{"id":422,"date":"2015-03-09T12:21:12","date_gmt":"2015-03-09T12:21:12","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=422"},"modified":"2015-03-20T17:53:31","modified_gmt":"2015-03-20T17:53:31","slug":"duas-atrizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=422","title":{"rendered":"Duas atrizes"},"content":{"rendered":"<p>I &#8211; A Berma<\/p>\n<p>Era enorme a expectativa do Narrador ao assistir a Berma pela primeira vez. Como tinha sa\u00fade fr\u00e1gil, seu m\u00e9dico tinha proibido a sua ida ao teatro &#8211; esta proibi\u00e7\u00e3o acabou quando o influente embaixador M. de Norpois recomendou que ele fosse assistir a Berma interpretando Fedra, a pe\u00e7a cl\u00e1ssica de Racine. O Narrador, esclare\u00e7amos agora, \u00e9 quem conta a hist\u00f3ria em primeira pessoa no romance \u201cEm Busca do Tempo Perdido\u201d: ele \u00e9 comumente chamado assim porque\u00a0 praticamente n\u00e3o se nomeia durante o livro, uma das obras-primas da literatura universal. O Narrador, importante ressaltar, \u00e9 grandemente baseado no pr\u00f3prio autor da obra, de forte conota\u00e7\u00e3o autobiogr\u00e1fica, Marcel Proust.<!--more--><\/p>\n<p>Voltando \u00e0 hist\u00f3ria: ap\u00f3s uma longa expectativa, finalmente o Narrador foi ver a pe\u00e7a &#8211; uma decep\u00e7\u00e3o. Ele esperara tanto por aquele momento, a Fedra interpretada pela Berma parecia-lhe um \u00e1pice art\u00edstico inigual\u00e1vel &#8211; mas, quando finalmente o espet\u00e1culo come\u00e7ou, o Narrador simplesmente n\u00e3o conseguiu notar o que havia de t\u00e3o diferente entre a Berma e os demais atores. Mais tarde, ouvindo um coment\u00e1rio aqui e outro ali, somado \u00e0 enorme aten\u00e7\u00e3o que tivera na atua\u00e7\u00e3o da atriz, o Narrador acabou quase se convencendo da grande interpreta\u00e7\u00e3o dela.<\/p>\n<p>Anos mais tarde o Narrador tem novamente oportunidade de assistir a Berma representando Fedra. Desta vez, ao contr\u00e1rio da primeira, ele n\u00e3o tinha praticamente nenhuma expectativa &#8211; mas finalmente entendeu a grandeza da atriz. O desempenho desta tinha se tornado t\u00e3o transparente, t\u00e3o cheio do que interpreta, que ela n\u00e3o se via mais a ela pr\u00f3pria e a artista n\u00e3o era mais que uma janela que d\u00e1 para uma obra-prima. A interioriza\u00e7\u00e3o da artista era t\u00e3o profunda e completa que n\u00e3o se notavam as inten\u00e7\u00f5es da artista, nem em inflex\u00f5es de voz nem em m\u00edmica, ao fazer o papel &#8211; era como se a Berma fosse a pr\u00f3pria Fedra. O Narrador, ao contr\u00e1rio da primeira vez em que a vira interpretar o papel, n\u00e3o queria mais imobilizar as atitudes da Berma, (&#8230;), nem fazer com que dissesse cem vezes o mesmo verso. Finalmente ele compreendia que n\u00e3o se podia exigir isto da atriz, j\u00e1 que aquele encanto esparzido de m\u00e3o sobre um verso, aqueles gestos inst\u00e1veis perpetuamente transformados, aqueles quadros sucessivos eram o resultado fugitivo, o fim moment\u00e2neo, a m\u00f3vel obra-prima que a arte teatral se propunha, e \u00e0 qual destruiria, querendo fix\u00e1-la.<\/p>\n<p>Depois da Fedra, o programa previa que a Berma atuasse em outra pe\u00e7a, desta vez de um autor moderno. O Narrador tinha d\u00edvidas sobre se a grandeza da atriz n\u00e3o residia em grande parte no texto de Racine, mas estas acabaram assim que nova pe\u00e7a come\u00e7ou. Seu desempenho foi novamente sublime: tanto nas frases do dramaturgo moderno como nos versos de Racine, a Berma sabia introduzir aquelas vastas imagens de dor, de nobreza, de paix\u00e3o, que eram as obras-primas dela pr\u00f3pria e em que a reconheciam, como se reconhece um pintor em retratos que pintou segundo modelos diferentes.<\/p>\n<p>II &#8211; Fernanda Montenegro<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o de Fernanda Montenegro no belo filme Central do Brasil, de Walter Salles Jr. foi de um sucesso de critica espantoso &#8211; chegou a concorrer ao Oscar de melhor atriz, numa rara concess\u00e3o a um filme n\u00e3o falado em ingl\u00eas. Fui assisti-lo com grande expectativa &#8211; mas a minha decep\u00e7\u00e3o foi aumentando \u00e0 medida que o filme transcorria. O que tinha de t\u00e3o espetacular a sua interpreta\u00e7\u00e3o? Eu n\u00e3o estava conseguindo entender.<\/p>\n<p>Fernanda Montenegro faz o papel de Dora, uma mulher de car\u00e1ter duvidoso e que sobrevive escrevendo, no Rio de Janeiro, cartas ditadas por imigrantes para serem enviadas a seus parentes que ficaram no Nordeste. Em grande parte das vezes, ela promete a seus clientes que vai mandar as cartas mas n\u00e3o as manda, ficando com o dinheiro dos selos. Na verdade, pensava eu, n\u00e3o havia nada de t\u00e3o extraordin\u00e1rio naquela mulher pobre, aproveitadora, por\u00e9m n\u00e3o de todo m\u00e1. Neste ponto, em torno do meio do filme, \u00e9 que entendi o segredo de Fernanda Montenegro: era como se ela fosse a pr\u00f3pria Dora. N\u00e3o havia a menor teatralidade em seus gestos, em seu falar, em seus modos. At\u00e9 a sua maneira de sentar era a de uma mulher do povo. As caracter\u00edsticas que muitas vezes s\u00e3o relacionadas a uma grande interpreta\u00e7\u00e3o, como grandiloqu\u00eancia e dramaticidade, estavam completamente ausentes de sua interpreta\u00e7\u00e3o minimalista e enormemente aut\u00eantica.<\/p>\n<p>Para completar o paralelo entre a Berma e a maior atriz brasileira, eu teria de comentar a sua atua\u00e7\u00e3o numa pe\u00e7a cl\u00e1ssica. Ironicamente, eu realmente assisti a Fedra interpretada pela Fernanda Montenegro h\u00e1 muitos anos, no Teatro Gua\u00edra em Curitiba. A pe\u00e7a me impressionou grandemente, mas \u00e9 tudo o que lembro para que possa comentar aqui. Fico ent\u00e3o com as palavras de Mill\u00f4r Fernandes: o papel [de Fedra] lhe cabe como uma luva. Imagem ali\u00e1s absolutamente impr\u00f3pria numa \u00a0\u00e9poca em que ningu\u00e9m mais usa luvas.<\/p>\n<p>P.S.: Depois de ter terminado o texto acima, assisti Wilde, filme de 1997 do diretor Brian Gilbert sobre o grande escritor irland\u00eas do final do s\u00e9culo XIX. Stephen Fry, o ator que vive o protagonista, tem uma atua\u00e7\u00e3o estupenda, profunda e cheia de nuances.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o do roteirista, que privilegiou um retrato realista e completo de Oscar Wilde &#8211; n\u00e3o dando portanto destaque excessivo a seus ditos espirituosos (o que poderia ter tornado o filme tendencioso e exagerado), permitiu a Fry a possibilidade de atuar de maneira totalmente natural, muito distante da caricatura. Como em Central do Brasil, em Wilde se assiste o filme como se o protagonista fosse o pr\u00f3prio escritor, e n\u00e3o um ator fazendo o seu trabalho.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em meados de 2004)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I &#8211; A Berma Era enorme a expectativa do Narrador ao assistir a Berma pela primeira vez. Como tinha sa\u00fade fr\u00e1gil, seu m\u00e9dico tinha proibido a sua ida ao teatro &#8211; esta proibi\u00e7\u00e3o acabou quando o influente embaixador M. de Norpois recomendou que ele fosse assistir a Berma interpretando Fedra, a pe\u00e7a cl\u00e1ssica de Racine. O Narrador, esclare\u00e7amos agora, \u00e9 quem conta a hist\u00f3ria em primeira pessoa no romance \u201cEm Busca do Tempo Perdido\u201d: ele \u00e9 comumente chamado assim porque\u00a0 praticamente n\u00e3o se nomeia durante o livro, uma das obras-primas da literatura universal. 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