u00e1pido panorama do cinema brasileiro da \u00e9poca, conta quais as influ\u00eancias principais e o que levou M\u00e1rio Peixoto a criar seu filme, al\u00e9m de explicar que seu fracasso retumbante &#8211; Limite nunca chegou a ser distribu\u00eddo comercialmente &#8211; foi, claro, causado por ser &#8220;dif\u00edcil&#8221; mas tamb\u00e9m por que v\u00e1rios outros filmes brasileiros da \u00e9poca tamb\u00e9m tinham problemas com a distribui\u00e7\u00e3o. Depois de Limite conta a vida de M\u00e1rio Peixoto ap\u00f3s seu \u00fanico filme em 1931, com cerca de 21(!) anos de idade: com temperamento dif\u00edcil, v\u00e1rias outras vezes tentou fazer outra pel\u00edcula e nunca conseguiu; dedicou-se obsessivamente \u00e0 literatura; nunca teve um trabalho formal e, anos antes de falecer em 1992, j\u00e1 tinha gastado toda a fortuna da fam\u00edlia &#8211; sendo socorrido no final da vida por seu f\u00e3, o tamb\u00e9m diretor de cinema Walter Salles Jr.<\/p>\n<p>J\u00e1 os dois artigos s\u00e3o de leitura complexa &#8211; principalmente o longo (60 p\u00e1ginas) Metamorfoses do vis\u00edvel, uma an\u00e1lise de Limite feito com grande detalhamento.<\/p>\n<p>O artigo d\u00e1 \u00eanfase no fato de que a cena inicial do filme de M\u00e1rio Peixoto &#8211; a da mulher com envolta pelas m\u00e3os algemadas em torno de si (apresentada acima) &#8211; \u00e9 a sua proto-imagem, isto \u00e9: aquela na qual todo o restante da pel\u00edcula vai se basear. Esta imagem, semelhante a uma que o diretor viu na capa de uma revista europ\u00e9ia, \u00e9 um s\u00edmbolo das limita\u00e7\u00f5es humanas &#8211; tema, segundo Saulo Pereira de Mello, de todo o restante da pel\u00edcula, a qual mostra tr\u00eas n\u00e1ufragos &#8211; o Homem n.1 e as Mulheres n. 1 e n. 2 &#8211; num barco \u00e0 deriva contando as hist\u00f3rias de suas vidas antes do seu tr\u00e1gico final. A partir desta id\u00e9ia da proto-imagem Saulo Pereira de Mello vai desenvolvendo sua descri\u00e7\u00e3o de Limite como sendo um filme angustiante, onde n\u00e3o h\u00e1 perspectivas de que os seres humanos consigam superar suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es a n\u00e3o ser no fim inexor\u00e1vel: na morte.<\/p>\n<p>Metamorfoses do vis\u00edvel \u00e9 um artigo muito mais filos\u00f3fico do que t\u00e9cnico: o autor vai analisando uma grande quantidade de detalhes dentro do filme para corroborar com sua teoria. Entre muitos outros exemplos, Saulo Pereira de Mello mostra que os cabelos dos n\u00e1ufragos est\u00e3o sempre despenteados, s\u00edmbolo de falta de rumo dos personagens; as cidades s\u00e3o mostradas meio apodrecidas, praticamente em ru\u00ednas, significando a decad\u00eancia de tudo; a postura dos n\u00e1ufragos \u00e9 aristocr\u00e1tica: o que poderia parecer um contra-senso com a origem deles na verdade \u00e9 mais uma mostra de que Limite \u00e9 um filme aleg\u00f3rico; o olhar das pessoas no filme \u00e9 cabisbaixo &#8211; enquanto que o riso em algumas cenas \u00e9 vulgar: n\u00e3o h\u00e1 sa\u00eddas vi\u00e1veis para a humanidade, e este \u00e9 o recado de Limite. Mesmo quando analisa o modo de M\u00e1rio Peixoto criar seus incr\u00edveis takes &#8211; ora com a c\u00e2mera parada, ora em grande liberdade de movimentos &#8211; o autor do livro tem sua tese em mente.<\/p>\n<p>O estilo do artigo Metamorfoses do vis\u00edvel (o artigo seguinte, menor em tamanho, Ins\u00f3lita organiza\u00e7\u00e3o de imagens, \u00e9 uma esp\u00e9cie de resumo deste), se n\u00e3o chega a ser totalmente confuso, peca um pouco pela empola\u00e7\u00e3o e por repeti\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias. Mas nem \u00e9 esse o seu maior problema: embora Saulo Pereira de Mello elogie sim a magnific\u00eancia t\u00e9cnica do filme Limite, estes elogios parecem pouco suficientes: n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o, em seu livro, para o absoluto assombro que toma conta de quem assiste este filme espetacular, com imagens bel\u00edssimas, takes inesperados e uma hist\u00f3ria contada magistralmente apenas por imagens (o filme todo \u00e9 mudo, com intert\u00edtulos em apenas uma cena). Al\u00e9m disso, Pereira de Mello tamb\u00e9m n\u00e3o cita algumas solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas geniais de M\u00e1rio Peixoto (**), esquece de comentar sobre a beleza decadente da paisagem e n\u00e3o escreve uma palavra sobre como a maravilhosa trilha sonora &#8211; criada por Brutus Pedreira, a cargo de nomes como Debussy, Satie e Ravel &#8211; ajuda a deixar o espectador pasmo com o filme. Em outras palavras: querendo provar sua teoria, o autor do livro praticamente esqueceu que ver Limite \u00e9 uma experi\u00eancia est\u00e9tica impactante, assombrosa, inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>E, mais do que a qualquer teoria de limita\u00e7\u00e3o humana, eu diria que a perman\u00eancia do filme de M\u00e1rio Peixoto se deve mesmo \u00e0 sua enorme &#8211; e inesperada &#8211; beleza.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o d\u00e1 para esquecer que, hoje, s\u00f3 posso ter contato com esta beleza toda gra\u00e7as \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o de Saulo Pereira de Mello &#8211; que, com humildade, em nenhum momento do livro se gaba do seu esfor\u00e7o pra recuperar Limite, a obra-prima de M\u00e1rio Peixoto.<\/p>\n<p>_________________________________________<\/p>\n<p>(*) in Jogos de Armar: a vida do solit\u00e1rio M\u00e1rio Peixoto. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2000. 230pp)<\/p>\n<p>(**) por exemplo, a cena em que a c\u00e2mera &#8220;procura&#8221; uma estafada Mulher n.1 que acabara de fugir da cadeia; outra em que a c\u00e2mera &#8220;age&#8221; como uma louca, andando de um lado para outro enquanto que a Mulher n.2 pensa em suic\u00eddio; e a bela seq\u00fc\u00eancia id\u00edlica de takes da Natureza mostrados enquanto o Homem n.1 faz amor com a esposa &#8211; leprosa &#8211; do Homem n.2 (vivido pelo pr\u00f3prio M\u00e1rio Peixoto &#8211; o \u00fanico personagem com os cabelos arrumados, como brilhantemente notou o autor do livro Limite).<\/p>\n<p><em>(texto escrito em meados de 2004)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saulo Pereira de Mello estudou f\u00edsica e filosofia e \u00e9, junto como Pl\u00ednio S\u00fcssekind da Rocha, um dos respons\u00e1veis por ainda podermos assistir aquele que \u00e9 considerado o maior filme brasileiro de todos os tempos. 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