{"id":4149,"date":"2019-09-12T18:22:06","date_gmt":"2019-09-12T21:22:06","guid":{"rendered":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4149"},"modified":"2019-09-12T18:26:29","modified_gmt":"2019-09-12T21:26:29","slug":"o-cao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=4149","title":{"rendered":"O c\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"686\" src=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/jenkem-crust-punks-05-1-1024x686.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4150\" srcset=\"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/jenkem-crust-punks-05-1-1024x686.jpg 1024w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/jenkem-crust-punks-05-1-300x201.jpg 300w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/jenkem-crust-punks-05-1-768x515.jpg 768w, https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/jenkem-crust-punks-05-1.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>fonte da imagem: <a href=\"http:\/\/www.jenkemmag.com\/home\/2017\/07\/24\/interview-crust-punk\/\">Jenkem Magazine<\/a> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> Eu gostava muito do meu dono. Frequentemente nos encontr\u00e1vamos com amigos dele, que tamb\u00e9m tinham outros c\u00e3es como eu, e era uma festa. Meu dono e os amigos tomavam bebidas com um cheiro forte, cantavam, tocavam seus banjos \u2013 \u00e0s vezes sa\u00eda uma briga ou outra, e eu tinha que defender meu dono. Frequentemente dorm\u00edamos em cal\u00e7adas, ou s\u00f3 eu e meu dono, ou n\u00f3s dois com alguns amigos dele &#8211; tamb\u00e9m com seus c\u00e3es. Para nos alimentar, meu dono revirava lixos, e sempre sobrava comida para mim. \u00c0s vezes alguma pessoa desconhecida me dava ra\u00e7\u00e3o, e meu dono a agradecia. \u00c0s vezes algum desconhecido xingava meu dono, mas ele me dizia que s\u00f3 n\u00e3o o xingavam mais porque eu, com meu tamanh\u00e3o, colocava medo nas pessoas \u201cnormais\u201d \u2013 ele sempre falava \u201cnormais\u201d com um tom meio debochado.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu gostava muito de nossos passeios de trem. Entr\u00e1vamos em vag\u00f5es de carga, nos cobr\u00edamos do jeito que dava e fic\u00e1vamos olhando as paisagens. Cheg\u00e1vamos a lugares lindos, cheios de cheiros diferentes. L\u00e1 nos encontr\u00e1vamos com outros amigos do meu dono, e sempre havia cantoria, alegria e algumas brigas. Aquelas bebidas com cheiro forte eram presentes tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu dono sempre me dizia que nunca iria me abandonar. Que ele me amava tanto que jamais iria me deixar sozinho. Infelizmente, n\u00e3o foi o que aconteceu. Ele come\u00e7ou a ficar estranho quando come\u00e7ou a colocar no bra\u00e7o umas coisas esquisitas e pontudas. Depois de se machucar com aquilo, ele ficava num torpor estranho, n\u00e3o parecia mais a mesma pessoa. Dormia muito mais que antes, ou ficava acordado como se estivesse dormindo. Um dia, depois de se machucar com aquela coisa pontuda, ele entrou num torpor do qual n\u00e3o saiu mais. Demorei para perceber que ele tinha me deixado para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje estou com um amigo dele, e continuo tendo o mesmo dia-a-dia que tinha quando estava com meu antigo dono. O meu novo propriet\u00e1rio me trata t\u00e3o bem quanto o antigo, e tamb\u00e9m sempre me promete que nunca vai me deixar. Infelizmente, n\u00e3o consigo acreditar nele.<\/p>\n\n\n\n<p><em>(Texto escrito para responder ao seguinte desafio liter\u00e1rio proposto pelo <a href=\"http:\/\/www.frizero.com.br\/\">Robertson Frizero<\/a>: Personagem \u00e9 qualquer ser atuante de uma hist\u00f3ria ou obra de arte. Normalmente \u00e9 uma pessoa, mas pode ser um animal, um ser fict\u00edcio, um objeto, desde que tenha caracter\u00edsticas humanas. O desafio do dia \u00e9 escrever uma hist\u00f3ria cujo protagonista seja uma personagem n\u00e3o-humana. A hist\u00f3ria deve ter no m\u00e1ximo 500 palavras e ter como tema central a mentira.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu gostava muito do meu dono. Frequentemente nos encontr\u00e1vamos com amigos dele, que tamb\u00e9m tinham outros c\u00e3es como eu, e era uma festa. Meu dono e os amigos tomavam bebidas com um cheiro forte, cantavam, tocavam seus banjos \u2013 \u00e0s vezes sa\u00eda uma briga ou outra, e eu tinha que defender meu dono. Frequentemente dorm\u00edamos em cal\u00e7adas, ou s\u00f3 eu e meu dono, ou n\u00f3s dois com alguns amigos dele &#8211; tamb\u00e9m com seus c\u00e3es. 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