{"id":4298,"date":"2020-01-12T15:41:56","date_gmt":"2020-01-12T18:41:56","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4298"},"modified":"2020-01-12T15:41:59","modified_gmt":"2020-01-12T18:41:59","slug":"turmas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4298","title":{"rendered":"Turmas"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"452\" height=\"678\" src=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/pond\u00e9.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4299\" srcset=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/pond\u00e9.jpg 452w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/pond\u00e9-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 452px) 100vw, 452px\" \/><figcaption>Luiz Felipe Pond\u00e9 &#8211; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Luiz_Felipe_Pond%C3%A9\">Wikip\u00e9dia<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em v\u00eddeos e cr\u00f4nicas, o famoso fil\u00f3sofo Luiz Felipe Pond\u00e9 \u2013 que\neu admiro muito, ali\u00e1s \u2013 parece citar sempre os mesmos escritores: Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski,\nWilliam Shakespeare, Liev Tolst\u00f3i, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Georges\nBernanos e mais alguns poucos (n\u00e3o custa lembrar que ele est\u00e1 lan\u00e7ando um curso\nonline sobre literatura, cujo link est\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.pondecursoonline.com\/comolerosclassicos\">aqui<\/a>). Dostoi\u00e9vski,\nent\u00e3o, \u00e9 uma verdadeira mania para ele: em suas entrevistas da s\u00e9rie \u201cDemocracia\nna Teia\u201d, por exemplo, h\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o gigantesca do grande autor russo atr\u00e1s de\nentrevistador e entrevistado \u2013 mais do que isso, ele parece sempre pronto a cit\u00e1-lo\na qualquer momento, com ou sem necessidade. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu raramente cito qualquer um desses escritores da turma do\nPond\u00e9. Do Dostoi\u00e9vski, li \u201cCrime e Castigo\u201d quando adolescente, e \u201cOs irm\u00e3os\nKaramazov\u201d, bem mais tarde. Gostei muito, mas n\u00e3o me marcaram. De Tolst\u00f3i li mais\ne gostei mais, mas raramente lembro dele. Machado de Assis \u00e9 um g\u00eanio, claro,\nmas aqui no Brasil prefiro Lima Barreto (acabei de ler \u201cRecorda\u00e7\u00f5es do escriv\u00e3o\nIsa\u00edas Caminha\u201d pela terceira vez dia desses) e Dalton Trevisan. De Shakespeare\nconhe\u00e7o muito pouco, embora tenha lido \u201cJ\u00falio C\u00e9sar\u201d ano passado e tenha amado.\nSobre Nelson Rodrigues eu comentei no meu \u201cVer\u00e3o de 54\u201d: \u201c<em>para ser grande\nliteratura ainda falta um tanto para Nelson Rodrigues<\/em>\u201d. Bernanos eu conheci\nrecomendado pelo pr\u00f3prio Pond\u00e9, gostei muito, mas achei meio confuso. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu tenho uma turminha de escritores que cito sempre, tamb\u00e9m.\nLembro, por exemplo, que parei de ler as colunas de dois cr\u00edticos de literatura\ns\u00f3 porque falaram mal de \u201c2666\u201d, de Roberto Bola\u00f1o: um deles ainda teve o\ndesplante de escrever que outra obra do chileno, \u201cOs detetives selvagens\u201d \u2013 que\neu achei ruim \u2013 era \u201cmais bem acabado\u201d (ou alguma outra express\u00e3o sem sentido)\nque \u201c2666\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De todo modo, minha turminha de escritores, fora os que j\u00e1\ncitei \u2013 Lima Barreto, Dalton Trevisan, Roberto Bola\u00f1o \u2013 tem ainda Patrick\nModiano, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, Marcel Proust, Karl Ove Knausgard, Honor\u00e9 de Balzac,\nJunichiro Tanizaki, Philip Roth, Thomas Mann, J.M.G. Le Cl\u00e9zio e mais alguns.\nTem um outro autor que est\u00e1 na minha turma e na do Pond\u00e9, mas ele n\u00e3o foi\ncitado \u2013 ainda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe uma autora que acabou entrando na minha turma h\u00e1 uns poucos anos, a escritora e cantora Patti Smith. Em \u201cO ano do macaco\u201d ela conta de sua paix\u00e3o avassaladora por \u201c2666\u201d, de Roberto Bola\u00f1o. Em \u201cDevo\u00e7\u00e3o\u201d ela fala de maneira extremamente carinhosa \u2013 como s\u00f3 ela consegue fazer \u2013 de Patrick Modiano e Simone Weil. Modiano e Bola\u00f1o admirados como devem ser! (A Simone Weil, cujas obras nunca li, deve ser muito boa tamb\u00e9m, haha.) Ser\u00e1 que a turma de Patti Smith \u00e9 parecida com a minha? Espero que sim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De todo modo, por que a turma de Pond\u00e9 \u00e9 diferente da minha\ne, quem sabe, da da Patti Smith tamb\u00e9m? Porque, acredito eu, como fil\u00f3sofo, ele\nquer retirar algum ensinamento, quer \u201cenxergar\u201d algo por tr\u00e1s de uma obra liter\u00e1ria.\nDostoi\u00e9vski e o problema da exist\u00eancia. Machado de Assis e o ci\u00fame. Shakespeare\ne os sentimentos humanos. Nelson Rodrigues e a hipocrisia da classe m\u00e9dia. Georges\nBernanos e a f\u00e9. Tolst\u00f3i e&#8230; sei l\u00e1 o que ele quer ver em Tolst\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 eu e, provavelmente, a Patti Smith, queremos nos deslumbrar com uma obra liter\u00e1ria. N\u00e3o h\u00e1 o que enxergar por tr\u00e1s de \u201c2666\u201d, n\u00e3o h\u00e1 nenhum ensinamento por tr\u00e1s desta maravilha. O livro \u00e9 apenas isso \u2013 uma maravilha. <a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de terminar, comentei acima que existe um autor que\nfaz parte da minha turma e da do Pond\u00e9: o nome dele \u00e9 Franz Kafka. Ele deve\nadmirar o grande autor tcheco pela cr\u00edtica \u00e0 burocracia, ou pelo retrato\nsimb\u00f3lico do absurdo da exist\u00eancia, ou coisa que o valha. Eu sei que amo Kafka\npela imagina\u00e7\u00e3o e pela maravilhosa t\u00e9cnica de contar hist\u00f3rias malucas como se\nestivesse fazendo um relat\u00f3rio de empresa de seguros.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Algum\nengra\u00e7adinho pode vir me questionar dizendo que o que est\u00e1 por tr\u00e1s das obras de\nBalzac, Thomas Mann e Junichiro Tanizaki, da minha turma, sejam respectivamente\no dinheiro, a arte e o sexo. O que eu teria em minha defesa? Sei l\u00e1, hehe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em v\u00eddeos e cr\u00f4nicas, o famoso fil\u00f3sofo Luiz Felipe Pond\u00e9 \u2013 que eu admiro muito, ali\u00e1s \u2013 parece citar sempre os mesmos escritores: Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, William Shakespeare, Liev Tolst\u00f3i, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Georges Bernanos e mais alguns poucos (n\u00e3o custa lembrar que ele est\u00e1 lan\u00e7ando um curso online sobre literatura, cujo link est\u00e1 aqui). Dostoi\u00e9vski, ent\u00e3o, \u00e9 uma verdadeira mania para ele: em suas entrevistas da s\u00e9rie \u201cDemocracia na Teia\u201d, por exemplo, h\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o gigantesca do grande autor russo atr\u00e1s de entrevistador e entrevistado \u2013 mais do que isso, ele parece sempre pronto a cit\u00e1-lo a qualquer momento, com ou sem necessidade. Eu raramente cito qualquer um desses escritores da turma do Pond\u00e9. Do Dostoi\u00e9vski, li \u201cCrime e Castigo\u201d quando adolescente, e \u201cOs irm\u00e3os Karamazov\u201d, bem mais tarde. Gostei muito, mas n\u00e3o me marcaram. De Tolst\u00f3i li mais e gostei mais, mas raramente lembro dele. Machado de Assis \u00e9 um g\u00eanio, claro, mas aqui no Brasil prefiro Lima Barreto (acabei de ler \u201cRecorda\u00e7\u00f5es do escriv\u00e3o Isa\u00edas Caminha\u201d pela terceira vez dia desses) e Dalton Trevisan. De Shakespeare conhe\u00e7o muito pouco, embora tenha lido \u201cJ\u00falio C\u00e9sar\u201d ano passado e tenha amado. Sobre Nelson Rodrigues eu comentei no meu \u201cVer\u00e3o de 54\u201d: \u201cpara ser grande literatura ainda falta um tanto para Nelson Rodrigues\u201d. Bernanos eu conheci recomendado pelo pr\u00f3prio Pond\u00e9, gostei muito, mas achei meio confuso. Eu tenho uma turminha de escritores que cito sempre, tamb\u00e9m. Lembro, por exemplo, que parei de ler as colunas de dois cr\u00edticos de literatura s\u00f3 porque falaram mal de \u201c2666\u201d, de Roberto Bola\u00f1o: um deles ainda teve o desplante de escrever que outra obra do chileno, \u201cOs detetives selvagens\u201d \u2013 que eu achei ruim \u2013 era \u201cmais bem acabado\u201d (ou alguma outra express\u00e3o sem sentido) que \u201c2666\u201d. De todo modo, minha turminha de escritores, fora os que j\u00e1 citei \u2013 Lima Barreto, Dalton Trevisan, Roberto Bola\u00f1o \u2013 tem ainda Patrick Modiano, Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, Marcel Proust, Karl Ove Knausgard, Honor\u00e9 de Balzac, Junichiro Tanizaki, Philip Roth, Thomas Mann, J.M.G. Le Cl\u00e9zio e mais alguns. Tem um outro autor que est\u00e1 na minha turma e na do Pond\u00e9, mas ele n\u00e3o foi citado \u2013 ainda. Existe uma autora que acabou entrando na minha turma h\u00e1 uns poucos anos, a escritora e cantora Patti Smith. 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Tolst\u00f3i e&#8230; sei l\u00e1 o que ele quer ver em Tolst\u00f3i. J\u00e1 eu e, provavelmente, a Patti Smith, queremos nos deslumbrar com uma obra liter\u00e1ria. N\u00e3o h\u00e1 o que enxergar por tr\u00e1s de \u201c2666\u201d, n\u00e3o h\u00e1 nenhum ensinamento por tr\u00e1s desta maravilha. O livro \u00e9 apenas isso \u2013 uma maravilha. [1] Antes de terminar, comentei acima que existe um autor que faz parte da minha turma e da do Pond\u00e9: o nome dele \u00e9 Franz Kafka. Ele deve admirar o grande autor tcheco pela cr\u00edtica \u00e0 burocracia, ou pelo retrato simb\u00f3lico do absurdo da exist\u00eancia, ou coisa que o valha. Eu sei que amo Kafka pela imagina\u00e7\u00e3o e pela maravilhosa t\u00e9cnica de contar hist\u00f3rias malucas como se estivesse fazendo um relat\u00f3rio de empresa de seguros. [1] Algum engra\u00e7adinho pode vir me questionar dizendo que o que est\u00e1 por tr\u00e1s das obras de Balzac, Thomas Mann e Junichiro Tanizaki, da minha turma, sejam respectivamente o dinheiro, a arte e o sexo. O que eu teria em minha defesa? 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