{"id":4162,"date":"2019-09-15T18:05:16","date_gmt":"2019-09-15T21:05:16","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4162"},"modified":"2022-06-05T14:45:45","modified_gmt":"2022-06-05T17:45:45","slug":"se-vivessemos-num-imperio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4162","title":{"rendered":"Se viv\u00eassemos num Imp\u00e9rio"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/1200px-Flag_of_Brazil_1870\u20131889.svg_-1024x661.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4163\" width=\"580\" height=\"374\" srcset=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/1200px-Flag_of_Brazil_1870\u20131889.svg_-1024x661.png 1024w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/1200px-Flag_of_Brazil_1870\u20131889.svg_-300x194.png 300w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/1200px-Flag_of_Brazil_1870\u20131889.svg_-768x496.png 768w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/1200px-Flag_of_Brazil_1870\u20131889.svg_.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><figcaption>fonte: <a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?sa=i&amp;source=images&amp;cd=&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=0ahUKEwjZrJyO3dPkAhUeEbkGHYwjC14QMwhVKAAwAA&amp;url=https%3A%2F%2Fpt.wikipedia.org%2Fwiki%2FImp%25C3%25A9rio_do_Brasil&amp;psig=AOvVaw1a_tT_DvQmKwbKKG9yvcqO&amp;ust=1568667810833299&amp;ictx=3&amp;uact=3\">Wikip\u00e9dia<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<em>\u201cAi ai Izaura, hoje eu n\u00e3o posso ficar \/ se eu cair nos teus bra\u00e7os n\u00e3o h\u00e1 despertador que me fa\u00e7a acordar\u201d. Como acontecia frequentemente, Paulo se lembrava dessa m\u00fasica quando Maria lhe pedia para ficar \u201cs\u00f3 mais um pouquinho\u201d.<\/em> De brincadeira, finalmente, resolveu cant\u00e1-la. Maria estrilou:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Que m\u00fasica idiota.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Mas \u00e9 bonitinha, Maria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Ah v\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era assim. Os dois se acertavam em quase todos os aspectos,\nmenos na m\u00fasica. Amante que era do tal \u201csertanejo universit\u00e1rio\u201d, Maria se\nirritava a cada vez que ele colocava no carro algo mais sofisticado, na linha\nde um John Coltrane ou Miles Davis. Ele meio que se divertia com isso e nunca\nligou muito para essa profunda diferen\u00e7a musical, mas uma vez ele teve\nesperan\u00e7a de que ela fosse abrir um pouco seus horizontes musicais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim: literalmente apaixonada pela fam\u00edlia imperial, e\npelo imperador Pedro Lu\u00eds de Orl\u00e9ans e Bragan\u00e7a em particular, Paulo um dia\ncontou para Maria que o pr\u00f3prio monarca tinha lhe dito que seu cantor preferido\nera o jazzista americano Chet Baker. Tinha sido numa reuni\u00e3o de trabalho na\ncapital imperial, Rio de Janeiro &#8211; ocasi\u00e3o que tinha deixado Maria praticamente\nsem dormir durante uma semana. Ela n\u00e3o parava de mandar para o Paulo mensagens\nno Whatsapp falando da excita\u00e7\u00e3o que sentia por saber que ele teria uma reuni\u00e3o\ncom o imperador. Com o imperador! Maria tinha quadros com toda a fam\u00edlia\nimperial pela casa, era um fanatismo que n\u00e3o conhecia limites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, Paulo exagerara um pouco em seu relato para\nMaria. De fato, depois da reuni\u00e3o de trabalho (uns assuntos sobre o metr\u00f4 do\nRio), ele e o imperador trocaram palavras sobre m\u00fasica. Pedro Lu\u00eds de Orl\u00e9ans e\nBragan\u00e7a falou que amava Bach, que ouvia desde crian\u00e7a e que, agora, com o\nSpotify, estava muito feliz pela possibilidade de conhecer ainda mais\nint\u00e9rpretes e grava\u00e7\u00f5es de seu compositor preferido. Paulo, que nunca foi f\u00e3 de\nm\u00fasica cl\u00e1ssica, resolveu lhe perguntar se gostava de jazz tamb\u00e9m. O imperador\nlhe respondeu que n\u00e3o tinha maior interesse pelo estilo, mas tinha visto um\nshow de Chet Baker no YouTube e tinha gostado muito \u2013 a hist\u00f3ria tr\u00e1gica do\ngrande jazzista tamb\u00e9m tocava o cora\u00e7\u00e3o do monarca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De modo que o papo de Chet Baker ser o \u201ccantor preferido\u201d do\nimperador era s\u00f3 isso \u2013 papo, e furado. O mais engra\u00e7ado tinha sido a rea\u00e7\u00e3o de\nMaria:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Que pena, um imperador t\u00e3o maravilhoso, com um gosto t\u00e3o\nestragado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>(Exerc\u00edcio liter\u00e1rio proposto por <a href=\"http:\/\/www.frizero.com.br\/\">Robertson Frizero<\/a>: em Literatura, chamamos de ucronia qualquer narrativa que conte uma vers\u00e3o alternativa da Hist\u00f3ria como a conhecemos. Trata-se da reconstru\u00e7\u00e3o de um evento do passado tal como ele poderia ter acontecido. Em Fatherland, romance policial de Robert Harris, por exemplo, o autor imagina um mundo no qual a Alemanha nazista teria vencido a Segunda Guerra Mundial.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&nbsp;O desafio de hoje \u00e9 escrever uma narrativa de\nat\u00e9 500 palavras que se passa no seguinte cen\u00e1rio ucr\u00f4nico: Deodoro da Fonseca\nn\u00e3o proclamou a Rep\u00fablica e o Brasil seguiu sendo governado por um regime\nmon\u00e1rquico e pela mesma linhagem dos Orleans e Bragan\u00e7a. Use essa informa\u00e7\u00e3o\napenas como pano de fundo para sua narrativa; n\u00e3o se preocupe em descrever como\no movimento republicano falhou, etc.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;\u201cAi ai Izaura, hoje eu n\u00e3o posso ficar \/ se eu cair nos teus bra\u00e7os n\u00e3o h\u00e1 despertador que me fa\u00e7a acordar\u201d. Como acontecia frequentemente, Paulo se lembrava dessa m\u00fasica quando Maria lhe pedia para ficar \u201cs\u00f3 mais um pouquinho\u201d. De brincadeira, finalmente, resolveu cant\u00e1-la. Maria estrilou: &#8211; Que m\u00fasica idiota. &#8211; Mas \u00e9 bonitinha, Maria. &#8211; Ah v\u00e1. Era assim. Os dois se acertavam em quase todos os aspectos, menos na m\u00fasica. Amante que era do tal \u201csertanejo universit\u00e1rio\u201d, Maria se irritava a cada vez que ele colocava no carro algo mais sofisticado, na linha de um John Coltrane ou Miles Davis. Ele meio que se divertia com isso e nunca ligou muito para essa profunda diferen\u00e7a musical, mas uma vez ele teve esperan\u00e7a de que ela fosse abrir um pouco seus horizontes musicais. Foi assim: literalmente apaixonada pela fam\u00edlia imperial, e pelo imperador Pedro Lu\u00eds de Orl\u00e9ans e Bragan\u00e7a em particular, Paulo um dia contou para Maria que o pr\u00f3prio monarca tinha lhe dito que seu cantor preferido era o jazzista americano Chet Baker. Tinha sido numa reuni\u00e3o de trabalho na capital imperial, Rio de Janeiro &#8211; ocasi\u00e3o que tinha deixado Maria praticamente sem dormir durante uma semana. Ela n\u00e3o parava de mandar para o Paulo mensagens no Whatsapp falando da excita\u00e7\u00e3o que sentia por saber que ele teria uma reuni\u00e3o com o imperador. Com o imperador! Maria tinha quadros com toda a fam\u00edlia imperial pela casa, era um fanatismo que n\u00e3o conhecia limites. Na verdade, Paulo exagerara um pouco em seu relato para Maria. De fato, depois da reuni\u00e3o de trabalho (uns assuntos sobre o metr\u00f4 do Rio), ele e o imperador trocaram palavras sobre m\u00fasica. Pedro Lu\u00eds de Orl\u00e9ans e Bragan\u00e7a falou que amava Bach, que ouvia desde crian\u00e7a e que, agora, com o Spotify, estava muito feliz pela possibilidade de conhecer ainda mais int\u00e9rpretes e grava\u00e7\u00f5es de seu compositor preferido. Paulo, que nunca foi f\u00e3 de m\u00fasica cl\u00e1ssica, resolveu lhe perguntar se gostava de jazz tamb\u00e9m. O imperador lhe respondeu que n\u00e3o tinha maior interesse pelo estilo, mas tinha visto um show de Chet Baker no YouTube e tinha gostado muito \u2013 a hist\u00f3ria tr\u00e1gica do grande jazzista tamb\u00e9m tocava o cora\u00e7\u00e3o do monarca. De modo que o papo de Chet Baker ser o \u201ccantor preferido\u201d do imperador era s\u00f3 isso \u2013 papo, e furado. O mais engra\u00e7ado tinha sido a rea\u00e7\u00e3o de Maria: &#8211; Que pena, um imperador t\u00e3o maravilhoso, com um gosto t\u00e3o estragado. (Exerc\u00edcio liter\u00e1rio proposto por Robertson Frizero: em Literatura, chamamos de ucronia qualquer narrativa que conte uma vers\u00e3o alternativa da Hist\u00f3ria como a conhecemos. Trata-se da reconstru\u00e7\u00e3o de um evento do passado tal como ele poderia ter acontecido. Em Fatherland, romance policial de Robert Harris, por exemplo, o autor imagina um mundo no qual a Alemanha nazista teria vencido a Segunda Guerra Mundial. &nbsp;O desafio de hoje \u00e9 escrever uma narrativa de at\u00e9 500 palavras que se passa no seguinte cen\u00e1rio ucr\u00f4nico: Deodoro da Fonseca n\u00e3o proclamou a Rep\u00fablica e o Brasil seguiu sendo governado por um regime mon\u00e1rquico e pela mesma linhagem dos Orleans e Bragan\u00e7a. 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