{"id":4171,"date":"2019-09-29T12:38:17","date_gmt":"2019-09-29T15:38:17","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4171"},"modified":"2024-09-28T18:11:43","modified_gmt":"2024-09-28T21:11:43","slug":"o-surfista-paulinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4171","title":{"rendered":"O surfista Paulinho"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"592\" src=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/1430166314trip242-surf01-fusao-1-1024x592.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4172\" srcset=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/1430166314trip242-surf01-fusao-1-1024x592.jpg 1024w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/1430166314trip242-surf01-fusao-1-300x174.jpg 300w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/1430166314trip242-surf01-fusao-1-768x444.jpg 768w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/1430166314trip242-surf01-fusao-1.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>fonte: <a href=\"https:\/\/revistatrip.uol.com.br\/trip\/voo-livre-surf-contrariando-a-fisica\">Revista Trip<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paulinho era um surfista extraordin\u00e1rio. Suas rasgadas, seus\nfloaters, seu flow, sua direita absolutamente fant\u00e1stica assustavam os\nadvers\u00e1rios. N\u00e3o era o melhor tube rider que o mundo j\u00e1 tinha visto, mas estava\nentre os melhores. J\u00e1 no primeiro campeonato do CT, da WSL, ficou em segundo\nlugar, perdendo apenas em Pipeline, e na final, para o eterno campe\u00e3o Kelly\nSlater. J\u00e1 no ano seguinte n\u00e3o teve para ningu\u00e9m, e ele j\u00e1 era matematicamente\ncampe\u00e3o j\u00e1 na etapa de Peniche, em Portugal. Paulinho, ent\u00e3o com apenas 17\nanos, seria o novo Kelly Slater? Ultrapassaria a quantidade de onze campeonatos\nmundiais do maior surfista de todos os tempos? Eram esses os maiores\nquestionamentos da imprensa especializada a respeito de Paulinho, depois de seu\nprimeiro \u2013 que seria o \u00faltimo \u2013 campeonato mundial pela WSL.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, \u00faltimo. Logo no ano seguinte \u00e0 sua vit\u00f3ria no CT, um\nnovo surfista chegou para assombrar o mundo do esporte: Gabriel Medina \u2013\nbrasileiro como Paulinho e que, assim como ele, foi matematicamente campe\u00e3o da\nWSL j\u00e1 na etapa portuguesa. No ano seguinte o havaiano John John Florence\nganhou o \u201ccaneco\u201d mundial, e meio que foi se revezando com o brasileiro Medina\nem vit\u00f3rias nos campeonatos da WSL nas duas d\u00e9cadas e meia seguintes \u2013 as quais\nainda contaram com vit\u00f3rias solit\u00e1rias do sul-africano Jordy Smith e do\nbrasileiro \u00cdtalo Ferreira. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o Paulinho? Continuou disputando o CT sempre com bravura,\nmas nunca mais passou do quinto lugar. A princ\u00edpio, poderia parecer que a\nrevers\u00e3o completa das expectativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela promessa do surf&nbsp; mundial foi devida a algum motivo\npsicol\u00f3gico, ou mesmo f\u00edsico \u2013 mas n\u00e3o: Paulinho continuou surfando como sempre\nsurfara, mas n\u00e3o conseguiu, jamais, fazer as manobras inovadoras e progressivas\nque eram a caracter\u00edstica principal da nova gera\u00e7\u00e3o (Medina, John John, Filipe\nToledo, \u00cdtalo Ferreira, Jordy Smith, e por a\u00ed vai), a qual Paulinho pertencia\napenas em termos cronol\u00f3gicos: seu surf era ultrapassado desde o in\u00edcio \u2013 o que\nningu\u00e9m, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, tinha percebido a tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o que ele n\u00e3o tentasse dar os a\u00e9reos que deliciavam os\namantes do esporte, e que tanto deviam \u00e0 influ\u00eancia do skate \u2013 John John\nFlorence, \u00e9 sempre bom lembrar, era um excelente skatista. Mas Paulinho n\u00e3o\nconseguiu, nunca, acertar um a\u00e9reo que fosse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cinco anos depois que Paulinho tinha vencido seu \u00fanico campeonato da WSL (anos nos quais ele treinou sem sucesso fazer manobras inovadoras e progressivas), ele teve uma esp\u00e9cie de luz: percebeu que jamais seria um John John Florence, que jamais seria um surfista realmente grande \u2013 ao contr\u00e1rio da expectativa geral anterior, inclusive dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia em que ele finalmente teve consci\u00eancia disso, chamou\nseu grande amigo Gabriel Medina no canto e desabafou: \u201cirm\u00e3o, nunca mais vou\nser campe\u00e3o mundial, nunca vou conseguir dar uma manobra inovadora\u201d. O ent\u00e3o\ncampe\u00e3o mundial olhou bem nos olhos de Paulinho e respondeu: \u201cJesus tem um\nprop\u00f3sito maior pra voc\u00ea, bro, n\u00e3o se preocupe com isso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paulinho, que nunca acreditara em Deus, hoje frequenta cultos evang\u00e9licos \u2013 quase sempre ao lado de seu amigo Medina \u2013 em Boi\u00e7ucanga, na Igreja Bola de Neve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>(O texto acima, uma fic\u00e7\u00e3o com personagens reais, \u00e9 uma resposta ao seguinte desafio liter\u00e1rio proposto por <\/em><a href=\"http:\/\/www.frizero.com.br\/\"><em>Robertson Frizero<\/em><\/a><em>: &#8220;escreva, em 500 palavras, um conto cujo tema seja a mediocridade. O protagonista deve ser um artista &#8211; n\u00e3o importa qual a sua express\u00e3o art\u00edstica &#8211; e a cena mostrada deve retratar o momento em que a personagem d\u00e1-se conta do quanto est\u00e1 iludida quanto ao seu &#8216;talento&#8217;. O que a personagem far\u00e1 depois dessa constata\u00e7\u00e3o deve ser o desfecho do conto.&#8221;)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulinho era um surfista extraordin\u00e1rio. Suas rasgadas, seus floaters, seu flow, sua direita absolutamente fant\u00e1stica assustavam os advers\u00e1rios. N\u00e3o era o melhor tube rider que o mundo j\u00e1 tinha visto, mas estava entre os melhores. J\u00e1 no primeiro campeonato do CT, da WSL, ficou em segundo lugar, perdendo apenas em Pipeline, e na final, para o eterno campe\u00e3o Kelly Slater. J\u00e1 no ano seguinte n\u00e3o teve para ningu\u00e9m, e ele j\u00e1 era matematicamente campe\u00e3o j\u00e1 na etapa de Peniche, em Portugal. Paulinho, ent\u00e3o com apenas 17 anos, seria o novo Kelly Slater? Ultrapassaria a quantidade de onze campeonatos mundiais do maior surfista de todos os tempos? Eram esses os maiores questionamentos da imprensa especializada a respeito de Paulinho, depois de seu primeiro \u2013 que seria o \u00faltimo \u2013 campeonato mundial pela WSL. Sim, \u00faltimo. Logo no ano seguinte \u00e0 sua vit\u00f3ria no CT, um novo surfista chegou para assombrar o mundo do esporte: Gabriel Medina \u2013 brasileiro como Paulinho e que, assim como ele, foi matematicamente campe\u00e3o da WSL j\u00e1 na etapa portuguesa. No ano seguinte o havaiano John John Florence ganhou o \u201ccaneco\u201d mundial, e meio que foi se revezando com o brasileiro Medina em vit\u00f3rias nos campeonatos da WSL nas duas d\u00e9cadas e meia seguintes \u2013 as quais ainda contaram com vit\u00f3rias solit\u00e1rias do sul-africano Jordy Smith e do brasileiro \u00cdtalo Ferreira. E o Paulinho? Continuou disputando o CT sempre com bravura, mas nunca mais passou do quinto lugar. A princ\u00edpio, poderia parecer que a revers\u00e3o completa das expectativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela promessa do surf&nbsp; mundial foi devida a algum motivo psicol\u00f3gico, ou mesmo f\u00edsico \u2013 mas n\u00e3o: Paulinho continuou surfando como sempre surfara, mas n\u00e3o conseguiu, jamais, fazer as manobras inovadoras e progressivas que eram a caracter\u00edstica principal da nova gera\u00e7\u00e3o (Medina, John John, Filipe Toledo, \u00cdtalo Ferreira, Jordy Smith, e por a\u00ed vai), a qual Paulinho pertencia apenas em termos cronol\u00f3gicos: seu surf era ultrapassado desde o in\u00edcio \u2013 o que ningu\u00e9m, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, tinha percebido a tempo. E n\u00e3o que ele n\u00e3o tentasse dar os a\u00e9reos que deliciavam os amantes do esporte, e que tanto deviam \u00e0 influ\u00eancia do skate \u2013 John John Florence, \u00e9 sempre bom lembrar, era um excelente skatista. Mas Paulinho n\u00e3o conseguiu, nunca, acertar um a\u00e9reo que fosse. Cinco anos depois que Paulinho tinha vencido seu \u00fanico campeonato da WSL (anos nos quais ele treinou sem sucesso fazer manobras inovadoras e progressivas), ele teve uma esp\u00e9cie de luz: percebeu que jamais seria um John John Florence, que jamais seria um surfista realmente grande \u2013 ao contr\u00e1rio da expectativa geral anterior, inclusive dele. No dia em que ele finalmente teve consci\u00eancia disso, chamou seu grande amigo Gabriel Medina no canto e desabafou: \u201cirm\u00e3o, nunca mais vou ser campe\u00e3o mundial, nunca vou conseguir dar uma manobra inovadora\u201d. O ent\u00e3o campe\u00e3o mundial olhou bem nos olhos de Paulinho e respondeu: \u201cJesus tem um prop\u00f3sito maior pra voc\u00ea, bro, n\u00e3o se preocupe com isso\u201d. Paulinho, que nunca acreditara em Deus, hoje frequenta cultos evang\u00e9licos \u2013 quase sempre ao lado de seu amigo Medina \u2013 em Boi\u00e7ucanga, na Igreja Bola de Neve. (O texto acima, uma fic\u00e7\u00e3o com personagens reais, \u00e9 uma resposta ao seguinte desafio liter\u00e1rio proposto por Robertson Frizero: &#8220;escreva, em 500 palavras, um conto cujo tema seja a mediocridade. O protagonista deve ser um artista &#8211; n\u00e3o importa qual a sua express\u00e3o art\u00edstica &#8211; e a cena mostrada deve retratar o momento em que a personagem d\u00e1-se conta do quanto est\u00e1 iludida quanto ao seu &#8216;talento&#8217;. 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